25 Novembro 2009

Breve recesso!

Por motivos de força muito maior, o "Espaço" está em recesso. Muitas coisas novas já estão prontas e algumas delicadas mudanças farão parte do renovado layout.

Tenho certeza de que posso contar com o apoio e a generosidade sempre emocionante de meus amigos e leitores.

Fraternamente...

Marco A. Rossi

29 Outubro 2009

Minha resistência

Fotograma de "Fahrenheit 451" (1966), de François Truffaut, que esboça um mundo em que os livros, sendo ilegais, seriam recolhidos e incinerados. Quem, hoje, com um livro em mãos, seria considerado uma "ameaça à ordem"? Quem hoje se importaria se os livros desaparecessem?

A leitura faz parte da vida de todo o mundo. Os livros não. As novas gerações leem céus e infernos, mundos e fundos; veem TV, conectam-se por horas a servidores ou outras vidas virtuais, quase inanimadas. Impedidas por todo esse excesso de pouco criativas fantasias, não transformam mais palavras em ideias, frases em juízos, parágrafos em argumentos, páginas em descobertas, livros em razão para existir, transcender, voltar a Terra mais vigorosos, sabedores de um amanhã diferente, melhor.

Ler, hoje, é colorir telas e transbordar a alma em encruzilhadas, desalmando-a na incerteza certa. O vazio preenche o indizível. As narrativas estão mesmo todas mortas - e enterradas! Noves fora todos os ismos, até aqueles irretorquíveis e ingênuos. Adeus às inocências, sempre tão necessitadas da palavra, do lirismo das letras, da paixão que imagina, ousa, refaz o mundo sílaba após sílaba.

Cronistas não prestam mais homenagens ao futuro. O próprio futuro, órfão do presente, perdeu-se na imemorialidade do passado, ancestral esquecido, mutilado pelos vitrais da pós-modernidade.

Eu escrevo porque sou pura resistência.

23 Outubro 2009

À revelia

A doce crítica de Mafalda, do grande Quino, ao modo como os reacionários veem a liberdade...

aos educadores que simpatizam com o amanhã,
apesar do vazio desesperançoso do presente

Pensar para mudar
mudar para algo ser
algo ver
poder fazer
origem: theoro

Sentido é impermanência
figura do alterar
para manter
humanizando
revolução: destino

Tristes tópicos trópicos
mentes conservadoras
quase reacionárias
se soubessem o que defendem
desejam reacender
sentença: consciência-fora-de-si

A velha palavra não provoca
é frágil diante das certezas tão incertas
do amanhã improvável
- isso é certo!
da leitura desfeita, rarefeita, relegada
- isso é ainda mais certo!

No jeito sem trejeito
a ternura perde para o inaudito
deseducado, deselegante
facilidades: paralisia

Consumadas pelo consumo
almas buscam o que há
não havendo
iludindo o presente já sem depois
não houve daqui a pouco também: sina

Cabeças impermeáveis
histórias travadas
a bancarrota da dignidade
banal, frugal, nada venal
efeito radical: neomesmices

Vidas habitam despovoados
imberbes, imaturas
deslocadas, descoladas, amarguradas

Haverá o novo?
Certamente: à revelia

17 Outubro 2009

Dançando com um anjo

Disseram-me dia desses que a inserção de vídeos aqui no "Espaço" seria uma pequena questão de tempo. Andei relutando por privilegiar a palavra escrita como arma essencial da crítica e da sensibilidade, mesmo quando o assunto eram filmes e álbuns musicais. E isso, creio, não mudará tão cedo em minha vida... Fã incondicional do velho Udo e do Accept (legendária banda de rock pesado dos anos 80'), entretanto, não resisti e resolvi postar essa esmeralda de arte, voz e talento. Doro, alemã que publicou páginas densas em minha biografia amorosa na década dos oitenta, início dos noventa, e Udo, a voz, dão show nessa balada que estremece até muralhas. É ouvir e se emocionar. Sempre. Afinal, quem nunca sonhou em dançar com um anjo?!

video

07 Outubro 2009

Tempo para o tempo - reconstruir

"Na ânsia de controlar o pensamento, o homem separou uns dos outros os diferentes aspectos da realidade, isolou os objetos ou fenômenos de seu ambiente; tornou-se incapaz de integrar um conhecimento em seu contexto e no sistema global que lhe dá sentido. O homem acreditou que o progresso e o desenvolvimento eram as soluções para tudo, e esta simplificação teve um alto custo para o planeta. Todo conhecimento da realidade não animado e controlado pelo paradigma de complexidade destina-se a ser mutilado e, nesse sentido, a carecer de realismo."

EDGAR MORIN

22 Setembro 2009

Rebeldia-alma

"...", fotografia de José Luis Cunha

Um corte profundo
dor, a inevitável cicatriz
suores e fantasias
a transferência indesejada do desejo

Contenção, coerção, condução
um tiro é dado no escuro
pés, mãos, faces a disposição
O medo menor que o horror
o sonho como passageiro
tranquilo, perene, etéreo-eterno

Trago comigo a paz insistente
a inquieta fome da rebeldia-alma
calor, calor, calor

A coragem é escudo
posiciona-se diante do mundo
grande - coração iluminado

Beijos, movimentos e preces
um pedido de calma
ver a vida, enfim - praia adentro

Vento ventania

Brevidade
rostos em panorama-múndi
lembranças, risos, canções

Fuga do vento extemporâneo
a vida retorna, presságios-múndi
sonhos, ansiedade, letras mil

15 Setembro 2009

Orlas críticas

Passo a passo: não obstante cansado e muito decidido a dar outros e novos rumos a minha vida pessoal e profissional, venho encontrando fórmulas para o menor desgaste, a dura e cruel descompensação.

Ser sociólogo é o melhor da vida. Quero, contudo, ser outro, de novas maneiras. No mundo da forma-mercadoria tem sido difícil, estafante, uma via de mão única. As encruzilhadas nublam o olhar e tornam estéreis os sonhos de virtude.

Em meio aos descaminhos da obrigatoriedade de ganhar a vida, tive uma opção reconfortante: trabalhar, juntar dinheiro, pagar contas e honrar o ser desejante que há em mim (em todo humano) fazendo sociologia. Posto que imperativo, o trabalho me é dado por sendas prazerosas. Não é a sociologia que sonho realizar; não é o ambiente pelo qual quero me ver tomado, totalizado - a Academia da forma-mercadoria é hostil ao conhecimento como instrumento de emancipação do gênero humano, como palco privilegiado da luta de classes; não é o alunado engajado e mobilizador com o qual sonhei em meus delírios meia-oito... Mas é, sem dúvida, uma perspectiva da qual me disponho a brigar por outras caracterizações hegemônicas no confronto das visões de mundo e na própria diversidade dos universos de cultura.

Muito espero, entretanto, que esses espaços disponíveis me abram possibilidades mais abrangentes, compatíveis com uma sociologia verdadeiramente crítica, militante, cinematográfica - quero mesmo é filmar a revolução na orla atlântica do mundo que me fez nascer.

E mais que esperar, tenho batalhado por isso com a insistência corajosa dos apaixonados. Pela vida. Pela sociologia.

12 Setembro 2009

A Utopia como calor humanizador

Thomas Morus e o fac-símile da primeira edição de sua Utopia, ilha de paz e prosperidade romanceada e trazida à luz da memória política da humanidade em 1516

Amanhã, 13.09, farei minha terceira participação na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina. Na primeira oportunidade, em 2006, como palestrante do mês, esbocei algumas considerações sobre o mundo pós-moderno. Em 2007, a substituir Dr. Leonardo Prota em suas reflexões filosóficas, falei sobre o amor. Agora é a vez de propagar minha crença na utopia, homenageando Morus, Rousseau e os contestadores libertários do século XVIII. Soube, no entanto, que serei convidado a compor o quadro de colaboradores culturais permanentes da Academia de minha cidade: estarei, com isso, a um passo da imortalidade. Viva a UTOPIA de quem fez da escrita um ofício de vida, para a vida.
Quando o continente americano foi redescoberto por Colombo, o inglês Thomas Morus tinha apenas 14 anos. A imagem de um paraíso perdido além-mar, ainda isento das barbáries estimuladas pela coroa inglesa e por um mercantilismo cada vez mais acirrado no Velho Mundo, influenciou de modo decisivo a vida e a obra do autor de Utopia. A expressão-título da obra-prima de Morus surge, então, pela primeira vez, em 1516, revelando ao mundo uma ilha em que tudo, a olhar da perspectiva de uma Europa do início do século XVI, era correto e humano, justo e fraterno. Dividida em duas densas partes, a narrativa utópica de Morus questiona a brutalidade da Grã-Bretanha contra todos que se lançam à frente de seus desejos de expansão e crescimento (os quais provocam agudas desigualdades sociais e inconcebíveis formas de exploração do trabalho sob proteção da propriedade privada) e, em seguida, designa o não-lugar, o imaginário, a fantasia que ilumina e permite: descrevem-se os detalhes da organização social da ilha Utopia.
Não obstante os limites de um sonho expresso literariamente na metade do milênio passado, em Utopia consagram-se a paz, a ordem e o respeito à diversidade, com igual tratamento de gênero, tolerância religiosa e divisão razoavelmente equilibrada das atividades sociais. Nascida da capacidade de sonhar de um sujeito que se antecipava ao advento histórico do Renascimento, a Utopia demonstra a inesgotável generosidade da espécie humana em relação ao despertar da compaixão e da verdadeira solidariedade.
O grande alcance social, político e cultural de Utopia, no entanto, se fez mais tarde, quando a influência do pensamento de Sir Thomas Morus (canonizado pela Igreja católica em 1935) contagiou renascentistas, iluministas e socialistas libertários, perfazendo uma tradição intelectual e militante que vem atravessando os séculos e rompendo fronteiras em todo o mundo.
O genebrino Jean-Jacques Rousseau, que viveu 66 anos e morreu 11 anos antes da Queda da Bastilha, na Paris de 1789, é um dos personagens de nosso tempo que melhor traduzem o impacto da Utopia na confecção das sociedades modernas. Contrário a Hobbes, que via entre os homens o imperativo do mal absoluto a espreitar cada vida, cada alma naturalmente podre e perturbada, e a Locke, que só conseguia entender a liberdade como um instrumento a serviço da propriedade privada burguesa, elevada pelo autor do Segundo Tratado Sobre o Governo à condição de direito natural, Rousseau entende por livre o homem capaz de repartir com todos o ideal e a aventura de construção da igualdade. Em seu Contrato Social, Rousseau não quer fugir ao estado de natureza hobbesiano nem delimitar os procedimentos para a manutenção da liberdade individual e do acúmulo de bens – prerrogativas caras ao pensamento liberal de inspiração lockeana. Sua única motivação é desvelar que a liberdade só se constrói coletivamente, num permanente exercício de fazer valer a vontade geral, a aspiração dos cidadãos. Depois de passar pelas mãos do rei e pelo indivíduo proprietário de bens, terras e muito capital, a soberania, enfim, chegava ao seu elixir mais avançado: o soberano, em Rousseau, é o povo. A Utopia, de Morus, ganha, com o pensamento político rousseauniano, ares de modernidade democrática.
Tragada pela ascensão dos ideais burgueses e pela materialização das sociedades de livre mercado, cujo eixo é a tão propagandeada propriedade particular dos meios de produção, a obra de Rousseau – e, em retrospectiva, as utopias pré-modernas, como a de Morus – perderia espaço na batalha das idéias e voltaria, na forma de radicalização das práticas e concepções de mundo, algumas décadas à frente, iluminada pelos acontecimentos mais marcantes da revolução francesa.
A trajetória do movimento iluminista nos séculos XVIII e XIX, motor e alicerce da dupla revolução política da Era Moderna – a francesa, de 1789, e a estadunidense, de 1776 -, oscilou entre a perspectiva liberal de adotar posturas cada vez mais conservadoras na luta política e a radicalidade democrática dos revolucionários de propagar aos quatro cantos a urgência de medidas cada vez mais ousadas e perturbadoras, inquietantes como política; acaloradas, como cultura.
Enquanto a intelectualidade burguesa buscava cerrar fileiras ao lado do liberalismo-conservador (como o próprio Locke, Burke, Voltaire), buscando de todas as formas declarar o fim do movimento revolucionário que permitiu o alçar voo das sanhas de poder de industriais e comerciantes, jovens contestadores reivindicavam melhores condições de vida aos trabalhadores, participação política efetiva da maioria operária e camponesa, expansão sem limites do acesso à riqueza socialmente produzida. Entre esses revolucionários corriam de modo eloquente e voraz os valores utópicos traçados por Morus, Rousseau e tantos outros precursores do ideal libertário.
Ainda que existam diferenças quase infinitas entre suas maneiras de conceber o “mundo perfeito” (penso, por exemplo, na excentricidade das proposições de Charles Fourier ou Saint-Simon e na concretude material de um Robespierre ou de um Graco Babeuf), os utópicos e libertários do século XVIII se unificavam no ideal de prolongar a revolução como ato político permanente e projeto cultural das classes sociais subalternas. Anarquistas e socialistas utópicos (definições que só farão sentido na vida política dos séculos XIX e XX) dividiam a utopia moderna: liberdade de fato, igualdade entre todos, fraternidade para valer.
Com a intensificação tecnológica e ideológica dos instrumentos de exploração do homem pelo homem; com a derrocada ambiental e a catarse ecológica do século XXI; com a corrosão do caráter num mundo em que trabalho é castigo e consumo, redenção e felicidade; com a frustrada experiência do socialismo do Leste no curso do século XX; com o individualismo ególatra e indiferente de nosso tempo tão virtual e pouco afetivo, abalado por doenças e sucessivas modalidades de mal-estar, sufocamento das liberdades humanas... imagino que seja por demais pertinente relembrar a fortuna crítica daqueles que não se restringiram a viver a vida de modo isolado e distante. A Utopia de nosso tempo – que pode aprender com Morus, Rousseau, Fourier, Marx, Gramsci e tantos outros batalhadores da liberdade – deve somar esforços na edificação de um ideal abrangente e avançado, capaz de reunir as identidades perdidas e redefinir prioridades à vida humana no planeta. Creio que em vez do ter, muito mais ser; em vez do “eu sou”, “nós podemos e, por isso, somos”. Pequenas mudanças de atitude trariam como valor cultural das novas gerações o imaginário utópico tão bem sintetizados nas palavras do filósofo Leandro Konder: “A utopia é uma fonte que alimenta inquietações generosas, nobres ímpetos justiceiros e uma preciosa disposição para a busca da felicidade universal. Nela se revelam aos seres humanos aspectos novos de suas carências, anseios, fantasias e desejos”. É isso.

10 Setembro 2009

Traçado

"Caminhando no Paraíso", fotografia de Fernando Dias

Um poema é um traço
um grito a lápis sobre a face das coisas
que, juntas, compõem o mundo
o planeta inteiro de todas as coisas

As coisas não são
entretanto
as tais mercadorias à venda no mundo
nos supermercados da não-vida

As coisas são a junção dos traços
o contorno na ponta do lápis
que, disperso, reúne nossos sonhos

Os sonhos é que são mesmo os poemas
dos traços
das coisas
da vida
Sonhar é viver
sem mercantilizar o traço
o esboço
o desejo

Poemas são então como riscos
traços de vida
sonhos das coisas
humanas, belas, eternas