18 outubro 2006

"Agora voto em Lula" (Chico de Oliveira)

O sociólogo Francisco de Oliveira (USP) é um dos mais controvertidos e profundos intelectuais brasileiros. Autêntico e sempre muito coerente, o autor de "Ornitorrinco" (esse bicho estranho que se chama Brasil) defende idéias polêmicas, porém inteiramente enraizadas na cultura política brasileira e na própria formação social de nosso país. Discípulo e aprendiz de Celso Furtado, defendeu, nos anos 90', estudo extremamente interessante sobre os direitos do antivalor, que nada mais é do que o necessário fundo público para o desenvolvimento igualitário e humanista das sociedades pelo gerenciamento coletivo dos investimentos previstos sob responsabilidade de governos e Estados nacionais Mais do que isso: rompeu, ainda em 2003, nos primeiros meses do Governo Lula, com o PT e a opção do partido que ajudou a fundar e a construir pela temática da transição, isto é, no PT, nas disputas internas, abriu-se mão de um projeto de país em nome da política econômica então - e ainda! - em curso. Tal opção permitiu a Chico de Oliveira alguns vaticínios jocosos: "O Governo Lula é o terceiro mandato de FHC". A despeito das fortes críticas que tem feito ao PT e ao Governo atual - o que o levou a fundar o PSOL e a integrar abertamente a campanha da Senadora Heloísa Helena na corrida 2006 para o Planalto Central, Chico de Oliveira diz que agora, no Segundo Turno, vota em Lula, contra o privatismo elitista da inexpugnável aliança PSDB/PFL e pela luta por uma sociedade que cobre, cobre, cobre muito de um segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Abaixo transcrição na íntegra de entrevista dos sociólogo Fracisco de Oliveira para o professor e chargista Gilberto Maringoni e também para Flávio Aguiar, publicada na Agência Carta Maior (Marco A. Rossi)
Para sociólogo filiado ao PSOL, campanha pelo voto nulo é um equívoco. Um futuro governo Alckmin representaria um aprofundamento das privatizações de FHC. No caso de Lula, “apesar de não esperar alterações na política econômica, há espaço para mudanças”, diz ele.

Flavio Aguiar e Gilberto Maringoni - Carta Maior

SÃO PAULO – Chico de Oliveira, 72 anos, é um dos mais respeitados sociólogos brasileiros. Pernambucano de Recife, ele é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da mesma faculdade. É autor, entre outros, do hoje clássico “Crítica à Razão Dualista/O ornitorrinco” (Boitempo). Co-fundador do PSOL depois de ter deixado o PT no ano passado, Chico fala nesta entrevista dos impasses do governo Lula, das diferenças de projetos entre as candidaturas do PSDB e do PT e explica porque, depois de votar na senadora Heloísa Helena, agora vai de Lula. A seguir, os principais trechos de sua entrevista.

Carta MaiorO que está em jogo nestas eleições?

Chico Oliveira – Há duas coisas em disputa. Há uma corrida feroz em direção aos fundos que o Estado ainda controla, como os recursos do BNDES e do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). O BNDES é o maior banco de investimentos do mundo e deixa bem para trás o Banco Mundial. O Estado orienta os fundos de pensão. E há disputa pelos benefícios gerados a partir da dívida pública, que beneficiam cerca de 20 mil famílias, segundo pesquisa do professor Márcio Pochmann, da Unicamp. Essas 20 mil famílias lucram com a dívida pública, mas não a gerem. Que gere é o Estado. A diferença maior entre as orientações de Lula e de Alckmin, em termos amplos, é que o segundo promoveria uma privatização acelerada do que resta de ativos em mãos do estado. Lembremo-nos que, segundo os levantamentos de Aloysio Biondi, em dez anos, entre os governos Collor e FHC, privatizou-se cerca de 15% do PIB.

CMMas não há uma continuidade do projeto do governo FHC na gestão Lula? Qual a disputa real?

CO – A continuidade faz parte da disputa pela hegemonia na sociedade. Se nos lembrarmos da lição gramsciana, hegemonia é 80% consenso e 20% violência. Há um projeto em andamento na sociedade, que atrai os setores do topo e os setores miseráveis e o povão. Se Lula tem esse projeto político na cabeça, trata-se de um gênio político. Eu acho que ele não tem, pois age muito mais por intuição do que por planos pré-definidos. Ele atua levando as práticas do movimento sindical para uma esfera maior. Como se trata de disputa de hegemonia e não de uma revolução, é natural que ele não queira acirrar os ânimos em muitas situações de conflito. Ambos – PT e PSDB - têm projetos capitalistas, mas diferentes em sua forma.

CMA elite não tem como suportar a chegada do povo sequer aos jardins da casa grande, não?

CO – Não, porque construímos um país de desigualdade abissal. Com uma situação dessas, só é possível exercer a dominação de classe sem mediações. Por isso nós tivemos, na média, durante o período republicano, um golpe ou tentativa de golpe a cada três anos. As próprias classes burguesas estão a uma distância muito grande do povo. Nessa situação, o sistema político e os partidos perdem totalmente seu sentido. Isso explica muito a aliança de Lula com Jader Barbalho, os elogios feitos a Delfim Neto e outros. É claro que os movimentos circunstanciais explicam esse tipo de aliança. Mas ela está construída num projeto mais amplo. Talvez o projeto não esteja pré-definido e venha sendo construído pelo Lula intuitivamente. Quando ele afirma ficar chateado pelo fato de os ricos não gostarem dele, está expressando esse projeto de hegemonia, de ligar dois extremos sociais. A aproximação com o Jader está dentro disso.

CM - Como o sr. vê a mudança tática que o Lula fez nas duas últimas semanas de campanha? Ele conseguiu sair do terreno que o Alckmin queria colocar o embate – o do moralismo – e passou para o da política, através do debate das privatizações.

CO – Sem dúvida ele é um tático muito bom, não sei se é um estrategista. Não sei se ele tem, alguma coisa mais consistente por trás. Se tiver, repito, trata-se de um gênio político. Mas acho que tudo funciona através da intuição.

CMCom tudo isso, por que considerar a possibilidade de se votar em Lula no segundo turno?

CO – Acho que a reeleição é uma nova eleição. Os espaços que tínhamos em 2002, de outra forma, voltam a se apresentar, como a questão das privatizações. Esse era um tema proibido durante o governo Lula e ainda mais na era de FHC. Os que dissentiram foram marginalizados. Por que esse tema volta agora a ser central? Por que se abre uma nova disputa. Por isso, eu considero a possibilidade de se votar em Lula. Várias forças que atuaram dentro do PT voltam a ter chance de disputar esse governo. Estou disposto a voltar a correr esse risco, embora o governo não me agrade, seja capitalista e poderia ter avançado muito mais.

CMComo o sr. vê a campanha pelo voto nulo?

CO - Acho um equívoco e não por questões morais. Há um espaço que pode se alargar. Há diferenças entre o governo Lula e um possível governo Alckmin. Não espero mudanças na política econômica, ela continuará mesma. Mas há uma pequena chance de mudança. Por isso voto em Lula agora. E devemos usar oportunisticamente o fato de Lula precisar de votos agora, para colocar reivindicações que seu governo soterrou. Temos de atacar pelo lado social.

CM - O sr. filiou-se ao PSOL e seu partido tem outra posição...

CO - Há um equívoco no PSOL neste caso. Votei no primeiro turno em Heloísa Helena. Mas logo ela começou a desandar. Ela perdeu o voto de minha mulher quando, numa entrevista para a Globo disse, sobre o tema do PCC, que multiplicaria por dez o número de prisões. Minha mulher virou-se para mim e disse: “Aqui acabou meu apoio”.

CMQue mudanças o sr. Espera de um futuro governo Lula?

CO - Se depender apenas das forças que apóiam Lula e da dinâmica que ele ganhou em quatro anos, não haverá mudança. Dependerá de nós, de um impulso vindo de fora.Há uma crença arraigada no Brasil de que é nos manches do estado que as coisas se solucionam. Em parte é verdade. Mas para se realizarem mudanças reais é necessário ativar a sociedade civil. Temos de incentivar muita coisa para influir. Não gosto muito de usar a expressão “movimentos sociais”, porque, fora o MST, não sei onde eles estão. Temos literalmente de encher o saco de um segundo mandato de Lula. Não podemos deixar em paz um próximo governo Lula. Se ele conseguir realizar seu projeto hegemônico com as orientações atuais, o futuro será sombrio. Teríamos de construir uma plataforma mínima, com alguns pontos básicos, como dar ao Bolsa-família o status de emenda constitucional e entrega-la à Previdência social, um dos órgãos públicos mais sérios deste país. Nas privatizações, há que se auditar e reestatizar algumas atividades. Mas eu não quero colocar condicionalidades para a votar em Lula, porque ele não vai ligar para isso. Precisamos é de uma pauta para orientar nossa ação.