30 outubro 2006

Sonhe...

"Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância
das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre."
Clarice Lispector

21 outubro 2006

Verdadeiramente amar...

VLADIMIR MAIAKOVSKI (1893-1930)
Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme
fiel
e verdadeiramente.

20 outubro 2006

O Anel de Tucum

Muita gente (alunos, colegas e até familiares) me pergunta o que significa a "grossa argola" negra que carrego no anular da mão direita. Bom, imaginando que mão e dedo não interferem no significado do anel de tucum (esse é o nome da tal "argola"), costumo responder que se trata de minha opção pelas lutas populares, pelas classes subalternas. Trata-se, pois, de uma aliança popular, de um pacto de honra e determinação por fazer tudo que estiver ao meu alcance, como indivíduo e como ser social, para levar adiante a reivindicação de direitos e a esperança por um mundo realmente humano e fraterno. Na explicação que publico abaixo - encontrada sem autoria nas venturosas páginas da rede mundial de computadores e sensivelmente editada por mim - está a origem histórica e religiosa dos grandes pactos, das grandes alianças... E também alguns emblemas para refletir sobre a força e a importância do anel de tucum , que carrego no dedo e, principlamente, no coração, na ação cotidiana apaixonada...

Eram diversos e variados os rituais para celebrar uma aliança. Os mais simples eram: apertar a mão um do outro, dar um presente, trocar de veste ou de armas. Os mais profundos eram: beber ou misturar o sangue um ao outro, ou imergir a mão numa bacia de sangue; às vezes cortavam-se animais sacrificados e passava-se entre eles (cf Gen 15-17; Jer 38,18). O sentido desse gesto é que os aliados aceitavam a sorte de tais animais, caso quebrassem a aliança ou não cumprissem sua obrigações. Daí o papel importante desempenhado pela aliança tanto na vida privada quanto na vida pública entre os povos que viviam em organização tribal.

Conforme a tradição bíblica, Deus celebrou várias alianças com seu povo ao longo da história, culminando na pessoa de Jesus de Nazaré. Desde então os seus seguidores passaram a falar em antiga e nova aliança. Assim como a antiga aliança foi constituída pelo sangue dos animais sacrificados (Ex 24,8), a nova aliança foi constituida pelo sangue de Jesus Cristo (Heb 9,11-20;10,1-18).

No rastro dessa tradição, renasce o simbolismo da Aliança no Anel de Tucum, extraído de uma palmeira da Amazônia, cheia de espinhos, o símbolo do compromisso e da aliança com as causas dos oprimidos, excluídos e marginalizados - e sua lutas por libertação.

Foi na década de 70 que o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) adotou e divulgou o Anel de Tucum, hoje usado no mundo inteiro por quem assume a luta pelas causas populares, misturando-se com a sorte dos pobres da terra.

Esse símbolo foi bem escolhido, pois assim como é penoso fazer o anel de tucum, também é árdua a luta por dignidade, vida, esperança e paz.
O cantor e compositor Rubinho do Vale possui uma belíssima canção que retrata muitíssimo bem o sentido da aliança expressa pelo anel de tucum. Vejamos a letra de "Canção da Esperança":
A canção da esperança que vou anunciar
Vem como a luz do dia
Vem trazendo a aliança do céu com a terra e o mar
Tudo será harmonia
São notas musicais que o silêncio bonito traduz
Sentimento de paz vem de tempo infinito de luz
Toda a humanidade vai ver que a bondade
Na verdade é um grande dom
Esse tempo novo vai encantar o povo
Na certa quem viver verá que é bom
A canção da esperança que venho anunciar
Na linda luz desse dia
É o caminho da bonança bom pra gente caminhar
No brilho da harmonia
Com amor a justiça e a paz se abraçarão
A felicidade da fraternidade é união
Para ter clareza de toda essa beleza
É preciso abrir o coração
Nessa nova era de nova primavera
O meu canto é uma celebração

18 outubro 2006

"Agora voto em Lula" (Chico de Oliveira)

O sociólogo Francisco de Oliveira (USP) é um dos mais controvertidos e profundos intelectuais brasileiros. Autêntico e sempre muito coerente, o autor de "Ornitorrinco" (esse bicho estranho que se chama Brasil) defende idéias polêmicas, porém inteiramente enraizadas na cultura política brasileira e na própria formação social de nosso país. Discípulo e aprendiz de Celso Furtado, defendeu, nos anos 90', estudo extremamente interessante sobre os direitos do antivalor, que nada mais é do que o necessário fundo público para o desenvolvimento igualitário e humanista das sociedades pelo gerenciamento coletivo dos investimentos previstos sob responsabilidade de governos e Estados nacionais Mais do que isso: rompeu, ainda em 2003, nos primeiros meses do Governo Lula, com o PT e a opção do partido que ajudou a fundar e a construir pela temática da transição, isto é, no PT, nas disputas internas, abriu-se mão de um projeto de país em nome da política econômica então - e ainda! - em curso. Tal opção permitiu a Chico de Oliveira alguns vaticínios jocosos: "O Governo Lula é o terceiro mandato de FHC". A despeito das fortes críticas que tem feito ao PT e ao Governo atual - o que o levou a fundar o PSOL e a integrar abertamente a campanha da Senadora Heloísa Helena na corrida 2006 para o Planalto Central, Chico de Oliveira diz que agora, no Segundo Turno, vota em Lula, contra o privatismo elitista da inexpugnável aliança PSDB/PFL e pela luta por uma sociedade que cobre, cobre, cobre muito de um segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Abaixo transcrição na íntegra de entrevista dos sociólogo Fracisco de Oliveira para o professor e chargista Gilberto Maringoni e também para Flávio Aguiar, publicada na Agência Carta Maior (Marco A. Rossi)
Para sociólogo filiado ao PSOL, campanha pelo voto nulo é um equívoco. Um futuro governo Alckmin representaria um aprofundamento das privatizações de FHC. No caso de Lula, “apesar de não esperar alterações na política econômica, há espaço para mudanças”, diz ele.

Flavio Aguiar e Gilberto Maringoni - Carta Maior

SÃO PAULO – Chico de Oliveira, 72 anos, é um dos mais respeitados sociólogos brasileiros. Pernambucano de Recife, ele é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da mesma faculdade. É autor, entre outros, do hoje clássico “Crítica à Razão Dualista/O ornitorrinco” (Boitempo). Co-fundador do PSOL depois de ter deixado o PT no ano passado, Chico fala nesta entrevista dos impasses do governo Lula, das diferenças de projetos entre as candidaturas do PSDB e do PT e explica porque, depois de votar na senadora Heloísa Helena, agora vai de Lula. A seguir, os principais trechos de sua entrevista.

Carta MaiorO que está em jogo nestas eleições?

Chico Oliveira – Há duas coisas em disputa. Há uma corrida feroz em direção aos fundos que o Estado ainda controla, como os recursos do BNDES e do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). O BNDES é o maior banco de investimentos do mundo e deixa bem para trás o Banco Mundial. O Estado orienta os fundos de pensão. E há disputa pelos benefícios gerados a partir da dívida pública, que beneficiam cerca de 20 mil famílias, segundo pesquisa do professor Márcio Pochmann, da Unicamp. Essas 20 mil famílias lucram com a dívida pública, mas não a gerem. Que gere é o Estado. A diferença maior entre as orientações de Lula e de Alckmin, em termos amplos, é que o segundo promoveria uma privatização acelerada do que resta de ativos em mãos do estado. Lembremo-nos que, segundo os levantamentos de Aloysio Biondi, em dez anos, entre os governos Collor e FHC, privatizou-se cerca de 15% do PIB.

CMMas não há uma continuidade do projeto do governo FHC na gestão Lula? Qual a disputa real?

CO – A continuidade faz parte da disputa pela hegemonia na sociedade. Se nos lembrarmos da lição gramsciana, hegemonia é 80% consenso e 20% violência. Há um projeto em andamento na sociedade, que atrai os setores do topo e os setores miseráveis e o povão. Se Lula tem esse projeto político na cabeça, trata-se de um gênio político. Eu acho que ele não tem, pois age muito mais por intuição do que por planos pré-definidos. Ele atua levando as práticas do movimento sindical para uma esfera maior. Como se trata de disputa de hegemonia e não de uma revolução, é natural que ele não queira acirrar os ânimos em muitas situações de conflito. Ambos – PT e PSDB - têm projetos capitalistas, mas diferentes em sua forma.

CMA elite não tem como suportar a chegada do povo sequer aos jardins da casa grande, não?

CO – Não, porque construímos um país de desigualdade abissal. Com uma situação dessas, só é possível exercer a dominação de classe sem mediações. Por isso nós tivemos, na média, durante o período republicano, um golpe ou tentativa de golpe a cada três anos. As próprias classes burguesas estão a uma distância muito grande do povo. Nessa situação, o sistema político e os partidos perdem totalmente seu sentido. Isso explica muito a aliança de Lula com Jader Barbalho, os elogios feitos a Delfim Neto e outros. É claro que os movimentos circunstanciais explicam esse tipo de aliança. Mas ela está construída num projeto mais amplo. Talvez o projeto não esteja pré-definido e venha sendo construído pelo Lula intuitivamente. Quando ele afirma ficar chateado pelo fato de os ricos não gostarem dele, está expressando esse projeto de hegemonia, de ligar dois extremos sociais. A aproximação com o Jader está dentro disso.

CM - Como o sr. vê a mudança tática que o Lula fez nas duas últimas semanas de campanha? Ele conseguiu sair do terreno que o Alckmin queria colocar o embate – o do moralismo – e passou para o da política, através do debate das privatizações.

CO – Sem dúvida ele é um tático muito bom, não sei se é um estrategista. Não sei se ele tem, alguma coisa mais consistente por trás. Se tiver, repito, trata-se de um gênio político. Mas acho que tudo funciona através da intuição.

CMCom tudo isso, por que considerar a possibilidade de se votar em Lula no segundo turno?

CO – Acho que a reeleição é uma nova eleição. Os espaços que tínhamos em 2002, de outra forma, voltam a se apresentar, como a questão das privatizações. Esse era um tema proibido durante o governo Lula e ainda mais na era de FHC. Os que dissentiram foram marginalizados. Por que esse tema volta agora a ser central? Por que se abre uma nova disputa. Por isso, eu considero a possibilidade de se votar em Lula. Várias forças que atuaram dentro do PT voltam a ter chance de disputar esse governo. Estou disposto a voltar a correr esse risco, embora o governo não me agrade, seja capitalista e poderia ter avançado muito mais.

CMComo o sr. vê a campanha pelo voto nulo?

CO - Acho um equívoco e não por questões morais. Há um espaço que pode se alargar. Há diferenças entre o governo Lula e um possível governo Alckmin. Não espero mudanças na política econômica, ela continuará mesma. Mas há uma pequena chance de mudança. Por isso voto em Lula agora. E devemos usar oportunisticamente o fato de Lula precisar de votos agora, para colocar reivindicações que seu governo soterrou. Temos de atacar pelo lado social.

CM - O sr. filiou-se ao PSOL e seu partido tem outra posição...

CO - Há um equívoco no PSOL neste caso. Votei no primeiro turno em Heloísa Helena. Mas logo ela começou a desandar. Ela perdeu o voto de minha mulher quando, numa entrevista para a Globo disse, sobre o tema do PCC, que multiplicaria por dez o número de prisões. Minha mulher virou-se para mim e disse: “Aqui acabou meu apoio”.

CMQue mudanças o sr. Espera de um futuro governo Lula?

CO - Se depender apenas das forças que apóiam Lula e da dinâmica que ele ganhou em quatro anos, não haverá mudança. Dependerá de nós, de um impulso vindo de fora.Há uma crença arraigada no Brasil de que é nos manches do estado que as coisas se solucionam. Em parte é verdade. Mas para se realizarem mudanças reais é necessário ativar a sociedade civil. Temos de incentivar muita coisa para influir. Não gosto muito de usar a expressão “movimentos sociais”, porque, fora o MST, não sei onde eles estão. Temos literalmente de encher o saco de um segundo mandato de Lula. Não podemos deixar em paz um próximo governo Lula. Se ele conseguir realizar seu projeto hegemônico com as orientações atuais, o futuro será sombrio. Teríamos de construir uma plataforma mínima, com alguns pontos básicos, como dar ao Bolsa-família o status de emenda constitucional e entrega-la à Previdência social, um dos órgãos públicos mais sérios deste país. Nas privatizações, há que se auditar e reestatizar algumas atividades. Mas eu não quero colocar condicionalidades para a votar em Lula, porque ele não vai ligar para isso. Precisamos é de uma pauta para orientar nossa ação.

15 outubro 2006

O instante de parar... para voltar melhor!

Saber para onde olhar é vital, principalmente nos instantes em que se exige tanto da atenção, de nossa percepção da vida e do mundo. Um momento mágico de simples contemplação pode aliviar a quente temperatura de desejos estranhos e o frio de dores indesejadas. Na foto acima, o fotógrafo Paulo Medeiros dá aula de sensibilidade ao captar olhar fugidio em Açores, ilha portuguesa. A imagem é de 10 de outubro deste ano. Pura beleza! (Marco A. Rossi)

Codinome Beija-Flor

de CAZUZA

Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou...

Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos, beija-flor

Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
Não responda nunca, meu amor
Pra qualquer um na rua, Beija-flor

Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador
Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor

12 outubro 2006

Mundos divergentes

por Marco A. Rossi
(em homenagem aos passeios românticos de certas manhãs)

Houve certo vazio
Frenesi, ansiedade, não sei bem
Olhei e percebi ter sido visto
O mundo caiu diante de meu delírio, seios, formas, cores

De soslaio vi pontes, construí estradas imaginárias
e pinguelas
e passagens
Vi então um novo mundo nascer - daquelas ruínas
daquele desabamento
daquele olhar discreto porém perfurante, cheio de expectativas

Palavras, sons, voltas e mais voltas
café
suco
vontade de fumar
extravasar
ousar
gozar

Escrevo alguma coisa - o tempo já é presente?!
Ouço uma canção
O corpo se agita, dá o tom
Me diz que devo partir - em direção ao Sol
Com grande escala pela Lua
e pelo luar
por um luau

Muitas impressões - o tempo já seria futuro?!
Nada certo, nada, nada em perspectiva
O mundo que caiu e o mundo novo que surgiu
se chocaram
se estilhaçaram
fraturaram minha consciência
Traumatismo reflexivo por tempo indeterminado
Ainda há tempo?!

Sigo, se não em frente, por vielas
uma de minhas pinguelas, estradas imaginárias
Interverto meu coração em estação
Adormeço
Amanheço tomado por beijos de minhas alucinações
Sou só sensações

11 outubro 2006

Gilberto Maringoni, oPuSDei...B


Charge do cartunista Gilbero Maringoni (parceiro do nosso "Espaço"), publicada ontem, 10.10.2006, na Agência Carta Maior. Para quem sabe do que se trata, nada mais pertinente; para quem ainda não buscou boas informações a respeito da Opus Dei, julgo necessário fazê-lo...

Os indiferentes, de Antonio Gramsci

A indiferença de nossas classes intermediárias, na definição já clássica formulada pelo sociólogo estadunidense Charles Wright Mills, pelos mais pobres - resvalando pelo descaso e pela crueldade -, é signatária das profundas desigualdades sociais existentes em todo o mundo. A foto acima, de 04 de outubro deste ano, de imagem muitíssimo bem capturada pelas lentes de Sérgio Afonso no centro de Luanda, Angola, desnuda as favelas arranha-céus que ocupam os espaços urbanos de médias e grandes cidades em países de todos os continentes. O texto de Antonio Gramsci sobre o ódio às práticas individuais e coletivas de descaso e indiferença dá-nos pistas, elementos para uma reflexão necessária a respeito do mundo que temos construído (Marco A. Rossi)
Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.
Publicado em "La Città Futura", 11-2-1917

04 outubro 2006

Pro dia nascer feliz, quando parece impossível...

O cineasta e documentarista João Jardim, autor do fascinante "Pro dia nascer feliz", que revela e desnuda toda o processo de formação educacional no Brasil, com suas tristes limitações/deformações constituintes e, como paradoxo, com todas as suas possibilidades de reconstruir o Brasil e os brasileiros (Marco A. Rossi).

por Sérgio Domingues, da Mídia Vigiada
O documentário “Pro dia nascer feliz” de João Jardim é sobre as péssimas condições do ensino no País. Uma obra que tinha tudo para deixar os espectadores pessimistas sobre o futuro de nossos jovens. Mas, consegue arrancar luz de tanta escuridão e nos faz esperar um final feliz.
O filme começa no município mais pobre de Pernambuco. É Manari e a escola pública do local está caindo aos pedaços. O diretor tem cerca de R$ 600,00 mensais para dar conta de suas despesas. Os alunos vêm de longe, mas nem sempre chegam. Os ônibus quebram com freqüência. Mas, em meio a essas dificuldades, é possível encontrar a jovem Valéria, que lê Vinícius de Moraes, Bandeira e Drummond. Escreve belos textos, mas recebe notas baixas de professores que acham que ela apenas faz cópias.
Em Duque de Caxias, município do Rio de Janeiro, um adolescente negro está na corda bamba. De um lado, o estudo difícil e chato em uma escola pública com salas lotadas. De outro, andar com uma arma na cintura e comprar roupas da moda para impressionar as garotas em troca do trabalho para o tráfico de drogas. Um centro cultural do local tenta fazer a diferença oferecendo a ele a oportunidade de fazer música com tambores. Consegue afastá-lo do crime, mas não o retira da corda bamba.
Em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, outra menina com sensibilidade literária descobre que pode transformar sua tristeza em poesia. Uma jovem professora da escola pública local reclama do stress de dar aulas para alunos sem motivação e agressivos. Num bairro rico de São Paulo, aparecem quatro adolescentes, alunas de um colégio caríssimo. Entre outras coisas, elas discutem como sair da “bolha” em que se transformou sua condição privilegiada. Bem informadas, elas sabem que o País é vice-campeão em injustiça social. Têm um vago sentimento de culpa que as faz querer se aproximar dos mais pobres. Sair da “bolha”. Mas, como fazê-lo? Usar a caridade seria reforçar a relação de desigualdade. A clareza dessa situação pesa sobre elas.
Rica, inteligente, informada e prisioneira da alienação
O filme acompanha o sistema educacional brasileiro desde a miséria sertaneja, passando por diversos níveis de pobreza até chegar ao ensino dirigido aos filhos das famílias mais ricas do País. Mostra que em todos esses níveis é difícil ver alguma coisa que possa ser chamada de pedagogia . Ou seja, a formação de indivíduos capazes de desenvolver seus potenciais criativos, profissionais e sociais. Claro que isso não seria novidade no sertão nordestino e nas periferias violentas das grandes cidades. O que assusta é que entre os ricos, isso também é verdade.
Uma das adolescentes bem nascidas fala da depressão que ameaça fazê-la perder o ano escolar. Outra, chora porque cobra demais de si mesma. Diz que nem se trata de resultados. “É o processo que conta”, diz ela. Uma fala que deixa ver a alienação em seu estado mais puro. Alienação não é só desinformação ou indiferença em relação à vida social. Ela estuda com os melhores professores. Tem acesso aos melhores instrumentos didáticos e formas de comunicação. Faz natação, inglês, especializações. Mas, ficou prisioneira “do processo”. Não sabe para que tudo isso serve.
Outro problema grave é a relação com os pais. Da filha mais pobre à menina rica, as dificuldades em receber carinho e atenção paternos estão muito presentes. Durante o século passado, a família mudou. “Desestruturou-se”, como dizem os especialistas. O mercado absorveu mães e pais. A sobrevivência, da mais básica à mais sofisticada, os afastou dos filhos. Por enquanto, há um vazio no lugar.
O mesmo aconteceu com a escola. Uma professora lúcida fala no filme que a sala-de-aula é muito chata, comparada ao mundo lá fora. Da vida perigosa de bandido do morro às baladas da noite paulistana, o quadro negro, os livros e a voz da professora são um tédio sem fim. Muita coisa que parecia tão sólida se desmanchou no ar. O pior é que os ritmos são diferentes. Para os mais pobres, a vida adulta chega antes. Seja pelo elevado índice de adolescentes grávidas, seja pela entrada precoce no mercado de trabalho ou na vida cruel do crime. Por outro lado, os mais ricos esticam a difícil passagem para a maturidade, se especializando academicamente ou apenas desfrutando das diversões que o dinheiro fácil oferece. De qualquer maneira, isso pode acabar sendo traumático para ambos os casos.
Cuidar de plantas e doentes
Claro que a fragilidade material dos mais pobres os expõe a um risco social muito maior. As garotas ricas com dilemas existenciais fazem parte das 5 mil famílias brasileiras (0,01% da população) que possuem patrimônio equivalente a 40% do Produto Interno Bruto do País. É o que diz o “Atlas da Exclusão Social” (Editora Cortez, 2004) sobre os ricos brasileiros. Sofrer de depressão não é exclusividade dos mais ricos. Mas, entre eles, o acesso à ajuda terapêutica e muito maior. Os jovens ricos também quase não são atingidos pelo fato de que pouco mais de 4% do PIB foi investido em educação pública entre 1998 e 2002, quando seria necessário investir, pelo menos, o dobro disso. Aí, a tragédia é muito real. O filme fala de uma garota pobre que mata outra a facadas na escola. Diz que o fez porque “pra menor, matar não pega nada”.
Adolescer em espanhol quer dizer sofrer dor. A origem grega da palavra “pedagogia” também quer dizer “cuidar de uma planta ou um doente”. O que vemos de alto a baixo na educação brasileira está longe de ser capaz de cuidar de seres tão delicados e cheios de dor como filhos e filhas adolescentes. O documentário mostra isso de forma muito clara. Leva o espectador sensível à beira do desespero. Mas, então, mostra a capacidade desses jovens de arrancar-se ao abismo.
A talentosa e pobre Valéria, a rica e sensível jovem depressiva, o adolescente tentado pelo crime na periferia. Todos eles mostram-se capazes de se manter acima da linha d´água, ainda que estejam longe da margem segura. Vivem “por um triz”, como diz a música de Cazuza que inspirou o título do filme. Nenhum deles merece o que estão passando. A luta contra a desigualdade é mais do que necessária. No entanto, a situação da educação em nossa sociedade é também a denúncia de que é viver nela. Trata-se cada vez mais de passar por uma máquina de moer sentidos e esperanças, até para quem nasceu em berço de ouro. Contra isso, viva a poesia da menina Valéria!
Setembro de 2006

02 outubro 2006

Democracia é maior que qualquer um de nós

Mário Covas, Lula e Brizola, na disputa eleitoral de 1989, quando Lula enfrentou Collor e... perdeu!
O segundo turno das eleições presidencias deste ano irá colocar o cidadão brasileiro diante de dois claros "projetos" de país...
O primeiro desses "projetos" (um retorno indesejável) exige que a esquerda colija forças para lutar contra a retomada daquilo que já foi por cá reconhecido como a "quase-hegemonia" tucana (e daí as decorrências inevitáveis: privatização do Estado e da sociedade; desmantelamento total de políticas públicas de inclusão e emancipação social; inviabilização de um projeto nacional de participação popular por meio da criação permanente de canais de comunicação entre sociedade civil e governo etc., etc., etc...). No poder, Fernando Henrique e Geraldo Alckmin, na guarida açucarada do discurso excessivamente melado e moralista, pacturam com toda a turma da Daslu, com os responsáveis pela banalização do Estado e da participação cidadã... O PSDB, na aliança sensacional que sempre estabelece com o inodoro PFL e o indefectível PPS (!?), promove o neoliberalismo sem fronteiras nem porteiras; adula os donos do assim chamado "enxugamento" da máquina (que serviu para a criação de uma hiperestrutura de corrupção ainda mais estruturante de nossa cultura do que o vergonhoso e violento passado colonial que nos condiciona, abastece, empobrece...)
O outro projeto visa a contemplar movimentos sociais, distribuir riqueza, dar feição ao Estado, à sociedade e à interação dinâmica desses dois elementos constitutivos daquilo a que Antonio Gramsci chamou "Estado ampliado", ou seja, sociedade civil + sociedade políica - isso para desenhar a melhor das inspirações de uma atuação social verdadeiramente dialética!
Contra a possibilidade de a esquerda brasileira tornar-se por período longo e indeterminado refém das (in)decisões tucanas, privatistas, retrógradas e voltadas para o grande capital finaceirizado dos bancos e da exclusão social - e contra o desdém midiático em relação a tudo que venha a cheirar a igualdade, distribuição de renda, participação popular, educação, consciência... - o "Espaço de Cultura Socialista" se posiciona abertamente em favor da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. E o "Espaço"... convida: vamos juntos refletir sobre a realidade e, ainda mais unidos, no próximo dia 29 de outubro, votar 13, votar Lula Presidente.
Abaixo, belíssimo texto do filósofo Renato Janine Ribeiro que elenca boas razões para votar em Lula. Ao pleito!

Eleição não é luta do bem com o mal. É comparação. Voto em Lula porque, a meu ver, seu governo melhorou o Brasil. Ele recebeu o país com uma agenda ditada pela direita, que reduzia quase tudo à política econômica, ou pior, à monetária e à fiscal; um país que, no fim de 2001, não cumpria mais o Orçamento, sem dinheiro nem para pagar passagens de ministros, com o dólar a R$ 4 e um risco-Brasil enorme. Ora, o governo de centro-esquerda foi capaz de acalmar a economia, de baixar o risco, de aumentar as exportações, enfim, de cumprir uma agenda econômica que não era sua prioridade, nem a dos movimentos populares, e isso sem privatizar nada, sem desfazer o patrimônio público.

Mais, ainda: Lula colocou na política brasileira, de modo definitivo, uma agenda social importante. E com êxito. Segundo Maria Inês Nassif ("Valor Econômico", 24/8), o maior rigor em programas como o Bolsa-Família e os do Ministério das Cidades "desintermediou o voto da população pobre, que antes passava pelo chefe local". Se isso é certo, não há paternalismo na atual política de promoção social.

Não adianta ficar inventando que Lula se proclamou "pai dos pobres". Alguns jornalistas dizem isso, mas nunca informam quando o presidente teria usado uma linguagem tão contrária a suas crenças para se referir a si próprio. Tudo indica que há menos paternalismo agora do que antes.

É engraçado: quando se banhava de dinheiro o grande capital (empréstimos do BNDES a juros baixos para privatizar estatais), a opinião dominante chamava isso de progresso, mas, quando se dá dinheiro aos mais pobres, para comerem e se vestirem melhor, a mesma opinião dominante entende que dinheiro nas mãos de pobres não presta.

Discordo disso.

Quero uma sociedade democrática. Isso significa, em primeiro lugar, o fim da miséria, a redução da desigualdade social. No horizonte político brasileiro, não vejo força melhor que a coligação de esquerda para promover esse salto qualitativo. Ela tem sido capaz de melhorar as condições sociais com uma temperatura baixa de conflitos, ao contrário do que diziam seus detratores. O país não pegou fogo. O saldo do governo é positivo: a questão social está sendo bem orientada.

Agora vamos à questão ética. No governo atual o procurador-geral não engaveta processos, a Polícia Federal age, CPIs funcionam. Já seu principal adversário impediu 60 CPIs de funcionar na Assembléia paulista, deixou uma política de segurança prepotente e ineficaz (porque acabamos sob o domínio do PCC) e uma política de educação que não é das melhores. Eleição é comparação. Não vejo no governo Alckmin superioridade ética sobre o governo Lula.

Contudo, há satisfações que o PT deve à sociedade. Os escândalos mostram que ele é um partido mais "normal" do que imaginava ser. Humildade não faz mal. O PT tem seus defeitos. Deve contas ao Brasil. Tem de fazer uma faxina interna e punir quem errou. Mas, ainda assim, consegue governar melhor que os outros. Aliás, seria bom o país todo fazer um exame de consciência. Com o financiamento privado de eleições, a porta se escancara para a negociata. Deveríamos priorizar em 2007 a reforma política, com fidelidade partidária, condições mais equilibradas de financiamento às candidaturas e talvez até o voto distrital.

Uma eleição não é uma guerra. Amanhã e sempre, teremos de conviver, quem votou em Lula ou nos outros candidatos. Precisa cessar o terror discursivo, a ameaça ao voto universal. Este é o segundo ponto em que desejo uma sociedade democrática. Democracia significa respeitar o discurso do outro. Nas eleições, as pessoas se exaltam, mas é desonesto deformar o que o outro disse. Muito do que hoje se conta sobre o PT ou sobre quem o apóia, como eu, é uma enorme caricatura. Isso amesquinha a política, que deve ser arena de adversários, não de inimigos.

Esse clima envenenado não ajuda o de que mais precisamos, não nós da esquerda, mas nós brasileiros: construir alianças, trabalho em conjunto, convergências. A sociedade é maior que a política. O Brasil é maior que os partidos. A pequena ambição não pode erodir nossas oportunidades. Podemos enfrentar a miséria, melhorar a educação e a saúde, integrar os excluídos.

Penso que Lula é o mais adequado, hoje, para dirigir o governo neste rumo mas penso também que este tem de ser um projeto de sociedade, e não apenas de governo. Não estamos, hoje, terceirizando a solução de nossos problemas. Estamos elegendo o mais apto a dirigir um esforço que deve ser maior do que ele e do que qualquer um de nós.

RENATO JANINE RIBEIRO, professor de ética e filosofia política na USP, é diretor de avaliação da Capes e autor de, entre outras obras, "A Sociedade Contra o Social - O Alto Custo da Vida Pública no Brasil" (Companhia das Letras)