23 junho 2006

DASPU: enfrentando a mediocridade, enraizando a dignidade

A histórica Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, já abrigou em suas casas e corredeiras artistas, estudantes, malandros e boêmios dos áureos tempos da cultura do samba de raiz, da velha guarda do samba carioca. As décadas excepcionais dos bons negócios, entre os anos 60 e 70, passaram e a crise econômica e social dos anos 80 diminuiu muito o luxo e o encanto provocados pelas simples e fogosas "meninas da vila". A AIDS e os novos tempos de vida sexual trazidos pelo medo despovoaram as casas das meninas mais procuradas do Rio de Janeiro. Entregues à carestia e a um profundo preconceito por parte das "elites brancas" de nosso país - fiéis freqüentadoras dos bordéis de luxo das artistas, promoters e modelos dos programas de auditório e caríssimas revistas para o público masculino -, as prostitutas, sempre assenhoradas da pecha de vadias ou coitadas foram em busca da sobrevivência em outros lugares, executando outras tarefas na dura vida das classes subalternas de nossa latina América. Longe de ser o que foi em seus melhores tempos, Vila Mimosa continua, inclusive a se dividir entre as velhas passarelas de suas simples edificações e as milhares de esquinas, hotéis centrais de pouquíssima ventilação e variadas formas encontradas pelas prostitutas para viver - muito mais do que para simplesmente sobreviver, sem flores, nem festa, nem alegria... Há doi ou três anos, Gabriela Leite, socióloga formada pela USP e ex-menina de Vila Mimosa resolveu fundar a marca Daspu. Da idéia origial ao ato de fundação em si, bem recente, foram inúmeros o desafios. Primeiro, uma socióloga prostituta? Isso não é um paradoxo? Numa sociedade que tende a ver a prostituição como falta de opção, diz Gabriela Leite, tudo é contradição, tudo é imoral, tudo é vitimização. Segundo, uma grife chamada Daspu não iria trazer problemas com a sua quase homômina Daslu, a butique dos triliardários fragmentados? Sim, traria. E trouxe. Mas, me parece, a idéia era esta mesma: provocar, chamar a atenção, problematizar e polemizar. Viva a DASPU. Entrem no site, façam suas compras e dêem uma lição na elite modorrenta que, em vôos de helicóptero, preferem ir atrás de um vestidinho de 200 mil dólares a abrigar a esperança num rosto de menino


Em debate por ocasião de lançamento do documentário Falcão - meninos do tráfico, em plenas e luxuosas dependências da butique de luxo Daslu, defronte das estarrecidas faces da senhorita Tranchesi (esse nome dá um belíssimo e pejorativo trocadilho, não?) e do rapper MV Bill, já amaciado pela fama patrocinada pelas Organizações Globo, a socióloga Lúcia Pinheiro, da Fundação Travessia, que cuida de crianças das ruas da capital São Paulo, disparou, pautando-se nos duros acontecimetnos marcados pela violência urbana em recentes finais de semana da metrópole paulista: "O consumismo é uma das causas dessa tragédia. Estamos no templo do consumo. Isto aqui é responsável. Se eu lembrar do país e da desuigualdade social em que vivemos, este local é uma violência". Diante de uma platéia chocada com tão duras palavras - e da cabeça baixa de um rapper da periferia de outra grande metrópole brasileira -, Lúcia Pinheiro deu exemplo de coragem e coerência, marcas de sua própria "travessia" pessoal e profissional. Mais do que parabéns, Professora Lúcia, quero lhe dizer MUITÍSSIMO OBRIGADO!