05 julho 2005

A vertigem das palavras em Luis Fernando Verissimo

Na contramão das tendências do momento, a escrita de Luis Fernando Verissimo é um bom combate ao conservadorismo tosco da imprensa brasileira. Mais do que um cronista de mão cheia, de sensibilidade aguçada e de lances desestabilizadores, Luis Fernando Verissimo é um autor completo e um legítimo representante do pensamento crítico em nosso país. Sua obra é síntese mais do que evidente e frutífera de como unir sucesso editorial e qualidade narrativa e temática. O filho de Érico Verissimo é, sem dúvida, uma das mais gratas presenças na vida literária brasileira, um exemplo de talento, bom-humor, coerência de princípios e autonomia intelectual. Um mestre.

Luis Fernando Verissimo é dos raros escritores contemporâneos que unem com tanto talento e máxima desenvoltura a crítica social inteligente e o humor. Suas crônicas semanais publicadas em dezenas de jornais Brasil afora são prova inconteste disso; sem falar, é claro, nas suas dúzias de contos, novelas e romances, todos sempre privilegiando o comportamento humano, a postura diante da vida cultural, dos padrões de uma sociedade que não se vê diante de um espelho embaçado e deformador de sua própria imagem. Um espelho, diga-se, que ela impõe sobre – contra? – todos os seus sujeitos constituintes.

Gaúcho, de Porto Alegre, Luis Fernando Verissimo nasceu em 1936 e é filho do consagrado Érico Verissimo, autor de algumas das mais importantes peças literárias de toda a história das letras em língua portuguesa. (Entre a vasta e indispensável obra do pai Verissimo, destaco, meio arbitrariamente – porque de preferências realmente muito pessoais – os seguintes livros: Olhai os Lírios do Campo (1938), Noite (1954), O Prisioneiro (1967) e Incidente em Antares (1971), além, é claro, da trilogia O Continente (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago (191/62), da fantástica série O Tempo e o Vento.)

Apaixonado por futebol e torcedor encantado do Internacional de Porto Alegre, o autor de “Comédias da Vida Privada” ingressou no mundo dos livros como escritor em 1973, com a publicação de “O Popular”, pela José Olympio, que reunia artigos que havia publicado na imprensa, em jornais como Zero Hora e Folha da Manhã. Além da paixão pelo esporte das multidões em todo o mundo, Luis Fernando Verissimo possui também requintado gosto musical. Amante do jazz e do blues, sempre esta à volta com amigos em jam sessions, tocando seu indefectível saxofone.

Em sua escrita, a crítica é ao mesmo tempo ácida e doce, serena e contundente. De letra ágil e profundamente elegante, Luis Fernando Verissimo tem um pouco do seu melhor expresso em livros como "Amor brasileiro" (1977), "Ed Mort e outras histórias" (1979), "O gigolô das palavras" (1982) e "O suicida e o computador" (1992), entre tantos outros. (Mais uma vez, a lista apresentada é arbitrária, porque fruto de minhas leituras e preferências da obra desse gaúcho tão instigante e talentoso.)

Foi provavelmente em 1981, quando publicou “0 Analista de Bagé”, que Luis Fernando Verissimo atingiu o grande público e uma permanente posição de destaque como um dos mais vendidos autores brasileiros. O sucesso desse livro perdurou nos rankings de best-sellers de toda a década e deu ensejo a sucessos posteriores também muito expressivos, como todas as “Comédias da Vida Privada”, estas adaptadas até para a teledramaturgia da Rede Globo, em horário nobre, no início dos anos 1990.

Desse escritor de fala tranqüila e de timidez assumida (sem, contudo, ser avesso a aparições públicas e midiáticas, como é o caso de seu amigo, mestre Rubem Fonseca) reproduzo abaixo uma crônica que considero deliciosa e muito oportuna ao momento atual de nossa história social, em que os fenômenos de violência e de exploração da condição humana vêm ganhando contornos expressivos e cada vez mais preocupantes. Em “Provocações”, Verissimo discute, com o habitual bom-humor e a lancinante percepção de nossa sociedade, uma história que poderia ser a nossa, de qualquer das pessoas que conhecemos, muitas vezes renegamos, ignoramos.

Ler Verissimo hoje é caminhar na contramão do tráfego hegemônico das ideologias conservadoras, estranhamente em voga num tempo de tantas distorções e de tantos abismos na vida pública e no dia-a-dia de cada cidadão em todo o mundo. É um exercício de raro prazer, sem dúvida alguma, poder refletir com Luis Fernando Verissimo sobre o tema que essa deliciosa crônica atravessa. Mais do que prazeroso, é um exercício necessário para que possamos exorcizar tanto conservadorismo tosco, tantas guinadas à direita e crescente e indecifrável insensibilidade quanto a problemas que, faz séculos, estigmatizam e tornam tão difícil a vida no mundo atual. É ler, pensar e nunca deixar de agir para a realização de seu reverso.

Provocações

A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida.

Não pôde ir à escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

- Violência, não!

[Luis Fernando Verissimo]