15 abril 2006

O menino maluquinho e bem brasileiro lá das bandas de Minas

O cartunista Ziraldo é exemplo inquebrantável de coragem e extrema lucidez política e ideológica, radicais livres de seu caráter pessoal que ele sabe muito bem associar ao bom humor e à perseverança. De suas idéias e do deslizar suave de suas mão surgiram personagen imortais da cultura brasileira, como a curiosa cor flicts, os bichos e as tramas da Turma do Pererê e o mais-que-universal Menino Maluquinho

Menino muito do maluquinho e já ultrapassante da categoria dos septuagenários, o mineiríssimo Ziraldo Alves Pinto, filho da cidade de Caratinga e do casal Geraldo e Zizinha, de cuja criativa união silábica nasceu o único e inconfundível nome que o apresenta ao mundo, é artista e cidadão de mão cheia, peito aberto, coragem já faz muito revelada. Um cidadão brasileiro nascido em 1932 e já agraciado com o dom da eternidade.

Aqueles que como eu devem tanto às histórias da Turma do Pererê e às lições de infância, sabedoria e bom-caratismo do Menino Maluquinho, admitem com certa facilidade o importante papel de Ziraldo na cultura brasileira. Do menino simples de calças curtas nas ruas da simpaticíssima Caratinga, Ziraldo tornou-se um dos mais expressivos e talentosos desenhistas e autores de histórias infantis em nosso país. A paixão pelo desenho e pela fantástica magia de narrar histórias e vidas por meio do burilar palavras, dissuadiu-o da carreira no Direito, curso que completou, em 1957, em Belo Horizonte, e levou-o, já alguns anos antes do bacharelado, a colaborar em jornais e revistas. Ao longo de uma trajetória de muito sucesso, passou pelas revistas Cruzeiro e Visão, pelo Jornal do Brasil e dezenas de outras salutares publicações, em Minas e no Rio de Janeiro, cidade a que se destinou muito jovem para sagrar-se um dos mais completos artistas gráficos e literários de nossa história.

Criador de personagens fascinantes, como Jeremias, o Bom, Seo Pinto (tornado famoso pelas páginas da indefectível Revista Playboy!), a Supermãe e o Mineirinho, Ziraldo transitou com tranqüilidade entre os universos adulto e infantil, obtendo excelente desempenho e vivo reconhecimento tanto de adultos quanto de seus filhos... Desenhou cartazes para filmes, peças de teatro, chamadas publicitárias, campanhas culturais... enfim, criou e continua a criar em ritmo incessante. Destacam-se, a meu ver, as belas campanhas envolvendo o Menino Maluquinho sobre a importância da leitura e do (re) conhecimento dos patrimônios históricos, ecológicos e culturais de diversas regiões brasileiras. Em Londrina, por exemplo, o Menino Maluquinho protagonizou a bonita campanha “Maluquinho por Londrina”, da prefeitura municipal, em que se mostrava um pequeno cidadão, todo zeloso de seu habitat, sua cidade...

É na década de sessenta que ocorrem com o mineiro Ziraldo as histórias mais interessantes e ao mesmo tempo mais insólitas. Fato é que aquilo que deveria servir para contê-lo, digamos assim, desmotivá-lo, acabou se tornando um banho de ainda mais vontade de produzir, encantar e... contestar, fazer arte, cultura e política.

Se é no curso da década de 60' que surgem as histórias em quadrinhos mais brazucas de todos os tempos, com a Turma do Pererê dando um show de brasilidade ao ressaltar e valorizar nossos animais, nossas paisagens,nossos mitos e nossos “causos” - destacando sempre, acima das coisas, as pessoas por detrás das histórias! -, é no mesmo malfadado período que regouga a ditadura militar que assolou o país por mais de vinte anos, atravessando as décadas de 60' e 70', chegando a meados dos anos 1980.

Toda uma geração de brasileiros, como muitíssimo bem afirmava o antropólogo Darcy Ribeiro, “broxou” ante décadas de repressão e perseguição a tudo que cheirasse a solidariedade, liberdade e igualdade. Nasceram nos anos 70' as elites atuais (em todos os aspectos da vida social...) que optaram por não levar a cabo, ao fim de todas as possibilidades, a beleza e a riqueza das histórias do saci, da cultura tão brasileira que ele e sua turma representavam. Se as gerações que viveram os anos difíceis da repressão militar no Brasil não temeram enfrentá-la, as que as sucederam ousaram esquecê-la. Bom, mas isso é outro assunto. Ziraldo enfrentou-a com popa e dignidade, para variar. Resgatemos a resistência do pai do saci e do bichinho da maçã...

Afastado da hipocrisia e do atrelamento evidente da imprensa empresarial com tudo que ombreasse à sombra do poder neste país, Ziraldo fundou e desenvolveu, ao lado de grandes nomes do humor, do desenho e das letras, o lendário Pasquim, jornal não-conformista, com ideário, altamente opositor ao regime de cassação das liberdades democráticas naqueles tempos de cinismo e sandice de toda a ordem. Apesar de ter sobrevivido até o final dos anos 1980' e ter recebido de presente dos herdeiros da geração originária um breve ressuscitar no início do século que ora nos abriga, não parece necessário dizer que, com o decreto do famigerado AI-5, em 1968, o Pasquim foi perseguido, lavrado pelas forças de repressão... E Ziraldo acabou preso. Ele e centenas de outros brasileiros que não se contentaram em dizer “deixa para lá, fazer o quê?!”

Mas o filho de D. Zizinha fez muito também no campo stricto sensu das artes e das charges. Participou de dezenas de salões de quadrinhos e charges em todo o mundo, recebeu dezenas de prêmios e já foi honrado com convites e homenagens nascidos por inciativa de prefeituras, partidos políticos, parlamentos e casas de cultura européias e estadunidenses, artistas de todo o mundo... Julgo, entretanto, que a maior homenagem a Ziraldo seja a mais simbólica e terna que recebeu nesses mais de 60 anos de intensa atividade artística e intelectual: trata-se da declaração do cosmonauta Neil Armstrong - o “primeiro” homem a pisar a Lua -, ao se referir ao satélite terrestre como sendo flicts. Flicts é título de um livro infantil de Ziraldo em que há muitas cores, poucas palavras e a busca de uma estranha e solitária cor por um lugar no mundo. Na verdade, creio que todos somos pelo menos um pouco flicts. A Lua e nós. Genialidades de Ziraldo...

Em 1980, após uma década setentista de sucesso internacional em salões de desenho e arte - e colhendo os férteis grãos de uma já muitíssimo bem-sucedida carreira como escritor de histórias para crianças -, Ziraldo se consagra em definitivo com o lançamento, na Bienal do Livro de São Paulo, de O Menino Maluquinho, personagem emblema de toda uma geração (a minha!), a qual aprendeu a ler pela letra curiosa, bem-humorada e elegante de Ziraldo. O Menino Maluquinho já vendeu mais de 2 milhões de exemplares - ou teriam sido 20 milhões?!

O bom mineiro Ziraldo é isto: chargista e escritor homenageado em selos comemorativos e sambas-enredo, salões de arte e publicações dedicadas aos comics, romancista aventureiro (com boas incursões pela literatura adulta, como é visível no caso do excelente ASPITE, de lançamento muito recente!), batalhador incansável por um Brasil melhor, para todos os brasileiros e, principalmente, brasileirinhos!!!

O célebre alcunhador da ainda mais célebe frase “Ler é mais importante do que estudar”, também é grande frasista, um mago das palavras de efeito, principalmente do efeito debochado e aguçado contra a ladainha burguesa de sempre. No final dos anos 90', quando criou mais uma das suas revistas, a BUNDAS (que não deu certo porque o padrão moral da burguesia brasileira não permitiria jamais investidores e parcelas da receita publicitária da grande mídia em uma revista com um nome desses...), sentenciou: “Quem mostrou a bunda em Caras, jamais irá mostrar a cara em Bundas!” Coisas da genialidade ainda e sempre presente de Ziraldo, o nosso menino maluquinho.