19 abril 2006

Nuno Mindelis - um ou outros, sempre criativamente fantástico!


O guitarrista de blues Nuno Mindelis é autor de uma das mais belas peças da música brasileira nos últimos anos: o álbum “Outros Nunos” (no detalhe, à direita da imagem do musicista). Ouvir a voz e poder sentir as linhas das cordas da guitarra de Nuno é desses raros prazeres que nos convencem de que a boa arte não tem limites nem ocasos. Basta desejá-la, persegui-la... Ela está ao alcance daqueles que a querem partejar...


A sensação de ouvir o mais recente álbum do bluseiro brasileiro Nuno Mindelis é, sem contorcionismos de expressão, fascinante, ao passo que a deliciosa escuta também nos eleva como criaturas em busca de saber se há espaços para limitar as verdadeiras almas criativas. Disse brasileiro, mas o guitarrista Mindelis na verdade é angolano de nascença, brasileiro por opção, o que o torna ainda mais especial, uma vez que optar pela cidadania brasileira e querer viver do blues revelam-se escolhas, por baixo, insólitas - e isso é um eufemismo estrondoso!

Nascido a 07 de agosto de 1957, na cidade angolana de Cabinda, ainda adolescente Nuno emigrou para o Canadá, uma vez que sua família, exilada política do regime autoritário que se instalava na república angolana, fora obrigada a dar continuidade à vida fora de sua pátria-mãe. Após breve passagem pela América do Norte, toda a família opta pelo Brasil, e é em terras de Pindorama que Nuno Mindelis irá se consagrar um dos mais importantes guitarristas de blues de todo o mundo.

Se aos nove anos Nuno já fazia verdadeiras molecagens com a guitarra nas mãos, sempre a ouvir seus ídolos de sempre, Otis Redding, Donald “Duck” Dunn, Al Jackson, no curso de sua já sólida e muitíssimo bem reconhecida carreira o cume se fez com a promulgação de Nuno, pela Revista Guitar Player, no aniversário de seus 30 anos como uma das mais importantes publicações dedicadas às guitarradas mundo afora, à condição de mais importante guitarrista de blues de nosso tempo. Importante frisar: em 1998, pela Revista Guitar Player, Nuno Mindelis foi eleito o melhor guitarrista de blues do mundo!

A discografia de Nuno é rica e já soma 6 belíssimos álbuns: “Blues e Derivados” (1989); “Long Distance Blues” (1992); “Texas Bound” (1996, com a fantástica participação de Chrys Layton e Tommy Shannon, que tocaram ao lado de Stevie Ray Vaughan, no lendário Double Trouble!); “Blues the Outside” (1999); “Twelve Hours” (2003); e o espetacular e surpreendente “Outros Nunos” (2005), em que Nuno revela outras faces de sua tão plural formação humana e cultural. Aliás, foi o álbum “Outros Nunos” que impulsionou em mim o desejo de fazer este texto-homenagem a esse guitarrista extremamente talentoso e cidadão. Vamos ao Mindelis de tantos Nunos!

Na já extensa jornada de divulgação do novo álbum, Nuno Mindelis tem reiterado: “Este disco diz mais de mim mesmo do que todos os outros que até hoje já fiz”. E não pode pairar dúvida sobre tão emblemática afirmação. Ouve-se um pouco de tudo que há de melhor na música brasileira no mais recente álbum do criador de “Twelve Hours”. Impossível não sentir a presença de gente como Itamar Assumpção, Tom Zé, Lenine, Jorge Benjor, Alceu Valença, um tanto da música paulistana bem urbana e periférica, um certo experimento saudável e interessante de toadas, raps, batidas e estaladas eletrônicas, fundos de ressonância acústica, reverberações... Apesar de tantas novidades e ousadias experimentais, não se trata de um projeto laboratório. Muito pelo contrário: “Outros Nunos” é um álbum que reflete intensamente o amadurecimento, o talento e a sedimentação de uma personalidade musical que, ao voar aparentemente para tão longe do blues, o homenageia a cada sulco de faixa em seu novo e tão diferente CD. E ao fazer isso, Nuno Mindelis fazde “Outros Nunos” a exaltação do blues, e não seu esquecimento, sua preterição.

Produzido pelo próprio Nuno Mindelis e pelo colega de boa data Guilherme Chiappetta, com investimento fonográfico da Gravadora Eldorado (que já acolhera Nuno Mindelis em seus dois últimos álbuns), “Outros Nunos” é composto quase totalmente por canções de autoria de Mindelis, com algumas lindas incursões pela obra de Jorge Benjor (“Chove Chuva” e “Mas que Nada”), Alceu Valença (“Como Dois Animais”) e da banda paulistana 365, com a regravação do quase-hino “São Paulo” (hit suburbano dos anos 1980'). Ora, se nas interpretações de Valença, Benjor e da rapaziada do 365 Mindelis se revela autêntico e portador de uma capacidade genial de reler o que parecia para sempre ter se tornado irretocável, é em suas composições inéditas que “Outros Nunos” apresenta um guitarrista de blues navegando por possibilidades não apenas reais, mas, após o que Nuno tem musicalmente a nos dizer, necessárias, imprescindíveis.

Além da bela voz de Zélia Duncan em “Gosto de Jeito”, canções como “Tenho Medo”, “Nunca se Esqueça”, “Siglas” e “Não me Diga Nunca Mais” já nascem clássicas, indispensáveis no repertório cultural de todo sujeito que aprecia a boa música e busca valorizar o que há de melhor na cultura brasileira.

Com letras que trafegam pelo senso de humor, pela crítica ácida e pelo coração de um autor ora apaixonado, ora indignado, as canções de “Outros Nunos” trazem um compositor e um intérprete felicíssimo em reunir, sem estragar nada, as diferentes artimanhas da MPB, do Rock, do POP e, é claro, do Blues. Mais do que isso: “Outros Nunos” traz consigo, inteiro e a transbordar a cada faixa, um cidadão urbano, recém-lançado à necessidade de viver um pouco afastado da nervura real da vida paulistana; uma personalidade singular, um leitor voraz, um sujeito sistemático e disciplinado que, ao optar pela boa arte, não admite desperdiçar seu tempo e sua vida; um amante convicto, elegante e sofisticado da boa música; um artista multifacetado, um cidadão preocupado com as andanças da economia, da política, da cultura pós-moderna esvaziada de sentido simbólico e concretamente tornada vazia, banal, desprovida de sentido, alma, generosidade...

Dizer aqui que adquirir “Outros Nunos” é tarefa obrigatória de todo amante do blues e da boa música é chover no molhado. Afirmar que “Outros Nunos” é a mais grata surpresa artística e musical sobre a qual tive o privilégio de lançar mão nos últimos dois ou três anos também seria esplanar acerca de mais do mesmo. Novidade talvez seja dizer que “Outros Nunos” se torna indispensável a todo sujeito que se interessa de fato por apreciar a grande arte, vislumbrar a genialidade criativa, aspirar a ter contato com o melhor que nossa cultura pode produzir. Uma questão de estilo e bom gosto, portanto.