18 dezembro 2007

FELIZ NATAL e GRANDE 2008

A todos os freqüentadores do "Espaço" - e a pretexto de poder comemorar as iminentes 5000 visitas e a recente obtenção do SELO NOTA 10 de Direitos Humanos do DHNet - dedico essas breves notas sobre as origens históricas e culturais de alguns elementos-chave do Natal. Que o fim de ano revitalize a fé e a esperança num mundo melhor, que certamente terá início já em 2008, um ano fabuloso para todos nós


Apontamentos sobre as comemorações do Natal...

por Marco A. Rossi

Credita-se a origem do Natal às pesquisas realizadas pelo papa Júlio I, no século IV, a respeito da verdadeira data de nascimento de Jesus Cristo. No século V, a festa entrou oficialmente no calendário da Igreja e se propagou por todo o mundo.

Papai Noel, o “bom velhinho”, surge da lenda em torno do Bispo Nicolau, que distribuía presentes e era visto por todos, na Turquia, por volta de 280 d.C, como pessoa humana generosa e extremamente feliz, altruísta. Com o tempo, tendo tido ao seu nome vários milagres relacionados, a Igreja o canoniza, transformando-o em São Nicolau. Daí em diante configura-se rapidamente a figura folclórica do Papai Noel.

Em campanha publicitária da Coca-Cola, em 1881, Papai Noel ganha as cores oficiais do refrigerante (vermelho e branco) e roupas de inverno, estação que coincide, nos EUA, com a data das festas natalinas. Essa insígnia rapidamente se mundializou. (Ah, e é partir dessa colossal campanha de fixação da marca Coca-Cola que tem início o horrendo Natal comercial, que ultrapassa, destruindo, todos os sentidos originários da vida religiosa e da comunhão natalina.)

Da Alemanha vêm os primeiros indícios históricos sobre a origem da árvore de Natal. Consta que Lutero, por volta de 1530, ao passear pelos bosques, encantava-se com a beleza dos pinheiros e imaginava para eles grandes adornos, os quais poderiam tornar ainda mais belas aquelas paisagens de inverno. É da Alemanha, pois, que surgem para todo o planeta árvores-símbolo do Natal.

Os presépios estão diretamente ligados a São Francisco de Assis (século XIII), que amava os animais e neles viu a oportunidade de simbolizar, junto a Maria, José, os reis magos e o próprio menino Jesus, os caminhos da esperança e da magia contidas no espírito do Natal.

Quase romancista

por Marco A. Rossi

Venho imaginando como será meu primeiro romance há anos. Às vezes penso que trará novidades, irá revolucionar a literatura e o modo como as pessoas encaram a leitura e os livros. Outras vezes – e essas são mesmo a maioria delas – creio que eu nem chegue a escrever um livro de ficção, uma história que valha a pena, possa, no mínimo, emocionar as pessoas.

Insistir persistindo, contudo, tem sido o emblema de minha vida. Não me vejo nem me reconheço entregue a uma tristeza infinita, cachoeira de depressão e mal-estar. Prefiro sonhar com o “sucesso” literário, noites de autógrafo, bienais, encontros com gente bacana de cultura e arte, manhãs, tardes e madrugadas expressivamente produtivas.

Percebo-me realmente feliz e em plenitude quando me flagro namorando livros, ansioso à espera de um lançamento, de uma promessa editorial; relendo clássicos, fantasiando versões proibidas de cânones, referências eternas. Mas gostoso mesmo é roteirizar para o cinema os melhores livros de minha vida. Perco (ganho!) horas a fio a imaginar como seriam minhas leituras na tela da sétima arte. Já cheguei a escrever a continuação de Blade Runner e de Laranja Mecânica. Senti-me bem à beça, um gênio de todas as formas de arte.

Releio meus romances não-publicados, rejeitados por mim ou pela lei. Odeio-os hoje: não representam nada, não somam, não explicam. Começo a julgar justíssima sua condenação. Penso assim, entretanto, de modo romanesco, como crítico de uma obra que revela o menor de mim, o mais insignificante e absolutamente desinteressante.

Procuro e encontro também os velhos manuscritos de “Coração de Benjamin”. Bom enredo, personagens fabulosos, aporte histórico e geográfico provocador. E por que tudo isso não se transforma no aguardado primeiro romance? Bom, talvez porque nunca consiga dar-lhe continuidade, por também não saber o que fazer dos amores e desamores que inundam os manuscritos de toda uma vida. Debruço-me sobre esses poucos traços de antigas folhas de papel dezenas de vezes ao ano, e jamais pude levar a cabo as paixões de Amanda, a ética tão privatista de Gabriel, as conseqüências históricas da Revolução Fevereirista de 1959...

Nos últimos tempos, até para evitar saudosismos constrangedores e nada produtivos, ando escrevendo crônicas, contos, memórias, fragmentos de auto-análise, tudo para publicar em algumas revistas e, principalmente, em meu blog. Acredito que dessa forma eu alimente idéias e permita novas inspirações para o obsessivo e deslumbrado escritor que reside – intruso - em mim, n’alma. Essa é a chance para que a rejeitada ausência de meus romances que não vêm abandone de uma vez por todas o centro de meus desejos e minha disciplina literária. É isso.

15 novembro 2007

À mão esquerda: olhares da vida sobre o mundo

THE KISS, de Edvard Munch (1863 - 1944), pintado entre 1897 e 1898.
Das expressões da paixão, o beijo talvez seja aquela que revela de modo mais contundente a necessidade de exposição, clareza, firmeza de propósitos: não se pode amar sem antes ter a coragem de beijar, exigir e conquistar a face virtuosa da própria paixão

por Marco A. Rossi

Hannah Arendt, uma das mais importantes e competentes pensadoras do século XX (cujo gênio foi capaz de romper com as mesmices diante do horror totalitário e das conseqüências do desaparecimento histórico das tradições políticas e culturais do Ocidente), afirmava não possuir o pensamento filiações ou enraizamentos partidários; daí sua repulsa diante de tentativas de quererem situá-la ora à direita, ora à esquerda.

Concordo com Hannah Arendt. Em parte.

Se é mesmo ruim filiar ou limitar potencialidade tão ampla como o pensar (fator que condiciona, poda, cobra caixas e taxas, reciprocidade de obrigações), é igualmente temerário supor que haja algo humano que não obtenha mediação nas paixões, nos ideários, nas perspectivas de vida e de mundo.

Não existem, estou plenamente convencido, posturas de neutralidade diante dos acontecimentos humanos, das ocorrências históricas. Não se faz possível guardar no armário princípios e valores antes que se saia de casa. Do mesmo modo, como não há imparcialidade na cobertura dos fatos pela imprensa (será que alguém realmente crê nisso?!), inexistem posturas científicas, culturais, sociais e intelectuais que não sejam profundamente partidarizadas, ideologizadas, passíveis e desejosas de seguir este ou aquele caminho.

Se bem compreendi o que pude conhecer da vida e da obra de Hannah Arendt, teórica fabulosa, marcada pela dignidade e pela coerência, creio poder imaginar que sua postura não-bipolarizante da atividade do pensar, do querer e do julgar tenha se referido exclusivamente a sua luta por independência intelectual, criatividade, autonomia radical. Não me parece à-toa (pelo contrário, à esquerda disso) todo o seu afeiçoar por figuras como Walter Benjamin, Bertolt Brecht e Rosa Luxemburgo.

Às malas e sacolas, preciso ainda referendar que a respeito da dicotomia direita e esquerda já pude ouvir e ler de tudo um pouco. Já constatei “opiniões” que se dizem contrárias à existência da díade; que se postulam – ao pensar a bipolaridade como algo que se volta para um passado morto e enterrado – muitíssimo além desses reducionismos baratos; que afirmam – pasmem! – que direita é governo, esquerda, oposição.

Esse tipo de, digamos, “opinião” torna ainda mais forte o vaticínio do saudoso jurista italiano Norberto Bobbio, para o qual a distinção política entre esquerda e direita mantém-se extremamente válida, mais do que nunca, aliás. À proporção que diminuem os adeptos à esquerda ou à direita do espectro político (refiro-me aos que ousam se declarar!), cresce exponencialmente a ocupação do tal centro. Centro-esquerda ou centro-direita, os adeptos do centro ocupam o zero, o um ou o dois na escala do pensar e do praticar a política e, na vida coletiva, tornam-se simpáticos aos olhos e ouvidos do eleitor, do cidadão que pretendem negar, negando-lhes posições, perspectivas, projetos claros e utopias. Dizer-se “de centro”, entretanto, segundo mestre Bobbio, é ocultar o ser “de direita”; negar a velha díade, relegando-a ao passado, é também escamotear o fato de que seu enunciador é “de direita”. Ora, e por que há muito menos timidez e vergonha ao poder se declarar “de esquerda” – não obstante os inúmeros equívocos praticados por seus adeptos ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX?!

É provável que o constrangimento inexistente na autodeclaração à esquerda esteja ligado à sua trajetória histórica, política e até (principalmente!) teórica.

Geoff Eley recorda, em seu importante livro “Forjando a Democracia: a história da esquerda na Europa (1850 – 2000)”, que as designações esquerda e direita surgiram de fato no radical ambiente democrático do processo revolucionário francês do século XVIII.

Na Assembléia Constituinte, aqueles que se posicionavam política e ideologicamente contrários ao poder real do veto, aos privilégios da nobreza e à estrutura social do Antigo Regime, sentavam-se à esquerda no plenário, vistos da perspectiva da mesa da presidência da casa. Aqueles que se mantiveram fiéis ao conservadorismo moral e político daquela época (mantêm-se até hoje?!) ficaram – ficam?! – à direita. Não se tratava, pois, de governo ou oposição, uma vez que, de uma forma ou de outra, uma nova ordem social deveria dali nascer. Também não se compusera naquela ocasião uma circunstância absolutamente provisória, contingente: os blocos “de esquerda” e “de direita” perseguiam seus traços de coerência em relação às suas trajetórias políticas, econômicas e culturais.

Os radicais jacobinos (os defensores de direita eram igualmente radicais – e violentos!), aqueles que se predispuseram a preconizar o embrião histórico da esquerda, adotaram forte apelo democrático, direcionando o debate para a abolição do veto real, a criação de legislativo em câmara única e a composição de um judiciário eleito pela comunidade; além disso, era imprescindível em seus contornos ideológicos a defesa explícita do sufrágio universal e o “para cada cabeça, um voto”, fator que referendava igual peso ao voto de todos os cidadãos.

Vale ainda ressaltar que a máxima revolucionária francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – relacionava-se intimamente com o núcleo das aspirações “de esquerda”. Enquanto a liberdade consolidava a base da luta histórica contra o Antigo Regime e a própria emancipação social dos trabalhadores de um modo amplo e irrestrito, a igualdade alicerçava toda a filosofia política da esquerda, suas noções de Homem e de Mundo, e as inter-relações entre o indivíduo, seu meio, sua história. A fraternidade, a mais tardia das visões revolucionárias, é matrícula antiga na escola da solidariedade da esquerda mundial. Sem a noção enraizada de fraternidade no escopo dos ideários de esquerda, toda luta contra o capital que avilta, aliena, segrega e explora o humano seria vã, vazia, desproporcional à riqueza e à amplitude de suas utopias.

Na luta histórica contra tudo que impedisse o questionamento dos excessos conservadores, a positivação de ausências pelo exercício coletivo da liberdade cidadã, a condenação da pobreza, da riqueza concentrada, da ostentação privada e consumista e o acúmulo irracional e patológico de poder e instrumentos de arbitrariedade (ferramentas eficientes na produção e na exibição da desigualdade social), a parceria dos emblemas revolucionários em França corroborou o surgimento e a ampliação crescente dos ideais, das cores e dos movimentos da esquerda e dos socialistas, dos “utópicos” aos “científicos”, de Fourier a Lênin, passando pelos pactos, no processo de republicanização dos países europeus e a posteriori de todo o mundo, entre socialistas e liberais de múltiplas tendências contra conservadores e reminiscências autoritárias dos privilégios da velhíssima ordem social, hereditária e estanque em todos os níveis da vida coletiva.

Bom, independentemente das contradições e das polêmicas que a velha díade ainda produz na vida política, no debate público e nas inúmeras intervenções de intelectuais e homens e mulheres de cultura, negar sua validade e premência nos dias atuais é alimentar a irrelevância da política na condução dos negócios humanos. Reféns que temos sido das (in)determinações tecnicistas, privadas e burocratizantes dos organismos de economia e empreendedorismo capitaneados pela violência simbólica do neoliberalismo globalizado e financeirizado por bancos e contendas neoimperialistas de Davos, do BIRD e do FMI, aceitamos a desideologização de nossas existências, desacreditando no debate, nos programas de ação, nos valores e princípios do político, do cultural, do histórico.

Ao retirarmos da vida comum a UTOPIA, consagramos o mais-do-mesmo, o individualismo e a desesperança. Ao elegermos o simpático e confortável CENTRO (noves fora radicalismos e firmes posições de vida!) capitulamos diante de toda e qualquer possibilidade de mudança, aceitando resignadamente a barbárie, a corrupção, a destruição da Terra e da vida.

Interessante observar, a título de finalização pretensamente bem-humorada, o que Leandro Konder, em introdução à edição especial da “Revista História Viva – Temas Brasileiros: A Esquerda no Brasil”, de modo extremamente fecundo e oportuno, recorda: quando se ouve dizer que alguém não acredita na existência da dualidade esquerda e direita, sempre se observa que tal narrador nunca é de esquerda. A referência de Leandro Konder é direta à constatação do filósofo Auguste Chartier (1868 – 1951). Oportuna e, diga-se, corajosa, a esfinge chartieriana, principalmente em tempos de fugacidade e de vazios ideológicos, marasmos e apatias. Precisamos assumir nossas posturas diante do real, sob pena de deixarmos escapar para sempre toda chance de efetivamente transformá-lo. Parece-me que admitir como vemos as coisas e de que modo nos posicionamos diante das alternativas e das contradições da vida em sociedade é o passo inicial para alimentar essa esperança. É isso.

02 novembro 2007

Tempos Excessivos

A cidade de Londrina e toda a região norte do Paraná ganharam uma bela publicação em 2007: a Revista ESTAÇÃO, trimestral, uma para cada bela passagem de flores e relvas do ano. Com as edições inverno e primavera já lançadas (sendo que essa última chegou faz poucas semanas ao olhar público), a linha editorial reúne sofisticação, apelo comercial e bom-gosto numa única revista, que atende a diferentes públicos sem subsunção de inteligências à mediocridade de um mercado que vai de cigarros a automóveis de 1000Km/h em menos de dez segundos. No lugar de pretensas divagações /digressões filosóficas (no pior sentido das expressões) da primeira à última página, ESTAÇÃO opta pela pluralidade de assuntos e estilos, dando vazão a matérias sobre estética, decoração, cinema, tempo, paraquedismo, música, moda, fotografia etc., permitindo múltiplos olhares e dezenas de formas de expressão locais, já que a maior parte de seus colunistas e colaboradores é da terra vermelha de paixão norte-paranaense. Ademais, vale ressaltar, os responsáveis pela publicação têm boa bagagem acadêmica em Comunicação Social, fator que produz injunções em beleza gráfica, arrojo de formato e cores, detalhismo da palavra, competência em conteúdo. Fico feliz em poder colaborar, desde o número 02, com a revista. Abaixo minha crônica sobre o tempo, publicada na ESTAÇÃO PRIMAVERA.

A noção de tempo, ensinava o socialista utópico Charles Fourier, pode ser medida por nossa capacidade de dar vazão à paixão, aos sublimes momentos de nossa transcendência, perfeição. O tempo de Fourier acabou faz um ou dois séculos. E com a noção do francês de Besançon morreu também boa parte de nossa capacidade de entender e dominar a mágica do tempo.

Hoje o tempo é pura aceleração, pura fábula, redemoinho de ocorrências temporárias, ausência de cuidado consigo mesmo, com o próximo, com o mundo. Hoje o tempo é de Derrida: arquitetam-se destruições. Mas ao contrário dos tempos revolucionários, nada é posto no lugar daquilo que se vai. Nada.

O tempo é a casa dos instintos agora. Nada de pensamento, nada de liberdade. De tantos excessos, a única coisa que se tornou rarefeita foi a própria concepção do tempo como construção da identidade. Sem tempo, sem características. Sem perfil, pura ideologia. O tempo é a massa fina da deturpação, o calendário que cria ansiedades, o relógio que não nos larga, não pára de rodar, rodar, rodar nossas cabeças, braços, inspirações. O tempo é a arma daqueles que não têm tempo contra as exigências daqueles que têm de sobra, todo o tempo do mundo para mandar, criar, desmandar, recriar, às vezes sem inteligência alguma.

Lembrou – caso se lembre! – tem de fazer; disse, corra atrás; pediram, não deixe para depois. Sem tempo, sem razões, apenas corridas, longas maratonas do nada ao vazio, nas curvas do vazio e na nítida visão da escuridão. No sumiço do tempo faleceram também minhas impressões do mundo; mal vejo minhas próprias digitais. Não tenho tempo.

Os livros estão mais finos, cheios de ilustração. Muitos deles já são virtuais, no tempo da tela e da boa conexão. A leitura também é rápida. Nem dá para perceber.

Os filmes têm mais imagens, menos palavras. Imagens que não emitem juízos, palavras surdas. No lugar da linguagem, o cinema é hoje pura explosão, espetáculo de efeitos e clichês. Não há tempo para grandes produções, embora haja excesso de dinheiro para realizá-las.

No tempo de sua própria ausência, bom papo é orkutiano e grandes idéias são reduzidas, no ritmo da sentença virtual. O ocaso é o fruto maior de nossos acasos, como o sexo que tem de ser rápido, os amores que têm de ser ligeiros e sem delongas – não há espaço nem mais para as antigas meias palavras. Não há tempo a perder; há muitas cobranças lá fora. O mundo está uma selva. Não há relógios na mata urbana e meu tempo lunar ou solar nunca foi lá aquelas coisas. Meu celular não indica horário em túneis, perde sinal. Estou preso. Cheio de tempo para esperar, sem chances para aquela oportunidade que o tempo, que eu nem vi, acaba de levar, para longe, onde nem o tempo que não mais reconheço poderia imaginar. Tempos não imaginam. Nem nós. Não mais. Puro excesso.

28 outubro 2007

A felicidade exige valentia

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
"Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
"É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
"É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
"Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Fernando Pessoa - 70º aniversário da sua morte

25 outubro 2007

Sociologia dos Prazeres (homenagem minha às ilusões amorosas fourierianas)

"O Outro Lado", de Rosa Pereira (óleo sobre tela, 2001)

(por Marco A. Rossi)

Tenho vivido de repetidas imagens
Arrepios, devaneios, quase-pulsões
O que me freia desconheço
Covardia? Resignação?
É provável que seja a desconfiança

Desconfio de meus desejos
Elevo-os aos céus
Rebaixo-os ao quinto dos infernos
Moralizo meus destemperos
Apimento meus moralismos
Um minuto além
Como o anjo louco, mensageiro do prazer

Vejo-a cá em mim
Diuturna e insistentemente
Abaixo, bem abaixo, na cintura
E no nível renitente dos lábios
Abro os olhos e fujo
Dou dois passos para trás
Quase explodo
É só imaginação, sei, juro
Mas chego a sentir tudo, de verdade

Rejeito e me procuro para as pazes
Quero-a e em seguida desisto mais uma vez
Suores, salivas, odores, cruzamentos múltiplos
Calor, volúpia, eternidade

E agora? Agora é hora
Levanto-me sem despertar
Desperto quase sempre sem me levantar
Aguardando que ela vá embora
Fico sempre mais um tempo
Amo-a, só, por alguns instantes, acelerado
Dái o dia enfim pode começar
Alívio, cansaço, solidão

14 outubro 2007

Dia do professor...

Comemorando por conta própria, na véspera domingueira de um descanso merecido, encontrei pérola guevariana que postula a síntese de meus achados e percalços docentes. Bom, antes de mais nada, parabéns, Prof. Marco A. Rossi! Agora é seguir em frente, preparando-me mais e mais, cavocando amor e dedicação, coragem e insistência. As aulas de Filosofia e Ética vêm vindo aí... Bom e seguro é ter companhia dos escritos de Leandro Konder. Feliz dia dos professores a todos aqueles que fazem da troca de idéias uma partilha solidária e consciente por um mundo melhor!

“Nós, socialistas, somos mais livres porque somos mais completos; somos mais completos porque somos mais livres.”
CHE GUEVARA

13 outubro 2007

Saudade...

Paulo Autran
1922 - 2007


Obrigado, Paulo Autran! Meus sinceros agradecimentos por sempre insistir na grande arte, na estrondosa interpretação, no superlativo sentimento, na inabalável sensibilidade. Nunca terei como corresponder às emoções que pude sentir ao vê-lo na alma e na pele de Próspero, encantando shakesperianamente a cidade de Londrina, ao ar livre, nos meus tempos de universitarismo pueril. Minhas odes ao amor que me ensinou a prestar à cultura e ao humano. E, em instância sempre superior, meus verdadeiros dizeres de honra e orgulho por tê-lo como mestre, como sábio num tempo de tantas sandices e formas banais de estupidez e desperdício da vida humana. Já está fazendo falta, Paulo Autran. Veremo-nos um dia para brindar a face interminável da arte, da cultura e da explosão dos viveres amorosos, humanos.

09 outubro 2007

Che, por mais 40 anos de esperança

Por que será que o Che
Tem este perigoso costume
De seguir sempre renascendo?
Quanto mais o insultam,
O manipulam
O atraiçoam
Mais ele renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque Che
Dizia o que pensava e fazia o que dizia?
Não será por isso que segue sendo
tão extraordinário,
Num mundo onde palavras
e atos tão raramente se encontram?
E quando se encontram
raramente se saúdam
Porque não se reconhecem?

(Eduardo Galeano, intelectual - no extremo sentido do termo - e ensaísta uruguaio, autor do consagrado "As veias abertas da América Latina")

25 agosto 2007

Nós, os comunistas

Comunistas nós somos porque,
os pés solidamente plantados no dia de hoje,
sondamos do futuro a noite densa
somamos o presente de viver.

Comunistas nós somos porque
ouvimos a classe que murmura,
com os sem-vozes lançados ao ataque,
formamos uma massa unida como um só e que canta.

Comunistas nós somos porque,
andando sobre a praia nua,
quando já sobe o ruído da maré,
nós seguimos, desprezando o refúgio.

Comunistas nós somos porque,
pesando com justiça os mais e os menos,
sabemos recuar, batalhar na retaguarda,
e partir novamente para a luta.

V. V. Maiakóvski

13 agosto 2007

Informação ao leitor...

Informo, a título de prestação de contas aos freqüentadores deste "Espaço", que ainda esta semana haverá postagem de novos textos, tanto de meu próprio punho quanto de homenagens poéticas, por máximas e apelo visual, fotos e obras de arte.

A demora em atualizar o "Espaço de Cultura Socialista" talvez se explique pelo fato de que eu ainda mantenho viva a tradição de primeiro realizar de modo manuscrito meus textos; só depois é que digito, lenta e cuidadosamente, para inserir aqui no blog ou em qualquer meio eletrônico ou virtual. Perdoem-me essa ancestralidade cultural!

Até logo mais!

Fraternamente...

Marco A. Rossi

17 julho 2007

Onde

IL LABIRINTO, de Lafranco

por Marco A. Rossi

Dei três ou quatro voltas
Olhei para dois, três lados
Percebi duas ou três vezes a sua presença
Mas você não estava lá

Senti remorso, dor no peito
Quantas vezes fugi?
Quantas vezes você fingiu?
Tudo que fizemos, na verdade, foi não nos percebermos

O frio se instaura, não aquiesce ao desejo por calor
A chaga de um tempo que não solicita nem permite cicatrizes
Cicatrizes ou chagas?
Quais delas persistem?

Creio ser uma chaga que não cicatriza
Uma cicatriz marcada por mil chagas
Sim, um estigmatizado
Um sei-lá-o-quê indelevelmente cheio de você

Cheio de suas ausências e presenças
Desenganos e perfeições
Abandonos e soluções
Beijos, saliva, gozo e refugo

Onde está?
Olho duas, três vezes
Atravesso duas, três vitrines ou paisagens

No campo e na cidade
No Coração de Benjamin e em seu caminho
Sinto duas, três, quatro vezes a imensa dor de seu não-vir


11 julho 2007

Martin Luther King

Martin Luther King (1929 - 1968)

É melhor tentar e falhar...
... que se preocupar e ver a vida passar.

É melhor tentar ainda que em vão...
... que se sentar fazendo nada até o final.

Eu prefiro na chuva caminhar...
... a em dias tristes em casa me esconder.

Prefiro ser feliz, embora LOUCO...
... a em conformidade viver!

04 julho 2007

Dostoiévski e os amigos da HP

Capa de "Memórias do Subsolo", de Fiódor Dostoiévski, editado, com bela tradução de Boris Schnaiderman, pela Editora 34

No finalzinho do mês passado, na sexta-feira 29, fui convidado a dar palavra principal no encerramento da Semana do Contabilista 2007, em Londrina, evento promovido pelo CRC (Conselho Regional de Contabilidade/PR) e SINCOLON (Sindicato dos Contabilistas de Londrina).

Confesso que, de início, considerei estranha qualquer intervenção que eu pudesse fazer em meio a uma platéia constituída hegemonicamente de profissionais liberais da contabilidade. O tema do encontro tornou minha impressão ainda mais forte, incômoda: "O contabilista como agente de transformação social".

Bom, vencido o preconceito inicial, enfrentei mentalmente o repto e me pus a elaborar um texto que por lá pudesse ser apresentado e, ao mesmo tempo, lograsse êxito em fomentar o debate, agregar algum valor a esta tão importante categoria profissional - elite técnica responsável, entre outras coisas, por trabalhar os recursos e patrimônios da coisa pública, fato que pode levar a mais investimentos, mais transparência na gestão, maior controle social de gastos, definição cidadã e participativa de prioridades etc.

Na busca de um pretexto para transformar o contabilista em cidadão - metamorfose que me permitiria "sair pela tangente" e, a um só tempo, circunscrever o nobre profissional das HP's no pleno status de habitante das cidades, ser de direitos e deveres públicos e coletivos -, encontrei, em minha memória e na leitura do novo livro de Leandro Konder ("Sobre o Amor", já comentado e louvado na postagem anterior), "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, com seu grande narrador do subterrâneo, a criticar a si e o mundo, de modo integrado, coerente.

Reproduzo abaixo a palestra que proferi para os profissionais da contabilidade em Londrina. De duas boas coisas minhas palavras puderam se valer após o evento: os comentários e as felicitações generalizadas por parte de todos que vieram me abraçar, agradecer; e a oportuna indicação que por lá pude fazer (e agora aqui no "Espaço" também posso!) desse importante livro do literato russo, autor de "O idiota" e "Crime e Castigo", dois dos maiores romances da literatura mundial em todos os tempos. Em "Memórias do Subsolo" Dostoiévski inaugura uma figura hoje comum em romances e narrativas: o anti-herói, que não é nem o Super-homem nem o Lex Luthor, mas seres sociais (e só por isso também individuais) como qualquer um de nós, isto é, tensos, contraditórios, inacabados, a buscar expressar o real e por ele poder ser algo expressável, para o bem e para o mal.

Desejo que a leitura feita entre contabilistas possa servir a todos os leitores deste blog.
Análise das Ações do Contabilista no Contexto Social

por Marco A. Rossi

O romancista russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) inaugurou na literatura mundial o protagonismo do chamado anti-herói, no monólogo Memórias do Subsolo, de 1864. Nos subterrâneos de um edifício em São Petersburgo, o memorialista de sua própria existência mergulha em ácidas e intensas autocríticas, chegando mesmo a se declarar “... um homem doente, um homem mau, um homem desagradável”.

Por trás de um indivíduo com ódio de si mesmo, amargurado e não-realizado esconde-se, de modo coerente, um indivíduo que se afasta do mundo, que coteja a realidade com a produção intensiva dos horrores humanos. Contra si mesmo, num exercício de generalização do particular, o personagem de Dostoiévski revela sua incapacidade de partilhar experiências, conviver num ambiente social, plural, dinâmico e sempre tenso. Numa palavra: ao preferir o subsolo ao calor e ao clamor das ruas, o irremediavelmente pessimista personagem do escritor russo opta pela angústia, pela crítica sem fim contra si mesmo, como se estivesse a se sentir o espelho do mundo, um reflexo sem retoques de uma realidade que o agride, aniquila, assusta. Sem coragem de enfrentá-la – a realidade dura, nua e crua! -, torna-se anti-herói porque traduz e representa multidões, um pouco de cada um de nós, em nossos medos, receios e anseios.

Mas, afinal de contas, o que teria a ver a figura do anti-herói em Dostoiévski com categorias profissionais modernas e complexas, como, por exemplo, a do contabilista, a do do gestor/articulador de recursos financeiros, de capital, de reservas, poupanças, patrimônios? Tudo e nada. E, paradoxalmente, ao mesmo tempo. A perspectiva é que pode vir a lançar alguma luz sobre essa questão mais-que-impertinente...

Se o contabilista, como todo profissional e, mais que isso, cidadão, não carrega consigo a imagem e o conceito do ser perfeito, imponente, majestoso, é preciso que se acrescente a essa incompletude o fator fazer-se sempre, todos os dias, de modo ora intenso, ora tenso, difícil, retroativo. Isso quer dizer que, como todo ser social, o contabilista se faz na prática, em relação aos seus dissemelhantes, àqueles que com ele partilham o mundo, a realidade.

Num mundo marcado por agruras aparentemente infinitas e insolúveis (fome, miséria, criminalidade banal e cruel, corrupção, individualismo egoístico, tosco e consumista, sentimentos descabidos de superioridade ética e estética etc.), ausentar-se do mundo comum e refugiar-se no privatismo de seus próprios interesses, sejam financeiros, sejam políticos, de status, finalizam a dupla face da moeda social de nosso tempo, qual seja: a apatia.

Movido pela indiferença a tudo que possa cheirar à liberdade e à igualdade, o personagem subterrâneo de Dostoiévski nos incita a uma leitura “perigosa” de suas palavras e conjecturas. Sim, extremamente perigosa. Ao terminar de ler “Memórias do Subsolo”, sentimo-nos, inevitavelmente, esquisitos, duvidosos, machucados e infelizes. E por quê? Porque nos defrontamos com nós mesmos, diante do insistente impasse de nossas existências: viver para mim, soterrado em memórias doloridas daquilo que quis mas não pude ser, ou, às avessas, direcionar-me ao outro, ao referencial de minha própria identidade, com o qual tenho deveres e em nome do qual tenho profundas responsabilidades?

A resposta a essa pergunta pode se dividir em duas formas simples de compreender nossas vidas. A primeira delas – a opção pelo subsolo – restringe o ser humano às suas necessidades vitais, sem dimensão comunitária, eternamente refém de suas instabilidades emocionais e ansiedades patrimoniais, lucrativas, do bem-suceder-se. A segunda resposta plausível (e desejada!) reporta o indivíduo (que só é indivíduo porque ao mesmo tempo é membro constitutivo de uma determinada comunidade humana de aspirações e vivências coletivas) a uma certa esperança: encarar e enfrentar o mundo in loco, na prática, sem o eventual conforto de uma crítica fácil confeccionada no subsolo, onde só há ranços, ódios e desamores – mas há, também, proteção contra as tais mazelas da realidade, da chuva excessiva, do sol escaldante, do outro...

Ao contabilista, ao sociólogo (como eu!), ao artesão mais humilde, ao operário mais cansado ou àquele promotor do considerado o mais nobre dos ofícios (qual seria, hein?!) caberá sempre a segunda opção, aquela em que podemos nos completar diariamente pelo convívio entre nossos iguais e tão diferentes parceiros de jornada social. Caberá a qualquer um, portanto, optar radicalmente pela cidadania, pelo vir a ser permanente, pelo aprender a aprender, pelo compromisso público com as presentes e vindouras gerações – e também com a memória daqueles que nos legaram este mundo, esperançosos que com toda a certeza eram de que poderíamos fazer deste planeta um espaço ainda melhor para viver. Um espaço melhor para todos.

A palavra da vez passa a ser então cidadania.

E o que vem a ser isso?

Cidadania é um universal, refere-se ao habitante efetivo das cidades, da geografia urbana; representa indivíduos portadores de direitos e destinatários de deveres correspondentes (para cada direito desejado e alcançado deve haver um dever como equilíbrio, como contraponto). Como prática essencial à vida em sociedade, a cidadania deve abarcar múltiplas dimensões, tais quais: exercício pleno do direito de livre expressão; nenhum impedimento contra opções estéticas de qualquer natureza; voto como imperativo dos direitos políticos, que se substanciam na livre associação em sindicatos, partidos, conselhos, ONGs etc.; garantias de trabalho, renda, moradia e sustento para si e para toda a família, segurança, entretenimento, arte, cultura, saúde, educação... Ora, se aparentemente inatingíveis, importante ressaltar - para não esquecer para sempre! - esses direitos cidadãos já se fazem assegurados na ordem moral e legal de nossas sociedades ocidentais contemporâneas. Inscritas nas convenções internacionais, nas cartas constitucionais nacionais e no ímpeto discursivo de representantes parlamentares em todos os níveis da vida política das comunidades humanas (pós)modernas, todas essas garantias cidadãs, contudo, ainda que pudessem ser plenamente observadas e realizadas (boa vontade de minha parte, é óbvio!), não trariam nada novo ao mundo, não exigiriam da maior parte da mundanidade humana a saída de seus subterrâneos. Em síntese: ainda que as garantias individuais e coletivas compreendidas pela legalidade de nossas pujanças morais fossem estendidas a toda a realidade de nossas experiências comuns, nada disso tornariam reais nossas chances de alcançar a luz, romper a fronteira apática e escura de nosso subsolo.

Como não-cidadãos – uma vez que afeitos só ao ordenamento previsto, ao social e moralmente aceito, legitimado, tolerado pelas classes dominantes e as elites políticas, econômicas e culturais de nossa sociedade de consumos e espetáculos -, estamos condenados ao subsolo. Como cidadãos simples e ordeiros – indispostos ao novo, ao radical, ao transformador -, arejamos o subsolo, iluminamos suas tardes mais sombrias e aquecemos suas noites mais geladas. Só. Não nos serão ofertadas, entretanto, manhãs de sol, tardes de amor, noites de descanso. Para isso, é necessário que almejemos novos mundos, novas realidades. É necessário que encaremos a sombra gélida e às vezes tão apavorante de nossos irmãos, de nossos concidadãos. A luz precisa permitir o resplandecer de nossos olhares: enfrentar o duro racionalismo de nossas sociedades contidas em laboratórios e estatísticas e vencer o positivismo que nos condena aos desígnios de uma natureza transcendente e poderosa demais... são os grandes desafios de nosso tempo. Quer do contabilista, quer do ser humano que acredita merecerem um mundo melhor todos os nossos filhos.

Para retornar ao que me propôs todas essas digressões, enfatizo que forjar uma “análise das ações do contabilista no contexto social” é labuta audaciosa, uma vez que exige pensar o contabilista num contexto muito mais amplo do que aquele em que concretiza suas atividades profissionais. Faz-se imprescindível cotejá-lo com o universo ao seu redor, com as circunstâncias máximas de sua experiência humana. E, como ser humano, retorno ao início para poder finalizar essa minha intervenção. Retorno aos subterrâneos das reflexões de Dostoiévski.

Analisando seus personagens, o autor de Crime & Castigo afirmou que, não obstante cheirassem à realidade e se fizessem extremamente temerárias na órbita de suas próprias circunstâncias como ser social (um literato russo entre o passado czarista e a iminente onda revolucionária do século XX), as palavras que saem da amargura do personagem do subsolo não condiziam com seu pensamento. Dostoiévski dizia que, embora as tivesse redigido, tinha muitas dificuldades para com elas concordar...

Desse lampejo de esperança do autor de Os Idiotas nasce a possibilidade de eu dizer aqui que o “penso, logo desisto” do pequeno burocrata dos subsolos, que desceu ao inferno do conhecimento que poderia obter sobre si mesmo, gerando desapego ao mundo e desprezo pelas pessoas, pode, sim, ser facilmente substituído pelo desejo de participar da construção social da realidade, de modo fraterno e sem culpa – essa coisinha que ataca nossa consciência e nos condena aos subsolos de nossas próprias almas. Para tanto, contudo, é preciso admitir, como o narrador dos subsolos de Dostoiévski, que o bom não é o subterrâneo do mundo, mas a superfície e todas as suas riquezas, culturas e oportunidades. O personagem do genial romancista russo não acreditava, entretanto, que pudesse conquistar o melhor do mundo, sequer pudesse encontrá-lo. Dostoiévski, por sua vez, acreditava. Se o escritor que cria um personagem descrente consegue se manter crente, nós, indivíduos descrentes e profissionais voltados para nossas próprias urgências, temos a chance de nos tornarmos cidadãos que crêem. E que fazem toda a diferença. É isso.

09 junho 2007

Sobre o Amor


Quando soube, semanas atrás, do lançamento de "Sobre o Amor", belíssima peça ensaística do filósofo Leandro Konder, senti-me menino, naquela já imortalizada metáfora de Sabino sobre o viver e o morrer jovem, a amar eternamente. É provável que existam poucos na Terra credenciados a escrever tão belas páginas como essas do novo livro de Mestre Konder. Dispor e compor em síntese maiúscula autores tão distintos e esplendorosos como Platão, Marx, Kafka, Mann, Drummond, Rosa Luxemburgo, Balzac, Dostoiévski - subordinando-os a epígrafes de lindas canções de nossa MPB... - e outros tantos só mesmo um autor e um ser humano completo como Leandro Konder, a quem posso, tranquilamente, designar MESTRE, afeiçoando-me com muita ternura a essa relação tão estreita na condição de eterno aprendiz.
Bom, fato é que fui chamado a proferir a "Reflexão Filosófica" deste mês de junho lá na Academia de Letras e Artes de Londrina, no lugar cativo de outro mestre, Leonardo Prota, que se recupera muitíssimo bem de simples intervenção cirúrgica. O que dizer em 15 minutos? Sobre o que filosofar nesse tempo? Para um sociólogo, em especial, a audácia já seria suficiente para que eu melasse os lábios de crítica severa ao modelo social de desperdiçar e despedaçar vidas humanas, mas... estou ainda muito encantado com o amor, com o tema de Leandro Konder em seu novo projeto intelectual...
Recuperando o imprescindível "A Arte de Amar", do psicanalista Erich Fromm, e misturando-o com muita singeleza à novidade também necessária do livro mais recente de Leandro Konder, escrevi o texto que abaixo publico. Mais uma homenagem minha (das milhares que já fiz e das bilhares que ainda pretendo fazer) a Leandro Konder, meu maestro soberano.

Como ente distinto dos demais seres vivos, o homem, em sua dimensão mais ampla, escapando a variações que impliquem discussões de gênero (impertinências, aliás, muito legítimas), é essencialmente consciência e liberdade. Enquanto a primeira lhe permite cumprir as múltiplas etapas de sua exteriorização (pensamento que se transforma em ação, em trabalho e, por extensão, realização), a segunda o faz avançar em direção ao seu semelhante, ao próximo, àqueles que com ele partilham uma mesma realidade, um mesmo espaço, um mesmo tempo.
A consciência, portanto, cumpre importante papel de ampliar a liberdade humana, fornecendo-lhe um mundo à imagem e semelhança daqueles que trabalham e que se realizam por meio de suas várias formas de objetivação, exteriorização. Das inúmeras maneiras de o homem se realizar como sujeito, como ser individual e coletivo, o amor, segundo o psicanalista Erich Fromm, é a mais plena, a mais intensa, a mais livre e, por isso mesmo, sábia, rica, consciente.
Se amar é mesmo verbo intransitivo, como queriam a prosa de Mario e a poesia de Carlos, dois Andrades, ele é também verbo da vida, da comunhão, da incessante busca de absolvição do homem diante de sua mais contundente e inefável condenação: a solidão.
No intuito de tornar-se “o meio” de driblar as adversidades provocadas pela solidão contra o coração humano, o amor não apenas afasta os indivíduos da loucura, mas, principalmente, da indiferença, da falta de zelo, tolerância, encantamento. Sem amor, nesse sentido, o ser se faz não-ser, uma vez que se distancia enormemente de si mesmo, do espelho que o possibilita se ver de modo mais profundo, mais arraigado, mais humano, frágil, necessitado de cuidados sempre especiais e permanentes. Esse espelho é o outro, aquele pelo qual transformamos nossas longas caminhadas. No final de todas as contas, sobrará sempre a máxima incontestável de Emmanuel Levinas: “Amar é jamais poder fugir da certeza de que nos fazemos no outro, eternamente”.
Descentrar-se, sair de si, fazer-se como ser-no-mundo, para-o-mundo... Tais pujanças do amor o tornam radicalmente diferente da paixão, que se enraíza levemente no mágico, fugaz, transitório. Para realizar-se em suas objetivações o ser não se pode valer do calor de seus desejos, do instante passageiro de suas pulsões. É preciso cultivar a serenidade do tempo, a inquietude paradoxalmente paciente do pensar, do refletir, do saber aguardar, mexer-se. Se o amor se traduz por infinitas atitudes de zelo, prestatividade, longevidade positiva e terna de suas conseqüências, ele não pode, é claro, atropelar-se em meio aos apelos de uma sociedade que vem, a cada dia, privilegiando mais e mais o supérfluo, o irrisório, o descartável.
A força do amor deve poder exprimir todos os necessários elementos para a criação e a recriação de nossas identidades culturais, tanto em sua dimensão individual quanto em sua dinâmica coletiva; deve também posicionar-se diante das alteridades, reafirmando o que Hannah Arendt chamava de duplo aspecto humano da igualdade e da diferença; deve incitar uniões, favorecer ações solidárias, confraternizações; deve ainda ser responsável por todos, aqueles que podem e sabem amar e aqueles que não tiveram a oportunidade para conhecer e desvendar seus encantos, suas infinitas possibilidades... Com esses, aliás, a que Paulo Freire chamava esfarrapados da Terra, devemos ser amáveis à exaustão, definindo uma nova ecologia de saberes e múltiplas e sempre renovadas formas de fraternidade, inclusão, aperfeiçoamento de nossa tão sabotada dignidade humana.
Não obstante se reproduza por Eros (o amor erótico) ou Filia (o amor amizade), Ágape (o amor banquete) ou Caritas (o amor solidariedade), o amor não pode prescindir, bom filho que sempre fora de Poros e Penia, de situar-se sempre, com serenidade e parcimônia, entre os excessos da alma (psiquê) e as carências do outro (alter). É nessa via de mão dupla – no entanto, única, intransplantável – que devemos equilibrar a alma desejosa neste mundo de tantas seduções e aprender a lidar com nossas idas ao outro, esse objeto que é sujeito da reflexão antropológica tão misterioso quanto as formas de descaso com as quais tem sido não-referenciado na extremada individualidade de nossos contemporâneos afeitos ao consumo e ao prazer-paixão das instantaneidades daquilo a que Francisco de Oliveira chama de “Era da Indiferença”.
Indiferença que parece ser o avesso do conceito de amor maduro, definido de modo sublime por Erich Fromm. Enquanto o amor imaturo só é capaz de dizer: “Amo-te porque preciso de ti”, dando à luz uma absoluta instrumentalização e ainda mais nefasta banalizaçao da arte de amar, o amor maduro se torna denso e profundo, incondicional e verdadeiramente humano, porque só se faz na máxima: “Preciso de ti porque te amo”. Mais uma vez o gênio da língua vem a nós de modo arrebatador: se preciso porque amo, empresto ao verbo antes intransitivo o complemento mais-que-necessário à vida, à justiça, à crença e à luta árdua por uma sociedade de homens, mulheres e crianças efetivamente livres e iguais. É isso.
Referências Bibliográficas:
FROMM, Erich. A Arte de Amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
KONDER, Leandro. Sobre o Amor. São Paulo: Boitempo, 2007.

28 maio 2007

Attila Jószef, a síntese-esperança

Attila Jószef (1905-1937)
O poeta húngaro Attila Jószef morreu jovem, muitíssimo jovem, aos 32 anos. Não obstante a pouca idade de seu construtor, a poesia de Jószef, amada por compatriotas tão distintos e ao mesmo tempo tão necessariamente complementares como Lukács, Mészáros e Agnes Heller, revela todo o sombrio lado de uma vida marcada pela negação, pela ausência, pela dor, pela carestia. Filho de pai operário e mãe lavadeira, Jószef expõe e declama com intensidade suas estrofes, seus versos, expressando o real e o surreal, tornando inexorável a sua bela síntese-esperança. A cada palavra da obra bela e instigante de Jószef, um sujeito marcado pela pobreza e pela necessidade material estupenda, vê-se um oceano de possibilidades, às vezes em tom áspero, jocoso e até intransigente, mas sempre desmesuradamente humano, crente de que vale a pena atravessar as estações infinitas de nossa existência. Nascido na linda Budapeste, Attila deixa por lá a sua marca, indelével, por toda a eternidade, do sentido pela luta socialista, fraterna. É o que se pode perceber com nitidez no poema "Aí está o saldo final", reproduzido abaixo, no qual a sensação de infinitude, desejo e querer-mais se salvaguardam na certeza de que os dias para ele, se foram mesmo poucos, foram igualmente mágicos, contundentes, uma lição a cada instante, uma batalha por sublimações. Um poeta completo, um ser humano vasto.
AÍ ESTÁ O SALDO FINAL
por Attila Jószef

Confiei em mim desde o primeiro momento.
Custa muito pouco ser dono do vento.

E à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.

Nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
Com medo, às vezes, mantive-me no posto.

Paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.

Se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.

Fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.

Vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.

Não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.

Vivi (já está aí o saldo final):
Muitos outros morreram deste mal.

21 maio 2007

Uma década ao vento da descoberta

"Eu gostaria de ser lembrado como alguém que amou o mundo, as pessoas, os bichos, as árvores, a terra, a água, a vida"
PAULO REGLUS NEVES FREIRE
(1921 - 1997)
Faz dez anos que o mais importante educador brasileiro nos deixou, decidido a partilhar seus tantos saberes nas belas trilhas e paisagens do firmamento (sim, no Céu, ao lado das mais saudosas, brilhantes e respeitadas plêiades daqueles que por aqui, na Terra, já passaram...).

Junto de Makarenko e Gramsci, o autor das pedagogias do oprimido, da esperança e da autonomia - tríade que, decisivamente, me fez professor, desejante de ainda vir a ser um bom educador! – tornou-se grande e indelével referência em minha vida como cidadão (ser militante, socialista, um democrata em busca da construção desse conceito) e como profissional das humanidades, um sociólogo no firme propósito de tornar sua disciplina um elo sólido entre o sonhado e o real, entre o querer e o poder, entre o fantasiar e o realizar...

A urgência de realizar, verbo propositivo, direto, que necessita de complementos permanentes e sempre renovados, é o que Paulo Freire melhor me fez ver, sentir, precisar para bem viver. Realizar o descortinamento das ideologias que nublam, disfarçam e até tornam elegante a calamitosa educação brasileira; realizar técnicas de decomposição dos discursos e das práticas que tornam similares a culpa e a estrutura, que oprimem, confundindo alhos com bugalhos, responsabilizando o pobre pela pobreza, pela violência, pelo triste mapa de nossas geografias urbanas, desumanas, mercantilistas a toda a prova. Aliás, é de Paulo Freire a mais contundente crítica à transformação de tudo e de todos em valor-de-troca, em mensurabilidade fria e técnica. É do autor de A Educação como Prática da Liberdade a forte assertiva de total rejeição à idéia de educar para se fazer adaptar... Para ele, Mestre Freire, educar não é dispor educandos no mundo, de modo conformista, resignado, mas situá-los e orientá-los, dialeticamente, a viver com o mundo, com o outro.

Todas as minhas reverências a Paulo Freire humildemente refletem a crença de que a presença de seu legado entre nós é imprescindível, intransponível. Mais do que isso: da sutileza, do charme e da pujança das palavras de Paulo Freire podemos sempre sentir o vento da descoberta, o ar que nos emancipa e faz verdadeiramente livres. Penso que a conversa que Paulo Freire travou com trabalhadores rurais, reproduzida na Pedagogia da Esperança – e lembrada/publicada por Eduardo Sales de Lima, na edição de 03 a 09 de maio deste ano do Semanário Brasil de Fato -, sintetize toda a energia, todo o encanto, toda a riqueza de seu legado, de nossa mais bela herança. Vamos lá ver...

- Muito bem – disse eu a eles. – Eu sei algumas coisas que vocês não sabem. Mas por que eu sei e vocês não sabem?
- O senhor sabe porque é doutor. Nós, não.
- Exato, eu sou doutor. Vocês não. Mas por que eu sou doutor e vocês não?
- Porque foi à escola, tem leitura, tem estudo, e nós, não.
- E por que eu fui à escola?
- Porque seu pai pôde mandar o senhor à escola. O nosso, não.
- E por que os pais de vocês não puderam mandar vocês à escola?
- Porque eram camponeses como nós.
- E o que é ser camponês?
- É não ter educação, posses, trabalhar de sol a sol sem direitos, sem esperança de um dia melhor.
- E por que ao camponês falta tudo isso?
- Porque Deus quer.
- E quem é Deus?
- É o pai de todos nós.
- E quem é pai aqui nesta reunião?
Quase todos de mãos para cima disseram que eram. Me fixei num deles e lhe perguntei:
- Quantos filhos você tem?
- Três.
- Você seria capaz de sacrificar dois deles, submetendo-os a sofrimentos, para que o terceiro estudasse, com vida boa no Recife? Você seria capaz de amar assim?
- Não!
- Se você – disse eu -, homem de carne e osso, não é capaz de fazer uma injustiça dessas, como é possível entender que Deus o faça? Será mesmo que Deus é o fazedor dessas coisas?
Um silêncio diferente do anterior. Em seguida:
- Não. Não é Deus fazedor disso tudo. É o patrão!

17 maio 2007

O dia em que obtive a chave do sol...

Na remanscente atmosfera utópica da década de 1980, canções como as gravadas em "The Key" ofertavam ao mundo um código de defesa contra as mesmices de uma geração indefesa diante de suas próprias limitações éticas e estéticas. O clássico álbum dos paulistanos da "A Chave do Sol", nesse sentido, propunha mudanças radicais nas nossas formas obliteradas pela grande mídia de ver, viver, sentir. E mais: instava os jovens de sua época a pensar a respeito do rock de butique que a TV e a Rádio Comercial lhes impingia de modo alienante e grosseiro. Trata-se, por tudo isso e muito mais, de um álbum eterno do verdadeiro rock brasileiro.
por Marco A. Rossi
Assim como os livros e os filmes, são muitos os álbuns musicais que compõem a trilha sonora de nossas vidas. A depender das circunstâncias e dos acontecimentos, combinam-se ou mesmo se excluem blues e romances policiais, filmes de realismo fantástico e música erudita, baladas rockianas e poesias drummondianas.

Lembro que ainda são inúmeros os álbuns – os antigos e tão saudosos “discos”, LPs de vinil – que me trazem à memória meus tempos de adolescência, precoce, o universo em total decomposição da década dos oitenta.

Naquele tempo, paradigmático, para mim, em múltiplos sentidos, o rock, o blues, as baladonas hard e até o thrash bay area capitaneado por Metallica, Magadeth, Testament e outras tantas bandas de Metal revezaram-se em meus indefiníveis antagonismos de ódio e amor, conformismo e desejo revolucionário, esperança e catastrofismo. A música de tantos personagens de todos esses estilos do som pesado, cortante, sempre underground em terras brasileiras, auxiliou-me a compor, ao menos em minha forma de ver, viver e sentir, o mapa urbano de São Paulo, as ladeiras, os bares, os amigos e suas paisagens “naturais” e as incontáveis incertezas de minha primeira juventude. Ao lado de todos os meus “bolachões” de vinil – os grandiosos petardos –, misturavam-se papel, caneta, livros de poesia, quadrinhos e minhas iniciações na história das idéias socialistas, as quais, cedo, muito cedo, me predispuseram à literatura, às humanidades e à sociologia, essa última em particular particularíssimo.

Esse preâmbulo todo me foi despertado pela agora pós-moderna audição de “The Key”, primeiro “discão” de fato dos paulistanos da “A Chave do Sol”, que naqueles, vistos agora, tão distantes – aparentemente, é claro! – anos entre 1986 e 1990 acabaram se tornando ídolos e, depois, amigos, como é o caso do baixista Tigueis e do guitarrista Edu Ardanuy (integrante da segunda fase da “A Chave”, já sem Sol, e hoje no Dr. Sin).

Foi numa tarde de sábado, bastante sol, modorrenta atmosfera paulistana de final de semana (a cidade, parada, sem barulho nem brilho de néon, é mesmo altamente deprimente, depressiva...) que meu pai e eu, de circular, rumamos ao Vale do Anhangabaú, para a lojinha de discos Woodstock, na Rua Doutor Falcão, para que eu pudesse, com a grana do meu bom pai, adquirir o LP autografado da “A Chave do Sol”. Eles estavam lá à espera dos fãs que aguardaram angustiantes anos para ouvir em registro fonográfico a voz de Beto Cruz (um mix bem brasileiro de Robert Plant e David Coverdale), a guitarra de Rubinho Gióia, com seus riffs e solos bem zeppelianos, o baixão responsa de Tigueis, à la Glover, Murray, e a bateria por empréstimo de Ivan Busic, que substituiu o velho Zé Luis, que havia deixado a banda antes da gravação do álbum.

Bom, cheguei lá, apertei a mão deles todos, comprei o LP, com autógrafos feitos a mim ao vivo e em cores no encarte recheado de fotos e as letras das canções, e parti de volta – ah, meu pai ali, entediado, o tempo inteiro... – para a Vila Madalena. Eu estava emocionado à beça. Tinha treze anos e estava por lá, na medida plena de um mil novecentos e oitenta e sete.

O LP “The Key”, lançado pelo incipiente selo Rock Brigade Records, na mesma época em que a revista homônima e parceira de aventura underground dava o ar da graça para se consolidar como uma das principais revistas do gênero no país, tinha oito canções, quase todas já muito conhecidas pelo público que não se cansava de ir atrás da “A Chave” nos festivas escolares, nas estações de metrô, nas pequenas casas de espetáculo da cidade de São Paulo. Lado A: quatro canções gravadas em inglês (o mercado internacional do rock’n’roll era o objetivo imediato e jamais alcançado...). Lado B: quatro grandes canções cantadas em português. As oito músicas primavam pela heterogeneidade nos caminhos infinitos da diversidade roqueira, hardrockiana. Há nesse disco clássico, válido por zilhões de anos, uma balada lindíssima (“Lírio de um Pantanal”, sobre a crença no amor e uma crítica àqueles que não acreditam nas possibilidades do coração humano); um rockão de guitarras ácidas e desconcertantes (“Profecia”, sobre futuro, persistência e “lutar até o final”...); uma canção completa, com riffs, solos, dedilhares e melodia grudenta, que reverbera em minha cabeça até hoje (“Change My Evil Ways”); um blues à la Crying in the Rain, do Whitesnake, ou seja, um arregaço-estoura-tudo (“Keep Me Warm Tonight”); a clássica “Sun City”, hardão estiloso, bem feito, uma dura tirada contra o preconceito e o apartheid na África do Sul daqueles anos da década de 1980, com belas reverências a Mandela e a sua luta por liberdade.

Não bastasse toda essa maravilha, o LP traz ainda “A Chave é um Show”, conclamando todos, de todas as tribos, para o contagiante universo da “A Chave do Sol”. Se o LP termina com um convite universal, começa com duas músicas compostas por Beto Cruz, “A Woman Like You” e “Sweet Caroline”, dois rockaços estelares – tente ouvir “Sweet Caroline” e evitar cantarolá-la por no mínimo dez anos... Será em vão. Infelizmente, a vaidade de Mr. Cruz, que exigiu gravar no álbum as guitarras dessas duas músicas, gerou as tensões iniciais para a dissolução da banda, poucos meses depois do lançamento de “The Key”, já que Rubinho, não tendo gravado as músicas para o disco, optou também por não tocá-las ao vivo. Tal constrangimento levou o grupo a brigas, separações, aposentadoria precoce, desnecessária, doída para tantos fãs...

Nesse sentido, apesar de ser um excelente álbum de hard rock, “The Key” não projetou “A Chave do Sol” para a fama, o estrelato, a durabilidade. Mesmo tendo tido outras fases, na segunda delas lançando ao mundo o talento inquestionável do guitarrista Eduardo Ardanuy, “A Chave” não sobreviveu à marca de sua própria geração: a impermanência, a temporalidade fugaz, extremada. Não obstante o lançamento, em 1990, do álbum “A New Revolution”, até que bem interessante e revelador de Edu Ardanuy em momento sublime de sua magia na guitarra, “A Chave do Sol” hoje é artigo de memória de velhos fãs, curiosos pela história do hard rock brasileiro e símbolo de uma geração que fracassou ao não propor ao seu próprio tempo um projeto de longo prazo, para as gerações que ainda estavam por chegar. Ainda assim, “The Key” será sempre álbum-emblema de toda uma geração, de um estilo inteiro, de uma forma romântica, técnica, transcendente de fazer música, desejar viver dela.

Costumo vaticinar que as canções que ouvi durante a primeira fase de minha juventude, dos 13 aos 19 anos, mais ou menos, não só lapidaram meu caráter, designaram minhas preferências estéticas, como, mais do que tudo isso, proporcionaram meus padrões éticos de reflexão e ação no mundo.

Muito do que sou hoje, para o bem e para o mal, está contido nas oito faixas de “The Key”, o qual, hoje, em CD definitivo, me acompanhará por toda a vida. Espero ter sucesso em dizer ao meu filho, o pequenino João Gabriel, o que esse disco representa ainda para seu pai. E espero ainda mais que ele se encante com isso e encontre nessas lindas e inesquecíveis canções um motivo a mais para me amar, me respeitar, me admirar.

Aceita um conselho, caro(a) leitor(a)? Compre um exemplar do “The Key” para você. Não haverá arrependimentos e o prazer será eterno. É isso.

11 maio 2007

Com Mestre Freire, "Here I Go Again"...

Cláudia Perotti, Extremo


As palavras de Mestre Paulo Freire, que me ensinou a lutar por sonhos improváveis e a trilhar trajetórias negadas, retomam o processo de realizar este blog, sonho antigo, abandonado por excesso de atividades profissionais e particulares nos últimos meses. A retomada, para além da inspiração fornecida generosamente pelas palavras de Mestre Freire, vem também de minha sublimação da imagem anos 60 dos óculos escuros, fácil sorriso e idealizada liberalidade de alma e atitude progressista, descompassada, que me atormentou por anos, fazendo-me crer num outro mundo possível para mim, "louco", transcendente, paralelo... Hoje sei que, se esse mundo "louco" tivesse existido em mim e para mim, tudo teria sido triste, decepcionante. Aos olhos negros de um futuro que nunca houve, ao sorriso fácil que nunca se aproximou e às epopéicas histórias de amor que, ainda bem, não se efetivaram... digo, pois, meu grande adeus. Enfim, com o "Espaço de Cultura Socialista" de volta à blogosfera e o sentido de minha vida disposto em seus devidos termos de alegria e reais possibilidades - que por serem reais são melhores, uma vez que efetivamente utópicas, amorosas - decreto, agora sim, minha LIBERDADE, ainda que tardiamente. Um mundo a conquistar já se assenhora de meus desejos... Um novo livro vem aí! E um novo blog também, é claro! É isso.

"A proclamada morte da História que significa, em última análise, a morte da utopia e do sonho, reforça, indiscutivelmente, os mecanismos de asfixia da liberdade. Daí que a briga pelo resgate do sentido da utopia de que a prática educativa humanizante não pode deixar de estar impreganada tenha de ser uma sua constante.

"Quanto mais me deixo seduzir pela aceitação da morte da Hitória tanto mais admito que a impossibilidade do amanhã diferente implica a eternidade do hoje neoliberal que aí está, e a permanência do hoje mata em mim a possibilidade de sonhar. Desproblematizando o tempo, a chamada morte da História decreta o imobilismo que nega o ser humano."

Paulo Freire. A pedagogia da Autonomia. Edição Paz e Terra, 2006. p.115

30 março 2007

Rosa dos Ventos


Ouvi, cantei e me emocionei centenas de vezes com esta canção. Apesar de ela nunca ter sido gravada (não há registros oficiais de um terceiro álbum da Banda Taffo!), sua letra atravessou minha memória por toda a adolescência, desde que a ouvi pela primeira vez, em programa televisivo, o antigo programa Livre, do SBT (sim, havia um bom programa na emissora de SS...)
Anos depois, no território sem fronteiras da Internet, assisti à mesma apresentação no You Tube, e novamente me emocionei. A letra de "Rosa dos Ventos" - em especial, o belíssimo e contagiante refrão -, conquanto simples e até muito ingênua, me tornou um sujeito possível e lapidou em mim, desde cedo, o caráter socialista. Sinto-me feliz agora em partilhá-la com meus leitores. É isso.

Por ser tão jovem acredito
Que as portas vão se abrir pra mim
Que deve haver uma saída
Longe do caos, longe do fim

Eu não nasci pra ser vítima
De um destino traçado na dor
Nem pretendo ser bandido
Por falta de amor

Ninguém vai me tirar o coração
O mundo vai mudar com as nossas mãos ....
As coisas que eu fiz de errado
Procuro esquecer
Passado é só um aprendizado
Que me ajuda a crescer
Agora é hora de escolher
Saber quanto sou capaz
Prefiro então andar pra frente
Do que andar pra trás
Ninguém vai me tirar o coração
O mundo vai mudar com as nossas mãos ....

23 março 2007

Carta de Amor

Andar só e não estar só
Sonhar o sonho dos ausentes
Para reparti-lo na chegada
Compor a imagem do que não se vê
E vislumbrar outros caminhos que nos levarão
Abraçar a alma alheia
Como se fosse minha
Estendendo a mão para quem passa
Sonhar um sonho com o nome de Revolução
Pois amar é um ato revolucionário
E só faz a Revolução
Quem souber amar
Pedro Munhoz
MST

26 fevereiro 2007

Desmundos


No ano passado resolvi escrever a trilogia mundos ("Mundos Divergentes", Mundos Convergentes" e, finalmente, "Desmundos), levado por sensações nascidas por clara manhã, ansiosa tarde, iminente tempestade, manifesta noite a invadir o aguardado brilho do dia.

Certezas e incertezas se misturavam de modo tenso e intenso em meus pensamentos, que então se revelavam incapazes de discernimento, de efetuar razoáveis julgamentos acerca do que era impulso e do que era desejo, do que era desequilíbrio e do que era necessidade de transgressão, ousadia, experiência da insensatez possível, saudável até...

Como em todo o mundo (ou desmundo, questão de perspectiva!), o que se realiza do lado de fora pode pôr tudo a perder ou a vencer, conquistar. Não há mínima condição de previsibilidade, tudo depende sempre de cada passo, dos cuidados tomados, dos planejamentos elaborados com precisão e antecipação. Estranhamente, naquele meu desejado novo mundo, não senti desejo de vencer nem medo de perder... Hoje penso que não tenha sentido nada, ou ao menos nada que pudesse me provocar deslizes, deslocamentos, doces e aprazíveis formas de ousar, transcender, explodir.

Meses a fio pus e recompus cada fato em minha memória, dezenas, centenas de vezes. No meio desse caminho todo, além de pedras, a virtualidade do casual revelou que havia entre dois mundos imperfeitos muito mais desmundos que propriamente mundos, muito mais divergências que convergências. Como já enfatizei, no entanto, o mundo desmundo ou o desmundo de todos os nossos mundos surgem em nosso olhar dependendo sempre do lugar de onde se vê, do tipo de perspectiva e do grau mais ou menos contaminado pelas ideologias sempre deformadoras de nosso tempo. Não sei, pois, se tenho razão. Sei, contudo, que sinto tudo isso em ebulição contraditória; daí três formas de ser mundo, desmundo...

Bom, para o bem muito mais que para o mal, optei por versar o (des)encontro desses mundos. Na vida concreta que ofusca, segrega e exclui, tenho aprendido a utilizar a palavra escrita como instrumento de redenção, aguardada e benfazeja emencipação de minh'alma. Se a palavra compuser poema, verso, então mais livre e verdadeiro é meu pensamento, a máxima expressão de meu agir.

Desnudem-se os mundos, convirjam ou divirjam. Eu estou pronto. E disposto. Meu céu, mais do que nunca - inatingível até às palavras -, é, sim, todo o limite para toda a minha ilimitada vontade de viver, amar, seguir sempre em frente. É isso.
DESMUNDOS
por Marco A. Rossi
Se os conceitos se aproximam
Se os valores se completam
Se as visões de mundo rompem fronteiras
abalam mesmices, destroem o posto,
o tido, o indelével, eterno, deificado
Os mundos convergem
São mundos
Se o devir é pesadelo na dor de não poder sonhar
Se o sagrado na união é profanado
Se o profano na interação é sacralizado
Se o beijo escapa, foge, dobra a esquina
Os mundos divergem
São quase desmundos
Se o que é de cá cai no de lá
Se o que tem valor-em-si passa tão-somente a se opor
Se o que é do além-moral se torna pessoal, questão de escolha
Mundo por desmundo
Desmundo mundo
Desnudo ser
Fora-do-mundo
Corações distintos
Histórias paralelas, quebradas
Vidas, de duas margens de um mesmo rio talvez
No mundo, distantes sempre, para uma e para outra
desnudas

20 fevereiro 2007

Mundos Convergentes

por Marco A. Rossi

Convergir para reunir, fazer um só,
lembrar pela manhã, escancarar a saudade à tarde,
querer dormir para sonhar de noite.

Convergir representa o encanto que deve enternecer,
dar água na boca, fazer tremer sem jeito as pernas, tudo.

Pouco bastam manhãs de vergonha, nada a dizer,
ausência da coragem, de seus anúncios necessários
tanto de ousadia quanto de desejo, fúria,
ritmo alucinante do penetrar o(a) desconhecido(a).

Mundos, para entrarem na sintonia da boa onda,
inexorável fonte da vida,
precisam de utopias acaloradas, perspectivas irmãs, solidárias,
esperança de um menino índio, de uma índia menina,
na fragilidade de seu semblante, no vigor de sua história,
de todo o seu sempre persistir/insistir.

Como no rosto que perscruta o distante,
o olhar deve lançar-se ao nada, mas nunca ao vazio, vazio d'alma,
do privatismo de quem se orgulha demais de seus tão poucos feitos,
irrisórios, invisíveis, do coração,
da infame solidão da vida humana num tempo de reino
da medíoce matéria da coisa, do coisado, do sempre tão coisificado.

Convergir sem ameaçar,
despertando só desejo, fantasia,
incontrolável vontade de romper barreiras,
enfrentar o dado, o óbvio, o pequeno-burguês de nossas entranhas.
Tornar mundos em força paralela e concatenada,
traçada, indissociável.
Se não pude sentir isso na estrela daquela manhã,
aguardarei então as luas vespertinas, os olhares da noite,
o vôo cego e lúcido do amor que engendra pontes,
dispondo pelo caminho fervorosas magias do amar,
do enlouquecer, do "explodir" a Terra.

02 fevereiro 2007

Mais e sempre Clarice...

A grande amiga e jornalista Francine Moterani enviou belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade em homenagem (reverência!) a Clarice Lispector, a primeira-dama permanente deste "Espaço". Obrigado, Francine! O poema é lindo, tudo que ver com sua sensibilidade, com a linda pessoa que você sempre tem sido!

Visão de Clarice Lispector

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.

Carlos Drummond de Andrade

30 janeiro 2007

Sobre Clarice...

CLARICE LISPECTOR
1920 - 1977 (e até a eternidade!)
Que o Deus Venha

(Frejat e Cazuza, sobre texto de Clarice Lispector)

Sou inquieta, áspera
E desesperançada
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa
Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto continuo inquieta
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais
Corro perigo
Com toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado
Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida