24 agosto 2006

Por que GRAMSCI?

O italiano Antonio Gramsci (1891 - 1937) tem sido minha principal referênica humana e teórica na batalha das idéias socialistas. Em nome dessa devoção - e ciente da enorme dívida de gratidão que tenho com o intelectual sardo - escrevi para a Revista DISPUTATIONES, nº 6, edição de dezembro de 2005 (que, me parce, pode ter sido a última...), pertencente a uma faculdade particular em Apucarana/PR, um artigo de perguntas e respostas rápidas sobre a importância de Gramsci em minha trajetória intelectual e, mais impostante, quanto efetivamente tenho dele na totalidade de minhas referências teórico-práticas. Ao final do texto, uma breve nota de rodapé se encarrega de especificar os critérios que me levaram a querer fazer deste pequeno ensaio um ato de fé por minhas preferências gramscianas; há ainda uma breve justificativa das opções estéticas do ensaio em pauta.

Prolonga-se, nas linhas abaixo, uma tentativa de resposta a: 1) Existe algum autor que você tenha por favorito? 2) Você conhece a obra do referido autor em que nível? e 3) De que maneira você julga orientar suas atividades profissionais pelo legado teórico do referido autor?

1)

É difícil reconhecer que se possa ter um autor favorito numa área de investigação e análise tão complexa e plural como a Sociologia. Desde os clássicos do pensamento sociológico (Durkheim, Weber e Marx), muita coisa tem sido produzida, muitas releituras vêm sendo feitas em nome ou em oposição a estes autores clássicos. Disso se pode presumir que, em rigor, quase nada em Sociologia se faz fora do âmbito da teoria e da prática de seus clássicos, para o bem ou para o mal.

À proporção que se deve sempre proclamar a importância dos estudos dos três autores clássicos da Sociologia, deve-se também assumir quão árduo se faz conciliá-los, haja vista as diferenças tanto teóricas quanto de origem e destino de suas contribuições para a formação das teorias sociológicas.

Optei, cedo, por Marx e a tradição filosófica de seu pensamento. Uma tradição que, deve-se enfatizar, é tão plural e rica em possibilidades quanto as suas próprias obras e análises de formação das modernas sociedades capitalistas, das sociedades que ele caracterizava como um palco de enfrentamentos políticos, de luta de classes.

Muita coisa se disse e se fez em nome de Marx ao longo dos séculos XIX e XX. Desde as insurreições operárias na Europa em 1848, cujo resultado prático de maior envergadura foi a Comuna de Paris, em 1871, até as políticas de alta concentração estatal que se desdobraram em virtude – ou falta de virtude! – da gloriosa Revolução Russa de 1917. Exemplos típicos dessa centralização estatal foram os horrores do stalinismo na URSS e as malditas “utopias comunistas” no Camboja, no Vietnã e na Coréia do Norte, que podiam ser qualquer coisa... menos comunistas. Vale ainda lembrar a violência e o desrespeito aos direitos humanos e à pluralidade democrática - essências do verdadeiro socialismo inspirado em Marx – praticados em países do leste europeu como a Polônia, a Hungria e a antiga Tchecoslováquia.

Nesse sentido a tradição marxista serviu a gregos e troianos. Há a corrente “maximalista”, que acreditava que a Revolução Socialista era uma questão de tempo, independente das vontades subjetivas, uma vez que o capitalismo geraria sua autodestruição e, um belo dia, amanheceríamos todos numa nova sociedade... livre, igualitária e fraterna; há os que pleiteavam reformas sucessivas no seio do próprio capitalismo, julgando colocar em xeque, através da posse dos governos executivos e das casas parlamentares, as bases da lógica capitalista de produção e reprodução materiais – como era o caso das correntes majoritárias na II Internacional Comunista (1872), lideradas por Kautski e Bernstein, que renunciaram à revolução e aderiram às práticas daquilo que ficou mundialmente conhecido como a política revisionista (no “mau sentido”) social-democrata; e há os que procuraram manter-se fiéis ao pensamento de Marx, revisando-o historicamente, como é o caso de Georg Lukács, Walter Benjamin, Nicos Poulantzas e o meu autor preferido, um intelectual cuja obra nos oferece momentos de intensa reflexão e raro prazer: o italiano Antonio Gramsci (1891–1937). Dessa última citada corrente da tradição, da filosofia e do conjunto de análises e interpretações do universo marxista pode-se verificar a maior das lições do pensamento de Karl Marx, qual seja: o objetivo da ciência é o concreto, que por sua vez se faz na diversidade de suas determinações e nas andanças dinâmicas da própria história. Em sendo assim, para Marx, é preciso pensar sempre historicamente; daí a necessidade de a todo o instante reverem-se os procedimentos e posturas diante do real. Fora da compreensão histórica não existe nem teoria, nem prática revolucionária. E eu acredito que poucos autores obtiveram tanto êxito na assimilação desse valor científico e na busca pela viabilidade prática de suas idéias, interrogações e propostas como Gramsci. É por isso que o tenho em grande estima e no mais alto posto de minhas preferências intelectuais.

2)

A obra de Gramsci não é extensa, conquanto não se possam negar-lhe a densidade e a riqueza de temas tratados com rigor, responsabilidade e extrema acuidade intelectual.

Como no caso de todo grande autor, a obra de Gramsci se divide em duas partes. (Alguns autores têm infinitas possibilidades de divisão em sua produção intelectual, como é o caso do magnífico filósofo húngaro Georg Lukács.) A primeira delas, que vai até o ano de sua prisão pelas forças repressoras do fascismo italiano liderado por Mussolini (1926), compreende tanto o período de sua formação como jornalista – o principal dos periódicos socialistas em que atuou foi L’Ordine Nuovo, de sua própria fundação e concepção – quanto a fase de sua transição para a maturidade intelectual, contida nos célebres Cadernos do Cárcere, escritos, numa indicação aproximada, entre 1929 e 1935, ou seja, iniciados três anos após seu encarceramento, em 8 de novembro de 1926, e interrompidos em 1935, quando seu estado precário de saúde o impediu de continuar seus estudos, reflexões e escritos.

Além dos inúmeros artigos produzidos para os jornais em sua juventude, entre 1910 e 1926 (mais tarde compilados com o título de Escritos Políticos), ano este em que se detinha sobre a redação de seu único livro escrito antes do aprisionamento, A Questão Meridional – que versava sobre a dualidade da constituição da Itália como nação, suas discrepâncias, seus equívocos e seu gigantesco elitismo militar e conservador -, Gramsci escreveu também centenas de cartas à mãe, à esposa, à cunhada... Em virtude das dificuldades da mãe em responder-lhe às inquietações que nasciam dentro do cárcere e à doença da mulher, vítima de profundas seqüelas oriundas de sucessivos estágios depressivos, a maior parte das cartas redigidas por Gramsci no cárcere dirigiu-se à sua cunhada Tatiana, que lhe serviu de porto-seguro e travessia para a realidade do mundo. Essas cartas mais tarde foram reunidas nas diversas edições de Lettere Dal Carcere, obra que contém, sem dúvida alguma, importante fonte de pesquisa acerca do pensamento gramsciano.

É nos Cadernos do Cárcere, contudo, que está contido o vigor do pensamento de Antonio Gramsci. (Aliás, deve-se frisar, há uma belíssima e completa edição brasileira dos Cadernos, editada pela Civilização Brasileira, em 6 volumes, entre 1999 e 2002, e organizada por Carlos Nelson Coutinho, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Também pela Civilização Brasileira, dentro do mesmo projeto editorial, foram publicados os Escritos Políticos, em 2004, e as Cartas do Cárcere, em 2005, ambas as publicações em dois volumes cada, com zelo e cuidado impecáveis pelo legado de Gramsci.) Ao longo dos 29 “cadernos especiais” e das dezenas de “cadernos miscelâneos” da obra maior de Gramsci, há estudos rigorosos e análises extremamente ricas acerca de variados temas da questão social e política, tais quais: Estado, filosofia, política, ideologia, hegemonia, literatura, organização dos intelectuais, folclore, cultura, senso comum, bom senso etc. Trata-se de um esforço de abarcar temas contemporâneos e indispensáveis à pratica revolucionária e à reflexão sobre as sociedades complexas do mundo atual. É importante que se diga que foi através do reconhecimento público da obra de Gramsci e da sua difusão nos mais variados meios intelectuais que o marxismo “se oxigenou”, ganhando novo fôlego e instrumentos eficazes contra sua crescente vulgarização e banalização. Cabe a Gramsci, mas não só a ele, uma nova etapa no fortalecimento da tradição marxista e na luta por uma realidade socialista democrática e pluralista.

Não posso afirmar que conheço a fundo a obra de Gramsci, uma vez que, por tratar-se de uma obra aberta – como, aliás, toda a obra de Marx -, ela nos instiga permanentemente, abrindo novos horizontes a toda a hora. Ler Gramsci é uma tarefa sempre inconclusa e nova; a cada leitura novos conceitos nos aparecem, nos estimulam a continuar, a disseminar sua riqueza e seu inconteste valor. É uma tarefa em travessia, como nos ensina João Guimarães Rosa: sua verdade não está nem no início, nem no final da trajetória, mas no caminho, nos percalços, nas descobertas, nas surpresas e nos encantamentos da obra deste que foi, na minha opinião, sem sombra de dúvida, o maior intelectual marxista do século XX.

3)

Valho-me de Gramsci e sua obra em quase todas as minhas atividades profissionais. Recorro ao comunista sardo para refletir sobre Estado e política, sobre cultura, capitalismo e socialismo, bem como aos temas relacionados com o universo do trabalho. De Gramsci também retiro as bases para pensar a literatura e a produção artística, o papel dos intelectuais em nossa sociedade e, principalmente, os temas da democracia, do pluralismo, da cidadania e dos direitos humanos. É evidente que o suporte de autores magníficos como Lukács, Benjamin e Poulantzas – bem como de brasileiros como Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho – auxiliam-me por demais não só na tentativa de enriquecer o pensamento do próprio Gramsci, mas também para complementá-lo, compará-lo, solidificar e tirar a prova dos nove em relação ao poder e ao prestígio de suas análises e reflexões. É desses quatro autores da tradição marxista que me ocupo em minhas tarefas docentes e de pesquisa – Gramsci, Lukács, Poulantzas e Benjamin -, julgando que suas obras e suas trajetórias de vida ainda se constituem como fontes inesgotáveis de aprendizagem e criação de alternativas para a transformação social. Neles reside, creio eu, o que há de mais precioso para pensar e efetivar valores como democracia, liberdade e respeito aos direitos humanos. É isso.
* Este ensaio não é uma produção autobiográfica nem uma entrevista em sentido absoluto. O interlocutor no texto é fictício, bem como as questões que são lançadas de início. O objetivo do ensaio, portanto – além de um exercício pessoal pela senda literária -, é promover o pensamento e a obra de Antonio Gramsci, sua importância para o desenvolvimento e a profusão do marxismo no século XX. Conquanto não seja nem de longe um texto de ficção, algumas de suas estruturas e opções literárias o são; os juízos e as análises teórico-conceituais são, no entanto, fruto direto de minhas reflexões e de meus posicionamentos pessoais.