21 julho 2005

Quando crescer vou ser... sociólogo!

O que ser quando crescer? Bom, quando crescemos - e isso vem se tornando cada vez mais difícil num mundo que faz de tudo para nos impedir o amadurecimento, a sensibilidade e a experiência -, queremos ter uma profissão. Mais do que uma escolha, trata-se de querer saber nosso lugar no mundo, nossas chances e nossas possibilidades de interferir no rumo das coisas, do mundo e da vida das pessoas (sem fuxicos nem invasões de privacidade, é claro). Uma profissão revela sempre uma visão de mundo, uma perspectiva da vida e da história. O que dizer de quem escolhe a carreira de Sociólogo? O que é a Sociologia? Na visão mágica do universo infantil, parece ser mais fácil e interessante, além de mais claro e preciso, criar um instrumento de resposta para tão inquietantes questões.
Escolher uma profissão – quando nos é dada essa oportunidade – é um grande desafio. Existem muitas implicações e influências, desde as familiares, passando por nossas experiências na vivência escolar e no conjunto de nossas amizades e relações sociais variadas, até as inúmeras formas de apelo e sedução praticadas pelos meios de comunicação social de massa. Fato é que, no momento mesmo da escolha, deparamo-nos com dúvidas e incertezas de todos os tipos.

O que dizer de quem escolhe a Sociologia como carreira? O que é e para que serve o sociólogo? Essas são apenas algumas das várias questões que a mim já foram dirigidas por conta de ter sido eu um dos que escolheram a Sociologia como senda, como imenso caminho a percorrer.

Confesso que, não obstante toda a minha paixão pela Sociologia (ciência e estilo de vida que professo durante as 24 horas de todos os meus dias), sempre tive dificuldade para responder a esse tipo de questão. Não que eu não tenha conhecimento das atribuições, das possibilidades, das responsabilidades e, principalmente, das limitações da condição de sociólogo. Não. O problemas é responder a essas questões com objetividade, clareza e concisão, permitindo que as pessoas interessadas e tomadas por intensa curiosidade sobre o assunto – em especial, as mais jovens – possam de um modo abrangente e verdadeiro inteirar-se da profissão, dos seus encantos e promessas, das suas inevitáveis frustrações e impossibilidades.

A jornalista Elisa Martins, para a Ciência Hoje das Crianças, na edição de outubro de 2002, no pequeno e brilhante artigo “Quando crescer vou ser... sociólogo”, inundou-se de felicidade ao responder com todos os critérios de clareza e precisão as questões que recheiam de dúvidas e curiosidades a vida do sociólogo, os caminhos da Sociologia. O texto, certamente, não esgota o assunto, nem para o bem, nem para o mal, mas serve de breviário, de panorama para que se possa compreender melhor essa carreira pela qual tantos optam e em relação à qual tão poucos tem nítida apreciação, verídica apreensão, clara postulação.

É bem provável que, ao falar às crianças, o texto apresente qualidades que nós, adultos, efetivamente não temos ou perdemos ao longo do processo de maturidade, tais quais olhar o mundo com encantamentos de esperança e “choque” de deslumbrados, no melhor dos sentidos que essas expressões possam ter, carregar consigo.

Se fizéssemos como Elisa Martins, ou seja, se tentássemos responder a tudo com a simplicidade que as crianças exigem nas suas tão intrigantes questões, teríamos uma visão de mundo mais clara, mais humana, muito mais solidária e curiosa. Lembrando que é da curiosidade do jeito criança de ser que nascem grandes idéias, grandes sonhos, alternativas justas e concretas para um mundo adulto tão complexo, ora difícil e insuportável, ora incerto e caótico. Bom, ser sociólogo, parece-me, começa por voltar a ser criança, aprendendo com elas os três fatores básicos da vida: humildade, responsabilidade e compromisso com a felicidade e o bem-estar de todos! Um mundo feliz em que se possa brincar sem medo, sem mandatários nem opressores; um mundo, enfim, belo, curioso, imenso...

Quando crescer vou ser ... sociólogo!
Entenda como trabalha o pesquisador que estuda a sociedade humana

Na colméia, cada abelha tem uma função. A rainha põe os ovos que irão gerar operárias e zangões. As operárias são comandadas pela rainha e constroem os favos do ninho, fazem sua limpeza e alimentam as larvas. Já os zangões vivem apenas o tempo de fecundar a rainha. Mas como sabemos disso tudo? Não foi uma abelha que contou! Essas informações são descobertas por pesquisadores que vivem observando a natureza. Graças à curiosidade deles é possível saber como diversos animais se organizam e se relacionam, o que comem, qual a função de cada membro dentro do seu grupo... Enfim, muitos pesquisadores estudam a vida animal, mas será que alguém estuda a vida dos homens?

Sim, e esta tarefa cabe ao sociólogo! Ele estuda a sociedade, mais precisamente a sociedade humana, ou seja, um grupo de pessoas que vive no mesmo espaço e segue as mesmas regras. De acordo com sua área de interesse, ele pode analisar a sociedade brasileira ou a de outro país, ou ainda diferentes grupos dentro de uma sociedade: índios, mulheres, crianças, e por aí vai. A cada grupo que estuda, destaca como seus membros se relacionam, quais são suas diferenças, seus problemas, em que acreditam, o que consomem e como se organizam. Conhecer os costumes de cada grupo é o primeiro passo para compreender seu modo de vida e a sociedade humana de maneira geral.

Com esse objetivo, o sociólogo também faz trabalhos de campo, ou seja, vai até onde seu objeto de estudo está. "Para entender como a Polícia funciona, por exemplo, o sociólogo pode somente entrevistar alguns de seus membros ou até ingressar na instituição. É a chamada observação participante", explica Michel Misse, professor de sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Conflito Cidadania e Violência Urbana (NECCVU).

O que não falta é tema para ser analisado pelo sociólogo. Ele estuda instituições como a escola, a família, a Igreja, o governo e até fenômenos sociais como a pobreza e a violência. A intenção é sempre a mesma: entender o comportamento do homem em sociedade e acompanhar sua transformação com o passar do tempo. Assim como os temas de estudo, os locais de trabalho também variam. "O sociólogo pode dar aulas em colégios e universidades, ou ainda ser pesquisador em projetos específicos de empresas privadas, organizações não-governamentais, organismos públicos ou órgãos internacionais. Uma atividade não prende a outra", explica Michel Misse. Mas depois de entrevistas e pesquisas, como as informações conseguidas pelo sociólogo são utilizadas nesses tais projetos específicos em que ele trabalha?

Para saber, é só prestar atenção em um exemplo prático. Kátia Sento Sé Mello, por exemplo, é professora de sociologia da Faculdade Hélio Alonso (Facha-RJ), pesquisadora do NECCVU e também participa do projeto de criação de um curso para formar a Guarda Municipal de uma cidade. Neste trabalho, ela entrevistou guardas municipais e autoridades da Secretaria de Segurança Pública para saber o que eles esperavam do curso. O trabalho não parou por aí! Após analisar essas informações e fazer muita pesquisa em livros, foram selecionadas as disciplinas mais importantes a serem ensinadas no curso em questão. Viu só? O conhecimento das pessoas envolvidas teve grande utilidade nesse caso.

Quer ver outro exemplo? Imagine que uma empresa pretende lançar um produto qualquer e contrata um sociólogo. O que ele pode fazer? Ora, se o sociólogo conhece os costumes e os gostos da população local, pode, nesse caso, contribuir para que o produto lançado atenda às necessidades da população.

E será que basta gostar de fazer pesquisas, entrevistar pessoas e -- pronto! -- temos um sociólogo? Nem sempre. Michel Misse conta que para ser um sociólogo é preciso criatividade, gosto pela leitura e curiosidade pelos problemas sociais. O bom profissional também quer contribuir para a melhoria das condições humanas, é contra a injustiça e trabalha bastante. Kátia Mello também dá sua dica: "Quem pretende ser sociólogo deve acreditar que o conhecimento auxilia a transformação das pessoas".

E foi uma vontade de transformar o mundo que levou Michel e Kátia a fazerem faculdade de Ciências Sociais -- curso dividido em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, onde a escolha por uma dessas opções se dá no terceiro ano. Mas a vocação não vem da infância, não! Michel queria ser jornalista e Kátia pretendia cursar Letras. Na adolescência, o desejo de entender a sociedade em que viviam foi mais forte e -- pimba! -- viraram sociólogos. E a vontade de mudar o mundo, ainda existe? "É uma tarefa difícil, mas na sociologia vi que a melhor maneira de transformar o mundo é compreendê-lo e fazer os outros compreenderem também", confessa Michel. Kátia completa: "Continuo achando que é possível mudar o mundo, mas com esclarecimento". Está dado o recado! Se você sente o mesmo que eles, quem sabe não vai ser sociólogo quando crescer?!?

Ciência Hoje das Crianças 129, outubro 2002
Elisa Martins,Ciência Hoje/RJ