21 maio 2007

Uma década ao vento da descoberta

"Eu gostaria de ser lembrado como alguém que amou o mundo, as pessoas, os bichos, as árvores, a terra, a água, a vida"
PAULO REGLUS NEVES FREIRE
(1921 - 1997)
Faz dez anos que o mais importante educador brasileiro nos deixou, decidido a partilhar seus tantos saberes nas belas trilhas e paisagens do firmamento (sim, no Céu, ao lado das mais saudosas, brilhantes e respeitadas plêiades daqueles que por aqui, na Terra, já passaram...).

Junto de Makarenko e Gramsci, o autor das pedagogias do oprimido, da esperança e da autonomia - tríade que, decisivamente, me fez professor, desejante de ainda vir a ser um bom educador! – tornou-se grande e indelével referência em minha vida como cidadão (ser militante, socialista, um democrata em busca da construção desse conceito) e como profissional das humanidades, um sociólogo no firme propósito de tornar sua disciplina um elo sólido entre o sonhado e o real, entre o querer e o poder, entre o fantasiar e o realizar...

A urgência de realizar, verbo propositivo, direto, que necessita de complementos permanentes e sempre renovados, é o que Paulo Freire melhor me fez ver, sentir, precisar para bem viver. Realizar o descortinamento das ideologias que nublam, disfarçam e até tornam elegante a calamitosa educação brasileira; realizar técnicas de decomposição dos discursos e das práticas que tornam similares a culpa e a estrutura, que oprimem, confundindo alhos com bugalhos, responsabilizando o pobre pela pobreza, pela violência, pelo triste mapa de nossas geografias urbanas, desumanas, mercantilistas a toda a prova. Aliás, é de Paulo Freire a mais contundente crítica à transformação de tudo e de todos em valor-de-troca, em mensurabilidade fria e técnica. É do autor de A Educação como Prática da Liberdade a forte assertiva de total rejeição à idéia de educar para se fazer adaptar... Para ele, Mestre Freire, educar não é dispor educandos no mundo, de modo conformista, resignado, mas situá-los e orientá-los, dialeticamente, a viver com o mundo, com o outro.

Todas as minhas reverências a Paulo Freire humildemente refletem a crença de que a presença de seu legado entre nós é imprescindível, intransponível. Mais do que isso: da sutileza, do charme e da pujança das palavras de Paulo Freire podemos sempre sentir o vento da descoberta, o ar que nos emancipa e faz verdadeiramente livres. Penso que a conversa que Paulo Freire travou com trabalhadores rurais, reproduzida na Pedagogia da Esperança – e lembrada/publicada por Eduardo Sales de Lima, na edição de 03 a 09 de maio deste ano do Semanário Brasil de Fato -, sintetize toda a energia, todo o encanto, toda a riqueza de seu legado, de nossa mais bela herança. Vamos lá ver...

- Muito bem – disse eu a eles. – Eu sei algumas coisas que vocês não sabem. Mas por que eu sei e vocês não sabem?
- O senhor sabe porque é doutor. Nós, não.
- Exato, eu sou doutor. Vocês não. Mas por que eu sou doutor e vocês não?
- Porque foi à escola, tem leitura, tem estudo, e nós, não.
- E por que eu fui à escola?
- Porque seu pai pôde mandar o senhor à escola. O nosso, não.
- E por que os pais de vocês não puderam mandar vocês à escola?
- Porque eram camponeses como nós.
- E o que é ser camponês?
- É não ter educação, posses, trabalhar de sol a sol sem direitos, sem esperança de um dia melhor.
- E por que ao camponês falta tudo isso?
- Porque Deus quer.
- E quem é Deus?
- É o pai de todos nós.
- E quem é pai aqui nesta reunião?
Quase todos de mãos para cima disseram que eram. Me fixei num deles e lhe perguntei:
- Quantos filhos você tem?
- Três.
- Você seria capaz de sacrificar dois deles, submetendo-os a sofrimentos, para que o terceiro estudasse, com vida boa no Recife? Você seria capaz de amar assim?
- Não!
- Se você – disse eu -, homem de carne e osso, não é capaz de fazer uma injustiça dessas, como é possível entender que Deus o faça? Será mesmo que Deus é o fazedor dessas coisas?
Um silêncio diferente do anterior. Em seguida:
- Não. Não é Deus fazedor disso tudo. É o patrão!