25 outubro 2007

Sociologia dos Prazeres (homenagem minha às ilusões amorosas fourierianas)

"O Outro Lado", de Rosa Pereira (óleo sobre tela, 2001)

(por Marco A. Rossi)

Tenho vivido de repetidas imagens
Arrepios, devaneios, quase-pulsões
O que me freia desconheço
Covardia? Resignação?
É provável que seja a desconfiança

Desconfio de meus desejos
Elevo-os aos céus
Rebaixo-os ao quinto dos infernos
Moralizo meus destemperos
Apimento meus moralismos
Um minuto além
Como o anjo louco, mensageiro do prazer

Vejo-a cá em mim
Diuturna e insistentemente
Abaixo, bem abaixo, na cintura
E no nível renitente dos lábios
Abro os olhos e fujo
Dou dois passos para trás
Quase explodo
É só imaginação, sei, juro
Mas chego a sentir tudo, de verdade

Rejeito e me procuro para as pazes
Quero-a e em seguida desisto mais uma vez
Suores, salivas, odores, cruzamentos múltiplos
Calor, volúpia, eternidade

E agora? Agora é hora
Levanto-me sem despertar
Desperto quase sempre sem me levantar
Aguardando que ela vá embora
Fico sempre mais um tempo
Amo-a, só, por alguns instantes, acelerado
Dái o dia enfim pode começar
Alívio, cansaço, solidão