15 novembro 2007

À mão esquerda: olhares da vida sobre o mundo

THE KISS, de Edvard Munch (1863 - 1944), pintado entre 1897 e 1898.
Das expressões da paixão, o beijo talvez seja aquela que revela de modo mais contundente a necessidade de exposição, clareza, firmeza de propósitos: não se pode amar sem antes ter a coragem de beijar, exigir e conquistar a face virtuosa da própria paixão

por Marco A. Rossi

Hannah Arendt, uma das mais importantes e competentes pensadoras do século XX (cujo gênio foi capaz de romper com as mesmices diante do horror totalitário e das conseqüências do desaparecimento histórico das tradições políticas e culturais do Ocidente), afirmava não possuir o pensamento filiações ou enraizamentos partidários; daí sua repulsa diante de tentativas de quererem situá-la ora à direita, ora à esquerda.

Concordo com Hannah Arendt. Em parte.

Se é mesmo ruim filiar ou limitar potencialidade tão ampla como o pensar (fator que condiciona, poda, cobra caixas e taxas, reciprocidade de obrigações), é igualmente temerário supor que haja algo humano que não obtenha mediação nas paixões, nos ideários, nas perspectivas de vida e de mundo.

Não existem, estou plenamente convencido, posturas de neutralidade diante dos acontecimentos humanos, das ocorrências históricas. Não se faz possível guardar no armário princípios e valores antes que se saia de casa. Do mesmo modo, como não há imparcialidade na cobertura dos fatos pela imprensa (será que alguém realmente crê nisso?!), inexistem posturas científicas, culturais, sociais e intelectuais que não sejam profundamente partidarizadas, ideologizadas, passíveis e desejosas de seguir este ou aquele caminho.

Se bem compreendi o que pude conhecer da vida e da obra de Hannah Arendt, teórica fabulosa, marcada pela dignidade e pela coerência, creio poder imaginar que sua postura não-bipolarizante da atividade do pensar, do querer e do julgar tenha se referido exclusivamente a sua luta por independência intelectual, criatividade, autonomia radical. Não me parece à-toa (pelo contrário, à esquerda disso) todo o seu afeiçoar por figuras como Walter Benjamin, Bertolt Brecht e Rosa Luxemburgo.

Às malas e sacolas, preciso ainda referendar que a respeito da dicotomia direita e esquerda já pude ouvir e ler de tudo um pouco. Já constatei “opiniões” que se dizem contrárias à existência da díade; que se postulam – ao pensar a bipolaridade como algo que se volta para um passado morto e enterrado – muitíssimo além desses reducionismos baratos; que afirmam – pasmem! – que direita é governo, esquerda, oposição.

Esse tipo de, digamos, “opinião” torna ainda mais forte o vaticínio do saudoso jurista italiano Norberto Bobbio, para o qual a distinção política entre esquerda e direita mantém-se extremamente válida, mais do que nunca, aliás. À proporção que diminuem os adeptos à esquerda ou à direita do espectro político (refiro-me aos que ousam se declarar!), cresce exponencialmente a ocupação do tal centro. Centro-esquerda ou centro-direita, os adeptos do centro ocupam o zero, o um ou o dois na escala do pensar e do praticar a política e, na vida coletiva, tornam-se simpáticos aos olhos e ouvidos do eleitor, do cidadão que pretendem negar, negando-lhes posições, perspectivas, projetos claros e utopias. Dizer-se “de centro”, entretanto, segundo mestre Bobbio, é ocultar o ser “de direita”; negar a velha díade, relegando-a ao passado, é também escamotear o fato de que seu enunciador é “de direita”. Ora, e por que há muito menos timidez e vergonha ao poder se declarar “de esquerda” – não obstante os inúmeros equívocos praticados por seus adeptos ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX?!

É provável que o constrangimento inexistente na autodeclaração à esquerda esteja ligado à sua trajetória histórica, política e até (principalmente!) teórica.

Geoff Eley recorda, em seu importante livro “Forjando a Democracia: a história da esquerda na Europa (1850 – 2000)”, que as designações esquerda e direita surgiram de fato no radical ambiente democrático do processo revolucionário francês do século XVIII.

Na Assembléia Constituinte, aqueles que se posicionavam política e ideologicamente contrários ao poder real do veto, aos privilégios da nobreza e à estrutura social do Antigo Regime, sentavam-se à esquerda no plenário, vistos da perspectiva da mesa da presidência da casa. Aqueles que se mantiveram fiéis ao conservadorismo moral e político daquela época (mantêm-se até hoje?!) ficaram – ficam?! – à direita. Não se tratava, pois, de governo ou oposição, uma vez que, de uma forma ou de outra, uma nova ordem social deveria dali nascer. Também não se compusera naquela ocasião uma circunstância absolutamente provisória, contingente: os blocos “de esquerda” e “de direita” perseguiam seus traços de coerência em relação às suas trajetórias políticas, econômicas e culturais.

Os radicais jacobinos (os defensores de direita eram igualmente radicais – e violentos!), aqueles que se predispuseram a preconizar o embrião histórico da esquerda, adotaram forte apelo democrático, direcionando o debate para a abolição do veto real, a criação de legislativo em câmara única e a composição de um judiciário eleito pela comunidade; além disso, era imprescindível em seus contornos ideológicos a defesa explícita do sufrágio universal e o “para cada cabeça, um voto”, fator que referendava igual peso ao voto de todos os cidadãos.

Vale ainda ressaltar que a máxima revolucionária francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – relacionava-se intimamente com o núcleo das aspirações “de esquerda”. Enquanto a liberdade consolidava a base da luta histórica contra o Antigo Regime e a própria emancipação social dos trabalhadores de um modo amplo e irrestrito, a igualdade alicerçava toda a filosofia política da esquerda, suas noções de Homem e de Mundo, e as inter-relações entre o indivíduo, seu meio, sua história. A fraternidade, a mais tardia das visões revolucionárias, é matrícula antiga na escola da solidariedade da esquerda mundial. Sem a noção enraizada de fraternidade no escopo dos ideários de esquerda, toda luta contra o capital que avilta, aliena, segrega e explora o humano seria vã, vazia, desproporcional à riqueza e à amplitude de suas utopias.

Na luta histórica contra tudo que impedisse o questionamento dos excessos conservadores, a positivação de ausências pelo exercício coletivo da liberdade cidadã, a condenação da pobreza, da riqueza concentrada, da ostentação privada e consumista e o acúmulo irracional e patológico de poder e instrumentos de arbitrariedade (ferramentas eficientes na produção e na exibição da desigualdade social), a parceria dos emblemas revolucionários em França corroborou o surgimento e a ampliação crescente dos ideais, das cores e dos movimentos da esquerda e dos socialistas, dos “utópicos” aos “científicos”, de Fourier a Lênin, passando pelos pactos, no processo de republicanização dos países europeus e a posteriori de todo o mundo, entre socialistas e liberais de múltiplas tendências contra conservadores e reminiscências autoritárias dos privilégios da velhíssima ordem social, hereditária e estanque em todos os níveis da vida coletiva.

Bom, independentemente das contradições e das polêmicas que a velha díade ainda produz na vida política, no debate público e nas inúmeras intervenções de intelectuais e homens e mulheres de cultura, negar sua validade e premência nos dias atuais é alimentar a irrelevância da política na condução dos negócios humanos. Reféns que temos sido das (in)determinações tecnicistas, privadas e burocratizantes dos organismos de economia e empreendedorismo capitaneados pela violência simbólica do neoliberalismo globalizado e financeirizado por bancos e contendas neoimperialistas de Davos, do BIRD e do FMI, aceitamos a desideologização de nossas existências, desacreditando no debate, nos programas de ação, nos valores e princípios do político, do cultural, do histórico.

Ao retirarmos da vida comum a UTOPIA, consagramos o mais-do-mesmo, o individualismo e a desesperança. Ao elegermos o simpático e confortável CENTRO (noves fora radicalismos e firmes posições de vida!) capitulamos diante de toda e qualquer possibilidade de mudança, aceitando resignadamente a barbárie, a corrupção, a destruição da Terra e da vida.

Interessante observar, a título de finalização pretensamente bem-humorada, o que Leandro Konder, em introdução à edição especial da “Revista História Viva – Temas Brasileiros: A Esquerda no Brasil”, de modo extremamente fecundo e oportuno, recorda: quando se ouve dizer que alguém não acredita na existência da dualidade esquerda e direita, sempre se observa que tal narrador nunca é de esquerda. A referência de Leandro Konder é direta à constatação do filósofo Auguste Chartier (1868 – 1951). Oportuna e, diga-se, corajosa, a esfinge chartieriana, principalmente em tempos de fugacidade e de vazios ideológicos, marasmos e apatias. Precisamos assumir nossas posturas diante do real, sob pena de deixarmos escapar para sempre toda chance de efetivamente transformá-lo. Parece-me que admitir como vemos as coisas e de que modo nos posicionamos diante das alternativas e das contradições da vida em sociedade é o passo inicial para alimentar essa esperança. É isso.

02 novembro 2007

Tempos Excessivos

A cidade de Londrina e toda a região norte do Paraná ganharam uma bela publicação em 2007: a Revista ESTAÇÃO, trimestral, uma para cada bela passagem de flores e relvas do ano. Com as edições inverno e primavera já lançadas (sendo que essa última chegou faz poucas semanas ao olhar público), a linha editorial reúne sofisticação, apelo comercial e bom-gosto numa única revista, que atende a diferentes públicos sem subsunção de inteligências à mediocridade de um mercado que vai de cigarros a automóveis de 1000Km/h em menos de dez segundos. No lugar de pretensas divagações /digressões filosóficas (no pior sentido das expressões) da primeira à última página, ESTAÇÃO opta pela pluralidade de assuntos e estilos, dando vazão a matérias sobre estética, decoração, cinema, tempo, paraquedismo, música, moda, fotografia etc., permitindo múltiplos olhares e dezenas de formas de expressão locais, já que a maior parte de seus colunistas e colaboradores é da terra vermelha de paixão norte-paranaense. Ademais, vale ressaltar, os responsáveis pela publicação têm boa bagagem acadêmica em Comunicação Social, fator que produz injunções em beleza gráfica, arrojo de formato e cores, detalhismo da palavra, competência em conteúdo. Fico feliz em poder colaborar, desde o número 02, com a revista. Abaixo minha crônica sobre o tempo, publicada na ESTAÇÃO PRIMAVERA.

A noção de tempo, ensinava o socialista utópico Charles Fourier, pode ser medida por nossa capacidade de dar vazão à paixão, aos sublimes momentos de nossa transcendência, perfeição. O tempo de Fourier acabou faz um ou dois séculos. E com a noção do francês de Besançon morreu também boa parte de nossa capacidade de entender e dominar a mágica do tempo.

Hoje o tempo é pura aceleração, pura fábula, redemoinho de ocorrências temporárias, ausência de cuidado consigo mesmo, com o próximo, com o mundo. Hoje o tempo é de Derrida: arquitetam-se destruições. Mas ao contrário dos tempos revolucionários, nada é posto no lugar daquilo que se vai. Nada.

O tempo é a casa dos instintos agora. Nada de pensamento, nada de liberdade. De tantos excessos, a única coisa que se tornou rarefeita foi a própria concepção do tempo como construção da identidade. Sem tempo, sem características. Sem perfil, pura ideologia. O tempo é a massa fina da deturpação, o calendário que cria ansiedades, o relógio que não nos larga, não pára de rodar, rodar, rodar nossas cabeças, braços, inspirações. O tempo é a arma daqueles que não têm tempo contra as exigências daqueles que têm de sobra, todo o tempo do mundo para mandar, criar, desmandar, recriar, às vezes sem inteligência alguma.

Lembrou – caso se lembre! – tem de fazer; disse, corra atrás; pediram, não deixe para depois. Sem tempo, sem razões, apenas corridas, longas maratonas do nada ao vazio, nas curvas do vazio e na nítida visão da escuridão. No sumiço do tempo faleceram também minhas impressões do mundo; mal vejo minhas próprias digitais. Não tenho tempo.

Os livros estão mais finos, cheios de ilustração. Muitos deles já são virtuais, no tempo da tela e da boa conexão. A leitura também é rápida. Nem dá para perceber.

Os filmes têm mais imagens, menos palavras. Imagens que não emitem juízos, palavras surdas. No lugar da linguagem, o cinema é hoje pura explosão, espetáculo de efeitos e clichês. Não há tempo para grandes produções, embora haja excesso de dinheiro para realizá-las.

No tempo de sua própria ausência, bom papo é orkutiano e grandes idéias são reduzidas, no ritmo da sentença virtual. O ocaso é o fruto maior de nossos acasos, como o sexo que tem de ser rápido, os amores que têm de ser ligeiros e sem delongas – não há espaço nem mais para as antigas meias palavras. Não há tempo a perder; há muitas cobranças lá fora. O mundo está uma selva. Não há relógios na mata urbana e meu tempo lunar ou solar nunca foi lá aquelas coisas. Meu celular não indica horário em túneis, perde sinal. Estou preso. Cheio de tempo para esperar, sem chances para aquela oportunidade que o tempo, que eu nem vi, acaba de levar, para longe, onde nem o tempo que não mais reconheço poderia imaginar. Tempos não imaginam. Nem nós. Não mais. Puro excesso.