10 julho 2006

Veja mente: desassine!


Entrevista que concedi por e-mail a um formando em Comunicação Social: Jornalismo, em Londrina, no último mês de maio. O tema era: Imprensa, Verdade, Veja! Ou algo muitíssimo parecido com isso. Abaixo a entrevista - ou "abaixo a revista"?!.
Como sociólogo, como você define o papel da Revista Veja perante a sociedade?

Um veículo de informação tem a função de noticiar os acontecimentos, checando fontes e delimitando tanto a validade quanto a relevância de uma determinada informação. Se puder educar, estimulando o senso crítico e os bons instrumentos para a emancipação da condição humana, tanto melhor. Mas, fundamentalmente, a função de um jornal, de uma revista, de um sítio de notícias, enfim, de um veículo de imprensa, é informar. A Veja, lamentavelmente, não informa, entretém muitíssimo mal e deseduca totalmente seu leitor, oferecendo-lhe informações falsas, ideológica e propositadamente distorcidas, revalidando um antigo clima de “guerra fria” muito comum nos anos 70’ e 80’. Nesse clima de guerra ideológica sobram manifestações de preconceito contra as esquerdas, os movimentos sociais, o MST (em especial!), Cuba, Venezuela, o PT, a CUT etc. Independentemente da validade originária das informações, a Veja criou como ninguém um tipo muito tosco de jornalismo, nomeado denuncismo, que é primário e irresponsável, uma vez que desconsidera o senso crítico de seu leitor e promove o conformismo e o situacionismo, uma delicada e sem sentido celebração cínica do real.

O que a Revista acrescentou desde sua implantação em 1968?

Não sei ao certo. É claro que como veículo de informação não-atrelado diretamente às esferas estatais (muito embora pertença ao Grupo Civita, historicamente enlameado nos chiqueiros do planalto central) traz consigo contribuição importante para a liberdade civil de opinião e expressão de idéias e valores. O conservadorismo tosco de Veja, entretanto, dá claros sinais dos grupos e fragmentos de classe social a que ela está ligada. Nesse sentido, apesar de um dia ter tido em sua redação grandes nomes do pensamento social brasileiro – como Mino Carta e Perseu Abramo -, a grande contribuição que Veja tem dado à sociedade brasileira, a despeito de sua autocredenciada irreverência, indispensabilidade e ousadia, é o comprometimento mesquinho da grande imprensa empresarial com setores retrógrados da sociedade nacional, vinculados com o peso morto mas ainda não enterrado do passado colonial de nosso país, símbolo de nosso atraso político, econômico e cultural.

Como a Revista era analisada naquela época pela sociedade?

É possível que você lembre a grande foice e o imenso martelo reunidos na capa da primeira edição de Veja, em 1968, em pleno clima de AI-5 e perseguição das liberdades democráticas no país. A revista surge então como alento, como guarida de manifestação de idéias contra as podas da democracia e da liberdade cidadã. Sendo dos poucos veículos de grande circulação à época (ao lado talvez da quase extinta Cruzeiro e da Manchete, de Adolfo Bloch, muitíssimo censurada durante os anos de militarismo), pode-se dizer que muita gente - progressistas, intelectuais de esquerda, familiares de “perseguidos” pelo regime, jovens e militantes dos movimentos sociais – acenou com esperança para a revista e sua linha editorial(!) aparentemente livre e pluralista. Com o tempo, o conservadorismo e as contendas de persuasão das classes dominantes engravataram a revista, dando-lhe o atual tom de denuncismo, falsidade e perseguição ideológica. Hoje a Revista Veja é um grande panfleto das elites políticas e econômicas deste país ligadas ao colonialismo, ao coronelismo e à vulgata da defesa dos interesses de Bush (ou do conservadorismo do republicanismo eugenista e economicista dos EUA) e do imperialismo canhestro estadunidense.

E como a sociedade a analisa hoje?

A sociedade como um todo, imersa na tal pós-modernidade do entretenimento, da informação veloz e multidirecional e da alienação contumaz, consome Veja, reverenciando-a como das mais vendidas revistas do Brasil, ao lado de Caras e das belíssimas revistas sobre o universo dos astros e das estrelas de nossa grandiosa TV.

Isso, é claro, não diz muita coisa, principalmente se pusermos sobre a pauta do debate os fatos inegáveis de nosso tempo: refluxo dos espaços públicos, espetacularização dos fenômenos sociais e banalização dos elementos da vida humana, como a sexualidade, a criminalidade, o humor e a própria liberdade de expressão, que virou depreciação e calunioso entreguismo dos desafetos morais/ideológicos. (Aliás, sobre esse tema em especial, reporto ao genial e recente filme de George Clooney, “Boa Noite e Boa Sorte!”. Vale a pena conferir!)

Por vender bem e ter toneladas de anunciantes (que ocupam mais da metade de suas páginas), Veja parece ser bem vista, sobretudo num tempo em que ler e se informar criticamente sobre os acontecimentos da vida social não representa, digamos, o elã dos relacionamentos do homem consigo mesmo, tampouco do homem com o mundo que deveria ter sua feição, seu conteúdo, elementos criados livremente pela grandiosidade da vida comunitária e pela iniludível transcendência humana, do eu para o mundo.

A revista consegue o título de mais vendida no Brasil. Como e por que ela consegue essa meta? Será por coligações políticas... enfim?...

Creio já ter respondido ao eixo dessa questão nas observações anteriores. Mas vale reiterar, em síntese: conservadorismo moral e político (que mexe com os brios das classes médias e das populações subalternas arrefecidas pela violência das práticas e discursos das classes dominantes); banalização e espetacularização da vida humana, tanto individual quanto coletiva (que promovem uma falsa mas acolhedora idéia de informação erudita e antenada com as coisas mais importantes do mundo... Sobre isso vale observar, com profundo mal-estar, as “reportagens” de Veja sobre educação, psicologia, comportamento jovem, vida e saúde da mulher. São de um horror sem-tamanho, cópia integral da New Yorker, da ABC, da FOX etc.); e , ainda, criminalização de atores, sujeitos e grupos sociais, fatores que dão a revista, no olhar de seus leitores, certa imagem de coragem e independência editorial. Não há como esquecer que os criminosos e responsáveis pelo MAL em Veja são os de sempre: movimentos sociais, políticos e pensamentos de esquerda, idéias alternativas ao seu “pensamento” central...

Um jornalista da Folha de S. Paulo analisa a Veja da seguinte maneira: “Veja mas não leia!”. Como você interpreta essa frase? Concorda ou não?

Eu alteraria um pouco a frase. Diria “Não veja nem leia: não há boas razões para isso”. Por tudo que expus acima, faço convergência entre meus argumentos e algumas das conclusões a que chegou o sociólogo Emir Sader em pequeno artigo intitulado “Por que a Veja mente, mente, mente, desesperadamente?”, publicado na Revista Caros Amigos nº. 104, de novembro de 2005. Diz Sader: “A Veja mente, mente, mente, desesperadamente, porque suas verdades são mentiras, porque representa o conservadorismo, a discriminação, a mentalidade mercantil, a repressão, a violência, a falsa cultura, a vulgaridade – enfim, o que de pior o capitalismo brasileiro já produziu. Choca-se com o humanismo, a democracia, a socialização, os interesses públicos. Por isso, para “fabricar consensos” – conforme expressão de Chomsky, a Veja mente, mente, mente, desesperadamente”. É isso.