31 maio 2005

Escola Nacional Florestan Fernandes


Escola Nacional Florestan Fernandes


Muita polêmica tem sido criada em torno da fundação da Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema, São Paulo. Um dos pontos de controvérsia a respeito da escola do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST - é, sem dúvida alguma, o nome que lhe foi dado, em homenagem àquele que foi, para muitos, muitos, o maior sociólogo brasileiro de todos os tempos: mestre Florestan Fernandes. Prof. Fernandes orgulhar-se-ia de ser patrono e fonte-homenagem de uma escola como essa? Faz sentido sua escola como elemento de batismo de uma entidade educacional e cidadã ligada a um movimento social erguido junto à bandeira da justiça no campo e da reforma agrária? Florestan Fernandes estará em boa companhia ao lado dos trabalhadores rurais brasileiros? Creio serem esses os pontos centrais da discórdia. Muitos (alheios à vida, à obra e à militância de Florestan Fernandes) têm requerido sua herança intelectual. Será justo? Bom, selecionei e publico abaixo um longo texto de mestre Antonio Candido, amigo de todas as horas de Prof. Florestan Fernandes. Ninguém teria tanta autoridade para falar em nome do sociólogo marxista como sem dúvida o tem o grande Antonio Candido, a quem tanto deve a cultura brasiliera. Vamos lá ver.
"Numa reunião como esta, nada mais natural do que evocar o nome de Florestan Fernandes, um dos intelectuais brasileiros do nosso tempo mais empenhados em transformar o pensamento em ação política e social. O traço que quero ressaltar nele em primeiro lugar é o orgulho com que sempre se referiu à humildade das suas origens de homem do povo, nascido na pobreza, marcado pelas privações que se opõem como obstáculo à realização pessoal. Orgulho nobre e justo, porque para ele esses obstáculos foram estímulo, e os seus grandes feitos surgiram da luta contra tudo o que poderia tê-lo paralisado. Florestan construiu a sua personalidade, a sua carreira, a sua obra, a sua militância graças a uma tenacidade e a uma coragem raras, aliadas à lucidez com que soube desde cedo analisar a realidade que o cercava, escolhendo as posições de radicalidade e inconformismo. Consciente da iniqüidade própria da nossa organização social, ele se aplicou a partir de certa altura a estudar o mecanismo do privilégio, a natureza das oligarquias, a formação da burguesia, a exclusão do negro depois da Abolição, os vícios elitistas do nosso processo educacional. Havia na sua personalidade poderosa uma espécie de titanismo, tomada a palavra em seus dois sentidos principais: o de força hercúlea e de ânimo de revolta contra as potências superiores. Curiosamente, ele atuou a maior parte da vida fora dos partidos. Ainda moço, na segunda metade dos anos de 1940, por influência de seu amigo Hermínio Sacchetta, militou algum tempo numa organização trotskista, mas em seguida, e por quase quarenta anos, militou por conta própria, só ingressando no PT em 1986, quando foi eleito deputado federal. Nesse longo intervalo, eu lhe dizia de vez em quando que não precisava entrar para nenhuma organização partidária, porque valia sozinho um partido de esquerda... Isso se tornou claro no decorrer dos anos de 1950, quando empreendeu com Roger Bastide a grande pesquisa sobre a condição do negro em São Paulo. Até então ele se enquadrava no tipo mais acadêmico de sociologia, no qual produziu alguns trabalhos fundamentais. A partir da referida pesquisa, foi elaborando o que viria a denominar "sociologia crítica", isto é, marcada pela consciência política. A situação do negro é um dos problemas mais graves da sociedade brasileira, porque significa a exclusão e a humilhação de grande parte do povo devido à cor da pele. É uma situação que desumaniza o excluído, por negar-lhe acesso aos níveis satisfatórios da vida social e econômica; e desumaniza também os agentes da exclusão, porque implica neles uma falta de fraternidade que raia pela insensibilidade moral. Florestan enfrentou este problema com decisão e clarividência, inclusive fazendo da pesquisa uma oportunidade para o negro manifestar-se como sujeito, não como objeto. Ele e seus colaboradores, inspirados pelo mestre Roger Bastide, abriram uma fase nova na maneira de abordar o problema racial em São Paulo. Nos anos de 1960 houve outros momentos importantes da ação política de Florestan, sempre associada à sua condição de intelectual revolucionário independente. Foi o caso, a partir de 1959, da memorável campanha que desenvolveu por todo o país a favor da escola pública, expondo uma das falhas mais dramáticas da sociedade brasileira, que é o descaso pela democratização e generalização do ensino. No Brasil, consciente ou inconscientemente, a preocupação sempre foi formar as classes dominantes, descurando o resto da população, com uma insensibilidade que chega a parecer projeto intencional. O resultado é este país mal preparado para a vida moderna, comprometido pelas sobrevivências arcaicas da nossa organização social. A campanha de Florestan expôs a chaga e foi um episódio maior na luta pela verdadeira democracia. Quando entrou para o PT, a sua saúde já estava seriamente abalada, devido a um erro de hospital. Os amigos ficaram apreensivos ao vê-lo assumir a responsabilidade de um mandato no Congresso, e alguns chegaram a pensar que não resistiria. No entanto, o seu titanismo venceu tudo, ele pareceu recuperar as forças e durante dois quadriênios exerceu o papel de legislador com firmeza e competência, ambas exemplares. Quando a morte o feriu, devido a outro erro hospitalar, a impressão foi que só ela seria capaz de abater o ardoroso lutador. Por tudo isso, acho que nada mais natural do que evocar o seu nome num evento ligado ao MST, cujo ânimo de luta e cuja oportunidade histórica se combinam bem ao que ele foi, porque o MST possui a fibra militante e o alcance revolucionário que ele tanto prezava. Estou certo de que o MST é um movimento historicamente decisivo, e Florestan devia pensar o mesmo. Para esclarecer o meu ponto de vista, peço licença para remontar ao tempo da minha mocidade e da minha iniciação na vida política. O ano era 1945 e, com a volta das liberdades civis após sete de ditadura, um grupo de jovens de que eu fazia parte fundou uma agremiação inconformada, que desejava encontrar fórmulas adequadas à nossa realidade, num sentido de transformação revolucionária. Éramos cheios de esperanças e estávamos convencidos de que nem o stalinismo nem o trotskismo poderiam fornecer diretrizes convenientes ao Brasil. Por isso, tentávamos com a nossa bisonhice elaborar uma concepção e uma ação de cunho radical, pautadas pelas características da evolução histórica brasileira, sem abrir mão da democracia. O nosso principal inspirador era um antigo comunista que fora preso em 1935, fugira da prisão em 1937, vivera no exterior e voltara quando a guerra eclodiu em 1939: Paulo Emilio Salles Gomes. O nosso agrupamento, denominado União Democrática Socialista, UDS, durou pouco e nós acabamos entrando para a Esquerda Democrática, que em 1947 passou a se denominar Partido Socialista Brasileiro, fechado em 1965 pela ditadura militar. O manifesto da UDS foi escrito por Paulo Emilio e nele se lia o seguinte trecho, para o qual chamo a sua atenção: "Na história do liberalismo e da pseudodemocracia do Brasil, os grandes fazendeiros, industriais, comerciantes e banqueiros já falaram muito. A classe média e o operariado disseram algumas palavras. Os trabalhadores da terra são a grande voz muda da história brasileira". Este ponto de vista foi um dos meus guias políticos desde aquele ano remoto de 1945. Os trabalhadores urbanos tinham começado a se organizar politicamente em grande escala e a participar como força viva no país. Mas o trabalhador rural continuou marginalizado, sem liderança, mesmo paternalista, sem oportunidade de se manifestar na política de maneira consciente. Só em 1955 um companheiro nosso do Partido Socialista, Francisco Julião, fundou as Ligas Camponesas e iniciou de maneira efetiva, revolucionária a seu modo, a era das atuações sistemáticas do trabalhador agrícola. Mas passou ainda muito tempo antes que o processo amadurecesse e o campesinato começasse a pensar realmente na vida política brasileira, o que só aconteceu com o MST. Por isso este último é um acontecimento histórico decisivo, porque completa a incorporação de todos os brasileiros à esfera das decisões de interesse coletivo. Retomando as palavras do manifesto da nossa UDS, lembremos que primeiro falaram as classes dominantes; depois, a classe média e os operários; finalmente ergueu-se a voz que faltava, a dos trabalhadores da terra. Assim, o circuito se completou e o Brasil está preparado, pela primeira vez, para as lutas decisivas, com a possibilidade da participação de todos os segmentos e camadas, cada um afirmando os seus interesses e as suas reivindicações. Graças ao MST estão, portanto, criadas as condições para que a sociedade brasileira possa manifestar-se de maneira íntegra, inclusive afirmando a vontade transformadora dos seus setores radicais. O MST foi um sinal de amadurecimento da sociedade e a condição para que seja realizada a vontade transformadora no sentido da justiça social e da organização econômica pautada por ela. O que estou procurando sugerir é que devido ao MST estamos finalmente maduros para tentar realizar a aspiração de um homem como Florestan Fernandes, isto é, a ação revolucionária que há de transformar o Brasil. Quem diz revolução não diz necessariamente insurreição nem violência armada, mas decisão de alterar pela raiz a estrutura da sociedade, estrutura que no Brasil é das mais injustas da terra. Com estas palavras fecho o meu anel expositivo. Um grande intelectual revolucionário, como foi Florestan Fernandes, deve ser pensado em conexão com os grandes movimentos radicais, como é o MST. A conjunção de ambos neste evento é natural e anima a nossa esperança."
[*] Discurso, enviado por Antonio Cândido, lido a 21 de Janeiro na inauguração da Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST , em Guararema (a 60 km de S. Paulo). Na ocasião foi apresentado o livro "Florestan, vida e obra", de Laurez Cerqueira. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .