28 maio 2007

Attila Jószef, a síntese-esperança

Attila Jószef (1905-1937)
O poeta húngaro Attila Jószef morreu jovem, muitíssimo jovem, aos 32 anos. Não obstante a pouca idade de seu construtor, a poesia de Jószef, amada por compatriotas tão distintos e ao mesmo tempo tão necessariamente complementares como Lukács, Mészáros e Agnes Heller, revela todo o sombrio lado de uma vida marcada pela negação, pela ausência, pela dor, pela carestia. Filho de pai operário e mãe lavadeira, Jószef expõe e declama com intensidade suas estrofes, seus versos, expressando o real e o surreal, tornando inexorável a sua bela síntese-esperança. A cada palavra da obra bela e instigante de Jószef, um sujeito marcado pela pobreza e pela necessidade material estupenda, vê-se um oceano de possibilidades, às vezes em tom áspero, jocoso e até intransigente, mas sempre desmesuradamente humano, crente de que vale a pena atravessar as estações infinitas de nossa existência. Nascido na linda Budapeste, Attila deixa por lá a sua marca, indelével, por toda a eternidade, do sentido pela luta socialista, fraterna. É o que se pode perceber com nitidez no poema "Aí está o saldo final", reproduzido abaixo, no qual a sensação de infinitude, desejo e querer-mais se salvaguardam na certeza de que os dias para ele, se foram mesmo poucos, foram igualmente mágicos, contundentes, uma lição a cada instante, uma batalha por sublimações. Um poeta completo, um ser humano vasto.
AÍ ESTÁ O SALDO FINAL
por Attila Jószef

Confiei em mim desde o primeiro momento.
Custa muito pouco ser dono do vento.

E à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.

Nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
Com medo, às vezes, mantive-me no posto.

Paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.

Se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.

Fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.

Vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.

Não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.

Vivi (já está aí o saldo final):
Muitos outros morreram deste mal.

21 maio 2007

Uma década ao vento da descoberta

"Eu gostaria de ser lembrado como alguém que amou o mundo, as pessoas, os bichos, as árvores, a terra, a água, a vida"
PAULO REGLUS NEVES FREIRE
(1921 - 1997)
Faz dez anos que o mais importante educador brasileiro nos deixou, decidido a partilhar seus tantos saberes nas belas trilhas e paisagens do firmamento (sim, no Céu, ao lado das mais saudosas, brilhantes e respeitadas plêiades daqueles que por aqui, na Terra, já passaram...).

Junto de Makarenko e Gramsci, o autor das pedagogias do oprimido, da esperança e da autonomia - tríade que, decisivamente, me fez professor, desejante de ainda vir a ser um bom educador! – tornou-se grande e indelével referência em minha vida como cidadão (ser militante, socialista, um democrata em busca da construção desse conceito) e como profissional das humanidades, um sociólogo no firme propósito de tornar sua disciplina um elo sólido entre o sonhado e o real, entre o querer e o poder, entre o fantasiar e o realizar...

A urgência de realizar, verbo propositivo, direto, que necessita de complementos permanentes e sempre renovados, é o que Paulo Freire melhor me fez ver, sentir, precisar para bem viver. Realizar o descortinamento das ideologias que nublam, disfarçam e até tornam elegante a calamitosa educação brasileira; realizar técnicas de decomposição dos discursos e das práticas que tornam similares a culpa e a estrutura, que oprimem, confundindo alhos com bugalhos, responsabilizando o pobre pela pobreza, pela violência, pelo triste mapa de nossas geografias urbanas, desumanas, mercantilistas a toda a prova. Aliás, é de Paulo Freire a mais contundente crítica à transformação de tudo e de todos em valor-de-troca, em mensurabilidade fria e técnica. É do autor de A Educação como Prática da Liberdade a forte assertiva de total rejeição à idéia de educar para se fazer adaptar... Para ele, Mestre Freire, educar não é dispor educandos no mundo, de modo conformista, resignado, mas situá-los e orientá-los, dialeticamente, a viver com o mundo, com o outro.

Todas as minhas reverências a Paulo Freire humildemente refletem a crença de que a presença de seu legado entre nós é imprescindível, intransponível. Mais do que isso: da sutileza, do charme e da pujança das palavras de Paulo Freire podemos sempre sentir o vento da descoberta, o ar que nos emancipa e faz verdadeiramente livres. Penso que a conversa que Paulo Freire travou com trabalhadores rurais, reproduzida na Pedagogia da Esperança – e lembrada/publicada por Eduardo Sales de Lima, na edição de 03 a 09 de maio deste ano do Semanário Brasil de Fato -, sintetize toda a energia, todo o encanto, toda a riqueza de seu legado, de nossa mais bela herança. Vamos lá ver...

- Muito bem – disse eu a eles. – Eu sei algumas coisas que vocês não sabem. Mas por que eu sei e vocês não sabem?
- O senhor sabe porque é doutor. Nós, não.
- Exato, eu sou doutor. Vocês não. Mas por que eu sou doutor e vocês não?
- Porque foi à escola, tem leitura, tem estudo, e nós, não.
- E por que eu fui à escola?
- Porque seu pai pôde mandar o senhor à escola. O nosso, não.
- E por que os pais de vocês não puderam mandar vocês à escola?
- Porque eram camponeses como nós.
- E o que é ser camponês?
- É não ter educação, posses, trabalhar de sol a sol sem direitos, sem esperança de um dia melhor.
- E por que ao camponês falta tudo isso?
- Porque Deus quer.
- E quem é Deus?
- É o pai de todos nós.
- E quem é pai aqui nesta reunião?
Quase todos de mãos para cima disseram que eram. Me fixei num deles e lhe perguntei:
- Quantos filhos você tem?
- Três.
- Você seria capaz de sacrificar dois deles, submetendo-os a sofrimentos, para que o terceiro estudasse, com vida boa no Recife? Você seria capaz de amar assim?
- Não!
- Se você – disse eu -, homem de carne e osso, não é capaz de fazer uma injustiça dessas, como é possível entender que Deus o faça? Será mesmo que Deus é o fazedor dessas coisas?
Um silêncio diferente do anterior. Em seguida:
- Não. Não é Deus fazedor disso tudo. É o patrão!

17 maio 2007

O dia em que obtive a chave do sol...

Na remanscente atmosfera utópica da década de 1980, canções como as gravadas em "The Key" ofertavam ao mundo um código de defesa contra as mesmices de uma geração indefesa diante de suas próprias limitações éticas e estéticas. O clássico álbum dos paulistanos da "A Chave do Sol", nesse sentido, propunha mudanças radicais nas nossas formas obliteradas pela grande mídia de ver, viver, sentir. E mais: instava os jovens de sua época a pensar a respeito do rock de butique que a TV e a Rádio Comercial lhes impingia de modo alienante e grosseiro. Trata-se, por tudo isso e muito mais, de um álbum eterno do verdadeiro rock brasileiro.
por Marco A. Rossi
Assim como os livros e os filmes, são muitos os álbuns musicais que compõem a trilha sonora de nossas vidas. A depender das circunstâncias e dos acontecimentos, combinam-se ou mesmo se excluem blues e romances policiais, filmes de realismo fantástico e música erudita, baladas rockianas e poesias drummondianas.

Lembro que ainda são inúmeros os álbuns – os antigos e tão saudosos “discos”, LPs de vinil – que me trazem à memória meus tempos de adolescência, precoce, o universo em total decomposição da década dos oitenta.

Naquele tempo, paradigmático, para mim, em múltiplos sentidos, o rock, o blues, as baladonas hard e até o thrash bay area capitaneado por Metallica, Magadeth, Testament e outras tantas bandas de Metal revezaram-se em meus indefiníveis antagonismos de ódio e amor, conformismo e desejo revolucionário, esperança e catastrofismo. A música de tantos personagens de todos esses estilos do som pesado, cortante, sempre underground em terras brasileiras, auxiliou-me a compor, ao menos em minha forma de ver, viver e sentir, o mapa urbano de São Paulo, as ladeiras, os bares, os amigos e suas paisagens “naturais” e as incontáveis incertezas de minha primeira juventude. Ao lado de todos os meus “bolachões” de vinil – os grandiosos petardos –, misturavam-se papel, caneta, livros de poesia, quadrinhos e minhas iniciações na história das idéias socialistas, as quais, cedo, muito cedo, me predispuseram à literatura, às humanidades e à sociologia, essa última em particular particularíssimo.

Esse preâmbulo todo me foi despertado pela agora pós-moderna audição de “The Key”, primeiro “discão” de fato dos paulistanos da “A Chave do Sol”, que naqueles, vistos agora, tão distantes – aparentemente, é claro! – anos entre 1986 e 1990 acabaram se tornando ídolos e, depois, amigos, como é o caso do baixista Tigueis e do guitarrista Edu Ardanuy (integrante da segunda fase da “A Chave”, já sem Sol, e hoje no Dr. Sin).

Foi numa tarde de sábado, bastante sol, modorrenta atmosfera paulistana de final de semana (a cidade, parada, sem barulho nem brilho de néon, é mesmo altamente deprimente, depressiva...) que meu pai e eu, de circular, rumamos ao Vale do Anhangabaú, para a lojinha de discos Woodstock, na Rua Doutor Falcão, para que eu pudesse, com a grana do meu bom pai, adquirir o LP autografado da “A Chave do Sol”. Eles estavam lá à espera dos fãs que aguardaram angustiantes anos para ouvir em registro fonográfico a voz de Beto Cruz (um mix bem brasileiro de Robert Plant e David Coverdale), a guitarra de Rubinho Gióia, com seus riffs e solos bem zeppelianos, o baixão responsa de Tigueis, à la Glover, Murray, e a bateria por empréstimo de Ivan Busic, que substituiu o velho Zé Luis, que havia deixado a banda antes da gravação do álbum.

Bom, cheguei lá, apertei a mão deles todos, comprei o LP, com autógrafos feitos a mim ao vivo e em cores no encarte recheado de fotos e as letras das canções, e parti de volta – ah, meu pai ali, entediado, o tempo inteiro... – para a Vila Madalena. Eu estava emocionado à beça. Tinha treze anos e estava por lá, na medida plena de um mil novecentos e oitenta e sete.

O LP “The Key”, lançado pelo incipiente selo Rock Brigade Records, na mesma época em que a revista homônima e parceira de aventura underground dava o ar da graça para se consolidar como uma das principais revistas do gênero no país, tinha oito canções, quase todas já muito conhecidas pelo público que não se cansava de ir atrás da “A Chave” nos festivas escolares, nas estações de metrô, nas pequenas casas de espetáculo da cidade de São Paulo. Lado A: quatro canções gravadas em inglês (o mercado internacional do rock’n’roll era o objetivo imediato e jamais alcançado...). Lado B: quatro grandes canções cantadas em português. As oito músicas primavam pela heterogeneidade nos caminhos infinitos da diversidade roqueira, hardrockiana. Há nesse disco clássico, válido por zilhões de anos, uma balada lindíssima (“Lírio de um Pantanal”, sobre a crença no amor e uma crítica àqueles que não acreditam nas possibilidades do coração humano); um rockão de guitarras ácidas e desconcertantes (“Profecia”, sobre futuro, persistência e “lutar até o final”...); uma canção completa, com riffs, solos, dedilhares e melodia grudenta, que reverbera em minha cabeça até hoje (“Change My Evil Ways”); um blues à la Crying in the Rain, do Whitesnake, ou seja, um arregaço-estoura-tudo (“Keep Me Warm Tonight”); a clássica “Sun City”, hardão estiloso, bem feito, uma dura tirada contra o preconceito e o apartheid na África do Sul daqueles anos da década de 1980, com belas reverências a Mandela e a sua luta por liberdade.

Não bastasse toda essa maravilha, o LP traz ainda “A Chave é um Show”, conclamando todos, de todas as tribos, para o contagiante universo da “A Chave do Sol”. Se o LP termina com um convite universal, começa com duas músicas compostas por Beto Cruz, “A Woman Like You” e “Sweet Caroline”, dois rockaços estelares – tente ouvir “Sweet Caroline” e evitar cantarolá-la por no mínimo dez anos... Será em vão. Infelizmente, a vaidade de Mr. Cruz, que exigiu gravar no álbum as guitarras dessas duas músicas, gerou as tensões iniciais para a dissolução da banda, poucos meses depois do lançamento de “The Key”, já que Rubinho, não tendo gravado as músicas para o disco, optou também por não tocá-las ao vivo. Tal constrangimento levou o grupo a brigas, separações, aposentadoria precoce, desnecessária, doída para tantos fãs...

Nesse sentido, apesar de ser um excelente álbum de hard rock, “The Key” não projetou “A Chave do Sol” para a fama, o estrelato, a durabilidade. Mesmo tendo tido outras fases, na segunda delas lançando ao mundo o talento inquestionável do guitarrista Eduardo Ardanuy, “A Chave” não sobreviveu à marca de sua própria geração: a impermanência, a temporalidade fugaz, extremada. Não obstante o lançamento, em 1990, do álbum “A New Revolution”, até que bem interessante e revelador de Edu Ardanuy em momento sublime de sua magia na guitarra, “A Chave do Sol” hoje é artigo de memória de velhos fãs, curiosos pela história do hard rock brasileiro e símbolo de uma geração que fracassou ao não propor ao seu próprio tempo um projeto de longo prazo, para as gerações que ainda estavam por chegar. Ainda assim, “The Key” será sempre álbum-emblema de toda uma geração, de um estilo inteiro, de uma forma romântica, técnica, transcendente de fazer música, desejar viver dela.

Costumo vaticinar que as canções que ouvi durante a primeira fase de minha juventude, dos 13 aos 19 anos, mais ou menos, não só lapidaram meu caráter, designaram minhas preferências estéticas, como, mais do que tudo isso, proporcionaram meus padrões éticos de reflexão e ação no mundo.

Muito do que sou hoje, para o bem e para o mal, está contido nas oito faixas de “The Key”, o qual, hoje, em CD definitivo, me acompanhará por toda a vida. Espero ter sucesso em dizer ao meu filho, o pequenino João Gabriel, o que esse disco representa ainda para seu pai. E espero ainda mais que ele se encante com isso e encontre nessas lindas e inesquecíveis canções um motivo a mais para me amar, me respeitar, me admirar.

Aceita um conselho, caro(a) leitor(a)? Compre um exemplar do “The Key” para você. Não haverá arrependimentos e o prazer será eterno. É isso.

11 maio 2007

Com Mestre Freire, "Here I Go Again"...

Cláudia Perotti, Extremo


As palavras de Mestre Paulo Freire, que me ensinou a lutar por sonhos improváveis e a trilhar trajetórias negadas, retomam o processo de realizar este blog, sonho antigo, abandonado por excesso de atividades profissionais e particulares nos últimos meses. A retomada, para além da inspiração fornecida generosamente pelas palavras de Mestre Freire, vem também de minha sublimação da imagem anos 60 dos óculos escuros, fácil sorriso e idealizada liberalidade de alma e atitude progressista, descompassada, que me atormentou por anos, fazendo-me crer num outro mundo possível para mim, "louco", transcendente, paralelo... Hoje sei que, se esse mundo "louco" tivesse existido em mim e para mim, tudo teria sido triste, decepcionante. Aos olhos negros de um futuro que nunca houve, ao sorriso fácil que nunca se aproximou e às epopéicas histórias de amor que, ainda bem, não se efetivaram... digo, pois, meu grande adeus. Enfim, com o "Espaço de Cultura Socialista" de volta à blogosfera e o sentido de minha vida disposto em seus devidos termos de alegria e reais possibilidades - que por serem reais são melhores, uma vez que efetivamente utópicas, amorosas - decreto, agora sim, minha LIBERDADE, ainda que tardiamente. Um mundo a conquistar já se assenhora de meus desejos... Um novo livro vem aí! E um novo blog também, é claro! É isso.

"A proclamada morte da História que significa, em última análise, a morte da utopia e do sonho, reforça, indiscutivelmente, os mecanismos de asfixia da liberdade. Daí que a briga pelo resgate do sentido da utopia de que a prática educativa humanizante não pode deixar de estar impreganada tenha de ser uma sua constante.

"Quanto mais me deixo seduzir pela aceitação da morte da Hitória tanto mais admito que a impossibilidade do amanhã diferente implica a eternidade do hoje neoliberal que aí está, e a permanência do hoje mata em mim a possibilidade de sonhar. Desproblematizando o tempo, a chamada morte da História decreta o imobilismo que nega o ser humano."

Paulo Freire. A pedagogia da Autonomia. Edição Paz e Terra, 2006. p.115