06 junho 2005

A ácida crítica de Slavoj Zizek


Slavoj Zizek - Arquivo Revista Cult

O filósofo, psicanalista e escritor Slavoj Zizek nasceu em Liubliana, Eslovênia, em 1949. Nos últimos anos tem se destacado como um dos mais importantes e atuantes intelectuais da esquerda mundial, criticando acidamente a direita européia, o pensamento conservador mundial e a falsidade das práticas e seduções do palavrório liberal aqui e acolá.

Recentemente, Zizek teve publicados no Brasil seus livros "Bem-vindos ao deserto do real!" e "Às portas da revolução", ambos pela Boitempo Editorial. O primeiro traz uma das mais lúcidas e pertinentes interpretações do mundo pós-11 de setembro, configurando o terrorismo no lugar e no tempo de uma realidade marcada a ferro e fogo por um imperialismo desumano e hostil a tudo que cheire à igualdade, à fraternidade: é como o feitiço a virar-se contra o feiticeiro, reflete Zizek. Já "Às portas da revolução" reúne textos escritos por Lenin - sim, Lenin, por que não? - no ano da gloriosa Revolução Russa de 1917. São escritos fundamentalmente tragados pela ansiedade e jorrados realidade afora pela maturidade política daquele que foi, sem dúvida alguma, o maior líder político do século XX. Para Slavoj Zizek, trata-se de repetir Lenin... Não, é claro, nos moldes de um tempo histórico que jamais se repoduz, jamais de refaz, mas repeti-lo no gesto, na coragem e na grandiosidade de pensar um mundo novo, agir por um mundo novo.

No texto que reproduzo abaixo, publicado no domingo, 05 de junho de 2005, no Caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, Zizek analisa crítica e brilhantemente os sinais trazidos pelo não francês à Constituição Européia. Em que ainda consiste aquele não? Para Zizek, é sinal de que a política está viva e de que o liberalismo tosco do globalismo sem saídas não é, de fato, algo que vá se fazer pela força, pela cooptação, pela degeneração do pensamento e pela corrosão do caráter. Há saídas. E é isso que versa o excelente artigo desse incansável pensador eslovenos. Vamos lá ver.

Negativa da sociedade francesa à proposta de uma Constituição continental escancara a nova geopolítica mundial, que não mais opõe Primeiro e Terceiro mundos, mas Europa e império global norte-americano Um fantasma ronda o Ocidente

As comunidades amish dos EUA praticam a instituição do "rumspringa" (do alemão "herumspringen", que significa saltar aleatoriamente): aos 17 anos, seus filhos (até então submetidos a uma estrita disciplina familiar) são libertados; recebem permissão e até são incentivados a sair para aprender e experimentar os hábitos do mundo "inglês" que os rodeia -eles dirigem carros, escutam música pop, assistem à televisão, envolvem-se com bebidas, drogas, sexo desenfreado... Depois de alguns anos, precisam decidir: vão se tornar membros da comunidade amish ou vão deixá-la e transformar-se em cidadãos norte-americanos comuns?

Longe de ser permissiva e dar aos jovens uma opção realmente livre, isto é, dar-lhes a possibilidade de decidir com base no pleno conhecimento e na experiência dos dois lados da opção, essa solução é preconceituosa da maneira mais brutal, uma opção das mais falsas que poderia haver.

Quando, depois de longos anos de disciplina e fantasias sobre os prazeres ilícitos transgressivos do mundo "inglês" exterior, o adolescente amish é súbita e desprevenidamente atirado nele, é claro que não pode deixar de cair num comportamento extremamente transgressor, "experimentar tudo", atirar-se plenamente em uma vida de sexo, drogas e bebida. E, como nessa vida eles não têm nenhuma limitação ou regulamento inerente, essa situação permissiva inexoravelmente retroage provocando uma ansiedade insuportável - portanto é seguro prever que depois de alguns anos eles voltem para a reclusão de sua comunidade. Não admira que 90% dos filhos amish façam exatamente isso.

Metaopção

É um exemplo perfeito das dificuldades que sempre acompanham a idéia de uma "opção livre": enquanto os adolescentes amish formalmente têm uma opção livre, as condições que eles encontram enquanto estão fazendo a opção a tornam não-livre. Isso também demonstra claramente as limitações da atitude liberal padrão em relação às mulheres muçulmanas que usam o véu: elas podem fazê-lo se for sua livre opção, e não algo imposto por seus maridos ou familiares.

No entanto, quando as mulheres usam o véu em conseqüência de sua livre opção individual (por exemplo, para realizar sua própria espiritualidade), o significado de usar o véu muda completamente: não é mais um sinal de pertencer à comunidade muçulmana ou a expressão de sua individualidade idiossincrática. A diferença é igual à que existe entre um agricultor chinês que se alimenta de comida chinesa porque sua aldeia faz isso desde tempos imemoriais e um cidadão de uma megalópole ocidental que decide jantar num restaurante chinês local.

Uma opção é, portanto, sempre uma "metaopção", uma opção da modalidade da própria opção: é somente a mulher que não escolhe usar o véu que efetivamente faz uma opção. Isso porque, em nossas sociedades seculares preferidas, as pessoas que mantêm uma afiliação religiosa substancial estão em uma posição subordinada: mesmo que elas tenham permissão para manter sua crença, essa crença é "tolerada" como sua opção/opinião pessoal idiossincrática; no momento em que elas a apresentam publicamente como o que significa para elas (uma questão de afiliação substancial), são acusadas de "fundamentalistas".

Mas o que tudo isso tem a ver com o não francês à Constituição européia? Tudo. Os eleitores franceses foram tratados exatamente como os jovens amish: eles não receberam uma opção claramente simétrica. Os próprios termos da opção privilegiaram o sim: a elite propôs à população uma opção que efetivamente não era uma opção -a população foi chamada a ratificar o inevitável, o resultado da perícia esclarecida.

A mídia e a elite política apresentaram a opção como sendo entre conhecimento e ignorância, entre perícia e ideologia, entre administração pós-política e antigas paixões políticas da esquerda e da direita. O não foi portanto rejeitado como uma reação míope, inconsciente de suas próprias conseqüências: uma reação obscura de medo da nova ordem global pós-industrial emergente, um instinto de manter e proteger as confortáveis tradições do Estado assistencialista -um gesto de recusa sem nenhuma programa alternativo positivo.

Não admira que os únicos partidos políticos cuja posição oficial era o não foram os partidos no extremo oposto do espectro político: a Frente Nacional de Le Pen, à direita, e os comunistas e trotskistas, à esquerda. Além disso, segundo nos dizem, o não era, na verdade, um não a muitas outras coisas: ao neoliberalismo anglo-saxão, ao presidente Jacques Chirac e ao atual governo francês, ao ingresso de trabalhadores imigrantes da Polônia, que reduzem os salários dos trabalhadores franceses etc.

Elite condenada

No entanto, mesmo que haja um elemento de verdade em tudo isso, o próprio fato de o não não ter sido sustentado por uma visão política coerente alternativa é a mais forte condenação possível da elite política e midiática: um monumento a sua incapacidade em articular, traduzir em visão política, os desejos e insatisfações da população. Em vez disso, em sua reação ao não, ela tratou a população como alunos atrasados que não entenderam a lição dos especialistas: sua autocrítica foi a do professor que admite que falhou em educar adequadamente seus alunos. Por isso, embora a opção não fosse entre duas opções políticas, também não era uma opção entre a visão esclarecida de uma Europa moderna, pronta para se encaixar na nova ordem global, e antigas paixões políticas confusas. Quando os comentaristas descreveram o não como uma mensagem de medo confuso, estavam errados. O principal medo que identificamos aqui é o mesmo que o próprio não provocou na nova elite política européia, o medo de que as pessoas não comprem mais tão facilmente sua visão "pós-política".

Para todos os outros, o não é uma mensagem e uma expressão de esperança: esperança de que a política continue viva e possível, de que o debate sobre o que deve ser a nova Europa continue aberto. É por isso que nós, da esquerda, devemos rejeitar a insinuação de desprezo dos liberais, de que, em nosso não, nos encontramos com estranhos companheiros neofascistas. O que a nova direita populista e a esquerda compartilham é apenas uma coisa: a consciência de que a política propriamente dita continua viva.

Debate adequado

Havia uma opção positiva no não: a opção da própria opção. A rejeição à chantagem da nova elite que oferece apenas a opção de confirmar seu conhecimento de perita ou exibir nossa imaturidade "irracional". O não é a decisão positiva de começar um debate político adequado sobre que tipo de Europa realmente queremos. No final de sua vida, Freud fez a famosa pergunta: "Was will das Weib?" [O que quer uma mulher?], admitindo sua perplexidade quando confrontado com o enigma da sexualidade feminina. O imbróglio com a Constituição européia não é testemunha da mesma perplexidade? Que Europa queremos?

Para colocar simplesmente, queremos viver em um mundo em que a única opção seja entre a civilização norte-americana e a chinesa capitalista-autoritária emergente? Se a resposta for não, então a única alternativa é a Europa. O Terceiro Mundo não pode gerar uma resistência suficientemente forte à ideologia do sonho americano; na atual constelação, somente a Europa pode fazê-lo.

A verdadeira oposição hoje não é entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo, mas entre o conjunto do Primeiro e Terceiro mundos (o império global norte-americano e suas colônias) e o remanescente Segundo Mundo (Europa). A propósito de Freud, Adorno afirmou que o que estamos recebendo no "mundo administrado" contemporâneo e sua "dessublimação repressiva" não é mais a antiga lógica da repressão do id e seus impulsos, mas um pacto direto e perverso entre o superego (autoridade social) e o id (impulsos agressivos ilícitos) à custa do ego.

Algo estruturalmente semelhante não está acontecendo hoje no nível político -o estranho pacto entre o capitalismo global pós-moderno e as sociedades pré-modernas, à custa da própria modernidade? É fácil para o império global multiculturalista norte-americano integrar as tradições locais pré-modernas, pois o corpo estranho que ele efetivamente não consegue assimilar é a modernidade européia.

Slavoj Zizek é filósofo esloveno e autor de "Um Mapa da Ideologia" (Contraponto) e "O Mais Sublime dos Histéricos" (Jorge Zahar). Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.