07 junho 2005

O primeiríssimo conto de Mestre Rubem Fonseca

Contra a imperfeição de um mundo hostil, a menina busca a perfeição da imagem, o reflexo adequado de uma insatisfação permanente diante do próprio espelho. Na verdade, não importa de quem seja o espelho; duro é suportar a dor de não ser perfeita!
Nesse conto genial, o primeiro de Rubem Fonseca, publicado em 1961, o consumo sai às vísceras, aquele desejo desenfreado pela imagem cobiçada, a sanha por ser alguém diferente, tamanha a frustração de ser simplesmente alguém comum, de nome comum, jeito comum, história e vida comuns...
É delicioso ler esse conto de Mestre Rubem Fonseca!
TEORIA DO CONSUMO CONSPÍCUO - nunca tire a máscara

Estávamos dançando abraçados, de frente, da maneira convencional. Ela não queria brincar no cordão, nem queria outra sorte de abraços, nem queria tirar a máscara. Eu gritava no meio do barulho, pedia no seu ouvido: "Tira a máscara, meu bem." Ela nada. Ou melhor, sorria, os dentes mais lindos do mundo, de bôca aberta. Eu via os molares lá no fundo. Não tinha uma cárie, tudo branco parecia dentadura de elefante.
Dançamos a noite tôda. No princípio, fiquei muito excitado. Depois, fiquei cansado somente; mas continuamos abraçados, bem apertados. Eu só via o seu queixo, que era branco e redondo e a bôca. Da bôca para cima nada. Nem os olhos a máscara deixava ver direito.
Me contaram uma história de um par mascarado que dançava no carnaval. Êle estava vestido de cachorro e tinha uma máscara de gente; ela estava vestida de gente e tinha uma máscara de gata. Tiraram as máscaras ao mesmo tempo. Debaixo da máscara de gata estava a cara de uma mulher; debaixo da máscara de gente estava a cara de um cachorro, o que tinha corpo de cachorro era cachorro mesmo: as aparências enganam.
Era o último dia de carnaval e em todo carnaval eu sempre fôra com uma mulher diferente para casa. Já era têrça-feira, mais um pouco o carnaval acabava e eu não teria mantido a tradição. Era uma espécie de superstição, como a dêsses sujeitos que todo ano vão à igreja dos Barbadinhos. Eu temia que algo malévolo ocorresse comigo se eu deixasse de cumprir aquêle ritual.
À meia-noite começaram a cantar no salão, com o mais genuíno dos masoquismos, "é hoje só, amanhã não tem mais".
Essa advertência, de que era aquêle o último dia, me deixou muito preocupado. Continuávamos dançando, ela rindo a três por dois, jogando a cabeça para trás, bôca aberta e eu, olhando os seus molares; cheio de mêdo, pois era hoje só, amanhã não tinha mais.
Nossa conversa era feita de olhares e apertos, pois o barulho da orquestra, dos gritos e apitos, não permitia que conversássemos. De vez em quando apertava a mão dela e ela retribuía o apêrto; outra vez, prendia a perna dela entre as minhas, ou a minha entre as dela e novamente sentia a receptividade. Beijava-a no pescoço, na orelha; ela raspava na minha nuca uma unha pontuda e afiada como se fôsse uma faca.
O tempo foi passando, passando e acabou. Já era de manhã. Saímos do baile e, como era verão, o sol iluminava todo mundo. Todos estavam feios, suados, sujos. Aparecia em certas caras a burla do lábio fino engrossado pelo batom; peitos postiços saíam da posição; sapatos altos quebravam o salto e algumas mulheres viravam anãs de repente; sovacos fediam; dedos dos pés e calcanhares surgiam calosos e imundos. Só a minha amiga continuava bonita e fresca, como se fôsse uma rosa. E de máscara.
- Já é de dia – disse para ela. – Você pode tirar a máscara.
- Você quer mesmo que eu tire? – perguntou ela.
Íamos andando pela rua, sós. As outras pessoas tinham desaparecido.
- Já é de dia – repeti, achando boa a razão que eu apresentava. – Além do mais, o carnaval acabou – disse com certa tristeza. – Hoje é quarta-feira de cinzas.
- Você quer mesmo que eu tire? – tornou ela.
- Já é de dia – insisti.
- Parecíamos personagens de Pady Chaievsky. Continuamos andando. Eu de mau-humor.
- Vamos para a minha casa? – perguntei, urgente e sem esperança.
- Não posso tirar a máscara – disse ela.
- Não tira – disse eu, decididamente. Mas estava apreensivo. Não havia tempo a perder. – Vamos?
- Como ela não respondesse, eu a peguei por um braço e levei-a para minha casa.
Quando entramos ela disse:
- Não posso.
- Tirar a máscara?
- Quem falou em tirar a máscara – disse ela, botando as mãos no rosto e dando um passo para trás.
- Eu não falei em tirar a máscara – defendi-me. – Foi você, dizendo "não posso".
- Eu não falei na máscara – protestou ela.
Eu me sentei e tirei os sapatos.
- Nós dois estamos perdendo o nosso tempo – disse eu. – É melhor você ir embora.
- Você não entende – disse ela.
Num gesto dramático, tirou a máscara.
- Não suporto o meu nariz – disse com desafio na voz.
Era um nariz muito bonito, arrebitado.
- O seu nariz é muito bonito – disse eu. – Você é tôda muito bonita.
- Não sou, não – disse ela, com jeito de quem ia chorar. – Vocês homens são todos iguais.
- Está certo. Somos todos iguais. E daí?
- O meu problema é não ter oitenta contos. Você me dá oitenta contos?
- Oitenta contos?
- Você me dá oitenta contos? – argüiu ela, como se estivesse me pondo à prova. De bôca fechada, me olhava fixamente.
Eu me levantei e vi minha caderneta de cheques do banco. Tinha oitenta, justos.
- Dou – disse. Fiz um cheque e entreguei a ela.
- Depois eu pago – disse ela.
- Não precisa – disse eu, olhando o relógio. – Hoje já é quarta-feira.
- Pago sim. Vou trabalhar e pago. Eu não gosto de dever a ninguém.
- Está certo; você paga.
Bocejamos os dois.
- Os médicos são muito caros, você não acha? Oitenta contos só para operar um nariz – disse ela.
Foi andando em direção à porta.
Eu estava tão cansado que continuei sentado.
- Você vai querer me ver de nariz nôvo? – perguntou ela.
Eu tive vontade de dizer: "Você não precisa de um nariz nôvo, está gastando dinheiro à toa; além do mais, me deixou completamente na miséria levando os últimos oitenta contos da minha indenização trabalhista." Mas achei que isso não seria gentil da minha parte e disse somente:
- Vou.
- Ciao – disse ela, saindo e fechando a porta.
Deixou a máscara em cima de uma cadeira; era preta, de cetim, com um perfume forte e bom. Botei a máscara e fui para a cama. Estava quase dormindo quando me lembrei de tirá-la: um sujeito que sempre dorme de janelas abertas não pode dormir com uma máscara que lhe cobre o nariz.

Este foi o primeiro conto publicado de Rubem Fonseca (que na ocasião assinou apenas JRF), em 1961 na Revista Senhor.