17 maio 2007

O dia em que obtive a chave do sol...

Na remanscente atmosfera utópica da década de 1980, canções como as gravadas em "The Key" ofertavam ao mundo um código de defesa contra as mesmices de uma geração indefesa diante de suas próprias limitações éticas e estéticas. O clássico álbum dos paulistanos da "A Chave do Sol", nesse sentido, propunha mudanças radicais nas nossas formas obliteradas pela grande mídia de ver, viver, sentir. E mais: instava os jovens de sua época a pensar a respeito do rock de butique que a TV e a Rádio Comercial lhes impingia de modo alienante e grosseiro. Trata-se, por tudo isso e muito mais, de um álbum eterno do verdadeiro rock brasileiro.
por Marco A. Rossi
Assim como os livros e os filmes, são muitos os álbuns musicais que compõem a trilha sonora de nossas vidas. A depender das circunstâncias e dos acontecimentos, combinam-se ou mesmo se excluem blues e romances policiais, filmes de realismo fantástico e música erudita, baladas rockianas e poesias drummondianas.

Lembro que ainda são inúmeros os álbuns – os antigos e tão saudosos “discos”, LPs de vinil – que me trazem à memória meus tempos de adolescência, precoce, o universo em total decomposição da década dos oitenta.

Naquele tempo, paradigmático, para mim, em múltiplos sentidos, o rock, o blues, as baladonas hard e até o thrash bay area capitaneado por Metallica, Magadeth, Testament e outras tantas bandas de Metal revezaram-se em meus indefiníveis antagonismos de ódio e amor, conformismo e desejo revolucionário, esperança e catastrofismo. A música de tantos personagens de todos esses estilos do som pesado, cortante, sempre underground em terras brasileiras, auxiliou-me a compor, ao menos em minha forma de ver, viver e sentir, o mapa urbano de São Paulo, as ladeiras, os bares, os amigos e suas paisagens “naturais” e as incontáveis incertezas de minha primeira juventude. Ao lado de todos os meus “bolachões” de vinil – os grandiosos petardos –, misturavam-se papel, caneta, livros de poesia, quadrinhos e minhas iniciações na história das idéias socialistas, as quais, cedo, muito cedo, me predispuseram à literatura, às humanidades e à sociologia, essa última em particular particularíssimo.

Esse preâmbulo todo me foi despertado pela agora pós-moderna audição de “The Key”, primeiro “discão” de fato dos paulistanos da “A Chave do Sol”, que naqueles, vistos agora, tão distantes – aparentemente, é claro! – anos entre 1986 e 1990 acabaram se tornando ídolos e, depois, amigos, como é o caso do baixista Tigueis e do guitarrista Edu Ardanuy (integrante da segunda fase da “A Chave”, já sem Sol, e hoje no Dr. Sin).

Foi numa tarde de sábado, bastante sol, modorrenta atmosfera paulistana de final de semana (a cidade, parada, sem barulho nem brilho de néon, é mesmo altamente deprimente, depressiva...) que meu pai e eu, de circular, rumamos ao Vale do Anhangabaú, para a lojinha de discos Woodstock, na Rua Doutor Falcão, para que eu pudesse, com a grana do meu bom pai, adquirir o LP autografado da “A Chave do Sol”. Eles estavam lá à espera dos fãs que aguardaram angustiantes anos para ouvir em registro fonográfico a voz de Beto Cruz (um mix bem brasileiro de Robert Plant e David Coverdale), a guitarra de Rubinho Gióia, com seus riffs e solos bem zeppelianos, o baixão responsa de Tigueis, à la Glover, Murray, e a bateria por empréstimo de Ivan Busic, que substituiu o velho Zé Luis, que havia deixado a banda antes da gravação do álbum.

Bom, cheguei lá, apertei a mão deles todos, comprei o LP, com autógrafos feitos a mim ao vivo e em cores no encarte recheado de fotos e as letras das canções, e parti de volta – ah, meu pai ali, entediado, o tempo inteiro... – para a Vila Madalena. Eu estava emocionado à beça. Tinha treze anos e estava por lá, na medida plena de um mil novecentos e oitenta e sete.

O LP “The Key”, lançado pelo incipiente selo Rock Brigade Records, na mesma época em que a revista homônima e parceira de aventura underground dava o ar da graça para se consolidar como uma das principais revistas do gênero no país, tinha oito canções, quase todas já muito conhecidas pelo público que não se cansava de ir atrás da “A Chave” nos festivas escolares, nas estações de metrô, nas pequenas casas de espetáculo da cidade de São Paulo. Lado A: quatro canções gravadas em inglês (o mercado internacional do rock’n’roll era o objetivo imediato e jamais alcançado...). Lado B: quatro grandes canções cantadas em português. As oito músicas primavam pela heterogeneidade nos caminhos infinitos da diversidade roqueira, hardrockiana. Há nesse disco clássico, válido por zilhões de anos, uma balada lindíssima (“Lírio de um Pantanal”, sobre a crença no amor e uma crítica àqueles que não acreditam nas possibilidades do coração humano); um rockão de guitarras ácidas e desconcertantes (“Profecia”, sobre futuro, persistência e “lutar até o final”...); uma canção completa, com riffs, solos, dedilhares e melodia grudenta, que reverbera em minha cabeça até hoje (“Change My Evil Ways”); um blues à la Crying in the Rain, do Whitesnake, ou seja, um arregaço-estoura-tudo (“Keep Me Warm Tonight”); a clássica “Sun City”, hardão estiloso, bem feito, uma dura tirada contra o preconceito e o apartheid na África do Sul daqueles anos da década de 1980, com belas reverências a Mandela e a sua luta por liberdade.

Não bastasse toda essa maravilha, o LP traz ainda “A Chave é um Show”, conclamando todos, de todas as tribos, para o contagiante universo da “A Chave do Sol”. Se o LP termina com um convite universal, começa com duas músicas compostas por Beto Cruz, “A Woman Like You” e “Sweet Caroline”, dois rockaços estelares – tente ouvir “Sweet Caroline” e evitar cantarolá-la por no mínimo dez anos... Será em vão. Infelizmente, a vaidade de Mr. Cruz, que exigiu gravar no álbum as guitarras dessas duas músicas, gerou as tensões iniciais para a dissolução da banda, poucos meses depois do lançamento de “The Key”, já que Rubinho, não tendo gravado as músicas para o disco, optou também por não tocá-las ao vivo. Tal constrangimento levou o grupo a brigas, separações, aposentadoria precoce, desnecessária, doída para tantos fãs...

Nesse sentido, apesar de ser um excelente álbum de hard rock, “The Key” não projetou “A Chave do Sol” para a fama, o estrelato, a durabilidade. Mesmo tendo tido outras fases, na segunda delas lançando ao mundo o talento inquestionável do guitarrista Eduardo Ardanuy, “A Chave” não sobreviveu à marca de sua própria geração: a impermanência, a temporalidade fugaz, extremada. Não obstante o lançamento, em 1990, do álbum “A New Revolution”, até que bem interessante e revelador de Edu Ardanuy em momento sublime de sua magia na guitarra, “A Chave do Sol” hoje é artigo de memória de velhos fãs, curiosos pela história do hard rock brasileiro e símbolo de uma geração que fracassou ao não propor ao seu próprio tempo um projeto de longo prazo, para as gerações que ainda estavam por chegar. Ainda assim, “The Key” será sempre álbum-emblema de toda uma geração, de um estilo inteiro, de uma forma romântica, técnica, transcendente de fazer música, desejar viver dela.

Costumo vaticinar que as canções que ouvi durante a primeira fase de minha juventude, dos 13 aos 19 anos, mais ou menos, não só lapidaram meu caráter, designaram minhas preferências estéticas, como, mais do que tudo isso, proporcionaram meus padrões éticos de reflexão e ação no mundo.

Muito do que sou hoje, para o bem e para o mal, está contido nas oito faixas de “The Key”, o qual, hoje, em CD definitivo, me acompanhará por toda a vida. Espero ter sucesso em dizer ao meu filho, o pequenino João Gabriel, o que esse disco representa ainda para seu pai. E espero ainda mais que ele se encante com isso e encontre nessas lindas e inesquecíveis canções um motivo a mais para me amar, me respeitar, me admirar.

Aceita um conselho, caro(a) leitor(a)? Compre um exemplar do “The Key” para você. Não haverá arrependimentos e o prazer será eterno. É isso.