20 dezembro 2006

Mais de 2000 visitas, uma odisséia na Terra...

Desde o início de 2006, quando prometeu um tom mais intimista em seus posts - algo diferente da postura teórica, biográfica e descritiva que o acompanhou em 2005 -, o "Espaço de Cultura Socialista" tem procurado reunir poesia, imagem e palavra proseada em sua defesa da história das idéias socialistas, de esquerda, humanistas. Agora, já a ultrapassar 2000 visitas, este blog se sente bem, ciente de estar a desempenhar bom papel, corroborando de fato a construção de um canto novo de debates e exposição de valores e juízos. Para 2007, mudanças também já estão planejadas.
Antes de mais nada, haverá mais espaço para poesias e fotografias, para as mídias que hoje julgo extremamente condinzentes com a realidade, com todas as tentativas de destrinchá-la, lançar-lhe olhar e palavra críticos, irredutíveis ao conformismo, ao situacionismo dos cínicos de plantão. Os textos, planejados em grande escala para o próximo ano, serão de contextualização histórica, de memória e de resenhas artísticas e culturais, focando CDs, livros, espetáculos e ocorrências da vida política, social e econômica no Brasil e em todo o mundo. Haverá, pois, menos espaço reservado a textos de outros veículos de comunicação.
Esteticamente as mudanças já estão no ar. O site está mais clean (fundo branco, textos mais "soltos", imagens escolhidas a dedo para contrabalancear idéias e intenções). Além dessas mudanças, toda a parte direita do blog será destinada a parceiros - decerto, não comerciais! -, frases, obras de arte e agenda de eventos e fenômenos da vida cultural.
Bom, neste final de ano, entre as festas de Natal e Ano Novo, o "Espaço" sofrerá alguns testes estéticos e, eventualmente, terá inseridos novos posts, muitos dos quais poderão ser temporários. Nesse ensejo, como blogueiro deste cybermundo tão especial a mim mesmo, desejo a todos os amigos e parceiros um final de ano receptivo a grande reflexões e planos para um 2007 mais bonito, humano, fraterno, cheio de possibilidades para todos nós. É isso.

17 dezembro 2006

Renovar para Conservar

por Marco A. Rossi

Tomos
Um que ficou longe, veio de longe, resolveu regressar
Outro no prelo
a sair já, já, daqui a pouco
Não há arrependimentos
dores, frustrações
Tão-somente o desejo
de voar, ir além, compor uma nova canção

De verso em verso
Na prosa que navega pelas palavras
umas minhas, outras de meus espelhos
sigo em frente, escrevendo, na contramão
contando histórias, narrando eventos
criticando, condenando o real
Propondo sublimações

Em cada olhar atento
a desatenção de minha alma anarquista
Com muito amor, desapego e ternura
propondo a primazia da contradição
Tenho dito sempre
Minha pátria é o mundo
Meu povo, a humanidade

Desatocaiei meus instintos
Hoje eles vivem soltos em sua prisão
no espaço e na prerrogativa de seus martírios
de minha dor
de todo o meu desalento
Sigo adiante, sem devaneios nem loucuras
Vivendo de pura, ousada imaginação

Imaginação, sim, sim
Que me faz poeta
Que me faz escritor, professor
homem das humanidades
Que me permite defender sempre a já tão sentida ausência...
Da ESPERANÇA

12 dezembro 2006

Dezoito Anos Sem Chico Mendes

Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes (1944 - 1988) - na foto com o filho Sandino -, líder sindical e seringueiro responsável por universalizar a questão amazônica, principalmente aquela que diz respeito à situação de espoliação e miséria dos povos da floresta setentrional brasileira. Ao anoitecer de 22 de dezembro de 1988, faltando poucos dias para o belo natal acreano, Chico foi covardemente assassinado, com tiros nas costas, "atocaiado" em sua cidade natal, Xapuri, no sudeste do Acre... A vida, a memória e as lições que Chico Mendes nos deixou, contudo, persistem vivas, intensas e suaves como sua fala, sua luta, o mundo que sonhou para todos nós.
Seringueiro


de Zé Geraldo, em homenagem a Chico Mendes (Álbum Viagens e Versos, 1989, Gravadora Eldorado)

Muita dóno pio da jaó
Bem-te-vi viu primeiro
Tratou de avisar o mundo inteiro
só não pode evitar
que um golpe traiçoeiro
derrubasse o mais forte seringueiro

Chora rio
desafoga cachoeira
Sai no bico da torneira
o choro de um coro
de curiós e juritis
acompanhando o canto da perdiz
Como era verde o meu País

29 novembro 2006

ESPERANÇA

por Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.

23 novembro 2006

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

Mario Quintana

09 novembro 2006

Paráfrase da vida, ritmo da esperança

João Gabriel, o JOTA, meu filho, redenção de minha vida, projeção de minha história. Nascido a 6 de novembro de 2006, sob o signo interminável da força e da esperança


Ele é como um sonho bom
Um lindo toque a me despertar
Ele irá caminhar,
LIVRE,
ser feliz e amar!

Da liberdade poética da canção de Baby e Pepeu

30 outubro 2006

Sonhe...

"Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância
das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre."
Clarice Lispector

21 outubro 2006

Verdadeiramente amar...

VLADIMIR MAIAKOVSKI (1893-1930)
Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme
fiel
e verdadeiramente.

20 outubro 2006

O Anel de Tucum

Muita gente (alunos, colegas e até familiares) me pergunta o que significa a "grossa argola" negra que carrego no anular da mão direita. Bom, imaginando que mão e dedo não interferem no significado do anel de tucum (esse é o nome da tal "argola"), costumo responder que se trata de minha opção pelas lutas populares, pelas classes subalternas. Trata-se, pois, de uma aliança popular, de um pacto de honra e determinação por fazer tudo que estiver ao meu alcance, como indivíduo e como ser social, para levar adiante a reivindicação de direitos e a esperança por um mundo realmente humano e fraterno. Na explicação que publico abaixo - encontrada sem autoria nas venturosas páginas da rede mundial de computadores e sensivelmente editada por mim - está a origem histórica e religiosa dos grandes pactos, das grandes alianças... E também alguns emblemas para refletir sobre a força e a importância do anel de tucum , que carrego no dedo e, principlamente, no coração, na ação cotidiana apaixonada...

Eram diversos e variados os rituais para celebrar uma aliança. Os mais simples eram: apertar a mão um do outro, dar um presente, trocar de veste ou de armas. Os mais profundos eram: beber ou misturar o sangue um ao outro, ou imergir a mão numa bacia de sangue; às vezes cortavam-se animais sacrificados e passava-se entre eles (cf Gen 15-17; Jer 38,18). O sentido desse gesto é que os aliados aceitavam a sorte de tais animais, caso quebrassem a aliança ou não cumprissem sua obrigações. Daí o papel importante desempenhado pela aliança tanto na vida privada quanto na vida pública entre os povos que viviam em organização tribal.

Conforme a tradição bíblica, Deus celebrou várias alianças com seu povo ao longo da história, culminando na pessoa de Jesus de Nazaré. Desde então os seus seguidores passaram a falar em antiga e nova aliança. Assim como a antiga aliança foi constituída pelo sangue dos animais sacrificados (Ex 24,8), a nova aliança foi constituida pelo sangue de Jesus Cristo (Heb 9,11-20;10,1-18).

No rastro dessa tradição, renasce o simbolismo da Aliança no Anel de Tucum, extraído de uma palmeira da Amazônia, cheia de espinhos, o símbolo do compromisso e da aliança com as causas dos oprimidos, excluídos e marginalizados - e sua lutas por libertação.

Foi na década de 70 que o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) adotou e divulgou o Anel de Tucum, hoje usado no mundo inteiro por quem assume a luta pelas causas populares, misturando-se com a sorte dos pobres da terra.

Esse símbolo foi bem escolhido, pois assim como é penoso fazer o anel de tucum, também é árdua a luta por dignidade, vida, esperança e paz.
O cantor e compositor Rubinho do Vale possui uma belíssima canção que retrata muitíssimo bem o sentido da aliança expressa pelo anel de tucum. Vejamos a letra de "Canção da Esperança":
A canção da esperança que vou anunciar
Vem como a luz do dia
Vem trazendo a aliança do céu com a terra e o mar
Tudo será harmonia
São notas musicais que o silêncio bonito traduz
Sentimento de paz vem de tempo infinito de luz
Toda a humanidade vai ver que a bondade
Na verdade é um grande dom
Esse tempo novo vai encantar o povo
Na certa quem viver verá que é bom
A canção da esperança que venho anunciar
Na linda luz desse dia
É o caminho da bonança bom pra gente caminhar
No brilho da harmonia
Com amor a justiça e a paz se abraçarão
A felicidade da fraternidade é união
Para ter clareza de toda essa beleza
É preciso abrir o coração
Nessa nova era de nova primavera
O meu canto é uma celebração

18 outubro 2006

"Agora voto em Lula" (Chico de Oliveira)

O sociólogo Francisco de Oliveira (USP) é um dos mais controvertidos e profundos intelectuais brasileiros. Autêntico e sempre muito coerente, o autor de "Ornitorrinco" (esse bicho estranho que se chama Brasil) defende idéias polêmicas, porém inteiramente enraizadas na cultura política brasileira e na própria formação social de nosso país. Discípulo e aprendiz de Celso Furtado, defendeu, nos anos 90', estudo extremamente interessante sobre os direitos do antivalor, que nada mais é do que o necessário fundo público para o desenvolvimento igualitário e humanista das sociedades pelo gerenciamento coletivo dos investimentos previstos sob responsabilidade de governos e Estados nacionais Mais do que isso: rompeu, ainda em 2003, nos primeiros meses do Governo Lula, com o PT e a opção do partido que ajudou a fundar e a construir pela temática da transição, isto é, no PT, nas disputas internas, abriu-se mão de um projeto de país em nome da política econômica então - e ainda! - em curso. Tal opção permitiu a Chico de Oliveira alguns vaticínios jocosos: "O Governo Lula é o terceiro mandato de FHC". A despeito das fortes críticas que tem feito ao PT e ao Governo atual - o que o levou a fundar o PSOL e a integrar abertamente a campanha da Senadora Heloísa Helena na corrida 2006 para o Planalto Central, Chico de Oliveira diz que agora, no Segundo Turno, vota em Lula, contra o privatismo elitista da inexpugnável aliança PSDB/PFL e pela luta por uma sociedade que cobre, cobre, cobre muito de um segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Abaixo transcrição na íntegra de entrevista dos sociólogo Fracisco de Oliveira para o professor e chargista Gilberto Maringoni e também para Flávio Aguiar, publicada na Agência Carta Maior (Marco A. Rossi)
Para sociólogo filiado ao PSOL, campanha pelo voto nulo é um equívoco. Um futuro governo Alckmin representaria um aprofundamento das privatizações de FHC. No caso de Lula, “apesar de não esperar alterações na política econômica, há espaço para mudanças”, diz ele.

Flavio Aguiar e Gilberto Maringoni - Carta Maior

SÃO PAULO – Chico de Oliveira, 72 anos, é um dos mais respeitados sociólogos brasileiros. Pernambucano de Recife, ele é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da mesma faculdade. É autor, entre outros, do hoje clássico “Crítica à Razão Dualista/O ornitorrinco” (Boitempo). Co-fundador do PSOL depois de ter deixado o PT no ano passado, Chico fala nesta entrevista dos impasses do governo Lula, das diferenças de projetos entre as candidaturas do PSDB e do PT e explica porque, depois de votar na senadora Heloísa Helena, agora vai de Lula. A seguir, os principais trechos de sua entrevista.

Carta MaiorO que está em jogo nestas eleições?

Chico Oliveira – Há duas coisas em disputa. Há uma corrida feroz em direção aos fundos que o Estado ainda controla, como os recursos do BNDES e do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). O BNDES é o maior banco de investimentos do mundo e deixa bem para trás o Banco Mundial. O Estado orienta os fundos de pensão. E há disputa pelos benefícios gerados a partir da dívida pública, que beneficiam cerca de 20 mil famílias, segundo pesquisa do professor Márcio Pochmann, da Unicamp. Essas 20 mil famílias lucram com a dívida pública, mas não a gerem. Que gere é o Estado. A diferença maior entre as orientações de Lula e de Alckmin, em termos amplos, é que o segundo promoveria uma privatização acelerada do que resta de ativos em mãos do estado. Lembremo-nos que, segundo os levantamentos de Aloysio Biondi, em dez anos, entre os governos Collor e FHC, privatizou-se cerca de 15% do PIB.

CMMas não há uma continuidade do projeto do governo FHC na gestão Lula? Qual a disputa real?

CO – A continuidade faz parte da disputa pela hegemonia na sociedade. Se nos lembrarmos da lição gramsciana, hegemonia é 80% consenso e 20% violência. Há um projeto em andamento na sociedade, que atrai os setores do topo e os setores miseráveis e o povão. Se Lula tem esse projeto político na cabeça, trata-se de um gênio político. Eu acho que ele não tem, pois age muito mais por intuição do que por planos pré-definidos. Ele atua levando as práticas do movimento sindical para uma esfera maior. Como se trata de disputa de hegemonia e não de uma revolução, é natural que ele não queira acirrar os ânimos em muitas situações de conflito. Ambos – PT e PSDB - têm projetos capitalistas, mas diferentes em sua forma.

CMA elite não tem como suportar a chegada do povo sequer aos jardins da casa grande, não?

CO – Não, porque construímos um país de desigualdade abissal. Com uma situação dessas, só é possível exercer a dominação de classe sem mediações. Por isso nós tivemos, na média, durante o período republicano, um golpe ou tentativa de golpe a cada três anos. As próprias classes burguesas estão a uma distância muito grande do povo. Nessa situação, o sistema político e os partidos perdem totalmente seu sentido. Isso explica muito a aliança de Lula com Jader Barbalho, os elogios feitos a Delfim Neto e outros. É claro que os movimentos circunstanciais explicam esse tipo de aliança. Mas ela está construída num projeto mais amplo. Talvez o projeto não esteja pré-definido e venha sendo construído pelo Lula intuitivamente. Quando ele afirma ficar chateado pelo fato de os ricos não gostarem dele, está expressando esse projeto de hegemonia, de ligar dois extremos sociais. A aproximação com o Jader está dentro disso.

CM - Como o sr. vê a mudança tática que o Lula fez nas duas últimas semanas de campanha? Ele conseguiu sair do terreno que o Alckmin queria colocar o embate – o do moralismo – e passou para o da política, através do debate das privatizações.

CO – Sem dúvida ele é um tático muito bom, não sei se é um estrategista. Não sei se ele tem, alguma coisa mais consistente por trás. Se tiver, repito, trata-se de um gênio político. Mas acho que tudo funciona através da intuição.

CMCom tudo isso, por que considerar a possibilidade de se votar em Lula no segundo turno?

CO – Acho que a reeleição é uma nova eleição. Os espaços que tínhamos em 2002, de outra forma, voltam a se apresentar, como a questão das privatizações. Esse era um tema proibido durante o governo Lula e ainda mais na era de FHC. Os que dissentiram foram marginalizados. Por que esse tema volta agora a ser central? Por que se abre uma nova disputa. Por isso, eu considero a possibilidade de se votar em Lula. Várias forças que atuaram dentro do PT voltam a ter chance de disputar esse governo. Estou disposto a voltar a correr esse risco, embora o governo não me agrade, seja capitalista e poderia ter avançado muito mais.

CMComo o sr. vê a campanha pelo voto nulo?

CO - Acho um equívoco e não por questões morais. Há um espaço que pode se alargar. Há diferenças entre o governo Lula e um possível governo Alckmin. Não espero mudanças na política econômica, ela continuará mesma. Mas há uma pequena chance de mudança. Por isso voto em Lula agora. E devemos usar oportunisticamente o fato de Lula precisar de votos agora, para colocar reivindicações que seu governo soterrou. Temos de atacar pelo lado social.

CM - O sr. filiou-se ao PSOL e seu partido tem outra posição...

CO - Há um equívoco no PSOL neste caso. Votei no primeiro turno em Heloísa Helena. Mas logo ela começou a desandar. Ela perdeu o voto de minha mulher quando, numa entrevista para a Globo disse, sobre o tema do PCC, que multiplicaria por dez o número de prisões. Minha mulher virou-se para mim e disse: “Aqui acabou meu apoio”.

CMQue mudanças o sr. Espera de um futuro governo Lula?

CO - Se depender apenas das forças que apóiam Lula e da dinâmica que ele ganhou em quatro anos, não haverá mudança. Dependerá de nós, de um impulso vindo de fora.Há uma crença arraigada no Brasil de que é nos manches do estado que as coisas se solucionam. Em parte é verdade. Mas para se realizarem mudanças reais é necessário ativar a sociedade civil. Temos de incentivar muita coisa para influir. Não gosto muito de usar a expressão “movimentos sociais”, porque, fora o MST, não sei onde eles estão. Temos literalmente de encher o saco de um segundo mandato de Lula. Não podemos deixar em paz um próximo governo Lula. Se ele conseguir realizar seu projeto hegemônico com as orientações atuais, o futuro será sombrio. Teríamos de construir uma plataforma mínima, com alguns pontos básicos, como dar ao Bolsa-família o status de emenda constitucional e entrega-la à Previdência social, um dos órgãos públicos mais sérios deste país. Nas privatizações, há que se auditar e reestatizar algumas atividades. Mas eu não quero colocar condicionalidades para a votar em Lula, porque ele não vai ligar para isso. Precisamos é de uma pauta para orientar nossa ação.

15 outubro 2006

O instante de parar... para voltar melhor!

Saber para onde olhar é vital, principalmente nos instantes em que se exige tanto da atenção, de nossa percepção da vida e do mundo. Um momento mágico de simples contemplação pode aliviar a quente temperatura de desejos estranhos e o frio de dores indesejadas. Na foto acima, o fotógrafo Paulo Medeiros dá aula de sensibilidade ao captar olhar fugidio em Açores, ilha portuguesa. A imagem é de 10 de outubro deste ano. Pura beleza! (Marco A. Rossi)

Codinome Beija-Flor

de CAZUZA

Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou...

Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos, beija-flor

Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
Não responda nunca, meu amor
Pra qualquer um na rua, Beija-flor

Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador
Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor

12 outubro 2006

Mundos divergentes

por Marco A. Rossi
(em homenagem aos passeios românticos de certas manhãs)

Houve certo vazio
Frenesi, ansiedade, não sei bem
Olhei e percebi ter sido visto
O mundo caiu diante de meu delírio, seios, formas, cores

De soslaio vi pontes, construí estradas imaginárias
e pinguelas
e passagens
Vi então um novo mundo nascer - daquelas ruínas
daquele desabamento
daquele olhar discreto porém perfurante, cheio de expectativas

Palavras, sons, voltas e mais voltas
café
suco
vontade de fumar
extravasar
ousar
gozar

Escrevo alguma coisa - o tempo já é presente?!
Ouço uma canção
O corpo se agita, dá o tom
Me diz que devo partir - em direção ao Sol
Com grande escala pela Lua
e pelo luar
por um luau

Muitas impressões - o tempo já seria futuro?!
Nada certo, nada, nada em perspectiva
O mundo que caiu e o mundo novo que surgiu
se chocaram
se estilhaçaram
fraturaram minha consciência
Traumatismo reflexivo por tempo indeterminado
Ainda há tempo?!

Sigo, se não em frente, por vielas
uma de minhas pinguelas, estradas imaginárias
Interverto meu coração em estação
Adormeço
Amanheço tomado por beijos de minhas alucinações
Sou só sensações

11 outubro 2006

Gilberto Maringoni, oPuSDei...B


Charge do cartunista Gilbero Maringoni (parceiro do nosso "Espaço"), publicada ontem, 10.10.2006, na Agência Carta Maior. Para quem sabe do que se trata, nada mais pertinente; para quem ainda não buscou boas informações a respeito da Opus Dei, julgo necessário fazê-lo...

Os indiferentes, de Antonio Gramsci

A indiferença de nossas classes intermediárias, na definição já clássica formulada pelo sociólogo estadunidense Charles Wright Mills, pelos mais pobres - resvalando pelo descaso e pela crueldade -, é signatária das profundas desigualdades sociais existentes em todo o mundo. A foto acima, de 04 de outubro deste ano, de imagem muitíssimo bem capturada pelas lentes de Sérgio Afonso no centro de Luanda, Angola, desnuda as favelas arranha-céus que ocupam os espaços urbanos de médias e grandes cidades em países de todos os continentes. O texto de Antonio Gramsci sobre o ódio às práticas individuais e coletivas de descaso e indiferença dá-nos pistas, elementos para uma reflexão necessária a respeito do mundo que temos construído (Marco A. Rossi)
Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.
Publicado em "La Città Futura", 11-2-1917

04 outubro 2006

Pro dia nascer feliz, quando parece impossível...

O cineasta e documentarista João Jardim, autor do fascinante "Pro dia nascer feliz", que revela e desnuda toda o processo de formação educacional no Brasil, com suas tristes limitações/deformações constituintes e, como paradoxo, com todas as suas possibilidades de reconstruir o Brasil e os brasileiros (Marco A. Rossi).

por Sérgio Domingues, da Mídia Vigiada
O documentário “Pro dia nascer feliz” de João Jardim é sobre as péssimas condições do ensino no País. Uma obra que tinha tudo para deixar os espectadores pessimistas sobre o futuro de nossos jovens. Mas, consegue arrancar luz de tanta escuridão e nos faz esperar um final feliz.
O filme começa no município mais pobre de Pernambuco. É Manari e a escola pública do local está caindo aos pedaços. O diretor tem cerca de R$ 600,00 mensais para dar conta de suas despesas. Os alunos vêm de longe, mas nem sempre chegam. Os ônibus quebram com freqüência. Mas, em meio a essas dificuldades, é possível encontrar a jovem Valéria, que lê Vinícius de Moraes, Bandeira e Drummond. Escreve belos textos, mas recebe notas baixas de professores que acham que ela apenas faz cópias.
Em Duque de Caxias, município do Rio de Janeiro, um adolescente negro está na corda bamba. De um lado, o estudo difícil e chato em uma escola pública com salas lotadas. De outro, andar com uma arma na cintura e comprar roupas da moda para impressionar as garotas em troca do trabalho para o tráfico de drogas. Um centro cultural do local tenta fazer a diferença oferecendo a ele a oportunidade de fazer música com tambores. Consegue afastá-lo do crime, mas não o retira da corda bamba.
Em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, outra menina com sensibilidade literária descobre que pode transformar sua tristeza em poesia. Uma jovem professora da escola pública local reclama do stress de dar aulas para alunos sem motivação e agressivos. Num bairro rico de São Paulo, aparecem quatro adolescentes, alunas de um colégio caríssimo. Entre outras coisas, elas discutem como sair da “bolha” em que se transformou sua condição privilegiada. Bem informadas, elas sabem que o País é vice-campeão em injustiça social. Têm um vago sentimento de culpa que as faz querer se aproximar dos mais pobres. Sair da “bolha”. Mas, como fazê-lo? Usar a caridade seria reforçar a relação de desigualdade. A clareza dessa situação pesa sobre elas.
Rica, inteligente, informada e prisioneira da alienação
O filme acompanha o sistema educacional brasileiro desde a miséria sertaneja, passando por diversos níveis de pobreza até chegar ao ensino dirigido aos filhos das famílias mais ricas do País. Mostra que em todos esses níveis é difícil ver alguma coisa que possa ser chamada de pedagogia . Ou seja, a formação de indivíduos capazes de desenvolver seus potenciais criativos, profissionais e sociais. Claro que isso não seria novidade no sertão nordestino e nas periferias violentas das grandes cidades. O que assusta é que entre os ricos, isso também é verdade.
Uma das adolescentes bem nascidas fala da depressão que ameaça fazê-la perder o ano escolar. Outra, chora porque cobra demais de si mesma. Diz que nem se trata de resultados. “É o processo que conta”, diz ela. Uma fala que deixa ver a alienação em seu estado mais puro. Alienação não é só desinformação ou indiferença em relação à vida social. Ela estuda com os melhores professores. Tem acesso aos melhores instrumentos didáticos e formas de comunicação. Faz natação, inglês, especializações. Mas, ficou prisioneira “do processo”. Não sabe para que tudo isso serve.
Outro problema grave é a relação com os pais. Da filha mais pobre à menina rica, as dificuldades em receber carinho e atenção paternos estão muito presentes. Durante o século passado, a família mudou. “Desestruturou-se”, como dizem os especialistas. O mercado absorveu mães e pais. A sobrevivência, da mais básica à mais sofisticada, os afastou dos filhos. Por enquanto, há um vazio no lugar.
O mesmo aconteceu com a escola. Uma professora lúcida fala no filme que a sala-de-aula é muito chata, comparada ao mundo lá fora. Da vida perigosa de bandido do morro às baladas da noite paulistana, o quadro negro, os livros e a voz da professora são um tédio sem fim. Muita coisa que parecia tão sólida se desmanchou no ar. O pior é que os ritmos são diferentes. Para os mais pobres, a vida adulta chega antes. Seja pelo elevado índice de adolescentes grávidas, seja pela entrada precoce no mercado de trabalho ou na vida cruel do crime. Por outro lado, os mais ricos esticam a difícil passagem para a maturidade, se especializando academicamente ou apenas desfrutando das diversões que o dinheiro fácil oferece. De qualquer maneira, isso pode acabar sendo traumático para ambos os casos.
Cuidar de plantas e doentes
Claro que a fragilidade material dos mais pobres os expõe a um risco social muito maior. As garotas ricas com dilemas existenciais fazem parte das 5 mil famílias brasileiras (0,01% da população) que possuem patrimônio equivalente a 40% do Produto Interno Bruto do País. É o que diz o “Atlas da Exclusão Social” (Editora Cortez, 2004) sobre os ricos brasileiros. Sofrer de depressão não é exclusividade dos mais ricos. Mas, entre eles, o acesso à ajuda terapêutica e muito maior. Os jovens ricos também quase não são atingidos pelo fato de que pouco mais de 4% do PIB foi investido em educação pública entre 1998 e 2002, quando seria necessário investir, pelo menos, o dobro disso. Aí, a tragédia é muito real. O filme fala de uma garota pobre que mata outra a facadas na escola. Diz que o fez porque “pra menor, matar não pega nada”.
Adolescer em espanhol quer dizer sofrer dor. A origem grega da palavra “pedagogia” também quer dizer “cuidar de uma planta ou um doente”. O que vemos de alto a baixo na educação brasileira está longe de ser capaz de cuidar de seres tão delicados e cheios de dor como filhos e filhas adolescentes. O documentário mostra isso de forma muito clara. Leva o espectador sensível à beira do desespero. Mas, então, mostra a capacidade desses jovens de arrancar-se ao abismo.
A talentosa e pobre Valéria, a rica e sensível jovem depressiva, o adolescente tentado pelo crime na periferia. Todos eles mostram-se capazes de se manter acima da linha d´água, ainda que estejam longe da margem segura. Vivem “por um triz”, como diz a música de Cazuza que inspirou o título do filme. Nenhum deles merece o que estão passando. A luta contra a desigualdade é mais do que necessária. No entanto, a situação da educação em nossa sociedade é também a denúncia de que é viver nela. Trata-se cada vez mais de passar por uma máquina de moer sentidos e esperanças, até para quem nasceu em berço de ouro. Contra isso, viva a poesia da menina Valéria!
Setembro de 2006

02 outubro 2006

Democracia é maior que qualquer um de nós

Mário Covas, Lula e Brizola, na disputa eleitoral de 1989, quando Lula enfrentou Collor e... perdeu!
O segundo turno das eleições presidencias deste ano irá colocar o cidadão brasileiro diante de dois claros "projetos" de país...
O primeiro desses "projetos" (um retorno indesejável) exige que a esquerda colija forças para lutar contra a retomada daquilo que já foi por cá reconhecido como a "quase-hegemonia" tucana (e daí as decorrências inevitáveis: privatização do Estado e da sociedade; desmantelamento total de políticas públicas de inclusão e emancipação social; inviabilização de um projeto nacional de participação popular por meio da criação permanente de canais de comunicação entre sociedade civil e governo etc., etc., etc...). No poder, Fernando Henrique e Geraldo Alckmin, na guarida açucarada do discurso excessivamente melado e moralista, pacturam com toda a turma da Daslu, com os responsáveis pela banalização do Estado e da participação cidadã... O PSDB, na aliança sensacional que sempre estabelece com o inodoro PFL e o indefectível PPS (!?), promove o neoliberalismo sem fronteiras nem porteiras; adula os donos do assim chamado "enxugamento" da máquina (que serviu para a criação de uma hiperestrutura de corrupção ainda mais estruturante de nossa cultura do que o vergonhoso e violento passado colonial que nos condiciona, abastece, empobrece...)
O outro projeto visa a contemplar movimentos sociais, distribuir riqueza, dar feição ao Estado, à sociedade e à interação dinâmica desses dois elementos constitutivos daquilo a que Antonio Gramsci chamou "Estado ampliado", ou seja, sociedade civil + sociedade políica - isso para desenhar a melhor das inspirações de uma atuação social verdadeiramente dialética!
Contra a possibilidade de a esquerda brasileira tornar-se por período longo e indeterminado refém das (in)decisões tucanas, privatistas, retrógradas e voltadas para o grande capital finaceirizado dos bancos e da exclusão social - e contra o desdém midiático em relação a tudo que venha a cheirar a igualdade, distribuição de renda, participação popular, educação, consciência... - o "Espaço de Cultura Socialista" se posiciona abertamente em favor da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. E o "Espaço"... convida: vamos juntos refletir sobre a realidade e, ainda mais unidos, no próximo dia 29 de outubro, votar 13, votar Lula Presidente.
Abaixo, belíssimo texto do filósofo Renato Janine Ribeiro que elenca boas razões para votar em Lula. Ao pleito!

Eleição não é luta do bem com o mal. É comparação. Voto em Lula porque, a meu ver, seu governo melhorou o Brasil. Ele recebeu o país com uma agenda ditada pela direita, que reduzia quase tudo à política econômica, ou pior, à monetária e à fiscal; um país que, no fim de 2001, não cumpria mais o Orçamento, sem dinheiro nem para pagar passagens de ministros, com o dólar a R$ 4 e um risco-Brasil enorme. Ora, o governo de centro-esquerda foi capaz de acalmar a economia, de baixar o risco, de aumentar as exportações, enfim, de cumprir uma agenda econômica que não era sua prioridade, nem a dos movimentos populares, e isso sem privatizar nada, sem desfazer o patrimônio público.

Mais, ainda: Lula colocou na política brasileira, de modo definitivo, uma agenda social importante. E com êxito. Segundo Maria Inês Nassif ("Valor Econômico", 24/8), o maior rigor em programas como o Bolsa-Família e os do Ministério das Cidades "desintermediou o voto da população pobre, que antes passava pelo chefe local". Se isso é certo, não há paternalismo na atual política de promoção social.

Não adianta ficar inventando que Lula se proclamou "pai dos pobres". Alguns jornalistas dizem isso, mas nunca informam quando o presidente teria usado uma linguagem tão contrária a suas crenças para se referir a si próprio. Tudo indica que há menos paternalismo agora do que antes.

É engraçado: quando se banhava de dinheiro o grande capital (empréstimos do BNDES a juros baixos para privatizar estatais), a opinião dominante chamava isso de progresso, mas, quando se dá dinheiro aos mais pobres, para comerem e se vestirem melhor, a mesma opinião dominante entende que dinheiro nas mãos de pobres não presta.

Discordo disso.

Quero uma sociedade democrática. Isso significa, em primeiro lugar, o fim da miséria, a redução da desigualdade social. No horizonte político brasileiro, não vejo força melhor que a coligação de esquerda para promover esse salto qualitativo. Ela tem sido capaz de melhorar as condições sociais com uma temperatura baixa de conflitos, ao contrário do que diziam seus detratores. O país não pegou fogo. O saldo do governo é positivo: a questão social está sendo bem orientada.

Agora vamos à questão ética. No governo atual o procurador-geral não engaveta processos, a Polícia Federal age, CPIs funcionam. Já seu principal adversário impediu 60 CPIs de funcionar na Assembléia paulista, deixou uma política de segurança prepotente e ineficaz (porque acabamos sob o domínio do PCC) e uma política de educação que não é das melhores. Eleição é comparação. Não vejo no governo Alckmin superioridade ética sobre o governo Lula.

Contudo, há satisfações que o PT deve à sociedade. Os escândalos mostram que ele é um partido mais "normal" do que imaginava ser. Humildade não faz mal. O PT tem seus defeitos. Deve contas ao Brasil. Tem de fazer uma faxina interna e punir quem errou. Mas, ainda assim, consegue governar melhor que os outros. Aliás, seria bom o país todo fazer um exame de consciência. Com o financiamento privado de eleições, a porta se escancara para a negociata. Deveríamos priorizar em 2007 a reforma política, com fidelidade partidária, condições mais equilibradas de financiamento às candidaturas e talvez até o voto distrital.

Uma eleição não é uma guerra. Amanhã e sempre, teremos de conviver, quem votou em Lula ou nos outros candidatos. Precisa cessar o terror discursivo, a ameaça ao voto universal. Este é o segundo ponto em que desejo uma sociedade democrática. Democracia significa respeitar o discurso do outro. Nas eleições, as pessoas se exaltam, mas é desonesto deformar o que o outro disse. Muito do que hoje se conta sobre o PT ou sobre quem o apóia, como eu, é uma enorme caricatura. Isso amesquinha a política, que deve ser arena de adversários, não de inimigos.

Esse clima envenenado não ajuda o de que mais precisamos, não nós da esquerda, mas nós brasileiros: construir alianças, trabalho em conjunto, convergências. A sociedade é maior que a política. O Brasil é maior que os partidos. A pequena ambição não pode erodir nossas oportunidades. Podemos enfrentar a miséria, melhorar a educação e a saúde, integrar os excluídos.

Penso que Lula é o mais adequado, hoje, para dirigir o governo neste rumo mas penso também que este tem de ser um projeto de sociedade, e não apenas de governo. Não estamos, hoje, terceirizando a solução de nossos problemas. Estamos elegendo o mais apto a dirigir um esforço que deve ser maior do que ele e do que qualquer um de nós.

RENATO JANINE RIBEIRO, professor de ética e filosofia política na USP, é diretor de avaliação da Capes e autor de, entre outras obras, "A Sociedade Contra o Social - O Alto Custo da Vida Pública no Brasil" (Companhia das Letras)

27 setembro 2006

O Mundo Pós-Moderno

Ao lado, capa do Livro de Terry Eagleton, "Marxismo e Crítica Literária". Eagleton é, hoje - e já faz algum tempo! -, um dos mais importantes e contundentes críticos do que se convencionou chamar de cultura pós-moderna. Em um de seus mais recentes livros, "Depois da Teoria", o ensaísta e intelectual estadunidense tece ácidas críticas ao desmanche cultural, político e social promovido pelo pensamento pós-moderno, efusivamente presente na mídia e no comportamento humano na vida cotidiana desse início conturbado e ainda tão estranhado de século.

No último dia 17 de setembro, numa manhã chuvosa de domingo, proferi palestra na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina, sob o título "O mundo pós-moderno". Para muito além da honra de ter sido convidado a falar em tão seleto e inteligente núcleo de intelectuais, artistas e gente versada em cultura, palavras, sons e imagens... confesso que meu tema trabalha uma dupla perspectiva, contraditória em si mesma: de um lado, por se tratar de tema presente, urgente, cada vez mais exigido e "trabalhado", minha fala se fez pertinente, conseqüente; de outro lado, por ser abstrato, não-factível, excessivamente inundado de teorias divergentes e quase sempre evasivas, meramente discursivas (sem falar no componente ideológico, no sentido marxiano da expressão), o tema acaba por se tornar extremamente escorregadio, de difícil contorno, de inegáveis e contundentes paradoxos, enfrentamentos opositores. De qualquer modo, a palestra foi muitíssimo bem-sucedida (disseram-me lá, senti, sei lá!) e gerou debate, permitiu acréscimos, outras contribuições ao tema, por outras perspectivas teóricas e profissionais (falaram, após minha palestra, quando foi aberta a discussão pela presidência da mesa, médicos, artistas plásticos, musicistas, advogados, educadores, gente-não-identificada...) Tudo isso muito me alegrou, motivando meu ímpeto de querer escrever mais e sempre. Bom, ao final do encontro na Academia Londrinense, fui convidado a ser colaborador cultural da instituição. Disseram-me, depois, que esse é o passo inicial para, em seguida, num futuro próximo, eu me tornar membro efetivo da Academia. Poxa! Tal qual o guerreiro Highlander, ícone de minha geração, tornei-me quase-imortal. Agora, basta que eu mantenha a cabeça em seu devido lugar!
Se a frase de Próspero, personagem de “A Tempestade”, de Willian Shakespeare, que nos diz ser tudo que é sólido condenado a se desmanchar pelo ar é verdadeira, é na chamada pós-modernidade que ela encontra seu abrigo mais fecundo, seu legítimo porto-seguro.

Marx e Engels, na redação do Manifesto Comunista, e o estadunidense Marshall Berman, em seu livro já clássico, valeram-se da mesma frase para fins distintos. Marx e Engels usaram-na para designar a avalanche característica dos tempos modernos, um período histórico marcado por transformações crescentes e em marcha leve, levíssima. Berman utilizou-a para dar nome ao seu mais importante livro, esse que considerei “já clássico” e que versa também a aventura da modernidade.

Bom, é possível indagar: se a modernidade se fez como tempo social, histórico, econômico, político e cultural de intensas, contínuas e profundas mudanças, em que a pós-modernidade lhe seria diferente? Posso afirmar que as distinções e divergências não se resumem às aparências, embora seja de imagens e superfluidades que se constitua a própria pós-modernidade. As não-similitudes entre o moderno e pós-moderno são, em rigor, radicais – e isso acaba por se evidenciar tanto no plano das idéias quanto no das práticas que lhe são efetivamente constitutivas.

Walter Benjamim, creio, estava totalmente certo ao enfatizar que a chegada da humanidade ao mundo moderno se fez por uma aguda mudança no campo das percepções. (E, para o autor de “Rua de Mão Única”, a modernidade se fez inaugurar quando houve uma radical transformação da percepção humana, que passou do estágio contemplativo, de culto, ao de exposição, exploração – este último simbolizado pela fotografia como “investigadora na cena do crime” e pela arte cinematográfica como destrinçadora das aparências e perfuradora das profundezas do real.) Sim, não existe um mundo moderno nem um mundo pós-moderno, falando em termos essenciais; o que existe são transformações de cunho radical no que se refere às nossas percepções da realidade. Ao apreendermos de um ou outro modo o que nos é exterior, acabamos por decifrar enigmas, compor cenários, esboçar personagens, atribuir papéis às relações humanas e sociais. Tornamo-nos modernos no exato momento em que não nos contentamos com explicações mágicas e mitológicas acerca dos fenômenos visivelmente mundanos; quando aceitamos fazer parte do mundo político e passamos, coletivamente, a edificar a sociedade e seus elementos; quando buscamos num comportamento razoável – porque dotado de razão e sensibilidade; quando, enfim, criamos instrumentos que nos permitam, gradativa e firmemente, ultrapassar o campo das aparências, do irrisório e conformador, do fatalismo cínico e ideológico inerente ao domínio milenar do homem pelo homem.

A modernidade, questionada pelo progressivo e inaudito avanço técnico e científico da pós-modernidade , descadeira-se diante de uma projeção infinita de imagens, sons, formas e relativismos. Quando a ciência é condecorada pelo status da infalibilidade, pela morte da morte (que tanto preocupou Albert Einstein, por anunciar o fim dos mistérios que nos levam a progredir, querer saber, querer ser...), a pós-modernidade sobe ao ponto alto do pódio, ostentando certa arrogância, um sorriso de safadeza e crença absoluta de que, daquele ponto, daquela altura, nada a desbancará. Numa palavra, ao virtualizar, pela técnica e pelos frutos diários da “imortal ciência”, a realidade antes nua e crua, tangível, desejável, pronta a ser permanentemente desafiada pelo que há de humano em todos nós... a pós-modernidade conquista corações e mentes, inverte a lógica moderna do discurso político pertencente a já tão fatigada modernidade e o transforma em discurso publicitário, mais afeito a percepções e impressões rápidas, sem tempo para reflexões, ponderações, como tão bem nos ensina o filósofo Dominique Quessada, autor do intrigante “A sociedade de consumo de si”.

Ora, se a nova tendência das relações sociais é gravitar sobre o consumo, nada mais lógico que tornar o espírito publicitário o guru da pós-modernidade, relativizando tudo e todos, tornando imagem qualquer desejo, designando movimento a qualquer sensação, individualizando e cravando de egolatria e egoísmo o último dos seres solidários, a derradeira das experiências altruístas, comunitárias, humanas, por assim dizer... Enfim, nada mais óbvio e justificável do que desmanchar tudo o tempo todo, ainda que algo desse tudo e todos pudesse parecer sólido aos quase extintos olhos modernos.

A metáfora que separa e distancia a modernidade sólida da modernidade líquida, criada pelo sociólogo polonês Zigmunt Bauman, talvez seja das mais ilustrativas e inteligentes maneiras de designar o que seja o pós-moderno. Para Bauman, na modernidade sólida, que vivemos até meados dos anos 80’, havia certo comprometimento com o conjunto dos dizeres e saberes da vida social, isto é, a possibilidade de fazer planos, desenhar projetos de vida, de família e de sociedade estava no campo da própria modernidade: empregos e carreiras duravam; educação e saúde, verdade e busca pela perfeição eram valores quase-universais; amor e paz eram almejados, às vezes visceralmente perseguidos e cotejados; a própria idéia de futuro era bem-vinda, perceptível; enfim, a utopia estava viva nas mentes e nos corações das pessoas. Algumas certezas sobreviviam ao passar dos dias, da vida... No conjunto das transformações gerais pelas quais passou a sociedade contemporânea – da crise econômica mundial da década de 1970, passando pelo assustador impacto que as novas tecnologias vêm exercendo sobre as consciências individuais, até chegar ao descrédito da política, ao fim dos mistérios e da transcendência, à apatia generalizada que contamina a cultura do pós-moderno, com indiferença e quase sempre descaso pela figura do Outro, ou seja, de todos aqueles que existem “fora” das malfadadas e falsas experiências egoístas e passionais dos átomos modernos de nosso tempo -, a antiga solidez de nossas relações humanas e sociais foi cedendo espaço à sua própria liquefação, permitindo que a forma antes considerada duradoura das coisas essenciais de nossa experiência coletiva se adaptasse às novas e incessantes exigências de uma realidade de profunda aceleração de contingências, de superabundância de informações, de desperdício de viveres, conviveres... É líqüido nosso tempo porque nele tudo flui, tudo ganha forma, qualquer forma; ao mesmo tempo, é líqüido porque também esvai, dissuade, escorre, mergulha nos ralos de um passado que, há poucos instantes, era presente; há poucos dias, eram nossos mais caros sonhos. Vale ressaltar, no entanto, que para o sociólogo polonês, autor de “Vidas Desperdiçadas”, existe o pós-moderno, ou seja, um conjunto de padrões de idéias e comportamentos razoavelmente disseminados na tessitura da vida social; mas fora de cogitação configurar-se de fato uma sociedade pós-moderna, um tempo histórico que possa ser designado como “pós-modernidade”. Para que isso fosse no mínimo lançado à luz do debate público, seria necessário imaginar que a modernidade já estivesse cumprida, plenamente realizada. Só desse modo se faz razoável admitir algo que lhe seja pós. Bom, creio não ser nem um pouco necessário ponderar que a liberdade, a igualdade e a fraternidade, emblemas do mundo moderno – na percepção e na ação! – estão muito, muito longe de terem sido, mesmo nas realidades mais avançadas da “civilização” capitalista, realizadas, significativa e humanamente realizadas.

Quais são, então, os emblemas do pós-moderno? Além de tudo ter se tornado absolutamente relativo, de a publicidade ter assaltado os céus da política, de o indivíduo ter aniquilado a experiência humana coletiva e solidária, de o consumo ter se tornado a principal razão de alguém querer “ser” alguém, de o mercado livre – sempre instável e irracional – ter destituído de elegância, vitalidade e pertinência todas as suas outrora públicas mediações... Bom, além de tudo isso, o que mais constitui essa cultura, esse mundo pós-moderno?

Segundo o filósofo brasileiro Leandro Konder, um mestre na argumentação sobre os temas da ideologia e da própria descaracterização da injustiçada modernidade, a hipertextualidade (essa coisa do texto aberto na rede mundial de computadores, da produção sem autor nem finalidade específica) e a cibercultura (as imensas e infindáveis janelas do computador, a navegação nada venturosa que se dá na chamada net e os links que ligam todo mundo a todas as partes) definiram a linguagem da experiência pós-moderna. Como se trata de algo muito flexível e sempre de dimensões muito modestas, de baixo teor humano e reflexivo, propositivo, a linguagem pós-moderna acaba por vaticinar a essência de seu próprio manifesto: morreram todas as veleidades de a história produzir grandes narrativas; desapareceu para todo o sempre o ser social coletivo, propositor e constituinte de direitos e conquistas políticas e sociais; proíbem-se as utopias; rejeitam-se as vocações totalizadoras; renegam-se os ideários e todas as aspirações a um futuro melhor para todos os seres humanos. Em síntese: na cultura pós-moderna, tudo é muita coisa, sempre é muito tempo; nada deve durar demais e cada indivíduo é, por si só, auto-suficiente, um conjunto já bem saturado de dilemas e insatisfações.

Outros temas intrínsecos ao desenvolvimento da cultura pós-moderna, também segundo Leandro Konder, são os tão alardeados e preconizados processos de desconstrução, desregulamentação e privatização.

Valores e práticas cristalizadas pela tradição, pelas heranças projetadas e lançadas ao mundo de geração em geração, são desconstruídos... Tudo deve ser renovado permanentemente – e nisso tanto a publicidade quanto a crença na individuação da vida social têm papel central, imprescindível. Do mesmo modo, mas com conseqüências sociais muito mais dramáticas e traumáticas, leis, fatos legitimados pelo exercício prático da política cidadã, coletiva, conquistas sociais de classe, tudo melhor será se for desregulamentado, alterado, para facilitar o crescimento dos mercados livres, para frear o avanço dos impedimentos da livre iniciativa, para vender tudo, privatizar tudo, para que tudo não diga mais respeito algum às pessoas, aos sujeitos, aos cidadãos. Tendo dono, o mundo passa a ter seus responsáveis privados e de direito. E isso é muito bom para que possamos todos nós - “los otros” -, de consciência tranqüila, sair e ir às compras... Ou, vai de cada um, ficar em casa e nos empanturrarmos com a cultura rica e edificante da programação dominical da TV...

A inevitável referência à programação de nossa TV me permite destacar outro ponto fundamental do chamado mundo pós-moderno – a banalização do real e da própria vida.

Não só temos instrumentalizado nossas vidas para atingir fins bastante específicos – e questionáveis, no que diz respeito à sua pertinência e à sua relevância como projetos humanos... –, como também temos tido cada vez menos balizas externas para justificar nossas preferências, nossas idéias, nossas práticas. Ao perdermos o prumo de nossas razões, do por que estamos a realizar isso e aquilo, destituímo-nos da transcendência necessária a nossa própria constituição como seres morais, éticos... Explico melhor: se fôssemos auto-suficientes, como prega o credo pós-moderno e, em última instância, o pensamento liberal de uma maneira bem geral, seríamos, isso sim, um aglomerado metabólico, refém da animalidade de nossos instintos biológicos, fisiológicos, como muitíssimo bem afirma o psicanalista Jurandir Freire Costa. Para o psicanalista, autor de “O vestígio e a aura”, pusemos nossa vida em liquidação ao aceitarmos os desígnios da pós-modernidade. Ao suspendermos o que nos é transcendente – família, religiosidade, política, educação formal -, tornamo-nos animais, suscetíveis a novas formas de dominação pelas classes sociais que detêm a hegemonia no controle da publicidade e do mercado – para não falar da quase irrelevância a que isso tudo tem destinado a própria política institucional, as instituições governamentais, o próprio conceito e a subseqüente composição do poder.

Nas palavras de Jurandir Freire Costa...

“... na presente crise de transcendência, a vida perdeu seu secular centro de gravidade valorativa, representado pela religião, pela política e pela moral privada familiar. Essas agências foram destronadas pelo impacto imaginário da ciência, da economia e da indústria do espetáculo. Atribuir valor à vida, hoje, requer um esforço permanente do sujeito [de cada um de nós, portanto] para se deslocar de uma perspectiva a outra (...) A sólida pirâmide do valor da vida se liquefez nos pequenos, provisórios e errantes sentidos determinados pelos padrões científico-econômicos ou pelos interesses da cultura do espetáculo.”

Para além da questão sobre os emblemas e as características da cultura do pós-moderno, quer agora insistir uma nova questão, ainda mais urgente: que valor nos é dado hoje atribuir à vida?

Onde quer que estejamos, ouvimos relatos sobre as maravilhas patrocinadas ou pretendidas pela Engenharia Genética, a qual, efusivamente, sonha com o dia em que cada ser vivo tenha um estoque de clones e vidas em criogenia, eternas e infalíveis. Assistimos também em toda a parte à banalização da violência e da sexualidade, que está em todas as consciências – sobretudo nas mais jovens - de modo deturpado, tornado “chulo”, mais uma vez instrumental, para prazeres momentâneos, diretos, sem quaisquer compromissos, avessos a promessas de longevidade, consistência... O sonho de ser “alguém” tornou-se bem menos: basta ser famoso por quinze minutos, como já nos havia profetizado Andy Warhol; ser ao menos visível, indiscretamente flagrado pela bigbrotherização de nossos olhares sagazes, curiosos pelo nada, pelo ridículo, fugaz, inumano, para falar com Jean Baudrillard – filósofo para o qual a história sofreu um grande curto-circuito: tudo agora é história, tudo agora é arte... E, por essa mesma razão, podemos já afirmar que cada detalhe do cosmo é história e/ou é arte, já que tudo passou a ter algum tipo de importância. Absolutamente tudo passou a ter certa relevância num mundo em que tudo, além de ser história ou arte, é também relativo, relativo...

Na mesma proporção em que tudo se transforma em objeto de importância e relevante significação, a vida passa a ser desregulamentada como os mercados, desconstruída como os valores, a ética, a velha moral social. Dany-Robert Dufour, filósofo, autor do contagiante “Os extravios do indivíduo-sujeito”, destaca, para fins de argumentar em favor da vida – e não das tendências alienantes do mercado pós-moderno -, que em recente relatório do Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, e que reúne em suas “mesas de discussão” os verdadeiros artífices de toda a publicitária e relativizante cultura pós-moderna, fez-se constar de seu relatório final a seguinte proposição contra a pobreza e a miséria no mundo:

“[Esforços concentrados devem fornecer, cada vez mais – e em escala sempre crescente -], um coquetel de entretenimento estupidificante e de alimentação suficiente que permita a manutenção do bom humor na população frustrada do planeta” - relatório final de Davos, aprovado e publicado após o encontro anual de 2002.

Ora, ora, eis a receita de “pão e circo” pós-modernos: programas de auditório e hambúrgueres fast-food. Se puderem surgir acompanhados de total isolamento em face de todos os interesses de domínio elitista do planeta, que almeja torná-lo exclusivo aos ricos e poderosos, subalternizando sempre as classes populares e os fragmentos críticos e ainda não postos à venda das classes intermediárias, tanto melhor. Daí sim o banquete estará feito, irretocavelmente feito...

Contra todas as tendências imediatistas, egoístas e consumistas do mundo pós-moderno, resta-nos erguer interesses coletivos que não aceitem a redução da realidade ao interesse individual, a desconstrução total do futuro em nome de um presente luminoso, de vantagens econômicas e prazeres carnais e biológicos. Contra o relativismo pós-moderno, o velho lema do italiano Antonio Gramsci, “historicizar sempre!”, continua extremamente válido, porque só assim se faz possível saber quem somos, de onde viemos e – principalmente! - para onde poderemos ir, afinal de contas. Mais: o que nos fez e nos faz assim, quais transcendências nos determinam e também nos aniquilam; quais as chances que temos de combatê-las e/ou qualificá-las... São as questões pertinentes de nosso presente, se quisermos ter algum futuro, imagino eu...

Para criar oposição conseqüente e verdadeiramente abrangente contra a cultura do instantâneo, do sucesso fácil, da estética sem conteúdo, do entretenimento alienante e de linguagem incapaz de se universalizar, a luta pela qualidade da educação e da participação política nos rumos das sociedades humanas continua a ser o melhor remédio. E basta que seja o único, se compreendido em todas as suas ricas, diversas e plurais dimensões.

Educar para a vida e para a participação ativa nos processos que nos permitam sonhar significa dizer sempre que a primeira aparição da esperança foi, é e será sempre a união de homens e mulheres para a construção de um mundo de sujeitos efetivamente livres e iguais. É isso.

Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina – Domingo, 17 de setembro de 2006.

26 setembro 2006

INSPIRAÇÃO

Pedro Tavanelli é um ex-professor universitário totalmente desiludido com a vida acadêmica. Há três anos dividido entre a rua, a boemia e a busca ingrata de algum novo sentido para sua vida, Pedro ainda é visto por Sabrina, sua companheira, como o cientista político autor de livros considerados imprescindíveis; como o pesquisador requisitado por todos, em toda a parte. Prisioneira de si mesma, Sabrina aguarda noites a fio a volta de Pedro. Ela espera a chance de um ajuste de contas, de colocar, enfim, todos os pingos em todos os is.

Numa manhã de domingo, recém-saída da barra da madrugada, Pedro entra no apartamento que divide com Sabrina. A garota, ansiosa, dirige-se a Pedro para saber o que há, se ainda há chances de ele voltar a ser o que todos amavam nele: um grande intelectual.

Em meio a xícaras de café, muita discussão, blues e sexo desconcertante, o casal busca a reconciliação. Pedro voltará a ser de Sabrina e da Academia ou Sabrina voltará a ser prisioneira de si mesma, a chorar, a esperar, a se iludir com um passado que, parece, não mais voltará?

INSPIRAÇÃO: o humano limite da paixão
de Marco A. Rossi - um sonho que roda em película e transborda uma ácida crítica da Universidade(?) atual...

10 setembro 2006

A melhor canção de meus trinta e poucos anos...

Tudo bate realmente forte naquele trecho sobre ter morrido de amor. Teria sido o ideal, inelutável, perfeito... Mas, em relação à proteção do acaso, ao andar distraído... Bom, disso não posso reclamar: o acaso tem, sim, me protegido. E como!

Epitáfio

Titãs

Composição: Sérgio Britto

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
Até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr

06 setembro 2006

Leitura da alma

PUDDLE, de M. C.ESCHER

Como só Escher seria capaz de reproduzir em arte... A obra acima é quase um raio-x do que se sente na fatigada e tão presente, avassaladora, pós-modernidade. Nos momentos de indecisão, de tantas incertezas, me vejo diante do próprio espelho ao mirar essa obra.

Às vezes só o Angeli diz o que eu não consigo escrever...

Antes do prometido próximo post, julguei necessário e extremamente pertinente publicar aqui essa charge do Angeli. Quando as palavras me faltam - e isso não é tão incomum assim... -, Angeli me oferece uma tira, uma caricatura, até um personagem inteiro... Enfim, muitas vezes suas imagens socorrem minhas palavras. Agora, por favor, me digam: ele tem ou não razão desta vez?

04 setembro 2006

Próximo post...

Atendendo a pedidos - muitos mesmo! -, publicarei aqui ainda esta semana o cartaz e o conto que deu origem a INSPIRAÇÃO. O cartaz, lançado na última semana, ficou uma verdadeira obra de arte, destacando a beleza da personagem Sabrina, tão presente e envolvente na trama. (O cartaz foi produzido sobre uma foto "real". Não é pintura, não!). Quanto ao conto que deu origem ao roteiro, bom... Esse só lendo mesmo. Em poucos dias a coisa estará aqui. Obrigado a todos pelo carinho enorme dispensado ao sonho INSPIRAÇÃO. Como diz uma amiga minha, "enquanto umas fazem dietas e malabarismos para emagrecer... Patricia Gentilli interpreta/incorpora Sabrina e dá show". E que show!

Abraços fraternos!

Marco A. Rossi - 04.09.2006

03 setembro 2006

Lágrimas e Chuva


Composição: George Israel/Bruno Fortunato/Leoni

Eu perco o sono e choro
Sei que quase desespero
Mas não sei por que
A noite é muito longa
Eu sou capaz de certas coisas
Que eu não quis fazer

Será que alguma coisa
Nisso tudo faz sentido
A vida é sempre um risco
Eu tenho medo do perigo

Lágrimas e chuva
Molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê
O mundo é muito injusto
Eu dou plantão dos meus problemas
Que eu quero esquecer
Será que existe alguém
Ou algum motivo importante
Que justifique a vida
Ou pelo menos esse instante

Eu vou contando as horas
E fico ouvindo passos
Quem sabe o fim da história
De mil e uma noites
De suspense no meu quarto

02 setembro 2006

Modernidade Sólida...

"Só existem dois dias no ano nos quais nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã; portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver."

DALAI LAMA

31 agosto 2006

Dom Hélder Câmara: arcebismo CONTUMAZ do Brasil

Dom Hélder Câmara, para sempre arcebismo da belíssima OLINDA; para sempre um grande mestre em minha vida; para sempre coerência, integridade e toda a vida para o povo pobre do Brasil, para o verdadeiro brasileiro de todas as cores e possibilidades. Dom Hélder Câmara, imortal!

"A utopia partilhada com milhares é o esteio da História"

Dom Hélder Cãmara, em momento de incontestável e invariável LUCIDEZ

28 agosto 2006

O Fim do Mundo - por CECÍLIA MEIRELES

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.
Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.
Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.
Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?
Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.
Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.
O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.
Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.
Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.
Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...

Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Distribuidora Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1998, pág. 73.

24 agosto 2006

Por que GRAMSCI?

O italiano Antonio Gramsci (1891 - 1937) tem sido minha principal referênica humana e teórica na batalha das idéias socialistas. Em nome dessa devoção - e ciente da enorme dívida de gratidão que tenho com o intelectual sardo - escrevi para a Revista DISPUTATIONES, nº 6, edição de dezembro de 2005 (que, me parce, pode ter sido a última...), pertencente a uma faculdade particular em Apucarana/PR, um artigo de perguntas e respostas rápidas sobre a importância de Gramsci em minha trajetória intelectual e, mais impostante, quanto efetivamente tenho dele na totalidade de minhas referências teórico-práticas. Ao final do texto, uma breve nota de rodapé se encarrega de especificar os critérios que me levaram a querer fazer deste pequeno ensaio um ato de fé por minhas preferências gramscianas; há ainda uma breve justificativa das opções estéticas do ensaio em pauta.

Prolonga-se, nas linhas abaixo, uma tentativa de resposta a: 1) Existe algum autor que você tenha por favorito? 2) Você conhece a obra do referido autor em que nível? e 3) De que maneira você julga orientar suas atividades profissionais pelo legado teórico do referido autor?

1)

É difícil reconhecer que se possa ter um autor favorito numa área de investigação e análise tão complexa e plural como a Sociologia. Desde os clássicos do pensamento sociológico (Durkheim, Weber e Marx), muita coisa tem sido produzida, muitas releituras vêm sendo feitas em nome ou em oposição a estes autores clássicos. Disso se pode presumir que, em rigor, quase nada em Sociologia se faz fora do âmbito da teoria e da prática de seus clássicos, para o bem ou para o mal.

À proporção que se deve sempre proclamar a importância dos estudos dos três autores clássicos da Sociologia, deve-se também assumir quão árduo se faz conciliá-los, haja vista as diferenças tanto teóricas quanto de origem e destino de suas contribuições para a formação das teorias sociológicas.

Optei, cedo, por Marx e a tradição filosófica de seu pensamento. Uma tradição que, deve-se enfatizar, é tão plural e rica em possibilidades quanto as suas próprias obras e análises de formação das modernas sociedades capitalistas, das sociedades que ele caracterizava como um palco de enfrentamentos políticos, de luta de classes.

Muita coisa se disse e se fez em nome de Marx ao longo dos séculos XIX e XX. Desde as insurreições operárias na Europa em 1848, cujo resultado prático de maior envergadura foi a Comuna de Paris, em 1871, até as políticas de alta concentração estatal que se desdobraram em virtude – ou falta de virtude! – da gloriosa Revolução Russa de 1917. Exemplos típicos dessa centralização estatal foram os horrores do stalinismo na URSS e as malditas “utopias comunistas” no Camboja, no Vietnã e na Coréia do Norte, que podiam ser qualquer coisa... menos comunistas. Vale ainda lembrar a violência e o desrespeito aos direitos humanos e à pluralidade democrática - essências do verdadeiro socialismo inspirado em Marx – praticados em países do leste europeu como a Polônia, a Hungria e a antiga Tchecoslováquia.

Nesse sentido a tradição marxista serviu a gregos e troianos. Há a corrente “maximalista”, que acreditava que a Revolução Socialista era uma questão de tempo, independente das vontades subjetivas, uma vez que o capitalismo geraria sua autodestruição e, um belo dia, amanheceríamos todos numa nova sociedade... livre, igualitária e fraterna; há os que pleiteavam reformas sucessivas no seio do próprio capitalismo, julgando colocar em xeque, através da posse dos governos executivos e das casas parlamentares, as bases da lógica capitalista de produção e reprodução materiais – como era o caso das correntes majoritárias na II Internacional Comunista (1872), lideradas por Kautski e Bernstein, que renunciaram à revolução e aderiram às práticas daquilo que ficou mundialmente conhecido como a política revisionista (no “mau sentido”) social-democrata; e há os que procuraram manter-se fiéis ao pensamento de Marx, revisando-o historicamente, como é o caso de Georg Lukács, Walter Benjamin, Nicos Poulantzas e o meu autor preferido, um intelectual cuja obra nos oferece momentos de intensa reflexão e raro prazer: o italiano Antonio Gramsci (1891–1937). Dessa última citada corrente da tradição, da filosofia e do conjunto de análises e interpretações do universo marxista pode-se verificar a maior das lições do pensamento de Karl Marx, qual seja: o objetivo da ciência é o concreto, que por sua vez se faz na diversidade de suas determinações e nas andanças dinâmicas da própria história. Em sendo assim, para Marx, é preciso pensar sempre historicamente; daí a necessidade de a todo o instante reverem-se os procedimentos e posturas diante do real. Fora da compreensão histórica não existe nem teoria, nem prática revolucionária. E eu acredito que poucos autores obtiveram tanto êxito na assimilação desse valor científico e na busca pela viabilidade prática de suas idéias, interrogações e propostas como Gramsci. É por isso que o tenho em grande estima e no mais alto posto de minhas preferências intelectuais.

2)

A obra de Gramsci não é extensa, conquanto não se possam negar-lhe a densidade e a riqueza de temas tratados com rigor, responsabilidade e extrema acuidade intelectual.

Como no caso de todo grande autor, a obra de Gramsci se divide em duas partes. (Alguns autores têm infinitas possibilidades de divisão em sua produção intelectual, como é o caso do magnífico filósofo húngaro Georg Lukács.) A primeira delas, que vai até o ano de sua prisão pelas forças repressoras do fascismo italiano liderado por Mussolini (1926), compreende tanto o período de sua formação como jornalista – o principal dos periódicos socialistas em que atuou foi L’Ordine Nuovo, de sua própria fundação e concepção – quanto a fase de sua transição para a maturidade intelectual, contida nos célebres Cadernos do Cárcere, escritos, numa indicação aproximada, entre 1929 e 1935, ou seja, iniciados três anos após seu encarceramento, em 8 de novembro de 1926, e interrompidos em 1935, quando seu estado precário de saúde o impediu de continuar seus estudos, reflexões e escritos.

Além dos inúmeros artigos produzidos para os jornais em sua juventude, entre 1910 e 1926 (mais tarde compilados com o título de Escritos Políticos), ano este em que se detinha sobre a redação de seu único livro escrito antes do aprisionamento, A Questão Meridional – que versava sobre a dualidade da constituição da Itália como nação, suas discrepâncias, seus equívocos e seu gigantesco elitismo militar e conservador -, Gramsci escreveu também centenas de cartas à mãe, à esposa, à cunhada... Em virtude das dificuldades da mãe em responder-lhe às inquietações que nasciam dentro do cárcere e à doença da mulher, vítima de profundas seqüelas oriundas de sucessivos estágios depressivos, a maior parte das cartas redigidas por Gramsci no cárcere dirigiu-se à sua cunhada Tatiana, que lhe serviu de porto-seguro e travessia para a realidade do mundo. Essas cartas mais tarde foram reunidas nas diversas edições de Lettere Dal Carcere, obra que contém, sem dúvida alguma, importante fonte de pesquisa acerca do pensamento gramsciano.

É nos Cadernos do Cárcere, contudo, que está contido o vigor do pensamento de Antonio Gramsci. (Aliás, deve-se frisar, há uma belíssima e completa edição brasileira dos Cadernos, editada pela Civilização Brasileira, em 6 volumes, entre 1999 e 2002, e organizada por Carlos Nelson Coutinho, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Também pela Civilização Brasileira, dentro do mesmo projeto editorial, foram publicados os Escritos Políticos, em 2004, e as Cartas do Cárcere, em 2005, ambas as publicações em dois volumes cada, com zelo e cuidado impecáveis pelo legado de Gramsci.) Ao longo dos 29 “cadernos especiais” e das dezenas de “cadernos miscelâneos” da obra maior de Gramsci, há estudos rigorosos e análises extremamente ricas acerca de variados temas da questão social e política, tais quais: Estado, filosofia, política, ideologia, hegemonia, literatura, organização dos intelectuais, folclore, cultura, senso comum, bom senso etc. Trata-se de um esforço de abarcar temas contemporâneos e indispensáveis à pratica revolucionária e à reflexão sobre as sociedades complexas do mundo atual. É importante que se diga que foi através do reconhecimento público da obra de Gramsci e da sua difusão nos mais variados meios intelectuais que o marxismo “se oxigenou”, ganhando novo fôlego e instrumentos eficazes contra sua crescente vulgarização e banalização. Cabe a Gramsci, mas não só a ele, uma nova etapa no fortalecimento da tradição marxista e na luta por uma realidade socialista democrática e pluralista.

Não posso afirmar que conheço a fundo a obra de Gramsci, uma vez que, por tratar-se de uma obra aberta – como, aliás, toda a obra de Marx -, ela nos instiga permanentemente, abrindo novos horizontes a toda a hora. Ler Gramsci é uma tarefa sempre inconclusa e nova; a cada leitura novos conceitos nos aparecem, nos estimulam a continuar, a disseminar sua riqueza e seu inconteste valor. É uma tarefa em travessia, como nos ensina João Guimarães Rosa: sua verdade não está nem no início, nem no final da trajetória, mas no caminho, nos percalços, nas descobertas, nas surpresas e nos encantamentos da obra deste que foi, na minha opinião, sem sombra de dúvida, o maior intelectual marxista do século XX.

3)

Valho-me de Gramsci e sua obra em quase todas as minhas atividades profissionais. Recorro ao comunista sardo para refletir sobre Estado e política, sobre cultura, capitalismo e socialismo, bem como aos temas relacionados com o universo do trabalho. De Gramsci também retiro as bases para pensar a literatura e a produção artística, o papel dos intelectuais em nossa sociedade e, principalmente, os temas da democracia, do pluralismo, da cidadania e dos direitos humanos. É evidente que o suporte de autores magníficos como Lukács, Benjamin e Poulantzas – bem como de brasileiros como Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho – auxiliam-me por demais não só na tentativa de enriquecer o pensamento do próprio Gramsci, mas também para complementá-lo, compará-lo, solidificar e tirar a prova dos nove em relação ao poder e ao prestígio de suas análises e reflexões. É desses quatro autores da tradição marxista que me ocupo em minhas tarefas docentes e de pesquisa – Gramsci, Lukács, Poulantzas e Benjamin -, julgando que suas obras e suas trajetórias de vida ainda se constituem como fontes inesgotáveis de aprendizagem e criação de alternativas para a transformação social. Neles reside, creio eu, o que há de mais precioso para pensar e efetivar valores como democracia, liberdade e respeito aos direitos humanos. É isso.
* Este ensaio não é uma produção autobiográfica nem uma entrevista em sentido absoluto. O interlocutor no texto é fictício, bem como as questões que são lançadas de início. O objetivo do ensaio, portanto – além de um exercício pessoal pela senda literária -, é promover o pensamento e a obra de Antonio Gramsci, sua importância para o desenvolvimento e a profusão do marxismo no século XX. Conquanto não seja nem de longe um texto de ficção, algumas de suas estruturas e opções literárias o são; os juízos e as análises teórico-conceituais são, no entanto, fruto direto de minhas reflexões e de meus posicionamentos pessoais.