22 outubro 2017

A melhor parte de mim


Senti um leve dedilhar
nas cordas do coração
e pressenti que a alma
queria me dizer algo.

Às vezes fico quieto
para ouvir os ecos
que passeiam dentro de mim:
são sons confusos,
que ora me animam,
ora me atordoam.

Os ruídos da inquietação
sempre tentam me deslocar,
esforçando-se para que
eu suspeite de que nada sei
sobre as coisas que julgo saber
e que me orientam, iluminam.

Os sons da animação reagem,
por vezes de modo tardio,
mas me põem de volta no mundo,
no lugar imenso que meu coração
tanto quer transformar,
humanizar,
povoar de sonhos e liberdade,
muita liberdade.

Acho que esses versos
regados à boa música e
bem acompanhados por um
delicioso cálice de Gato Negro
são minha redenção,
o longo e terno braço do Céu
que se apoia sobre mim,
me perdoa,
me incentiva,
pede que eu siga sendo,
vendo, ainda querendo.

Sinto a paz do repouso
que me abriga em baladas leves,
respiração suave,
vontade de amar o melhor
que nasceu de mim.

A grande pilha de livros à frente,
todos lidos ao mesmo tempo,
num frenético revezamento,
acumplicia-se:
o caminho fui eu mesmo que construí,
devo me orgulhar dele,
aperfeiçoá-lo,
insistir na esperança
de que me conduzirá
ao lugar certo,
onde há questões e liberdade,
busca e revolução,
enfim, onde está a melhor parte de mim.

16 setembro 2017

Deuses e demônios


Há um buraco
no peito,
sem fundo,
onde moram
deuses e
demônios.

Os deuses
preferem
o silêncio,
sentidos,
meditação.

Os demônios
incentivam
o barulho,
exigem guerra,
deslaces,
impetuosidade.

Mas quem
nos ensinará a
compreendê-los?

Nosso desequilíbrio
aprofunda
abismos, vazios,
a estranha sensação
de experimentar
o mundo e nada
aprender

Os demônios
matam de
desesperança
os deuses;
se há saída,
ela está no alto,
no céu que
nos recobre.

O céu é longe,
tão infinito,
algo maior
que nos apequena.

Demônios
nunca olham
para o alto,
preferem a terra
firme e nos
forçam a baixar
os olhos e
a guarda.

A vitória
ao menos de
um dos deuses,
ou de um pequeno
anjo,
está no olho
no olho,
no sorriso que
exige o céu.

Basta que
olhemos
para dentro
(sinônimo de céu),
porque demônios
não têm
vida interior.

05 agosto 2017

A Sociologia que luta


O sociólogo franco-argelino Pierre Bourdieu (1930-2002) insistia que a Sociologia devia restituir aos homens e mulheres o sentido de suas vidas. No documentário A Sociologia é um esporte de combate, filmado entre 1998 e 2001, o diretor Pierre Carles acompanha Bourdieu em suas atividades cotidianas, na sala de aula, nas reuniões de pesquisa, nas ruas e nas intervenções midiáticas, buscando tornar públicas as tarefas do sociólogo, dentre as quais se destaca aquela que prevê não haver separação entre a vida dos indivíduos e as determinações gerais da experiência social.

Assim, muito mais do que um esporte casual ou uma ação espontânea, a Sociologia se converte numa tarefa cotidiana, exaustiva, que requer um discurso sempre atualizado e orientado para as necessidades reais dos sujeitos sociais. A Sociologia fala para cada um e para todos ao mesmo tempo; ela almeja colaborar com indivíduos, grupos e classes sociais, em escala e de forma indissociável de sua missão científica de descortinar opressões e apontar opressores. No final das contas, a Sociologia deseja tão somente servir de inspiração para que as personagens da vida possam ter autonomia na construção de suas próprias narrativas históricas.

A tarefa, contudo, não é livre de obstáculos. Existem as barreias econômicas, que compram e vendem estilos e práticas de poder; sobram as relações de dominação, que subjugam, ameaçam e, no limite, impõem silêncio e resignação; ecoam as forças da cultura, que impregnam o espírito humano de conformismo, disseminam a ideologia do individualismo cego e, para ser bem atuais, definem o consumo como o mais expressivo sentido da existência. Tatuados pela solidão de suas ações, pela perda da esperança e pela desconfiança em relação à vida política e cidadã, os indivíduos se refugiam em si mesmos, julgando escapar à sociedade e, paradoxalmente, se entregando de vez ao aspecto mais nefasto da convivência, qual seja: aquele que decide não ser possível fazer nada para mudar a ordem natural das coisas.

A Sociologia, portanto, esforça-se por desnaturalizar a vida em sociedade, demonstrando que não há nada de imutável nas experiências humanas compartilhadas. Questões como a da desigualdade social, da corrupção nas relações entre o poder público e o mercado, da precariedade nos serviços de saúde e educação, nada disso é natural ou impossível de mudar. São resultado de uma articulação de esforços políticos, econômicos e socioculturais que privilegiam o interesse privado, o ganho de alguns, a permanência dos privilégios de velhos grupos e classes instalados nas estruturas do poder social. Desmontar essas articulações de interesses privados e de antigos e nocivos privilégios é um dos maiores objetivos do esporte sociológico de combate.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), que se tornou famoso pela sua metáfora da modernidade líquida, afirmava que um dos temas mais delicados da sociedade contemporânea é o das identidades, sejam individuais, sejam coletivas. Tudo muda muito rapidamente, tudo exige respostas prontas e acabadas, sem dar oportunidade à reflexão ou às ações coletivas e organizadas. Desse modo, as opiniões fluem, respingam, jorram de um lado a outro, sem se cristalizarem, sem se darem conta de sua inconsistência e de sua fragilidade. Por isso, as identidades são vítimas preferenciais dos processos de dominação e desarticulação. Impedir e criminalizar lutas e formas inteligentes de organização coletiva; minar resistências e oferecer as migalhas das mercadorias abundantemente consumidas – essas são as tarefas do tempo líquido que nos banha diariamente.

A Sociologia, bem como as demais ciências sociais – em particular, a Antropologia e a Ciência Política -, está longe de não ter desafios e mais distante ainda de ser uma prática de fácil convencimento em face da opinião mais geral que circula na vida em sociedade. Antes de mais nada, seu papel é o de compreender a experiência social. Se assim bem se realizar, poderá auxiliar também nos processos de transformação da vida humana. Nesse momento, terá conquistado alguns pontos decisivos na prática esportiva a que se candidata com tanta coragem e capacidade de se refazer a toda hora.

14 julho 2017

80 anos esta noite

Desenhos de Gilberto Maringoni em homenagem a Antonio Gramsci (1891-1937), um autor mais vivo e urgente do que nunca!





30 maio 2017

Ainda ela

"Dark bathroom", de Maunan

Há um caminho que persegue
uma lembrança que me envolve,
um jeito diferente
que ainda me comove.

Dela, não espero nada,
perdi esse direito,
enquanto mentia
para parecer o homem perfeito.

Sigo vencido,
munido de uma dor sofrível,
me aucriticando sem parar
desejando aquela mulher inesquecível.

10 abril 2017

Anonimato


Mergulhado em algumas gavetas da memória, recuperei cadernos em que registrava meus anseios, minhas paixões, os discos e os filmes que ouvia e via na adolescência. Aqueles anos teen revelam tanto sobre o que somos, apontando quais eram os caminhos a disposição no tempo em que a vida parecia infinita. Costumam ser, para a maioria das pessoas, tempos marcantes e inesquecíveis.

Uma das características dos "diários" e "caderninhos" de memória era sua inviolabilidade. Mantínhamos todos eles longe do olhar curioso de familiares e amigos. Eram nosso momento de solidão, reflexão, autocrítica (a coisa menos em moda atualmente). Na mais ousada das hipóteses, pedíamos aos céus que, no futuro, alguém pudesse resgatá-los no esquecimento e dá-los à luz, caso fôssemos merecedores de uma biografia pública.

Manter-se no anonimato, preservando a vida pessoal e lançando ao mundo somente os produtos do nosso trabalho artístico e intelectual, era o sonho da minha geração. Continua sendo, aliás.

Evito excessos no mundo virtual no tocante à vida particular. Procuro expor com cautela pensamentos, cenários e personagens da minha vida, da minha história. Facebook, por exemplo, não é "caderninho" de memória. Quando ideias vêm à lume antes de ser objeto de detida reflexão e autoanálise, jamais serão parte de nossa memória. Jamais.

Prefiro meus cadernos, folhas de papel sobre a mesa, livros e rabiscos a tudo que se expõe gratuitamente em redes sociais. No fundo, vivo lutando por um mundo cujos dias vindouros possam me acolher numa modesta casinha à beira mar, longe dessa insana necessidade que quase todo o mundo tem de aparecer sem ser.

03 março 2017

Professor de Utopias


Não sou poeta,
mas tenho o hábito
de escrever poemas.

Não sou escritor profissional,
mas não passo um dia
sem esboçar
uma história,
burilar
uma ideia.

Sou professor de Sociologia,
mas insisto em rechear
minhas aulas
com Literatura,
Cinema e
Música.

Minha Sociologia
tem poesia, imagino.

Ela tem também
uma narrativa, sonho.

Ela é ciência (precisa ser)
e também arte (quero que seja).

Sou, então,
um Professor de Sociologia
que declama poesia,
narra histórias,
compõe personagens,
canta e dança
ao som da utopia.

21 fevereiro 2017

As orelhas de "Coração de Benjamin"


Em A sociedade dos indivíduos (1939), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) apresenta uma interessante metáfora sobre a complexa busca do conhecimento pelos seres humanos. Supondo que a vida social pudesse ser ilustrada pela imagem de um oceano, Elias revela dois tipos de intérpretes da realidade: o nadador e o aviador.

A vantagem do nadador é seu envolvimento direto com aquilo que pretende conhecer. Sente melhor a temperatura da água, observa sua coloração, seus movimentos e tudo que toca seu corpo imerso. Assim, o oceano lhe parece familiar e permite análises intuitivas e bastante particulares. O aviador, de outro modo, tem a seu favor a amplitude do cenário, as águas distantes, as porções de terra que formam praias e montanhas no horizonte. Juntos, nadador e aviador abordam a realidade de uma forma mais abrangente e dinâmica, reunindo o próximo e o distante, o particular e o universal.

Em Coração de Benjamin, Marco A. Rossi escreve como se estivesse mergulhado em águas profundas e, ao mesmo tempo, avistasse o planeta a bordo de uma moderna aeronave. Detém-se no presente, sente-se fisgado pelo passado e não teme enfrentar o futuro. Exercita, na melhor das tradições - sintetizando biografias especiais e histórias extraordinárias -, a boa e velha imaginação sociológica.

As crônicas que o(a) leitor(a) tem em mãos podem ser lidas de uma só vez, em ordem alfabética (como sugere o sumário), ou de forma aleatória, sem pressa nenhuma, num contato suave e generoso com preciosas reflexões e, acima de tudo, diante de uma beleza narrativa ímpar.


Marco Antonio Rossi nasceu na Vila Madalena, na capital paulista, em 1974. Mudou-se para Londrina em 1992. Foi aluno e hoje é professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Sociólogo por paixão, formação e convicção, foi cronista no rádio, coordenou uma pós-graduação em cinema, publicou dois livros de poesia (Nas ruas do mundo, em 2012, e Meu tempo, em 2015), ouve Pearl Jam, lê os escritores africanos de Língua Portuguesa, é torcedor encantado do Fluminense Football Club e curte os melhores momentos da vida ao lado de ideias, amigos e familiares. Coração de Benjamin é seu primeiro livro de crônicas.