27 julho 2006

Pus o meu sonho num navio

Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
Para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul das ondas entreabertas,
E a cor que escorre de meus dedos
Colora as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
A noite se curva de frio;
Debaixo da água vai morrendo
Meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
Para fazer com que o mar cresça,
E o meu navio chegue ao fundo
E o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
Praia lisa, águas ordenadas,
Meus olhos secos como pedras
E as minhas duas mãos quebradas.

(Cecilia Meireles)