25 junho 2005

O grito, de Edvund Munch

"O grito", óleo sobre tela de Edvund Munch, símbolo da arte expressionista e obra de inigualável habilidade crítica em relação ao final do século XIX e as perspectivas trágicas que já se enunciavam no umbral do século XX. Bela, atual e instigante, toda a obra de Munch nos revela a dificuldade de compreensão da realidade factual e nos estimula, como contrapartida, a lutar contra os nossos inimigos ocultos, escondidos atrás das nossas certezas frágeis, das nossas concepções distorcidas acerca dos negócios humanos. Uma obra política e de profusiva crítica social no interior do que há de melhor na Arte Expressionista.

Edvund Munch nasceu na Noruega, em 1863. Um dos maiores representantes da pintura e da arte expressionistas – manifestação pela qual se torna possível deflagrar um contato poderosíssimo com nossos inimigos mais ocultos e dissimulados -, Munch sempre polemizou com a sociedade de seu tempo.

Retratando imagens de uma Europa e de um mundo em efusiva desorientação, o jovem artista norueguês, autor de “O grito” (uma de minhas telas favoritas), “Cinzas” e “Frisas da Vida” (sua dileta tela e considerada síntese de toda uma obra pelo próprio autor), estudou arte na Alemanha e na França, passou dez anos sem regressar ao seu país de origem e por lá voltou a definitivamente fixar-se em 1910, período após o qual produziu entusiasticamente até o seu falecimento, em 1944.

Na obra de Munch pode-se verificar com clareza e inquestionável talento toda uma fina e crítica análise do fim do século XIX e de uma angustiante visão do século XX, marcadamente um tempo de conflitos, guerras e aberrações praticados pelo homem contra seu semelhante: um tempo, indiscutivelmente, de soldas e arremates de totalitarismo e tragédia.

“O grito”, muito provavelmente sua mais famosa tela, é referência artística de todos os estilos e emblema maior do expressionismo escandinavo. Nessa belíssima pintura – furtada (isso mesmo, “furtada”) do Museu Munch, em Oslo, capital norueguesa, em 22 de agosto de 2004, por dois ainda desconhecidos ladrões – Edvund Munch retrata um mundo que pode se revelar em total aniquilamento ou propor-se a própria esperança de que a rebelião subentendida no desespero e na manifestação extremada da indignação, do desconforto, da exclamação de um sonoro “Chega!”, venha a enaltecer uma condição humana abalada e prejudicada por um tempo em que homens e mulheres efetivamente convivem sob tempos sombrios. As cores vivas da obra de Munch talvez partilhem da convicção de que os tempos, embora claramente submersos em trevas, possam abrilhantar-se, vivificar-se, ganhar novos contornos, novas formas, isso, é claro, a depender da força e da coragem de nosso grito, de nosso entusiasmo em dizer “Não!”, em dignar-se a lutar contra o que se pontua como dado, irreversível.

Uma obra magistral que se expressa por meio dos labirintos da emoção expressionista. “O grito” é um legítimo Munch, uma estrondosa análise-síntese dos tempos de que ainda não emergimos. Emergiremos? Bom, isso dependerá, creio eu – e, ainda mais, demonstrava crer Edvund Munch -, de nosso grito e das ações que dele emanarem. É isso.