28 maio 2005

O Socialismo - por Michael Löwy

Ser socialista significa ser radical. A palavra “radical” vem do latim radix, “raiz”. Radical é aquele que ataca os problemas pela raiz. (...) Qual é a raiz dos problemas sofridos pela humanidade neste começo de século? Qual é a raiz do desemprego, da pobreza, da monstruosa desigualdade social? Qual é a raiz do neoliberalismo, da dívida externa, da especulação financeira incontrolável, dos programas de “ajuste estrutural”, da ditadura do FMI? A raiz é o sistema capitalista mundial, a lógica global da acumulação capitalista, a hegemonia mundial do grande capital financeiro, a propriedade capitalista dos meios de produção. (...) Mas precisamos começar a discutir as alternativas. E, se buscarmos uma alternativa radical, é a questão do socialismo que se coloca na ordem do dia.
O socialismo a quem refiro não é aquele “socialismo” que desmoronou depois da queda do muro de Berlim, pobre caricatura burocrática de um sistema político que há muito tempo já havia perdido seu espírito revolucionário inicial. Tampouco é aquele “socialismo” de certos partidos que se declaram socialistas ou socialdemocratas, mas não passam de social-liberais, simples administradores da ordem estabelecida. Quando me refiro ao socialismo, refiro-me à utopia socialista, ao sonho radical de justiça social e da comunidade de bens, que tem séculos de história e que encontramos nas palavras de fogo dos profetas bíblicos, na prática fraternal das primeiras comunidades cristãs, nas revoltas camponesas da Idade Média; um sonho que encontrou sua forma moderna e revolucionária no pensamento e na ação de Karl Marx e Friedrich Engels. O socialismo de que estou falando é aquele que inspirou os mártires do “1º de Maio”, de Chicago, e tantos ouros combatentes assassinados pelas classes dominantes, que sacrificaram suas vidas pelo ideal socialista de emancipação dos trabalhadores da cidade e do campo: Emiliano Zapata e Rosa Luxemburgo, Farabundo Marti e Leon Trotsky, Buenaventura Durruti e Antonio Gramsci, Camilo Torres e Ernesto Guevara, Carlos Marighella e Chico Mendes.
No que consiste o socialismo? Ele não tem nada de misterioso ou obscuro. Seu princípio fundamental é transparente e claro como água de cascata: os meios de produção devem pertencer à sociedade e as grandes decisões sobre investimentos, produção e distribuição não devem ser abandonadas às leis cegas do mercado, a um punhado de exploradores, ou a uma camarilha burocrática, mas tomadas, depois de um amplo e pluralista debate democrático, pelo conjunto da população. Nada mais simples, mas exige, para ser realizado, uma verdadeira revolução, a supressão do sistema capitalista e do poder das classes dominantes.
O socialismo significa, concretamente, que a produção não será mais submetida às exigências do lucro, da acumulação do capital, da produção em massa de mercadorias inúteis ou nocivas, mas voltada para a satisfação das necessidades sociais: alimentação, vestuário, habitação, saneamento básico, água, educação, saúde, cultura. Significa também o fim da discriminação racial – contra o negro, o mestiço, o indígena – da opressão contra as mulheres, da desigualdade social, da destruição do meio ambiente, das guerras imperialistas. (...)
O motor essencial dessa busca por um novo caminho (mais além das questões econômicas específicas) é a convicção de que o socialismo não tem sentido – e não pode triunfar – se não representa um projeto de civilização, uma ética social, um modelo de sociedade totalmente antagônico aos valores do individualismo mesquinho, do egoísmo feroz, da competição, da guerra de todos contra todos da “civilização capitalista”. (...)
A construção do socialismo é inseparável de certos valores éticos, contrariamente ao que afirmavam as concepções dogmáticas e economicistas, que só consideravam o “desenvolvimento das forças produtivas”. (...) Se o socialismo pretende lutar contra o capitalismo e vencê-lo em seu próprio terreno (o terreno do produtivismo e de consumismo), utilizando suas próprias armas (a forma mercantil, a concorrência), está condenado ao fracasso. (...) O verdadeiro socialista, o verdadeiro revolucionário é aquele que considera sempre os grandes problemas da humanidade como seus problemas pessoais, é aquele que é capaz de “sentir-se angustiado quando se assassina um ser humano em qualquer lugar do mundo e sentir-se entusiasmado quando, em algum lugar do mundo, se levanta uma nova bandeira de liberdade” (Ernesto Guevara. Obras 1957-1967. La Habana: Casa de Las Americas, 1970, tomo II, p. 307). (...)
Nos últimos trinta anos, aprendemos a enriquecer nossa idéia do socialismo com a contribuição dos movimentos das mulheres, dos movimentos ecológicos, das lutas de negros e indígenas contra a discriminação. Assim é o processo de construção do projeto socialista: não um edifício pronto e acabado, mas um imenso canteiro de obras, onde se trabalha para o futuro, sem esquecer as lições do passado.
O socialismo exige uma transformação revolucionária da sociedade. Não se trata de espera que o capitalismo desmorone por suas próprias contradições. Como dizia Walter Benjamin, nossa geração aprendeu uma lição importante: o capitalismo não vai morrer de morte natural. Para que desapareça o mais rapidamente possível, não devemos esperar que “as condições amadureçam”, mas agir plantando as sementes do socialismo. E depende também de nós que essas sementes cresçam, dêem árvores, galhos, folhas e frutos.
(Compilação elaborada a partir de texto homônimo extraído de Desafios das Lutas pelo Socialismo, organizado por Plínio de Arruda Sampaio e publicado pela Editora Expressão Popular, em 2001)