10 junho 2005

Snuff movie: depois do fim do mundo


Snuff movie, do cineasta Marcos Fábio Katudjian, é leitura obrigatória na busca por entendimento do enigma mais obscuro e premente dos tempos atuais: a condição humana (!) é degenerada pelo capitalismo do desamor ou é produtora do desamor de todo o capitalismo, sempre excludente, violento e inumanizador?

O livro de Marcos Fábio Katudjian, “Snuff movie: depois do fim do mundo”, é surpreendente em muitos sentidos. Revela, logo de início, um forte senso de realidade, daquele tipo que não se nega de nenhum modo a investigar as profundezas dos acontecimentos, ainda que tudo possa acabar por demonstrar medo, horror, extrema inquietude.

As histórias são muitas, mas o fio que tece a relação tensa entre cada personagem é a mais pura e explícita condição humana pós-moderna, do hedonismo ingênuo e saboroso ao morticínio e à perda total de referência para a vida, para os instantes que se sucedem a todos que, de alguma maneira, optam por levar adiante o tempo neste mundo.

O texto de Katudjian é fluido, transcorre muitíssimo bem, mas tão-somente no que diz respeito à escrita espetacular, ao cuidado com a palavra, à construção das frases, expressões, sentenças. A temática, entretanto, é nervosa, angustiante; é como se soubéssemos o tempo inteiro que tudo aquilo existe, que todas aquelas pessoas são mesmo capazes de fazer o que fazem, dizer o que dizem, mentir como mentem, sinceramente enfrentar a verdade, ainda que banal, sem propósitos ou intenções. A verdade crua, sem perspectivas nem justificativas; um furacão de sentidos sem sentido, de sentenças sem justificativa, de humilhação sem pudor. E, ainda que saibamos de tudo, chocamo-nos, gritamos de angústia e perplexidade.

“Snuff movie”, lançado em 2002, pela Editora Casa Amarela, é, sem retoques, genial, forte, inspira todo tipo de sensação, das belas e encantadoras às grotescas, repulsivas. É, pois, o que se pode chamar de um livro absolutamente genial. O talento de Marcos Fábio atravessa a narrativa, dá o tom da história e se aproxima de nós, leitores, com força e magia, revelando a imundície e a beleza da alma humana, numa perspectiva, é claro, rigorosamente dialética. A questão que nos provoca a todo o instante, sem nos deixar jamais, mesmo depois de semanas do término da leitura do livro, é a seguinte: quem produziu Fernanda? - personagem central da trama de Katudjian. O capitalismo animalesco e sanguessuga, desumanizador, petrificador, produtor de resignações crescentes e alienantes, ou, de modo oposto, é gente como Fernanda – que existe aqui e acolá, aos montes! - que impulsiona, dá cartas, fornece margens, torna o capitalismo um gerador incessante das crises que a ele mesmo alimentam, dão vigor, incansável sobrevida?

Seria simplesmente uma dúvida provocada por uma bela narrativa literária... se não fosse, tragicamente, o impasse que nos aprisiona a um tempo de tanta dor, exploração, miséria e desamor – muito desamor, profundo desamor... Mais uma vez: leitura formidável, texto obrigatório, talento de gênio.