18 fevereiro 2006

Em busca do tempo perdido... E de algo de humano no caminho das pedras...



Como Lênin, nas mais românticas visões que existem acerca do papel do líder russo revolucionário, antes e depois da Gloriosa Revolução de 1917, eu acreditava que como Coordenador dos Cursos de Comunicação Social da Facnopar, em Apucarana, norte do Estado do Paraná, eu empreenderia uma colossal “faxina”, retirando daquela instituição qualquer vestígio que pudesse haver de pensamento mercantilista, egoísta, pautado por cifras e precarização dos processos de ensino/aprendizagem. O que havia em minha mente em cada instante de meu trabalho era a máxima de que “a Universidade não se acaba”, como tão bem lembrou o cientista político Marco Aurélio Nogueira em seu artigo-homenagem ao saudoso e brilhante sociólogo Octavio Ianni. Bom, imagino que era assim que gostaria de ser lembrado um dia: como alguém que tivesse enfrentado todos os monstros da desgraça universitária e insistido numa Academia que não se acabasse, fosse o que fosse, houvesse o que houvesse... Mas, imponderadamente (pelo menos para mim mesmo!), fracassei, mergulhado numa intensa luta de classes e num vazio desproporcional de dirigentes acadêmicos (???) que se assemelhavam muito mais a gerentes de supermercado ou de lojas de departamento. Caí em todo o tipo de intriga e fui incapaz de superar os grandes e ridículos desafios que se me impuseram. Em brevíssimo espaço de tempo (para, no primeiro momento, sofrer e resignar-me em toda a minha tragédia pessoal e profissional), deixei a tal coordenação e voltei à condição a mim inerente de professor – fato que voltou a encher meu coração de alegria e força de vontade! Como não há, pois, mal que sempre dure, ressurjo com este blog a todo o vapor e preparo um livro que já está no mais alto grau de aquecimento do forno editorial, trazendo agora a público toda essa aventura pelo quinto, pelo sexto, pelo último dos meus infernos possíveis...

Nós somos herdeiros, o que não quer dizer que possuímos ou recebemos isto ou aquilo, ou que possamos enriquecer com a herança. Mas o ser daquilo que somos é já, em seu começo, uma herança. Não importa se nós a desejamos, saibamos dela ou não. Höldelin considerava a linguagem o mais perigoso dos bens. Mas ela foi entregue ao homem para que ele dê o testemunho de haver herdado o que ele é. A herança jamais é uma doação, mas uma tarefa.

Jacques Derrida

Durante todo o segundo semestre de 2005 o “Espaço de Cultura Socialista” não recebeu postagens nem sofreu atualizações. O período coincide com o tempo em que estive à frente da Coordenação dos Cursos de Comunicação Social da Facnopar – Faculdade do Norte Novo de Apucarana, município norte-paranaense.

Nesse período não pude me dedicar a leituras estimulantes; não pude estudar do modo como julgo bom e justo; não pude me envolver em projetos, escritos, análises, intervenções intelectuais. Quase todo o tempo estive à volta com as exigências e necessidades da coordenação de três cursos (Jornalismo, Publicidade & Propaganda e Relações Públicas) que não tinham, em rigor, um projeto, um programa para efetivamente desenvolver. Quando me vi diante da possibilidade de tornar-me coordenador numa instituição em que já atuava como professor (no curso de Direito, havia três anos) e que admirava por suas modestas dimensões e pretensões, encarei o repto: mudei-me de Londrina para Apucarana, mergulhei de cabeça no projeto daquela coordenação e... Bom, aí fui aos círculos todos da divina comédia danteniana, visitar a mediocridade e o mercantilismo da vida acadêmica na mentalidade e na prática dos “endinheirados” deste país (é que a faculdade pertence a um importante e expressivo grupo empresarial da cidade, que trabalha com produtos de limpeza, couro, laticínios, água mineral e... ensino superior...). Acabei, enfim, tendo de buscar algo que pudesse se assemelhar ao humano no seio do inferno.

Como professor, felizmente, continuei bem, obtendo o respeito dos meus alunos agora também de Comunicação Social, na disciplina de Sociologia (sempre ela!). Nos assuntos burocráticos da coordenação, fui um fiasco: perdi-me em meio a uma coordenação sem documentação, sem projetos que esboçassem um mínimo sinal de ter sido bem elaborados, lapidados, cuidados; desesperei-me com a falta de recursos para os cursos de Comunicação Social, que, sabe-se, são caros, demandam investimentos permanentes em infra-estrutura, laboratórios, acessórios de Rádio, TV, fotografia etc. Intrinsecamente professor – com a larga esperança de ser um dia educador, para rememorar aqui a bela diferenciação que faz o italiano Antonio Gramsci entre essas duas condições -, defrontei-me com professores de extremo mau-caráter, que bajulavam alunos, lançavam-nos contra o coordenador e contra outros professores. Escapando totalmente às funções esperadas de um docente minimamente responsável, muitos professores, sem qualificação, sem titulação, sem nada que os aproximasse da condição docente, partiram efetivamente para o “quanto pior, melhor”.

Tudo isso, unido ao fato de a faculdade ter tido naquele momento um “vice”-dirigente que se achava Deus, perfeito, admirável, fantástico, minou em mim as chances de continuar com o projeto que sonhei, com a destemida vontade de fazer daqueles cursos os melhores de todo o Paraná. À exceção do Dr. Leonardo Prota, que carece de autonomia como diretor geral tanto quanto eu careci no meu tempo de coordenador, a administração e as conduções acadêmicas da Facnopar eram e parecem ainda ser sofríveis, encabeçadas por gente que pode entender de muitas coisas nesta vida e neste mundo, menos de vida acadêmica, de questão universitária, de Ensino Superior. [Há um xodó na Facnopar que adora dar “palestras” motivacionais (???), engraxar sapato de gente estúpida, falar de força de vontade, determinação interior... Enfim, esse tipo de “intelectual” representa muitíssimo bem as andanças do ensino superior brasileiro pelas labaredas do inferno.]

É claro que, já admiti, não fui um bom coordenador, em parte por não ter conseguido driblar as adversidades e enfrentar com mais sisudez meia dúzia de alunos delinqüentes (isso é um eufemismo!) e professores irresponsáveis, sempre a agir com extrema má-fé, conspirando, buscando, é provável, algo que pudesse substituir suas incompetências como mestres, como agentes de mudança deste mundo para um outro, melhor, humano, feliz. Faltou-me, pois, perseverança e um maior sentimento de justiça, que pudesse me levar, sim, às últimas conseqüências... Mas admito que essas ausências não minimizam meus erros, minhas falhas, toda a minha ingenuidade em transferir responsabilidade a quem efetivamente não têm; daí que, com isso, tornei-me excessivamente indulgente e até cúmplice de uma série de grandes equívocos. Espero ter salvado minha alma em tempo...

Numa instituição que não tem regras, na qual tudo muda o tempo todo (salas, projetos, acordos, decisões etc.), até que não me saí tão mal, pelo menos não fui modorrento em minhas atribuições. (Havia algo que me norteava diuturnamente; eram meus valores e princípios, que deixavam a todos algo bem claro: eu não estava nem nunca estaria à venda!) O problema foi ter acreditado ser possível imprimir um pensamento e uma ação acadêmicos num lugar que sugere contar cifras, arrematar aluno a qualquer preço, inclusive o da dignidade humana. Perder, muitas vezes, é uma forma de aprender a vencer. E meu exílio na coordenação em Apucarana me fez ver e compreender isso como nunca antes me havia sido possível, imaginável.

Bom, abaixo reproduzo dois documentos que são emblemáticos desse período de “horror” e “trevas”, mas também de muitas lições, de imenso engrandecimento pessoal e profissional. O primeiro deles é o que encaminhei à direção por conta do encerramento de minhas atividades como coordenador, no último dia de novembro passado: ali relato, em detalhes, minha visão dos cursos e de tudo que lhe dizia e ainda deve dizer respeito, dada a proximidade entre a feitura do documento e o momento presente. (Vale frisar que, de lá para cá, alguns excelentes profissionais, funcionários e professores, que estão no relatório em questão, direta ou indiretamente, já foram demitidos. Motivo: são bons profissionais. Bons demais.) O outro documento, este sim muito particularmente maravilhoso, é a carta que a maioria dos alunos de Comunicação Social da Facnopar protocolou e pediu que fosse enviada à diretoria, que, não é preciso dizer, jamais comentou a existência dela. Foi Dr. Leonardo Prota, filósofo de renome internacional, que me repassou, carinhosamente, uma cópia dessa carta, para que eu pudesse ter desse meu trabalho agourado uma lindíssima recordação: o que se lê nessa carta é algo que ninguém nunca jamais irá tirar de mim. Não mesmo! Fiz pequenas edições nos textos, poupando o leitor amigo deste blog a detalhes incompreensíveis longe das paredes daquela instituição. Todavia tive o cuidado de não descaracterizar nem adulterar o real sentido das “cartas” a seguir. Uma questão de respeito por vocês que aqui vêm e daqui esperam boas leituras, bons momentos de reflexão e exercício intuitivo. Entre um texto e outro, logo abaixo, reproduzo também algumas imagens e legendas que dizem muito sobre todo esse conturbado período de minha vida profissional e pessoal. Procurei seguir o conselho de Mestre Leandro Konder e não perder o humor em nenhum momento. Desejo ter logrado êxito nessa história de manter o senso de humor quando o de esperar sejam lágrimas trágicas e, por isso mesmo, ressentidas e insensatas... Mais uma vez, obrigado. Ah, vale dizer, com os pulmões cheios de bom e renovado ar: estou de volta! E com vontade ainda maior de contribuir por um mundo realmente melhor, um mundo socialista. É isso.

EM TEMPO: De modo intenso e apaixonado, numa “ficção memorialista”, toda minha experiência como coordenador dos cursos de Comunicação Social em Apucarana poderá ser acompanhada em “Andanças no Inferno”, meu próximo livro. Para além de narrar, de modo “quase” inteiramente romanceado, meu semestre como coordenador no jubileu do fim dos mundos, o livro trará também, imagino, uma visão nova da questão universitária, numa crítica que venho aperfeiçoando nos últimos anos e que viveu um grande match point nessa malfadada experiência como coordenador de curso. Outra vez, é isso.