22 junho 2005

O pluralismo e a riqueza de Leandro Konder

O pensamento que provém de Marx e que, mal ou bem, atravessou o século XX combatendo não tem nenhuma chance de sobreviver refugiado em universidades ou em institutos científicos; e também não tem nenhuma possibilidade de resistir à autodissolução se renunciar ao rigor teórico, realizar um sacrificium intellectus, abandonar as exigências da reflexão e tornar-se intrumento de alguma seita.

Leandro Konder - O futuro da filosofia da práxis, 1992, p.133

Leandro Konder é, sem sombra de dúvida, um dos mais importantes intelectuais brasileiros de nosso tempo. Autor de quase três dezenas de livros, inúmeros artigos e intervenções públicas, o autor de A derrota da dialética é um combatente incansável na batalha das idéias e na defesa e divulgação da história das idéias socialistas.

Nascido em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1936, Leandro Konder formou-se em Direito e atuou durante muitos anos como advogado criminalista e, depois, trabalhista, pleiteando causas em defesa dos trabalhadores por meio de suas representações sindicais. Forçado ao exílio devido à forte militância ao lado dos trabalhadores e dos movimentos sociais de esquerda – além, é claro, de ser filho do lendário e estimado comunista Valério Konder -, o autor de Marxismo e Alienação, a partir de 1972, passou a trabalhar na Alemanha e na França, em importantes centros de pesquisa universitária – desse período em diante Leandro Konder passou ao campo da filosofia, da pesquisa e do ensino, deixando-se da advocacia para dedicar-se com profundidade à tradição filosófica do marxismo, com seus temas polêmicos, controvertidos e, paradoxal e felizmente, sempre atuais e instigantes.

De volta ao Brasil, em 1978, concluiu doutoramento na UFRJ, tornou-se professor da UFF e da PUC-RJ. De lá para cá, não parou mais de escrever, escrever... Constituiu-se, como ele mesmo gosta de afirmar, num “escriba inveterado”.

À exceção do período de exílio europeu, década de 1970, em que lançou a público somente o excelente e elucidativo Introdução ao Fascismo, 1977, as décadas de 1960, 1980, 1990 e no próprio umbral deste século XXI a produção de Leandro Konder viu-se cada vez maior, mais extensa, plural e de extrema vitalidade e substância para o debate nas esquerdas e no interior do pensamento e da ação socialistas. São obras que se espraiam por conceitos e temas trasladados na obra de Marx, como alienação, dialética e ideologia, até biografias indispensáveis de personagens como o genial escritor Franz Kafka, a socialista Flora Tristan, o enigmático e “utópico” Charles Fourier e, sempre de modo rico e numa escrita fluida e tranqüila, prazerosa e sofisticada, as apreciações de vida e da obra do próprio Karl Marx, do filósofo da dialética, Hegel, e do irrepreensível e bem-humorado Barão de Itararé. (Pessoalmente, não me permitiria deixar de expressar a beleza de Walter Benjamin: o marxismo da melancolia, obra que exerceu sobre mim forte impacto cultural e intelectual, permitindo-me reavaliar os critérios pelos quais julgava a importância de Benjamin na história das esquerdas e do próprio socialismo. Graças a essa pequena biografia e análise do pensamento do autor de Rua de mão única, Leandro Konder me emprestou aquele que é hoje um dos portais de minhas reflexões sobre os temas da contemporaneidade, creditando-me maior pertinência e necessária pluralidade às minhas intervenções e análises também no campo da história das idéias socialistas.)

Aclamado e condecorado por todos pela honradez intelectual e pela dignidade pessoal, Leandro Konder é mesmo um grande intelectual, um sujeito de imenso caráter; ademais, é, no mínimo, um autor que se deve ler – e muito! Filósofo e romancista (é autor das belíssimas “novelas” Bartolomeu e A Morte de Rimbaud), nosso autor é daqueles que não se prendem nem se vinculam a modismos, mantendo, contudo, as marcas da autonomia intelectual e da coerência entre vida pessoal, atividade intelectual e profusão discursiva de suas intervenções públicas no mundo da política e da cultura.

Em homenagem a esse grande sujeito, mais vivo do que nunca, reproduzo abaixo o artigo que publicou no sábado, 18.06.2005, no Caderno Idéias, do Jornal do Brasil, para o qual escreve com bastante regularidade. Trata-se de uma deliciosa apreciação crítica da vitalidade de Marx e das tentativas sempre muito desesperadas de seus interlocutores e opositores o assassinarem, precipitadamente o enterrarem. É a cara de Leandro Konder, com muito bom-humor e extrema sabedoria. Espero que o excelente artigo, ''Não tem ninguém pra dar um teço?”, apeteça a todos vocês. É isso.


Não tem ninguém pra dar um teco?

Desde que surgiu, no final do século 19, o marxismo despertou forte repulsa em alguns setores e grande entusiasmo em outros. Entre os que foram tomados por intensa admiração pela construção teórica feita pelos discípulos de Marx, houve óbvios exageros, exaltações desmesuradas, leituras fanáticas. Entre os adversários do filósofo socialista alemão, por outro lado, manifestaram-se impulsos furiosos, rancores drásticos e até fantasias homicidas (do tipo: ''Não tem ninguém pra dar um teco entre os olhos desse delinqüente?''). Me lembro de ter ouvido uma vez uma pessoa usar essa palavra, há muitos anos, rindo (ambiguamente), mas deixando transparecer uma irritação verdadeira contra o teórico incitador de greves.

O ''delinquente'' era, no caso, o pensador que formulara, com espírito polêmico e inegável originalidade, uma concepção do homem (o sujeito da práxis), uma concepção da história, uma teoria da luta de classes, uma teoria da revolução proletária abrindo caminho para o comunismo (por meio da ditadura do proletariado). Coube-lhe, também, desenvolver um conceito de ideologia que modificou substancialmente o panorama constituído pelas teorias do conhecimento.

Atualmente, está se desencadeando uma nova campanha contra o mesmo Marx, cuja filosofia insiste em sobreviver. Na impossibilidade de dar-lhe ''um teco'' (desde 1883, ele está enterrado no cemitério de Highgate, em Londres), seus desafetos mais renitentes vinham se dedicando a dinamitar a estátua erigida sobre o seu túmulo. Agora, contudo, surgiu um novo filão, mais compensador: aumenta a cada dia o número dos críticos antimarxistas que admitem que, na realidade, o ''delinqüente'' não tinha morrido em 1883, porque algo dele havia sobrevivido no pensamento e na ação dos movimentos comunistas vinculados a Moscou, Pequim ou Cuba.

O fim da União Soviética, a guinada da China no plano político-econômico e o isolamento de Cuba é que - definitivamente - liquidaram Marx. A derrubada do Muro de Berlim foi, por assim dizer, seu atestado de óbito. Essa conclusão peremptória é proclamada para enfatizar a necessidade do abandono do marxismo como matéria de estudo. Recomenda-se não perder tempo com cadáveres.

Se houvesse fundamento nas análises da extrema direita, e houvesse procedência na sua caracterização de ''perda de tempo'' para os estudos dedicados às tensões internas do marxismo, a confirmação desse diagnóstico grave deveria vir, necessariamente, numa evidente queda de nível da literatura voltada para esse tema: os textos que insistem em pensar e repensar aspectos da história e da teoria política do marxismo deveriam estar saindo em menor quantidade e com qualidade inferior.

O que temos visto nestes últimos anos, entretanto, não confirma a desqualificação que poderia conferir alguma credibilidade à crítica dos conservadores enraivecidos. A editora Contraponto lançou um livro ''clássico'' sobre O capital de Marx: o ensaio ''Gênese e estrutura de 'O capital' de Marx'', de Roman Rosdolsky. E está lançando O princípio esperança, do famoso marxista alemão Ernst Bloch. A editora Xamã publicou uma excelente coletânea de dois autores lúcidos e combativos: Marxismo, modernidade e utopia, de Michael Löwy e Daniel Bensaid. Pela Record saiu outra coletânea, organizada por Denis de Moraes, abordando os problemas da condição dos intelectuais no mundo atual.

E mais: a Paz e Terra publicou Para ler Raymond Williams, ótima introdução à obra do importante marxista inglês, preparada por Maria Elisa Cevasco. A editora da UFRJ acaba de publicar um belo estudo do marxista francês Jacques Texier sobre Revolução e democracia em Marx e Engels. A editora da UNESP, por sua vez, já havia lançado Hegel, Marx e a tradição liberal, do marxista italiano Domenico Losurdo, que vem submetendo as teorias liberais a críticas muito instigantes. As duas editoras universitárias que acabamos de mencionar se uniram para publicar outro livro de Losurdo: Democracia ou bonapartismo.

E a lista continua: a editora Boitempo está lançando o livro que Michael Löwy escreveu sobre as teses de filosofia da história, que Walter Benjamin ditou para sua irmã pouco antes de morrer. Vai lançar também o estudo sobre Kafka, que Löwy publicou há pouco na França. E está anunciando novos volumes com textos do marxista peruano José Carlos Mariátegui, do filósofo marxista húngaro Georg Lukács e de diversos outros.

A crise em que se debatem os marxistas não os tem esterilizado. O marxismo entrou no século 21 bastante machucado, mas ainda lhe resta uma impressionante vitalidade. A relação das obras publicadas sugere um interesse do público pelas idéias cujas raízes remontam ao velho Marx. Não é uma lista completa, não pude fazer um levantamento minucioso, devo ter incorrido em omissões, cometido injustiças. Não falei, por exemplo, na nova edição dos Cadernos do cárcere, de Gramsci, preparada por Carlos Nelson Coutinho para a editora Civilização Brasileira (tradução feita pelo próprio Coutinho e por Luiz Sérgio Henriques e, em parte, também por Marco Aurélio Nogueira).

Não falei nas traduções de Marcelo Backes para A sagrada família, de Marx e Engels, e de Jesus Ranieri para Os manuscritos econômico-filosóficos de 1844, de Marx, editora Boitempo.

Poderia ter dito algo sobre a revista Praga, que ao longo dos anos 90 divulgou trabalhos de inspiração marxista, escritos por autores nacionais ou estrangeiros (editora Hucitec). E deveria certamente ter falado da revista Margem Esquerda, que nestes últimos três anos vem polemizando com firmeza contra a direita.

Deixei de lado indícios significativos de que também na área acadêmica poderiam ser encontrados muitos trabalhos que não foram transformados em livros e não circularam fora das universidades, porém propuseram questões teóricas dignas de discussão. De qualquer modo, peço desculpas aos leitores pelo longo elenco de nomes e de títulos. Minha intenção foi a de constatar que, mais uma vez, Marx está sobrevivendo. O ''delinqüente'' está mostrando tamanha desenvoltura que dificilmente a direita vai conseguir manter a idéia de que ele morreu. Como suportar o ''abuso'' dessa ''ressurreição''? Imagino que em breve os fanáticos da ordem estarão de novo se perguntando: ''Não tem ninguém pra dar um teco... ?''