18 dezembro 2007

Quase romancista

por Marco A. Rossi

Venho imaginando como será meu primeiro romance há anos. Às vezes penso que trará novidades, irá revolucionar a literatura e o modo como as pessoas encaram a leitura e os livros. Outras vezes – e essas são mesmo a maioria delas – creio que eu nem chegue a escrever um livro de ficção, uma história que valha a pena, possa, no mínimo, emocionar as pessoas.

Insistir persistindo, contudo, tem sido o emblema de minha vida. Não me vejo nem me reconheço entregue a uma tristeza infinita, cachoeira de depressão e mal-estar. Prefiro sonhar com o “sucesso” literário, noites de autógrafo, bienais, encontros com gente bacana de cultura e arte, manhãs, tardes e madrugadas expressivamente produtivas.

Percebo-me realmente feliz e em plenitude quando me flagro namorando livros, ansioso à espera de um lançamento, de uma promessa editorial; relendo clássicos, fantasiando versões proibidas de cânones, referências eternas. Mas gostoso mesmo é roteirizar para o cinema os melhores livros de minha vida. Perco (ganho!) horas a fio a imaginar como seriam minhas leituras na tela da sétima arte. Já cheguei a escrever a continuação de Blade Runner e de Laranja Mecânica. Senti-me bem à beça, um gênio de todas as formas de arte.

Releio meus romances não-publicados, rejeitados por mim ou pela lei. Odeio-os hoje: não representam nada, não somam, não explicam. Começo a julgar justíssima sua condenação. Penso assim, entretanto, de modo romanesco, como crítico de uma obra que revela o menor de mim, o mais insignificante e absolutamente desinteressante.

Procuro e encontro também os velhos manuscritos de “Coração de Benjamin”. Bom enredo, personagens fabulosos, aporte histórico e geográfico provocador. E por que tudo isso não se transforma no aguardado primeiro romance? Bom, talvez porque nunca consiga dar-lhe continuidade, por também não saber o que fazer dos amores e desamores que inundam os manuscritos de toda uma vida. Debruço-me sobre esses poucos traços de antigas folhas de papel dezenas de vezes ao ano, e jamais pude levar a cabo as paixões de Amanda, a ética tão privatista de Gabriel, as conseqüências históricas da Revolução Fevereirista de 1959...

Nos últimos tempos, até para evitar saudosismos constrangedores e nada produtivos, ando escrevendo crônicas, contos, memórias, fragmentos de auto-análise, tudo para publicar em algumas revistas e, principalmente, em meu blog. Acredito que dessa forma eu alimente idéias e permita novas inspirações para o obsessivo e deslumbrado escritor que reside – intruso - em mim, n’alma. Essa é a chance para que a rejeitada ausência de meus romances que não vêm abandone de uma vez por todas o centro de meus desejos e minha disciplina literária. É isso.