04 outubro 2006

Pro dia nascer feliz, quando parece impossível...

O cineasta e documentarista João Jardim, autor do fascinante "Pro dia nascer feliz", que revela e desnuda toda o processo de formação educacional no Brasil, com suas tristes limitações/deformações constituintes e, como paradoxo, com todas as suas possibilidades de reconstruir o Brasil e os brasileiros (Marco A. Rossi).

por Sérgio Domingues, da Mídia Vigiada
O documentário “Pro dia nascer feliz” de João Jardim é sobre as péssimas condições do ensino no País. Uma obra que tinha tudo para deixar os espectadores pessimistas sobre o futuro de nossos jovens. Mas, consegue arrancar luz de tanta escuridão e nos faz esperar um final feliz.
O filme começa no município mais pobre de Pernambuco. É Manari e a escola pública do local está caindo aos pedaços. O diretor tem cerca de R$ 600,00 mensais para dar conta de suas despesas. Os alunos vêm de longe, mas nem sempre chegam. Os ônibus quebram com freqüência. Mas, em meio a essas dificuldades, é possível encontrar a jovem Valéria, que lê Vinícius de Moraes, Bandeira e Drummond. Escreve belos textos, mas recebe notas baixas de professores que acham que ela apenas faz cópias.
Em Duque de Caxias, município do Rio de Janeiro, um adolescente negro está na corda bamba. De um lado, o estudo difícil e chato em uma escola pública com salas lotadas. De outro, andar com uma arma na cintura e comprar roupas da moda para impressionar as garotas em troca do trabalho para o tráfico de drogas. Um centro cultural do local tenta fazer a diferença oferecendo a ele a oportunidade de fazer música com tambores. Consegue afastá-lo do crime, mas não o retira da corda bamba.
Em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, outra menina com sensibilidade literária descobre que pode transformar sua tristeza em poesia. Uma jovem professora da escola pública local reclama do stress de dar aulas para alunos sem motivação e agressivos. Num bairro rico de São Paulo, aparecem quatro adolescentes, alunas de um colégio caríssimo. Entre outras coisas, elas discutem como sair da “bolha” em que se transformou sua condição privilegiada. Bem informadas, elas sabem que o País é vice-campeão em injustiça social. Têm um vago sentimento de culpa que as faz querer se aproximar dos mais pobres. Sair da “bolha”. Mas, como fazê-lo? Usar a caridade seria reforçar a relação de desigualdade. A clareza dessa situação pesa sobre elas.
Rica, inteligente, informada e prisioneira da alienação
O filme acompanha o sistema educacional brasileiro desde a miséria sertaneja, passando por diversos níveis de pobreza até chegar ao ensino dirigido aos filhos das famílias mais ricas do País. Mostra que em todos esses níveis é difícil ver alguma coisa que possa ser chamada de pedagogia . Ou seja, a formação de indivíduos capazes de desenvolver seus potenciais criativos, profissionais e sociais. Claro que isso não seria novidade no sertão nordestino e nas periferias violentas das grandes cidades. O que assusta é que entre os ricos, isso também é verdade.
Uma das adolescentes bem nascidas fala da depressão que ameaça fazê-la perder o ano escolar. Outra, chora porque cobra demais de si mesma. Diz que nem se trata de resultados. “É o processo que conta”, diz ela. Uma fala que deixa ver a alienação em seu estado mais puro. Alienação não é só desinformação ou indiferença em relação à vida social. Ela estuda com os melhores professores. Tem acesso aos melhores instrumentos didáticos e formas de comunicação. Faz natação, inglês, especializações. Mas, ficou prisioneira “do processo”. Não sabe para que tudo isso serve.
Outro problema grave é a relação com os pais. Da filha mais pobre à menina rica, as dificuldades em receber carinho e atenção paternos estão muito presentes. Durante o século passado, a família mudou. “Desestruturou-se”, como dizem os especialistas. O mercado absorveu mães e pais. A sobrevivência, da mais básica à mais sofisticada, os afastou dos filhos. Por enquanto, há um vazio no lugar.
O mesmo aconteceu com a escola. Uma professora lúcida fala no filme que a sala-de-aula é muito chata, comparada ao mundo lá fora. Da vida perigosa de bandido do morro às baladas da noite paulistana, o quadro negro, os livros e a voz da professora são um tédio sem fim. Muita coisa que parecia tão sólida se desmanchou no ar. O pior é que os ritmos são diferentes. Para os mais pobres, a vida adulta chega antes. Seja pelo elevado índice de adolescentes grávidas, seja pela entrada precoce no mercado de trabalho ou na vida cruel do crime. Por outro lado, os mais ricos esticam a difícil passagem para a maturidade, se especializando academicamente ou apenas desfrutando das diversões que o dinheiro fácil oferece. De qualquer maneira, isso pode acabar sendo traumático para ambos os casos.
Cuidar de plantas e doentes
Claro que a fragilidade material dos mais pobres os expõe a um risco social muito maior. As garotas ricas com dilemas existenciais fazem parte das 5 mil famílias brasileiras (0,01% da população) que possuem patrimônio equivalente a 40% do Produto Interno Bruto do País. É o que diz o “Atlas da Exclusão Social” (Editora Cortez, 2004) sobre os ricos brasileiros. Sofrer de depressão não é exclusividade dos mais ricos. Mas, entre eles, o acesso à ajuda terapêutica e muito maior. Os jovens ricos também quase não são atingidos pelo fato de que pouco mais de 4% do PIB foi investido em educação pública entre 1998 e 2002, quando seria necessário investir, pelo menos, o dobro disso. Aí, a tragédia é muito real. O filme fala de uma garota pobre que mata outra a facadas na escola. Diz que o fez porque “pra menor, matar não pega nada”.
Adolescer em espanhol quer dizer sofrer dor. A origem grega da palavra “pedagogia” também quer dizer “cuidar de uma planta ou um doente”. O que vemos de alto a baixo na educação brasileira está longe de ser capaz de cuidar de seres tão delicados e cheios de dor como filhos e filhas adolescentes. O documentário mostra isso de forma muito clara. Leva o espectador sensível à beira do desespero. Mas, então, mostra a capacidade desses jovens de arrancar-se ao abismo.
A talentosa e pobre Valéria, a rica e sensível jovem depressiva, o adolescente tentado pelo crime na periferia. Todos eles mostram-se capazes de se manter acima da linha d´água, ainda que estejam longe da margem segura. Vivem “por um triz”, como diz a música de Cazuza que inspirou o título do filme. Nenhum deles merece o que estão passando. A luta contra a desigualdade é mais do que necessária. No entanto, a situação da educação em nossa sociedade é também a denúncia de que é viver nela. Trata-se cada vez mais de passar por uma máquina de moer sentidos e esperanças, até para quem nasceu em berço de ouro. Contra isso, viva a poesia da menina Valéria!
Setembro de 2006