02 outubro 2006

Democracia é maior que qualquer um de nós

Mário Covas, Lula e Brizola, na disputa eleitoral de 1989, quando Lula enfrentou Collor e... perdeu!
O segundo turno das eleições presidencias deste ano irá colocar o cidadão brasileiro diante de dois claros "projetos" de país...
O primeiro desses "projetos" (um retorno indesejável) exige que a esquerda colija forças para lutar contra a retomada daquilo que já foi por cá reconhecido como a "quase-hegemonia" tucana (e daí as decorrências inevitáveis: privatização do Estado e da sociedade; desmantelamento total de políticas públicas de inclusão e emancipação social; inviabilização de um projeto nacional de participação popular por meio da criação permanente de canais de comunicação entre sociedade civil e governo etc., etc., etc...). No poder, Fernando Henrique e Geraldo Alckmin, na guarida açucarada do discurso excessivamente melado e moralista, pacturam com toda a turma da Daslu, com os responsáveis pela banalização do Estado e da participação cidadã... O PSDB, na aliança sensacional que sempre estabelece com o inodoro PFL e o indefectível PPS (!?), promove o neoliberalismo sem fronteiras nem porteiras; adula os donos do assim chamado "enxugamento" da máquina (que serviu para a criação de uma hiperestrutura de corrupção ainda mais estruturante de nossa cultura do que o vergonhoso e violento passado colonial que nos condiciona, abastece, empobrece...)
O outro projeto visa a contemplar movimentos sociais, distribuir riqueza, dar feição ao Estado, à sociedade e à interação dinâmica desses dois elementos constitutivos daquilo a que Antonio Gramsci chamou "Estado ampliado", ou seja, sociedade civil + sociedade políica - isso para desenhar a melhor das inspirações de uma atuação social verdadeiramente dialética!
Contra a possibilidade de a esquerda brasileira tornar-se por período longo e indeterminado refém das (in)decisões tucanas, privatistas, retrógradas e voltadas para o grande capital finaceirizado dos bancos e da exclusão social - e contra o desdém midiático em relação a tudo que venha a cheirar a igualdade, distribuição de renda, participação popular, educação, consciência... - o "Espaço de Cultura Socialista" se posiciona abertamente em favor da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. E o "Espaço"... convida: vamos juntos refletir sobre a realidade e, ainda mais unidos, no próximo dia 29 de outubro, votar 13, votar Lula Presidente.
Abaixo, belíssimo texto do filósofo Renato Janine Ribeiro que elenca boas razões para votar em Lula. Ao pleito!

Eleição não é luta do bem com o mal. É comparação. Voto em Lula porque, a meu ver, seu governo melhorou o Brasil. Ele recebeu o país com uma agenda ditada pela direita, que reduzia quase tudo à política econômica, ou pior, à monetária e à fiscal; um país que, no fim de 2001, não cumpria mais o Orçamento, sem dinheiro nem para pagar passagens de ministros, com o dólar a R$ 4 e um risco-Brasil enorme. Ora, o governo de centro-esquerda foi capaz de acalmar a economia, de baixar o risco, de aumentar as exportações, enfim, de cumprir uma agenda econômica que não era sua prioridade, nem a dos movimentos populares, e isso sem privatizar nada, sem desfazer o patrimônio público.

Mais, ainda: Lula colocou na política brasileira, de modo definitivo, uma agenda social importante. E com êxito. Segundo Maria Inês Nassif ("Valor Econômico", 24/8), o maior rigor em programas como o Bolsa-Família e os do Ministério das Cidades "desintermediou o voto da população pobre, que antes passava pelo chefe local". Se isso é certo, não há paternalismo na atual política de promoção social.

Não adianta ficar inventando que Lula se proclamou "pai dos pobres". Alguns jornalistas dizem isso, mas nunca informam quando o presidente teria usado uma linguagem tão contrária a suas crenças para se referir a si próprio. Tudo indica que há menos paternalismo agora do que antes.

É engraçado: quando se banhava de dinheiro o grande capital (empréstimos do BNDES a juros baixos para privatizar estatais), a opinião dominante chamava isso de progresso, mas, quando se dá dinheiro aos mais pobres, para comerem e se vestirem melhor, a mesma opinião dominante entende que dinheiro nas mãos de pobres não presta.

Discordo disso.

Quero uma sociedade democrática. Isso significa, em primeiro lugar, o fim da miséria, a redução da desigualdade social. No horizonte político brasileiro, não vejo força melhor que a coligação de esquerda para promover esse salto qualitativo. Ela tem sido capaz de melhorar as condições sociais com uma temperatura baixa de conflitos, ao contrário do que diziam seus detratores. O país não pegou fogo. O saldo do governo é positivo: a questão social está sendo bem orientada.

Agora vamos à questão ética. No governo atual o procurador-geral não engaveta processos, a Polícia Federal age, CPIs funcionam. Já seu principal adversário impediu 60 CPIs de funcionar na Assembléia paulista, deixou uma política de segurança prepotente e ineficaz (porque acabamos sob o domínio do PCC) e uma política de educação que não é das melhores. Eleição é comparação. Não vejo no governo Alckmin superioridade ética sobre o governo Lula.

Contudo, há satisfações que o PT deve à sociedade. Os escândalos mostram que ele é um partido mais "normal" do que imaginava ser. Humildade não faz mal. O PT tem seus defeitos. Deve contas ao Brasil. Tem de fazer uma faxina interna e punir quem errou. Mas, ainda assim, consegue governar melhor que os outros. Aliás, seria bom o país todo fazer um exame de consciência. Com o financiamento privado de eleições, a porta se escancara para a negociata. Deveríamos priorizar em 2007 a reforma política, com fidelidade partidária, condições mais equilibradas de financiamento às candidaturas e talvez até o voto distrital.

Uma eleição não é uma guerra. Amanhã e sempre, teremos de conviver, quem votou em Lula ou nos outros candidatos. Precisa cessar o terror discursivo, a ameaça ao voto universal. Este é o segundo ponto em que desejo uma sociedade democrática. Democracia significa respeitar o discurso do outro. Nas eleições, as pessoas se exaltam, mas é desonesto deformar o que o outro disse. Muito do que hoje se conta sobre o PT ou sobre quem o apóia, como eu, é uma enorme caricatura. Isso amesquinha a política, que deve ser arena de adversários, não de inimigos.

Esse clima envenenado não ajuda o de que mais precisamos, não nós da esquerda, mas nós brasileiros: construir alianças, trabalho em conjunto, convergências. A sociedade é maior que a política. O Brasil é maior que os partidos. A pequena ambição não pode erodir nossas oportunidades. Podemos enfrentar a miséria, melhorar a educação e a saúde, integrar os excluídos.

Penso que Lula é o mais adequado, hoje, para dirigir o governo neste rumo mas penso também que este tem de ser um projeto de sociedade, e não apenas de governo. Não estamos, hoje, terceirizando a solução de nossos problemas. Estamos elegendo o mais apto a dirigir um esforço que deve ser maior do que ele e do que qualquer um de nós.

RENATO JANINE RIBEIRO, professor de ética e filosofia política na USP, é diretor de avaliação da Capes e autor de, entre outras obras, "A Sociedade Contra o Social - O Alto Custo da Vida Pública no Brasil" (Companhia das Letras)