02 novembro 2007

Tempos Excessivos

A cidade de Londrina e toda a região norte do Paraná ganharam uma bela publicação em 2007: a Revista ESTAÇÃO, trimestral, uma para cada bela passagem de flores e relvas do ano. Com as edições inverno e primavera já lançadas (sendo que essa última chegou faz poucas semanas ao olhar público), a linha editorial reúne sofisticação, apelo comercial e bom-gosto numa única revista, que atende a diferentes públicos sem subsunção de inteligências à mediocridade de um mercado que vai de cigarros a automóveis de 1000Km/h em menos de dez segundos. No lugar de pretensas divagações /digressões filosóficas (no pior sentido das expressões) da primeira à última página, ESTAÇÃO opta pela pluralidade de assuntos e estilos, dando vazão a matérias sobre estética, decoração, cinema, tempo, paraquedismo, música, moda, fotografia etc., permitindo múltiplos olhares e dezenas de formas de expressão locais, já que a maior parte de seus colunistas e colaboradores é da terra vermelha de paixão norte-paranaense. Ademais, vale ressaltar, os responsáveis pela publicação têm boa bagagem acadêmica em Comunicação Social, fator que produz injunções em beleza gráfica, arrojo de formato e cores, detalhismo da palavra, competência em conteúdo. Fico feliz em poder colaborar, desde o número 02, com a revista. Abaixo minha crônica sobre o tempo, publicada na ESTAÇÃO PRIMAVERA.

A noção de tempo, ensinava o socialista utópico Charles Fourier, pode ser medida por nossa capacidade de dar vazão à paixão, aos sublimes momentos de nossa transcendência, perfeição. O tempo de Fourier acabou faz um ou dois séculos. E com a noção do francês de Besançon morreu também boa parte de nossa capacidade de entender e dominar a mágica do tempo.

Hoje o tempo é pura aceleração, pura fábula, redemoinho de ocorrências temporárias, ausência de cuidado consigo mesmo, com o próximo, com o mundo. Hoje o tempo é de Derrida: arquitetam-se destruições. Mas ao contrário dos tempos revolucionários, nada é posto no lugar daquilo que se vai. Nada.

O tempo é a casa dos instintos agora. Nada de pensamento, nada de liberdade. De tantos excessos, a única coisa que se tornou rarefeita foi a própria concepção do tempo como construção da identidade. Sem tempo, sem características. Sem perfil, pura ideologia. O tempo é a massa fina da deturpação, o calendário que cria ansiedades, o relógio que não nos larga, não pára de rodar, rodar, rodar nossas cabeças, braços, inspirações. O tempo é a arma daqueles que não têm tempo contra as exigências daqueles que têm de sobra, todo o tempo do mundo para mandar, criar, desmandar, recriar, às vezes sem inteligência alguma.

Lembrou – caso se lembre! – tem de fazer; disse, corra atrás; pediram, não deixe para depois. Sem tempo, sem razões, apenas corridas, longas maratonas do nada ao vazio, nas curvas do vazio e na nítida visão da escuridão. No sumiço do tempo faleceram também minhas impressões do mundo; mal vejo minhas próprias digitais. Não tenho tempo.

Os livros estão mais finos, cheios de ilustração. Muitos deles já são virtuais, no tempo da tela e da boa conexão. A leitura também é rápida. Nem dá para perceber.

Os filmes têm mais imagens, menos palavras. Imagens que não emitem juízos, palavras surdas. No lugar da linguagem, o cinema é hoje pura explosão, espetáculo de efeitos e clichês. Não há tempo para grandes produções, embora haja excesso de dinheiro para realizá-las.

No tempo de sua própria ausência, bom papo é orkutiano e grandes idéias são reduzidas, no ritmo da sentença virtual. O ocaso é o fruto maior de nossos acasos, como o sexo que tem de ser rápido, os amores que têm de ser ligeiros e sem delongas – não há espaço nem mais para as antigas meias palavras. Não há tempo a perder; há muitas cobranças lá fora. O mundo está uma selva. Não há relógios na mata urbana e meu tempo lunar ou solar nunca foi lá aquelas coisas. Meu celular não indica horário em túneis, perde sinal. Estou preso. Cheio de tempo para esperar, sem chances para aquela oportunidade que o tempo, que eu nem vi, acaba de levar, para longe, onde nem o tempo que não mais reconheço poderia imaginar. Tempos não imaginam. Nem nós. Não mais. Puro excesso.