01 agosto 2006

Dorsal Atlântica - Antes do Fim, 20 anos depois...


A cena metal no Rio de Janeiro da década de 1980 foi muito bem construída pelas fortes bases cedidas pelo lendário Circo Voador e pela pioneira rock radio Fluminense FM. A Dorsal Atlântica surgiu nesse bom contexto, aproveitando a cena potencialmente crescente para lançar grandes álbuns, entre 1985 e 1997 (depois vieram outtakes, remasterizações em CD etc.). "Antes do Fim", contudo, é algo à parte na carreira desses cariocas do rock bem-pesado. Com a belíssima capa feita à mão, celebra crítica contra a censura sofrida pela capa original do álbum, ao mesmo tempo em que revela um banger (carinhoso apelido dos amantes da música metal) de olhos arregalados, com a cabeça alucinadamente cravada por pregos que massacram seu cérebro; é o som da Dorsal, que, além de fuzilar sua cabeça, torna-o impedido de se expressar, devido à tosca censura que lhe costura a boca. Se "Antes do Fim" já não fosse brilhante pelo que lhe atesta - um álbum de música -, essa capa já seria um grato presente. Forma e conteúdo em perfeita harmonia.
Sempre quis escrever sobre "Antes do Fim" e o papel que a legendária Dorsal Atlântica desempenhou em minha vida. Os irmãos Lopes - Claudio e o insigne Carlos - e o batera Animal (tudo a ver com o ídolo Muppet) acertaram na mosca em 1986, quando, pela absolutamente desconhecida e precária gravadora paulistana Lunário Perpétuo, lançaram o já faz muito clássico "Antes do Fim". Apesar de ser um álbum gravado de modo extremamente amador, de mixagem sofrível e quase ininteligibilidade da voz gutural e emblemática - única, na verdade! - de Carlos "Vândalo" Lopes, "Antes do Fim" marcou uma geração nos anos 1980'. Sem ele, sem a Dorsal, tudo teria sido bem mais triste, desgraçadamente sem graça. Corra até a loja de discos (discos? Olhe eu novamente lá nos vinis dos oitenta...) mais próxima de sua casa e adquira todo esse manifesto rebelde contra o mundo dominado pela ausência de amor e de solidaeriedade. Um mundo, como tão bem já nos ensinara o saudoso Hélio Pellegrino, é, em si, um mundo mesmo sem nenhuma possibilidade de ser tragado pela infinitude despretensiosa porém valiosíssima do amar...

Abaixo uma resenha que considero extremamente inteligente sobre o relançamento de "Antes do Fim", batizado agora de "Antes do Fim Depois do Fim", já que Carlos Lopes decretou o fim da Dorsal no ano 2000. Uma pena. Grande pena.
por Maurício Gomes Angelo

Ok. É muito fácil vir aqui e dar nota 10 para o “Antes do Fim”. Todo mundo vai te amar. Todo mundo vai achar que você é o cara mais "true" do mundo. Foda-se . Não se trata de convenção. Não se trata de louvar o álbum porque ele é clássico, porque foi o primeirão do Dorsal Atlântica e instalou a mistura de metal com hardcore na América Latina. É mais que isso. Muito mais.

Sabe o que difere isto aqui ["Antes do Fim Depois do Fim", da Dorsal Atlântica]? Ele tem ALMA! Tem sangue, sêmen, lágrimas, neurônios, demência, negritude, suingue, é preto até o osso. O Carlos Lopes já cansou de dizer isto. E ele tem toda razão. Chega um momento em que você percebe que toda a magia do rock 'n' roll vem do elemento negro que ele tem. Isto é essencial! É a origem, a característica indispensável por excelência. Sem isso, não é rock, não é metal, não tem como ser! E por isso que o metal de hoje é tão plástico, tão superficial, tão sonolento. E é por isso que, com toda certeza, ao ouvir “Antes do Fim” você vai notar essa aura diferente, esse lance anos 80, as notas encharcadas de autenticidade, paixão, essa coisa estúpida que, se bobear, te leva às lágrimas. E, não se engane, você não precisa ter 50 anos para ser arrebatado por músicas como “Álcool”, “Guerrilha” ou “Joseph Mengele”. Eu não precisei ter esta idade para sentir que a vida valia a pena quando ouvia Cream, Ten Years After ou Thin Lizzy. Nunca morre, bicho, nunca morre. Tudo passa, essas coisas ficam. São imortais. O rock, o verdadeiro rock n’ roll, é imortal. Ninguém vai se lembrar de Rhapsody daqui a trinta anos, não permanece. Agora isto aqui...

O álbum de 1986 foi renomeado para “Antes do Fim, Depois do Fim”. E, quer saber? Está mais metal, mais hardcore, violento, sexy, ofensivo, nostálgico, atual, verdadeiro, insano, técnico, veloz, pesado, espiritual, profano e pegajoso. São 10 hinos. Todas. Todas são ótimas. É um daqueles disquinhos que você ouve num fôlego só. Que lhe dá a impressão de estar progredindo de qualidade a cada faixa. E tu fica pensando: “vai cair, vai cair, não é possível!”. É. Não cai. A gravação, obviamente, está melhor. O encarte foi turbinado. As letras continuam pungentes e relevantes como sempre foram.

O único disco do Dorsal não lançado em CD chega às lojas em pleno 2005. Parabéns a Encore Records. Parabéns ao Carlos Lopes, por conseguir superar todos os incontáveis fatores históricos e sentimentais que envolvem o “Antes do Fim” e o próprio Dorsal Atlântica. Compre. E tenha a oportunidade de conferir como a música de verdade sobrevive ao tempo.