18 junho 2005

A pena fina e elegante de Marcos Rey, mestre de uma geração


Há dois mundos, o de cima e o de baixo.
Quem vive no de cima pode, por curiosidade
ou acidente, conhecer o outro.
Mas os que estão no de baixo só através
do sonho viajam para o de cima.
Marcos Rey
O escritor Marcos Rey nasceu em São Paulo, em 1925, em pleno desenvolvimento daquilo que se pode realmente chamar de uma sociedade civil brasileira, com a complexificação das relações sociais e um crescente aumento da vida urbana e industrial, política e cultural, em nosso país. Redator, contista, cronista, romancista de pena sempre úmida, jornalista e publicitário, homem de rádio, literatura e TV, é difícil perscrutar caminhos da cultura, da arte e da interpretação da vida nacional por que não tenha trafegado – e bem! – o paulista Edmundo Donato, verdadeiro nome do autor de Café na Cama.

Filho de um gráfico e encadernador, patriarca de uma família modesta, Marcos Rey teve no irmão Mário Donato, autor do consagrado Presença de Anita (que virou mania após a adaptação da Rede Globo para o formato minissérie de dramaturgia televisiva) sua primeira e perene fonte de inspiração para a escrita.

Do primeiro conto para o jornal, publicado quando tinha 17 anos, na extinta Folha da Manhã, às dezenas de obras publicadas para adolescentes e adultos, obras essas que atravessaram mais de cinco décadas da história da literatura brasileira, Marcos Rey marcou época, seduziu ao menos três gerações de leitores e tatuou seu nome no rol da fama dos grandes contistas e romancistas da língua portuguesa.

Livros como Café na cama (1960), Memórias de um gigolô (1968), O último mamífero do Martinelli (1994) e Fantoches! (1998), escritos para jovens e adultos, alcançaram grande sucesso, a ponto de conferir a Marcos Rey o Prêmio Jabuti duas vezes, em 1967 e em 1994, em dois momentos radicalmente distintos de sua carreira.

Além desses “jabutis”, Marcos Rey foi agraciado também com o Troféu Juca Pato – Intelectual do ano de 1995, fato que condecora toda a sua trajetória pessoal e de literato, trazendo – um tanto quanto tardio, infelizmente – o reconhecimento de seu trabalho e a dívida eterna de gratidão que temos todos nós e a cultura brasileira com sua obra e com a coerência e a dignidade de suas idéias.

A obra de Marcos Rey, contudo, solidificou-se na literatura infanto-juvenil, por meio da coleção vaga-lume da Editora Ática. Percorrendo os anos das décadas de 1980 e 1990, os livros da coleção vaga-lume influenciaram toda uma geração de jovens leitores, de todos aqueles que hoje vivem a quarta década de vida. Pela Ática, portanto, foram muitas as histórias criadas por Marcos rey e que encantaram a juventude de um período da história brasileira marcado por inquietações, por incertezas e por retrocessos no campo da organização política e da construção de projetos coletivos para a nação. Recém insurgida de mais de vinte anos de ditadura militar, censura e perseguições políticas que escamotearam a construção de uma sociedade democrática no Brasil, a obra de Marcos Rey voltada para a juventude e publicada na famosa série vaga-lume conta, ainda hoje, em livros que ultrapassam dez, quinze edições, com títulos como O rapto do garoto de ouro, O mistério do Cinco Estrelas, Um cadáver ouve rádio, Enigma na televisão, Corrida infernal, Quem manda já morreu, Um rosto no computador, Garra de campeão, Sozinha no mundo, Dinheiro do céu, Na rota do perigo e Bem-vindos ao Rio.

Desde 2002, no mínimo, todos os leitores de Marcos Rey sabem de sua difícil luta contra o estigma da lepra, doença que contraiu ainda menino e que o perseguiu por toda a vida. A revelação, acordada entre a viúva Palma Donato, companheira de Marcos Rey por 39 anos, e o jornalista e escritor Carlos Maranhão, autor da biografia Maldição e Glória (2002, Companhia das Letras), faz-nos refletir sobre os preconceitos com os quais teve de lidar o autor de Ópera de sabão desde a infância. Vitimado mais por um estigma, uma identificação de “leproso”, “pestilento”, do que propriamente por uma doença, Marcos Rey escondeu de todos a moléstia e as perseguições que sofreu dos órgãos de saúde pública em São Paulo e no Rio de Janeiro, para onde migrou na juventude para fugir dos caçadores de leprosos capitaneados pela ostentosa “higienização” social promovida na Era Vargas – marcas prementes dos códigos nazistas em nossa sociedade de outrora.

Com garra e intensa dignidade, Marcos Rey seguiu em frente, escrevendo, emocionando corações e mentes, retratando de modo sempre fino, lúcido e sereno a sociedade brasileira, suas personagens, seus males, seus crônicos desastres políticos e culturais. Em toda a sua obra, adulta ou juvenil, sobressaem críticas inteligentes e sempre muito bem-humoradas em relação às hipocrisias de nossa sociedade, sua mercantilização (com base no fetiche descrito genialmente por Marx), os labirintos de toda a dificuldade que é o ser humano lidar com seu semelhante. É nisso, principalmente, que Marcos Rey se nos mostra absolutamente genial.

Herdeiro da “cultura” e das “tradições” da Geração 80’, posso dizer com alegria e intensa satisfação que fui alfabetizado por esse grande sujeito chamado Edmundo Donato. Seus livros e seus contos lapidaram meu caráter e me fizeram sempre pensar com cuidado sobre o mundo em que vivo e nas transformações que luto por ver nele se implantarem, cristalizarem. Ao mestre Marcos Rey, portanto, meus agradecimentos por uma obra estimulante e motivadora. A ele meu muito obrigado, meu eterno carinho e minhas saudades. Imensas saudades.
"Com modéstia fina esconde uma condição culta no plano geral e no literário. Não abre mão do fascínio de uma boa história, é direto, objetivo, funcional, sem golpes de estilo, com uma lambujem - não perde o ritmo e a garra de um realismo crítico que o vem caracterizando desde sua estréia."
João Antônio