30 maio 2017

Ainda ela

"Dark bathroom", de Maunan

Há um caminho que persegue
uma lembrança que me envolve,
um jeito diferente
que ainda me comove.

Dela, não espero nada,
perdi esse direito,
enquanto mentia
para parecer o homem perfeito.

Sigo vencido,
munido de uma dor sofrível,
me aucriticando sem parar
desejando aquela mulher inesquecível.

10 abril 2017

Anonimato


Mergulhado em algumas gavetas da memória, recuperei cadernos em que registrava meus anseios, minhas paixões, os discos e os filmes que ouvia e via na adolescência. Aqueles anos teen revelam tanto sobre o que somos, apontando quais eram os caminhos a disposição no tempo em que a vida parecia infinita. Costumam ser, para a maioria das pessoas, tempos marcantes e inesquecíveis.

Uma das características dos "diários" e "caderninhos" de memória era sua inviolabilidade. Mantínhamos todos eles longe do olhar curioso de familiares e amigos. Eram nosso momento de solidão, reflexão, autocrítica (a coisa menos em moda atualmente). Na mais ousada das hipóteses, pedíamos aos céus que, no futuro, alguém pudesse resgatá-los no esquecimento e dá-los à luz, caso fôssemos merecedores de uma biografia pública.

Manter-se no anonimato, preservando a vida pessoal e lançando ao mundo somente os produtos do nosso trabalho artístico e intelectual, era o sonho da minha geração. Continua sendo, aliás.

Evito excessos no mundo virtual no tocante à vida particular. Procuro expor com cautela pensamentos, cenários e personagens da minha vida, da minha história. Facebook, por exemplo, não é "caderninho" de memória. Quando ideias vêm à lume antes de ser objeto de detida reflexão e autoanálise, jamais serão parte de nossa memória. Jamais.

Prefiro meus cadernos, folhas de papel sobre a mesa, livros e rabiscos a tudo que se expõe gratuitamente em redes sociais. No fundo, vivo lutando por um mundo cujos dias vindouros possam me acolher numa modesta casinha à beira mar, longe dessa insana necessidade que quase todo o mundo tem de aparecer sem ser.

03 março 2017

Professor de Utopias


Não sou poeta,
mas tenho o hábito
de escrever poemas.

Não sou escritor profissional,
mas não passo um dia
sem esboçar
uma história,
burilar
uma ideia.

Sou professor de Sociologia,
mas insisto em rechear
minhas aulas
com Literatura,
Cinema e
Música.

Minha Sociologia
tem poesia, imagino.

Ela tem também
uma narrativa, sonho.

Ela é ciência (precisa ser)
e também arte (quero que seja).

Sou, então,
um Professor de Sociologia
que declama poesia,
narra histórias,
compõe personagens,
canta e dança
ao som da utopia.

21 fevereiro 2017

As orelhas de "Coração de Benjamin"


Em A sociedade dos indivíduos (1939), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) apresenta uma interessante metáfora sobre a complexa busca do conhecimento pelos seres humanos. Supondo que a vida social pudesse ser ilustrada pela imagem de um oceano, Elias revela dois tipos de intérpretes da realidade: o nadador e o aviador.

A vantagem do nadador é seu envolvimento direto com aquilo que pretende conhecer. Sente melhor a temperatura da água, observa sua coloração, seus movimentos e tudo que toca seu corpo imerso. Assim, o oceano lhe parece familiar e permite análises intuitivas e bastante particulares. O aviador, de outro modo, tem a seu favor a amplitude do cenário, as águas distantes, as porções de terra que formam praias e montanhas no horizonte. Juntos, nadador e aviador abordam a realidade de uma forma mais abrangente e dinâmica, reunindo o próximo e o distante, o particular e o universal.

Em Coração de Benjamin, Marco A. Rossi escreve como se estivesse mergulhado em águas profundas e, ao mesmo tempo, avistasse o planeta a bordo de uma moderna aeronave. Detém-se no presente, sente-se fisgado pelo passado e não teme enfrentar o futuro. Exercita, na melhor das tradições - sintetizando biografias especiais e histórias extraordinárias -, a boa e velha imaginação sociológica.

As crônicas que o(a) leitor(a) tem em mãos podem ser lidas de uma só vez, em ordem alfabética (como sugere o sumário), ou de forma aleatória, sem pressa nenhuma, num contato suave e generoso com preciosas reflexões e, acima de tudo, diante de uma beleza narrativa ímpar.


Marco Antonio Rossi nasceu na Vila Madalena, na capital paulista, em 1974. Mudou-se para Londrina em 1992. Foi aluno e hoje é professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Sociólogo por paixão, formação e convicção, foi cronista no rádio, coordenou uma pós-graduação em cinema, publicou dois livros de poesia (Nas ruas do mundo, em 2012, e Meu tempo, em 2015), ouve Pearl Jam, lê os escritores africanos de Língua Portuguesa, é torcedor encantado do Fluminense Football Club e curte os melhores momentos da vida ao lado de ideias, amigos e familiares. Coração de Benjamin é seu primeiro livro de crônicas.

24 janeiro 2017


Sinto todas as dores
e prazeres sozinho.

Se preciso chorar e
me desfazer,
faço-o só,
em retiro,
perdido em mim.

Se preciso gritar,
sentir,
me virar ao avesso,
pratico tudo
comigo mesmo,
num movimento
da alma para o corpo
e, depois,
do corpo para o vazio.

Sou só na alegria
e na tristeza,
na saúde e
na doença,
até que a morte
devolva a vida
que tive um dia.

06 janeiro 2017

Pasárgada é depois do fim do mundo


Saiba que foi o maior amor da minha vida.
Toda tentativa de esquecê-la só ampliou a saudade,
dando a esse sentimento tão humano (doloroso)
um caráter essencial: é dele que vivo agora
e para sempre.

Não fui suficientemente corajoso
para amá-la até (bem) depois do fim do mundo,
como dizíamos estar predispostos
nos momentos em que nossos corpos
tornavam-se um só.

Nunca mais amei ninguém.
Nunca mais soube o que é ser amado.

Vivo em busca da estrada
que me prometa
um tanto de terra apaixonada
depois, bem depois do fim do mundo.

Lá serei amante da rainha,
e poderei tê-la
novamente em meus braços
e no vasto vazio
em que se converteu
meu sofrido coração.

31 dezembro 2016

Caracóis


Passei dias
pensando em versos
que coubessem
neste tempo
tão avesso
a poesias,
tão bruto
com as palavras.

Instante após instante
inundava-me o vazio:
nada me visitava,
pouco me acenava,
um sentimento
desolador
tomava conta de mim.

Nem mesmo
de olhos fechados,
quando penso
nela toda,
toda minha,
me fazendo feliz,
algo me vinha
à cabeça,
ao coração.

A morena
dos cabelos
encaracolados
tentou então
me dizer algo.

Acordei,
percebi que
estava num
imenso sonho...

Os tempos difíceis
irão acabar...
Será que
os cabelos
de caracóis
virão?

Sigo pensando,
só não sei se
estou dormindo
ou permaneço
acordado.

30 dezembro 2016

Amigos prováveis


Desestabiliza-me o tempo presente. Durmo e acordo tentando entender o que está acontecendo e quais eventos nos trouxeram com tanto ardor a esse abismo sob a ponta dos pés.

Preferencialmente, reflito sobre tudo isso dormindo.

Noite passada, sonhei com Walter Benjamin. Em lugar desconhecido (pela paisagem urbana, arrisco-me a dizer que vivíamos em algum ponto à margem do Mediterrâneo), a década era a de 1960. Benjamin morrera antes. Eu nasceria um pouco mais tarde. Como nos sonhos tudo é possível, encontramo-nos entre a morte e a vida, desenvolvendo uma cumplicidade que me fez mergulhar em sono profundo por mais de oito horas.

Benjamin e eu éramos adolescentes (outra artimanha do universo onírico). Acreditávamos, pois, que mudaríamos o mundo. Ouvíamos rock – um estilo que o Benjamin histórico não pôde conhecer – e brindávamos os dias escrevendo poesias, crônicas, contos e aforismos. Éramos metidos a besta.

Conversávamos sobre os acontecimentos políticos e culturais daqueles anos efervescentes e gloriosos. O decênio de 1960 quebrou tabus e dividiu tudo em duas partes mais ou menos iguais: uma, dos sonhadores incansáveis; outra, dos que se negavam a aprender com a imaginação e a potência dos devaneios utópicos. Ingênuos, jurávamos que o grupo dos primeiros era infinitamente maior e mais influente...

Benjamin, aquele que desapareceu em 1940, foi vencido pelos avós desses seres que não sabem sonhar. Eu, que vim ao mundo nos 70, sinto-me derrotado pelos seus netos. No sonho (no meu sonho), insistíamos na autocrítica e buscávamos uma maneira de escrever o futuro, o meu e o dele.

Quando acordei, olhei para a minha mesa de trabalho e vi os textos de Benjamin à minha espera, como de praxe. Foi só um sonho?