04 julho 2007

Dostoiévski e os amigos da HP

Capa de "Memórias do Subsolo", de Fiódor Dostoiévski, editado, com bela tradução de Boris Schnaiderman, pela Editora 34

No finalzinho do mês passado, na sexta-feira 29, fui convidado a dar palavra principal no encerramento da Semana do Contabilista 2007, em Londrina, evento promovido pelo CRC (Conselho Regional de Contabilidade/PR) e SINCOLON (Sindicato dos Contabilistas de Londrina).

Confesso que, de início, considerei estranha qualquer intervenção que eu pudesse fazer em meio a uma platéia constituída hegemonicamente de profissionais liberais da contabilidade. O tema do encontro tornou minha impressão ainda mais forte, incômoda: "O contabilista como agente de transformação social".

Bom, vencido o preconceito inicial, enfrentei mentalmente o repto e me pus a elaborar um texto que por lá pudesse ser apresentado e, ao mesmo tempo, lograsse êxito em fomentar o debate, agregar algum valor a esta tão importante categoria profissional - elite técnica responsável, entre outras coisas, por trabalhar os recursos e patrimônios da coisa pública, fato que pode levar a mais investimentos, mais transparência na gestão, maior controle social de gastos, definição cidadã e participativa de prioridades etc.

Na busca de um pretexto para transformar o contabilista em cidadão - metamorfose que me permitiria "sair pela tangente" e, a um só tempo, circunscrever o nobre profissional das HP's no pleno status de habitante das cidades, ser de direitos e deveres públicos e coletivos -, encontrei, em minha memória e na leitura do novo livro de Leandro Konder ("Sobre o Amor", já comentado e louvado na postagem anterior), "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, com seu grande narrador do subterrâneo, a criticar a si e o mundo, de modo integrado, coerente.

Reproduzo abaixo a palestra que proferi para os profissionais da contabilidade em Londrina. De duas boas coisas minhas palavras puderam se valer após o evento: os comentários e as felicitações generalizadas por parte de todos que vieram me abraçar, agradecer; e a oportuna indicação que por lá pude fazer (e agora aqui no "Espaço" também posso!) desse importante livro do literato russo, autor de "O idiota" e "Crime e Castigo", dois dos maiores romances da literatura mundial em todos os tempos. Em "Memórias do Subsolo" Dostoiévski inaugura uma figura hoje comum em romances e narrativas: o anti-herói, que não é nem o Super-homem nem o Lex Luthor, mas seres sociais (e só por isso também individuais) como qualquer um de nós, isto é, tensos, contraditórios, inacabados, a buscar expressar o real e por ele poder ser algo expressável, para o bem e para o mal.

Desejo que a leitura feita entre contabilistas possa servir a todos os leitores deste blog.
Análise das Ações do Contabilista no Contexto Social

por Marco A. Rossi

O romancista russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) inaugurou na literatura mundial o protagonismo do chamado anti-herói, no monólogo Memórias do Subsolo, de 1864. Nos subterrâneos de um edifício em São Petersburgo, o memorialista de sua própria existência mergulha em ácidas e intensas autocríticas, chegando mesmo a se declarar “... um homem doente, um homem mau, um homem desagradável”.

Por trás de um indivíduo com ódio de si mesmo, amargurado e não-realizado esconde-se, de modo coerente, um indivíduo que se afasta do mundo, que coteja a realidade com a produção intensiva dos horrores humanos. Contra si mesmo, num exercício de generalização do particular, o personagem de Dostoiévski revela sua incapacidade de partilhar experiências, conviver num ambiente social, plural, dinâmico e sempre tenso. Numa palavra: ao preferir o subsolo ao calor e ao clamor das ruas, o irremediavelmente pessimista personagem do escritor russo opta pela angústia, pela crítica sem fim contra si mesmo, como se estivesse a se sentir o espelho do mundo, um reflexo sem retoques de uma realidade que o agride, aniquila, assusta. Sem coragem de enfrentá-la – a realidade dura, nua e crua! -, torna-se anti-herói porque traduz e representa multidões, um pouco de cada um de nós, em nossos medos, receios e anseios.

Mas, afinal de contas, o que teria a ver a figura do anti-herói em Dostoiévski com categorias profissionais modernas e complexas, como, por exemplo, a do contabilista, a do do gestor/articulador de recursos financeiros, de capital, de reservas, poupanças, patrimônios? Tudo e nada. E, paradoxalmente, ao mesmo tempo. A perspectiva é que pode vir a lançar alguma luz sobre essa questão mais-que-impertinente...

Se o contabilista, como todo profissional e, mais que isso, cidadão, não carrega consigo a imagem e o conceito do ser perfeito, imponente, majestoso, é preciso que se acrescente a essa incompletude o fator fazer-se sempre, todos os dias, de modo ora intenso, ora tenso, difícil, retroativo. Isso quer dizer que, como todo ser social, o contabilista se faz na prática, em relação aos seus dissemelhantes, àqueles que com ele partilham o mundo, a realidade.

Num mundo marcado por agruras aparentemente infinitas e insolúveis (fome, miséria, criminalidade banal e cruel, corrupção, individualismo egoístico, tosco e consumista, sentimentos descabidos de superioridade ética e estética etc.), ausentar-se do mundo comum e refugiar-se no privatismo de seus próprios interesses, sejam financeiros, sejam políticos, de status, finalizam a dupla face da moeda social de nosso tempo, qual seja: a apatia.

Movido pela indiferença a tudo que possa cheirar à liberdade e à igualdade, o personagem subterrâneo de Dostoiévski nos incita a uma leitura “perigosa” de suas palavras e conjecturas. Sim, extremamente perigosa. Ao terminar de ler “Memórias do Subsolo”, sentimo-nos, inevitavelmente, esquisitos, duvidosos, machucados e infelizes. E por quê? Porque nos defrontamos com nós mesmos, diante do insistente impasse de nossas existências: viver para mim, soterrado em memórias doloridas daquilo que quis mas não pude ser, ou, às avessas, direcionar-me ao outro, ao referencial de minha própria identidade, com o qual tenho deveres e em nome do qual tenho profundas responsabilidades?

A resposta a essa pergunta pode se dividir em duas formas simples de compreender nossas vidas. A primeira delas – a opção pelo subsolo – restringe o ser humano às suas necessidades vitais, sem dimensão comunitária, eternamente refém de suas instabilidades emocionais e ansiedades patrimoniais, lucrativas, do bem-suceder-se. A segunda resposta plausível (e desejada!) reporta o indivíduo (que só é indivíduo porque ao mesmo tempo é membro constitutivo de uma determinada comunidade humana de aspirações e vivências coletivas) a uma certa esperança: encarar e enfrentar o mundo in loco, na prática, sem o eventual conforto de uma crítica fácil confeccionada no subsolo, onde só há ranços, ódios e desamores – mas há, também, proteção contra as tais mazelas da realidade, da chuva excessiva, do sol escaldante, do outro...

Ao contabilista, ao sociólogo (como eu!), ao artesão mais humilde, ao operário mais cansado ou àquele promotor do considerado o mais nobre dos ofícios (qual seria, hein?!) caberá sempre a segunda opção, aquela em que podemos nos completar diariamente pelo convívio entre nossos iguais e tão diferentes parceiros de jornada social. Caberá a qualquer um, portanto, optar radicalmente pela cidadania, pelo vir a ser permanente, pelo aprender a aprender, pelo compromisso público com as presentes e vindouras gerações – e também com a memória daqueles que nos legaram este mundo, esperançosos que com toda a certeza eram de que poderíamos fazer deste planeta um espaço ainda melhor para viver. Um espaço melhor para todos.

A palavra da vez passa a ser então cidadania.

E o que vem a ser isso?

Cidadania é um universal, refere-se ao habitante efetivo das cidades, da geografia urbana; representa indivíduos portadores de direitos e destinatários de deveres correspondentes (para cada direito desejado e alcançado deve haver um dever como equilíbrio, como contraponto). Como prática essencial à vida em sociedade, a cidadania deve abarcar múltiplas dimensões, tais quais: exercício pleno do direito de livre expressão; nenhum impedimento contra opções estéticas de qualquer natureza; voto como imperativo dos direitos políticos, que se substanciam na livre associação em sindicatos, partidos, conselhos, ONGs etc.; garantias de trabalho, renda, moradia e sustento para si e para toda a família, segurança, entretenimento, arte, cultura, saúde, educação... Ora, se aparentemente inatingíveis, importante ressaltar - para não esquecer para sempre! - esses direitos cidadãos já se fazem assegurados na ordem moral e legal de nossas sociedades ocidentais contemporâneas. Inscritas nas convenções internacionais, nas cartas constitucionais nacionais e no ímpeto discursivo de representantes parlamentares em todos os níveis da vida política das comunidades humanas (pós)modernas, todas essas garantias cidadãs, contudo, ainda que pudessem ser plenamente observadas e realizadas (boa vontade de minha parte, é óbvio!), não trariam nada novo ao mundo, não exigiriam da maior parte da mundanidade humana a saída de seus subterrâneos. Em síntese: ainda que as garantias individuais e coletivas compreendidas pela legalidade de nossas pujanças morais fossem estendidas a toda a realidade de nossas experiências comuns, nada disso tornariam reais nossas chances de alcançar a luz, romper a fronteira apática e escura de nosso subsolo.

Como não-cidadãos – uma vez que afeitos só ao ordenamento previsto, ao social e moralmente aceito, legitimado, tolerado pelas classes dominantes e as elites políticas, econômicas e culturais de nossa sociedade de consumos e espetáculos -, estamos condenados ao subsolo. Como cidadãos simples e ordeiros – indispostos ao novo, ao radical, ao transformador -, arejamos o subsolo, iluminamos suas tardes mais sombrias e aquecemos suas noites mais geladas. Só. Não nos serão ofertadas, entretanto, manhãs de sol, tardes de amor, noites de descanso. Para isso, é necessário que almejemos novos mundos, novas realidades. É necessário que encaremos a sombra gélida e às vezes tão apavorante de nossos irmãos, de nossos concidadãos. A luz precisa permitir o resplandecer de nossos olhares: enfrentar o duro racionalismo de nossas sociedades contidas em laboratórios e estatísticas e vencer o positivismo que nos condena aos desígnios de uma natureza transcendente e poderosa demais... são os grandes desafios de nosso tempo. Quer do contabilista, quer do ser humano que acredita merecerem um mundo melhor todos os nossos filhos.

Para retornar ao que me propôs todas essas digressões, enfatizo que forjar uma “análise das ações do contabilista no contexto social” é labuta audaciosa, uma vez que exige pensar o contabilista num contexto muito mais amplo do que aquele em que concretiza suas atividades profissionais. Faz-se imprescindível cotejá-lo com o universo ao seu redor, com as circunstâncias máximas de sua experiência humana. E, como ser humano, retorno ao início para poder finalizar essa minha intervenção. Retorno aos subterrâneos das reflexões de Dostoiévski.

Analisando seus personagens, o autor de Crime & Castigo afirmou que, não obstante cheirassem à realidade e se fizessem extremamente temerárias na órbita de suas próprias circunstâncias como ser social (um literato russo entre o passado czarista e a iminente onda revolucionária do século XX), as palavras que saem da amargura do personagem do subsolo não condiziam com seu pensamento. Dostoiévski dizia que, embora as tivesse redigido, tinha muitas dificuldades para com elas concordar...

Desse lampejo de esperança do autor de Os Idiotas nasce a possibilidade de eu dizer aqui que o “penso, logo desisto” do pequeno burocrata dos subsolos, que desceu ao inferno do conhecimento que poderia obter sobre si mesmo, gerando desapego ao mundo e desprezo pelas pessoas, pode, sim, ser facilmente substituído pelo desejo de participar da construção social da realidade, de modo fraterno e sem culpa – essa coisinha que ataca nossa consciência e nos condena aos subsolos de nossas próprias almas. Para tanto, contudo, é preciso admitir, como o narrador dos subsolos de Dostoiévski, que o bom não é o subterrâneo do mundo, mas a superfície e todas as suas riquezas, culturas e oportunidades. O personagem do genial romancista russo não acreditava, entretanto, que pudesse conquistar o melhor do mundo, sequer pudesse encontrá-lo. Dostoiévski, por sua vez, acreditava. Se o escritor que cria um personagem descrente consegue se manter crente, nós, indivíduos descrentes e profissionais voltados para nossas próprias urgências, temos a chance de nos tornarmos cidadãos que crêem. E que fazem toda a diferença. É isso.