24 junho 2006

Hobsbawm, a nação, o futebol e a Copa do Mundo

Falar de Eric J. Hobsbawm, historiador egípcio, nascido em Alexandria, em 1917, é percorrer um pouco da História do Marxismo e da própria humanidade no século XX. Autor das célebres eras (dos impérios, das revoluções, do capital e dos extremos), Hobsbawm jamais se furta, sob o forte prisma de sua análise crítica, a tecer comentários sobre os mais diversos assuntos, de eleições à africanidade, de cidadania às copas do mundo de futebol. Reproduzo abaixo uma entrevista especial e exclusiva que Hobsbawm, professor aposentado da tradicional Birkbeck College, da Universidade de Londres, e professor sempre atuante na New School for Social Research, de Nova York, concedeu a Agência Carta Maior, perpetrando e eternizando nela suas opiniões sobre um pouco de tudo, mas principalmente de força e esperança.
Agência Carta Maior - 23/06/2006

ENTREVISTA EXCLUSIVA
A Copa do Mundo e suas paixões, no olhar de Eric Hobsbawm

"Acho que só participar de uma Copa do Mundo é que faz as pessoas que vivem no Togo ou em Camarões se darem conta de que são cidadãos de seus países", diz o historiador Eric Hobsbawm, em uma entrevista exclusiva à Carta Maior. "Posso entender o apelo deste tipo de patriotismo, mas eu não tenho entusiasmo nenhum pelo nacionalismo", acrescenta o historiador de 89 anos.
por Verena Glass - Carta Maior

SÃO PAULO – Que fenômeno é esse que paralisa um país inteiro em dia de semana, reúne milhares, ricos e pobres, esquerda e direita, nas ruas, praças e bares, e tinge de verde e amarelo tudo e qualquer coisa? O que é esse evento em que multinacionais, como a Coca-Cola ou a Aracruz, assumem-se como os mais fervorosos entre os patriotas brasileiros? O que é esse futebol como máquina de fazer dinheiro para alguns e alegria para multidões?
Para falar de Copa do Mundo, a Carta Maior buscou a opinião não especializada em esportes ou futebol de um dos mais importantes pensadores da atualidade. Aos 89 anos, Eric Hobsbawm viveu e analisou a essência do século passado em obras como A Era das Revoluções (1789-1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era dos Impérios (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991). E, em seu último trabalho, O Novo Século, lançado em 2000, o historiador, um dos últimos grandes pensadores marxistas do mundo, olha o futuro com a mesma clareza com que explicou o passado.
Na onda do também historiador Michael Hall – que já afirmou que “a excepcional amplitude dos interesses e conhecimentos [de Hobsbawm] encantam mesmo aos que nem sempre concordam com todos os seus argumentos. Hobsbawm é, sobretudo, surpreendente: flexível e original quando se espera ortodoxia” -, a Carta Maior resolveu buscar a sua opinião sobre a febre do momento. Leia a seguir a íntegra da entrevista:
Carta Maior - Durante um evento como a Copa do Mundo, principalmente no Brasil, o patriotismo aflora com enorme força, o país inteiro veste as cores na nação, as bandeiras brasileiras estão por toda parte, e diferenças sociais e políticas parecem desaparecer por algumas semanas. O que o senhor acha deste tipo de patriotismo?
Eric Hobsbawm – A capacidade de o futebol de ser um símbolo de identidade nacional há muito é conhecida. No meu livro sobre nacionalismo eu escrevi que “a comunidade imaginária de milhões parece ser mais realista do que um time de onze pessoas”. Atualmente, indubitavelmente, isto é mais importante do que nunca na história, já que grandes jogadores são recrutados de quase todos os cantos do mundo. Acho que só participar de uma Copa do Mundo é que faz as pessoas que vivem no Togo ou em Camarões darem-se conta de que são cidadãos de seus países. Posso entender o apelo deste tipo de patriotismo, mas eu não tenho entusiasmo nenhum pelo nacionalismo.
CM – No dia da abertura da Copa, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, escreveu um artigo onde dizia invejar o evento, começando pelo fato de que a Fifa tem 207 membros, contra 191 das Nações Unidas. Para ele, a Copa “é um evento no qual todos conhecem seus times e o que eles fizeram pra chegar até lá. Gostaria que tivéssemos mais competições desse tipo na família das nações. Países competindo pela melhor posição na escala de respeito aos direitos humanos, um tentando superar o outro nas taxas de sobrevivência infantil ou de ingresso no ensino médio. Estados fazendo performances para o mundo todo assistir. Governos sendo parabenizados pelas ações que levaram àquele resultado”. O que o senhor achou deste discurso?
Hobsbawm – Eu posso entender porque Kofi Annan quer usar a Copa do Mundo em benefício da ONU, mas eu acho que obviamente ele não acredita na possibilidade de países competirem por mais e melhores direitos humanos, como competem pela vitória num campo de futebol. De mais a mais, a vitória de um país sobre o outro não é o objetivo nas Nações Unidas.
CM – Grandes corporações, como a Nike e a Coca-Cola, fazem muito dinheiro com a Copa. Nos bastidores, a Nike, que patrocina alguns dos mais famosos jogadores, como Ronaldo, foi até acusada de influenciar a decisão do corpo técnico dos times sobre a escalação de jogadores. Como o senhor analisa o poder destas empresas e seu envolvimento na organização de um evento esportivo tão importante?
Hobsbawm – Eu não sei quanto as grandes corporações que patrocinam a Copa influenciam de fato a condução dos jogos, portanto não tenho opinião sobre esta questão. Certamente estas empresas têm grande influência sobre a formatação da competição, os horários dos jogos etc. e, claro, a visibilização de seus logotipos e produtos. Por exemplo, a Fifa de fato forçou torcedores holandeses a trocar de calças porque as que usavam tinham o logo de uma cerveja holandesa que compete com a Budweiser, patrocinadora oficial da Copa. No entanto, a relação da Copa com o moderno capitalismo globalizado é mais complexa do que isso. Ou seja, a indústria atualmente é altamente globalizada e não poderia subsistir na atual escala sem a existência de um capitalismo global de mídia. Mas o futebol, no geral, está dominado por alguns poucos times europeus, como Manchester United, Real Madrid, Milan etc., que, desde os anos 1980, recrutaram seus jogadores em todos os cantos do mundo. Alguns outros times na Europa fazem seu dinheiro descobrindo talentos no exterior, comprando-os barato e revendendo-os para os grandes. Isso tem acontecido muito com jogadores brasileiros e argentinos, por exemplo. Mas o paradoxo desta situação é que o apelo global do futebol, que cria o enorme público de quem corporações como a Nike tiram seus lucros, está baseado no apelo nacional do jogo. A Copa do Mundo é o mais dramático exemplo disso. Aí está a contradição. As implicações políticas, econômicas e sociais dessa situação, no entanto, nunca foram adequadamente analisadas.
CM – O senhor acredita que a Copa do Mundo tem algum caráter político, bom ou ruim?
Hobsbawm – A Copa, em si, provavelmente não tem nenhum fundo político em particular, mas, assim como as Olimpíadas, é quase certo que esteja vulnerável às pressões e às promessas diplomáticas ou de outra natureza dos países mais poderosos. Infelizmente, vencer a Copa deve certamente beneficiar o regime do país, como aconteceu na Argentina durante a ditadura militar, independente, inclusive, das posições políticas de seus jogadores. A gente só pode esperar que os campeões da Copa do Mundo tenham regimes aceitáveis. Também existe a possibilidade de que, em países pequenos e periféricos, jogadores de destaque tornem-se também importantes figuras públicas; como no caso da Libéria, onde um jogador foi candidato a presidente da República.
CM – Por fim, gostaria que o senhor comentasse as preocupações com ataques terroristas durante a Copa, principalmente em relação ao time dos EUA, o mais bem protegido entre todos na Alemanha.
Hobsbawm – Estou certo de que as forças de segurança européias estavam certas em suspeitar de possíveis ataques terroristas ao time americano ou, mais genericamente, à Copa. Afinal, existe o precedente do ataque aos atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972. Mas, obviamente, eu não tenho como saber se alguma organização planejou alguma ação este ano.