26 fevereiro 2007

Desmundos


No ano passado resolvi escrever a trilogia mundos ("Mundos Divergentes", Mundos Convergentes" e, finalmente, "Desmundos), levado por sensações nascidas por clara manhã, ansiosa tarde, iminente tempestade, manifesta noite a invadir o aguardado brilho do dia.

Certezas e incertezas se misturavam de modo tenso e intenso em meus pensamentos, que então se revelavam incapazes de discernimento, de efetuar razoáveis julgamentos acerca do que era impulso e do que era desejo, do que era desequilíbrio e do que era necessidade de transgressão, ousadia, experiência da insensatez possível, saudável até...

Como em todo o mundo (ou desmundo, questão de perspectiva!), o que se realiza do lado de fora pode pôr tudo a perder ou a vencer, conquistar. Não há mínima condição de previsibilidade, tudo depende sempre de cada passo, dos cuidados tomados, dos planejamentos elaborados com precisão e antecipação. Estranhamente, naquele meu desejado novo mundo, não senti desejo de vencer nem medo de perder... Hoje penso que não tenha sentido nada, ou ao menos nada que pudesse me provocar deslizes, deslocamentos, doces e aprazíveis formas de ousar, transcender, explodir.

Meses a fio pus e recompus cada fato em minha memória, dezenas, centenas de vezes. No meio desse caminho todo, além de pedras, a virtualidade do casual revelou que havia entre dois mundos imperfeitos muito mais desmundos que propriamente mundos, muito mais divergências que convergências. Como já enfatizei, no entanto, o mundo desmundo ou o desmundo de todos os nossos mundos surgem em nosso olhar dependendo sempre do lugar de onde se vê, do tipo de perspectiva e do grau mais ou menos contaminado pelas ideologias sempre deformadoras de nosso tempo. Não sei, pois, se tenho razão. Sei, contudo, que sinto tudo isso em ebulição contraditória; daí três formas de ser mundo, desmundo...

Bom, para o bem muito mais que para o mal, optei por versar o (des)encontro desses mundos. Na vida concreta que ofusca, segrega e exclui, tenho aprendido a utilizar a palavra escrita como instrumento de redenção, aguardada e benfazeja emencipação de minh'alma. Se a palavra compuser poema, verso, então mais livre e verdadeiro é meu pensamento, a máxima expressão de meu agir.

Desnudem-se os mundos, convirjam ou divirjam. Eu estou pronto. E disposto. Meu céu, mais do que nunca - inatingível até às palavras -, é, sim, todo o limite para toda a minha ilimitada vontade de viver, amar, seguir sempre em frente. É isso.
DESMUNDOS
por Marco A. Rossi
Se os conceitos se aproximam
Se os valores se completam
Se as visões de mundo rompem fronteiras
abalam mesmices, destroem o posto,
o tido, o indelével, eterno, deificado
Os mundos convergem
São mundos
Se o devir é pesadelo na dor de não poder sonhar
Se o sagrado na união é profanado
Se o profano na interação é sacralizado
Se o beijo escapa, foge, dobra a esquina
Os mundos divergem
São quase desmundos
Se o que é de cá cai no de lá
Se o que tem valor-em-si passa tão-somente a se opor
Se o que é do além-moral se torna pessoal, questão de escolha
Mundo por desmundo
Desmundo mundo
Desnudo ser
Fora-do-mundo
Corações distintos
Histórias paralelas, quebradas
Vidas, de duas margens de um mesmo rio talvez
No mundo, distantes sempre, para uma e para outra
desnudas

20 fevereiro 2007

Mundos Convergentes

por Marco A. Rossi

Convergir para reunir, fazer um só,
lembrar pela manhã, escancarar a saudade à tarde,
querer dormir para sonhar de noite.

Convergir representa o encanto que deve enternecer,
dar água na boca, fazer tremer sem jeito as pernas, tudo.

Pouco bastam manhãs de vergonha, nada a dizer,
ausência da coragem, de seus anúncios necessários
tanto de ousadia quanto de desejo, fúria,
ritmo alucinante do penetrar o(a) desconhecido(a).

Mundos, para entrarem na sintonia da boa onda,
inexorável fonte da vida,
precisam de utopias acaloradas, perspectivas irmãs, solidárias,
esperança de um menino índio, de uma índia menina,
na fragilidade de seu semblante, no vigor de sua história,
de todo o seu sempre persistir/insistir.

Como no rosto que perscruta o distante,
o olhar deve lançar-se ao nada, mas nunca ao vazio, vazio d'alma,
do privatismo de quem se orgulha demais de seus tão poucos feitos,
irrisórios, invisíveis, do coração,
da infame solidão da vida humana num tempo de reino
da medíoce matéria da coisa, do coisado, do sempre tão coisificado.

Convergir sem ameaçar,
despertando só desejo, fantasia,
incontrolável vontade de romper barreiras,
enfrentar o dado, o óbvio, o pequeno-burguês de nossas entranhas.
Tornar mundos em força paralela e concatenada,
traçada, indissociável.
Se não pude sentir isso na estrela daquela manhã,
aguardarei então as luas vespertinas, os olhares da noite,
o vôo cego e lúcido do amor que engendra pontes,
dispondo pelo caminho fervorosas magias do amar,
do enlouquecer, do "explodir" a Terra.

02 fevereiro 2007

Mais e sempre Clarice...

A grande amiga e jornalista Francine Moterani enviou belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade em homenagem (reverência!) a Clarice Lispector, a primeira-dama permanente deste "Espaço". Obrigado, Francine! O poema é lindo, tudo que ver com sua sensibilidade, com a linda pessoa que você sempre tem sido!

Visão de Clarice Lispector

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.

Carlos Drummond de Andrade