08 agosto 2006

A INTERNACIONAL


O sociólogo Francisco de Oliveira costuma dizer que, depois do Hino de Recide, sua cidade natal, o que ele realmente gosta de cantarolar, revereciar, é o Hino da Internacional - só Internacional, depois Comunista, hoje Socialista, pouco importam as adjetivações.

Criada entre 1871 (a letra, de Eugène Pottier) e 1888 (a canção, de Pièrre Degeyter), A Internacional deveria emprestar sonoridade e emoção à Associação Internacional dos Trabalhadores, de cuja fundação havia participado Karl Marx. De mero caráter associativo para deliberar sobre as reais condições de vida e trabalho do proletariado de todo o mundo (leia-se, em retrospectiva, da indústria européia do século XIX), a AIT passou à condição de grande movimento, "grande síntese", de aspirações operárias e populares que, em pouco tempo, se espalhava pelos quatro cantos do globo. A despeito das diferenças de orientação nas várias internacionais e do predomínio desse ou daquele referencial teórico-prático (vide as incríveis diferenças e os abissais desvios de origem e resultado existentes entre a II Internacional - ainda em funcionamento -, a III, dissolvida com a crise do stalinismo, e a IV, de origem trotskysta, que a toda a hora se vê na iminência de refundação), o mesmo hino atravessou décadas a fio sendo cantado em reuniões partidárias, encontross operários, movimentos estudantis, congressos progressistas etc. De melodia fácil e encantadora, A Internacional efetivamente emociona a todos, seja por sua letra tão real quanto atualíssima, seja pelas variadas versões rítmicas que recebeu ao longo de todo esse tempo de estrada - do blues ao rock, do jazz e do folk ao hardcore (vale a pena escutar a versão dos paulistas "Garotos Podres", um petardo sonoro), A Internacional continua bela e esperada; desejada num mundo cujo centro insiste em ser a desigualdade, a desumanização do sujeito humano... Bom, o hino de meu clube de futebol é belíssimo; o hino de meu país tem sua beleza; o de minha cidade também. Mas, ao contrário de Chico de Oliveira, meu hino, único, é mesmo a Internacional. Só a ela rendo minhas homenagens, só por ela derramo minhas lágrimas de emoção e esperança. Sempre
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A Internacional


De pé, ó vitimas da fome!

De pé, famélicos da terra!

Da idéia a chama já consome

A crosta bruta que a soterra.

Cortai o mal bem pelo fundo!

De pé, de pé, não mais senhores!

Se nada somos neste mundo,

Sejamos tudo, oh produtores!

Bem unido façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional

Senhores, patrões, chefes supremos,

Nada esperamos de nenhum!

Sejamos nós que conquistemos

A terra mãe livre e comum!

Para não ter protestos vãos,

Para sair desse antro estreito,

Façamos nós por nossas mãos

Tudo o que a nós diz respeito!

Bem unido façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional

Crime de rico a lei cobre,

O Estado esmaga o oprimido.

Não há direitos para o pobre,

Ao rico tudo é permitido.

À opressão não mais sujeitos!

Somos iguais todos os seres.

Não mais deveres sem direitos,

Não mais direitos sem deveres!

Bem unido façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional

Abomináveis na grandeza,

Os reis da mina e da fornalha

Edificaram a riqueza

Sobre o suor de quem trabalha!

Todo o produto de quem sua

A corja rica o recolheu.

Querendo que ela o restitua,

O povo só quer o que é seu!

Bem unido façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional

Nós fomos de fumo embriagados,

Paz entre nós, guerra aos senhores!

Façamos greve de soldados!

Somos irmãos, trabalhadores!

Se a raça vil, cheia de galas,

Nos quer à força canibais,

Logo verrá que as nossas balas

São para os nossos generais!

Bem unido façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional

Pois somos do povo os ativos

Trabalhador forte e fecundo.

Pertence a Terra aos produtivos;

Ó parasitas deixai o mundo

Ó parasitas que te nutres

Do nosso sangue a gotejar,

Se nos faltarem os abutres

Não deixa o sol de fulgurar!

Bem unido façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional