26 dezembro 2008

Crises correm ao vento...

"Feliz, quem sabe, o vento...", fotografia de J. Pedro Martins

Estranho-me toda vez que deixo meu blog de lado, tomado por outras tarefas ou até mesmo por dificuldades para pautar a escrita, os temas, a prioridade de eventos em minha vida - e no mundo imenso da cultura socialista, é claro. De todo o modo, tive realmente pouco tempo bom (e para escrever por aqui quero o melhor de meus dias e noites, e não apenas o que resta deles), pouca atmosfera literária, poética, acadêmica, para me dedicar com amor e desprendimento ao "Espaço" nas últimas semanas.

2008 foi um ano tenso, repleto de crises e momentos de incerteza na política, na economia, nos cenários locais e globais. Para completar a falta de delicadeza desses tempos de tantas mesmices e sandices, tive de viver mais uma das misérias do livre mercado na instituição de ensino que ESCOLHI para trabalhar. Anos e anos vestindo camisa, defendendo um valor, abastecendo certa cultura e... BOOM! As leis do neoliberalismo tosco se apresentam e expõem o que têm de melhor: uma profunda aversão a tudo que cheire igualdade, justiça, liberdade...

Sacudida a poeira, dada a volta por cima (torcendo para que o o clima acadêmico se restabeleça minimamente para que meu trabalho possa se realizar sem maiores transtornos), o bom é saber que um novo ano está para chegar: novo tempo, projetos refeitos, ilusões desfeitas... Como em toda crise, o de esperar é que de tudo vingue uma nova concepção de vida e de mundo. E eu estou desconfiado de verdade que tudo o que ocorreu em 2008 me será (se já não é) muitíssimo bom. Bom paca!

Para o próximo ano (essas coisas já estão em curso) algumas mudanças aqui no blog: um visual mais suave - quem sabe até mais sofisticado! - e uma defesa temática mais voltada para meu portfólio profissional, em SOCIOLOGIA, cinema, fotografia, poesia...

Que os tempos que estão se anunciando tragam paz e milhares de revoluções em nosso coração. Mais do que nunca, estou convencido: no ritmo em que as coisas vão a barbárie nos será o mínimo. Assim, a velha fórmula luxemburguiana é atualíssima: socialismo ou barbárie!

08 novembro 2008

Letras de sábado

Resolvi olhar para todos os lados, e para trás, e para frente. Pensei que talvez fosse oportuno avaliar até que ponto as coisas podem melhorar, deixar-me sair da encruzilhada. A educação, sempre acreditei, seria a salvação do mundo. Mas, acredito ainda mais na validade desta questão, como fazer a educação competir em condições de igualdade com uma realidade vazia, pobre, toda virtual? Sinto o universo se chocando contra meus ideais, tornando-os ainda mais anacrônicos do que já o são desde que o capital disse ter vencido o trabalho, desde que o poder do dinheiro (o tal "Money Talks" do velho e eterno AC/DC) disse ter aniquilado o que possa haver de humano nesta nossa aldeia de poucos globos, muitos quadrados, visões distorcidas de tudo, do próprio olhar até.
A chuva molha a alma, mas não me permite entender o que fazer. O velho Lenin escreveu sobre isso, e não pôde fazer muita coisa: o mundo também lhe desabou sobre os ombros, a consciência revolucionária. Morremos todos os dias, e a certeza da estagnação torna a morte cruel, invencível... Prefiro a vida à morte. O desejo de não morrer, entretanto, assume diante da vida o postulado do trágico: nossos dramas viram têmporas. E essas têm doído bastante, oprimindo, como o cérebro das gerações que passaram, a idéia minha a respeito do amanhã. Ainda penso, contudo: a sociologia é maior que tudo. Complemento, todavia: é preciso melhorá-la, dar-lhe novas cores, novos tons.
Na poesia aleatória, no vento que permite aos meus lábios suaves sorrisos, expresso os novos mundos que fazem contato aqui, na multidão alucinada e indisciplinada de minhas revoluções. Componho versos, assumo-os rebeldes e jogo às ruas do mundo o sentimento da mudança, da inevitável transformação de que precisam meus sentidos, toda a minha racionalidade, hoje tão cortada, fragmentada, ferida...
Escrevo para não esquecer que não posso me esquecer de que preciso das palavras escritas para viver. Se a preguiça e o mal-estar pós-moderno me atrapalham, não me aniquilam. E erram nisto: eu só sei insistir. Ao lado e à frente de minha velha e reformada lettera 32.
Mais letras estão chegando. E as minhas utopias então renascem. Diariamente.

Dúvidas

"Heroic Roses", do genial Paul Klee
Já me foi dito
que entre a casa e a rua
o mundo é meu cobertor
Também já me disseram que
entre o sim e o não
a aposta deve ser no sim
pois é a única forma de vencer
Dúvidas persistem
medos
avalanches de sentimentos
confusos
loucos
doídos
vazios
Perfuro minh'alma
nada vejo
nada sinto
nenhum sinal
ventos de inquietude
caminho para o lar
sem saber para onde ir
Amores e desamores
préstimos

insistência
idas e vindas
coração em pedaços
dilacerado pelo desconcertante
ritmo de minhas não-palavras, não-atitudes
Vejo o vermelho do céu
fim de tarde
nova aurora
Já me cantaram que tudo isso
trata do resto da noite
empurrando a saia do dia
Coração rubro
coragem eterna
velhos ideais
novas histórias

15 outubro 2008

Flanando entre estrelas

"Sala de TV", fotografia de Sidney Ganho

Texto entregue hoje para publicação na Revista Estação, edição n. 07, verão 2008/09

Recortar fotografias de revistas sobre celebridades da TV; copiar moldes dos modelos utilizados pelas atrizes a despontar no horário nobre da grande mídia eletrônica; escrever para a produção das telenovelas da emissora líder em audiência; garantir lugar na comissão de frente de todas as passarelas, entradas de hotel, recepção de festas, todos os agitos em que estejam seus ídolos, seus arquétipos de beleza e inteligência. A vida dela era pura excitação, um movimento quase sem fim, alucinante. Não conseguia se imaginar a perder uma informação, uma boa-nova sobre a vida de seus artistas favoritos. Bradava ao mundo: sei de tudo, de todos, não deixo escapar uma sequer.

Amava os garotos e as garotas, os neófitos e os mais experientes. Indiferente era diante das séries do momento ou dos clássicos que costumam ressuscitar estrelas apagadas. Não buscava só os belos corpos, o tal sex appeal das novas gerações a desfilar na tela da TV, nos tititis da imprensa-fofoca. Não era uma questão de sexualidade, desejo. Não. Era paixão pelo luxo, pelo sempre inusitado, inédito. Acompanhar a vida das pessoas famosas lhe representava entender um pouco do vazio que existia nela mesma, abissal, o qual nem livros, nem amigos de carne e osso, nem trabalho, nada conseguia preencher, ofertar sentido, apontar caminho, alguma lucidez.
Durante uma cerimônia para escolher a miss de sua cidade, na prévia para o concurso estadual, evento para o qual se dirigiu exclusivamente para admirar seu mais recente ídolo teen, conheceu um rapaz, cujo encontro resultou em namoro, flerte, um bom e pós-modernoso “ficar com”. Beijava-lhe a face, tímida, imaginando inebriar-se nos lábios de seus heróis da moda e da TV. Olhava-o de soslaio, desconfiada, mas a torcer pelo milagre de vê-lo transformar-se no galã dos filmes de ação mais agitados de Hollywood, que em breve estariam na tela do televisor, numa noite qualquer de segunda-feira. Sentindo-se sistematicamente rejeitado e traído pelo virtual, concorrente invencível, o rapaz deu fim ao namoro-relâmpago. Ela, enfim, consagrava sua liberdade: nunca se sentira tão aprisionada quanto naqueles dias de relacionamento instigantemente real, com alguém ao vivo e em cores a lhe tocar o proibido, aquilo que estava desde sempre reservado para o acaso, a estréia no mundo da moda, das capas de revista, dos talk shows, das saias-justas dos programas de auditório. Afinal, de que lhe teria servido a vida, senão de insistente paciência e fantasia para alcançar a fama? Não seria isso ser in? Morria um pouco todo dia só de pensar em viver uma horinha que fosse out, fora do ar. Detestava gente fora da realidade, desantenada. Tinha dó de tanta alienação, da estranha compulsão das pessoas por viverem anônimas, desejantes de paz, fraternidade, justiça. Decididamente, queria mais da vida, muito mais.

Bom descanso

Mural de azulejos "Trabalhadores", localizado na Av. 23 de março, cidade de São Paulo, fotografado por Rafael Petit Imthum
Começo a cumprir, enfim, a longa promessa de publicar aqui no "Espaço" os artigos de minha antiga coluna Panorama, do Jornal A CIDADE, de Cornélio Procópio. Editada entre fevereiro e agosto de 2004, a coluna não possuía uniformidade temática, transitava de música e cinema a política e economia ao sabor de idéias sempre livres, nunca censuradas. Para inaugurar essas novas edições de velhos textos selecionei "Bom descanso", uma homenagem que faço ao trabalhador paranaense e à sua sensibilidade ao entardecer, no desejo de ver florirem as pétalas matutinas do amanhã. De quando em vez, outros dos 30 textos que publiquei no periódico procopense voltarão à luz aqui no blog.

Sempre considerei um grande barato ouvir as pessoas aqui do Paraná despedirem-se, após um dia de trabalho ou um encontro casual no final da tarde, no regresso a casa, com um sonoro e bastante sincero “bom descanso”.

O espanto alegre vem do fato de, em São Paulo, onde passei boa parte de minha vida, nunca se ouvir uma coisa dessas; no máximo um “boa noite”, “até mais”, “a gente de vê por aí”... O que eu notava, contudo, é que todas essas expressões eram ditas de maneira indiferente, sem sentimento, sem nada mais que uma certa boa educação, uma questão de mera e simples formalidade.

Aqui, no nosso saboroso “Paraná caipira”, de tantos povos, de tantas culturas, a história é bem diferente: existe, sim, uma importância bem grande ofertada ao tal “bom descanso”, e, ainda que a maioria das pessoas que expressem a doce despedida em questão não se dê conta de seu afortunado significado, ele existe. E é muito, muito interessante. Vamos lá ver.

A história do Paraná é uma epopéia de grandes aventuras. Por aqui o processo de colonização (formação de terras, fazendas e, mais tarde, comarcas e centros urbanos) foi árduo, exigiu grande trabalho e uma central e decisiva atenção à questão rural, dos campos de plantação, criação e vida, muita vida. Por “n” motivos, dentre os quais se destacam a questão de trabalho intenso, baixa remuneração e parcos investimentos em educação e respeito à dignidade dos trabalhadores... a população paranaense é pobre, nossas cidades são deficitárias em geração de emprego e renda e os salários, historicamente, permanecem baixos. Assim, cientes de quão caros e difíceis são os dias nossos de cada semana, mês e ano, geração após geração, os trabalhadores são sinceros ao desejar aos seus parceiros de luta dura pela vida o “bom descanso”. É, sem dúvida alguma, uma fala que exprime alento, solidariedade, uma esperança de o dia seguinte ser melhor, menos desgastante, mais proveitoso. O “bom descanso” diz: amanhã tem mais, amigo; aproveite para renovar suas energias; não esmaeça, não desista; um dia, quem sabe, amigo, tudo será diferente... e melhor!

Nessas pequenas e aparentemente insignificantes falas, o trabalhador expressa companheirismo, cumplicidade; através do “bom descanso” a esperança se alimenta, a vida flui, o amanhã acena para nós com mais vigor, mais iluminação. Em vez de “até amanhã”, “bom final de semana”, que são expressões genéricas que não dizem nada, talvez apenas se refiram à compostura, à “boa educação”, o otimista “bom descanso” diz também: relaxe, amigo, a luta continua e nós todos, trabalhadores, precisaremos de você amanhã; aproveite a noite, amigo, durma bem e não se esqueça de que amanhã vamos construir mais um pouco de nossa estrada rumo a um futuro melhor, mais justo e... humano!

Por isso, leitor(a), desejo-lhe uma boa leitura, um bom tempo de plantios e, é claro, um “bom descanso”. É isso.

14 outubro 2008

Desconcertos

(para C. B. G.)

Palavras dispersas
promessas entreatos
teatro, puro drama, tramas envolventes
discórdia
desejo
crise, mais crise

Sinto o pulsar de minha materialidade
alguma coisa dizendo não! chega! coragem rapaz!
É como se tudo fosse ainda mais, em tudo, em você
no nada tão vasto de minha inonsciência

Tolerância, suporto-me demais
aceitando ilimites
convivendo com irrazões
abismos
coração trincado, mergulhado na dor
seu corpo me aponta saídas: flores, explosões

Corro sobre o mar, o campo, o céu
imaginação, explosão de delírios
mãos, pêlos, leves tocares, pétalas, fotogramas de suas curvas
estradas sem fim
quase uma flutuar
acompanhdo de sorriso torturante
paralisante, intrigante, irreal na tessitura de sua realidade

Medo, medo, medo
da chuva, do sol, do amor
de imaginar dar certo, de vislumbrar qualquer erro
mais um, coleção.

Na poltrona de meus sonhos
recrio meus pesadelos rock'n'roll
heavy metal quando madrugadas choro
desenhando salivas, odores, loucuras

Potencializo a imaginação e acendo um cigarro
prazer perdido
tenso alívio nunca-mais-imediato
distante
inebriante, desnudo

Acendo a luz, encho um copo
água, lágrima, suor
amanhecendo no peito
na raça
no novo dia depois de ontem
tal qual o depois de amanhã
sem você
com você
comigo mesmo
nós dois virtuais
reais no cheiro que ouso sentir, profundidade do proibido
insólita calmaria trepidante

Ouço pranto
meu coração
ensandecido
clama por meus delírios
fecho os olhos
volto ao mundo encantado
de suas mãos
de suas pernas
de seus olhos
overdose que salva
mácula que transparece o mundo
vida que se faz vida

Vemo-nos então mais tarde
cada qual em sua prisão
na liberdade de nossos labirintos
dois mundos
talvez até mais

11 outubro 2008

Marxismo e Psicanálise: leituras socialistas da civilização freudiana

"Don't Cry", fotografia de José Ferreira

Apresentei, no último dia 03.10, na programação do "I Encontro Científico de Psicologia da Faculdade Pitágoras", na unidade de Londrina, Paraná, uma conferência sobre os descompassos e os rios de convergência entre o marxismo e a psicanálise. Apoiado principalmente nos escritos carcerários de Antonio Gramsci e nos chamados "textos sociológicos" do Dr. Freud, procurei estabelecer alguns diálogos possíveis entre essas distintas maneiras de interpretar o homem, a história e a ciência. Não obstante as léguas que separam as tradições legadas por Marx e Freud, penso que a noção de conflito possa torná-los "parceiros" na formação cultural e intelectual dos jovens e dos militantes da vida, dos desejosos por transformar o mundo. Reunidos por mim num esforço de provocar proximidades entre as categorias de inconsciente (produto freudiano) e ideologia (herança marxista), os textos de Marx e da tradição das idéias socialistas no século XX podem, mergulhados na concepção freudiana de civilização, reinterpretar a história e examinar nova e detidamente o sujeito do mundo, conferindo-lhe papel ainda mais determinante no combate à fragmentária dimensão do tempo e do espaço na carnívora realidade cultural pós-moderna. Nesse sentido, imagino que haja no texto de minha apresentação - integralmente publicado logo mais abaixo - algum estímulo a idéias que possam se reconhecer como diferentes e, por isso mesmo, prósperas em mútua colaboração. É o que realmente desejo ter partilhado com a platéia generosa e atenta que esteve a me ver e ouvir naquela bela manhã.
O indivíduo é a cultura escrita em letras minúsculas.
A cultura é o indivíduo escrito em letras maiúsculas.
Platão
Superar e sublimar as paixões destrutivas do ser humano: parece ser esse o grande encontro entre o marxismo e a psicanálise. Uma aproximação que se faz possível por meio de caracterizações comuns nessas duas concepções do homem, nessas duas leituras da história, nessas duas perspectivas do olhar crítico, da metodologia interpretativa das relações humanas em sociedade.

Como agente da história e ator do mundo, o homem é, tanto no marxismo quanto na psicanálise, o epicentro de toda discussão. No caso do pensamento marxista (em relação ao qual me sinto um pouco mais à vontade, um pouco por formação, um pouco mais por convicção), os princípios estruturantes de um humanismo radical, de um historicismo absoluto e de uma razão dialética intransigente permitem à psicanálise inflexões sobre sua forma de ver o mundo, ora reiterando perspectivas e ampliando aspectos, ora exigindo separar o joio da jóia, aquilo que está no campo das ciências sociais daquilo que dinamiza e compõe a cosmovisão científica a partir de análises superlativamente subjetivas (marca maior das intervenções psicanalíticas sobre a condição humana).

Para Sigmund Freud (1856 – 1939), todo indivíduo é necessariamente um ser arredio, antissocial. Para a psicanálise, portanto, viver em grupo, compor o universo das cidades, tecer as redes da civilização, tudo isso produz aborrecimentos, impõe limites, torna desinteressante a própria existência. Há, pois, na visão ontogênica do homem pela psicanálise, um mal-estar no conviver, uma animalidade natural do próprio ser, uma permanente indisposição à partilha, ao reconhecimento da igualdade do outro.

A aceitação humana da civilização (numa clara analogia ao naturalismo hobbesiano, em que a garantia da segurança exige a entrega da liberdade individual ao Estado) se dá pelo fato de que a base daquilo que compõe o ser na psicanálise, o devorar do princípio do prazer, precisa efetivamente ser contida, controlada, sob pena de extinção da espécie humana, de uma nova lei de evolução e sobrevivência das espécies. Para o autor de “O futuro de uma ilusão”, portanto, viver em sociedade e aceitar os limites impostos pela civilização representam, para o homem, uma verdadeira necessidade desalentadora, um suspiro frágil, mas um suspiro que lhe permite a vida, a possibilidade de encontrar prazer e satisfação em alguma medida, ainda que sempre deficitária, atenuada pelas exigências sociais da partilha. Contra a pulsão - essa força que move em direção a prazeres quase sempre inenarráveis e impublicáveis - o meio contém ímpetos, o coletivo anula o individual, as sanções prescrevem as liberações tão desejadas, acalantadas de cada um dos seres humanos. Numa palavra, a civilização, ao conter os ânimos sempre acalorados das pulsões, busca evitar o conflito, a anulação do indivíduo mais fraco e desprotegido pelo movimento, segundo leitura freudiana, sempre bizonho e desprovido de razão das massas.

Ao buscar a satisfação de suas necessidades e desejos, o homem se depara permanentemente com os desafios da natureza, como as aberrações climáticas e atmosféricas, os abalos sísmicos, a escassez de alimentos e os recursos hídricos. Em face dessa pequenez diante do “mundo”, o homem, ao se reunir com seus semelhantes, diminui a força bruta de tanta imponderabilidade. Nesse sentido, há um claro paradoxo em Freud no que diz respeito à vida em sociedade: ao mesmo tempo que limita e atrofia as vontades naturais, a vida em sociedade permite atravessar, com maiores chances de evitar tragédias, a própria experiência de viver em grupo, no “mundo”. Seria insuperável essa contradição da noção de homem na psicanálise?!

É provável que a contradição freudiana se explique na indistinção que o autor de “Mal-estar na civilização” promove entre indivíduo e sociedade. Renato Mezan (1990) já havia observado que não há em Freud nenhuma alusão às especificidades da vida social. Para o psicanalista da Morávia, a diferença entre indivíduo e sociedade é, na maior das contas, metodológica, pura e simplesmente. A sociedade, nesses termos, é uma realidade empírica, um mero espaço no qual os indivíduos definem e consagram suas projeções psíquicas, suas subjetivações sobre o real. Como o que está em questão para a psicanálise é a sobrevivência do indivíduo mergulhado na multidão, essas projeções psíquicas nada mais seriam do que tentativas sucessivas de encontrar prazer no limite, passagens nas fronteiras da castradora ordem civilizatória. Problema é que, do modo como a coisa se apresenta na obra do pai da psicanálise, a civilização seria um dado a-histórico, uma construção sem origem, sem traços de realização humana. É como se ela sempre estivesse aí, como um fenômeno natural.

Se as satisfações nunca podem ser plenas num ser castrado pelo emblema civilizatório, qual seria o verdadeiro elemento constituidor desse reiterado mal-estar? Se a base instintiva do homem está aprisionada, para onde dirigir tanta potência, tanta energia natural represada? Talvez na tentativa de dar resposta (estímulos atenuantes ao menos) a essas indagações surjam indicativos das reais aproximações entre as concepções marxista e psicanalítica do ser, da história, do movimento da vida.

Parece sedutora a idéia segundo a qual a força de criação/inovação do homem pode sofrer desvios e desníveis favoráveis à continuidade da vida humana no planeta. As grandes artes, os belos projetos arquitetônicos, a surpreendente revolução tecnológica, a pujança de tantos valores culturais demonstram, numa ótica subjetiva, que o homem reinventa a si mesmo permanentemente, mesmo em circunstâncias adversas, repressoras. Tudo isso, contudo, não é razão, consciência. Ao contrário: trata-se de pura irracionalidade, agressividade deslocada, impedimento daquilo que dá sabor e tom à civilização, ou seja, a frustração que regra, condiciona, molda, assujeita. Em síntese, para Freud, no limite do humano, a irracionalidade é o ponto morto da história, o equilíbrio que impede a destruição, mútua e progressiva. Não há consciência. Há, mais tardar, intervalos frágeis de sensações, algumas desconfianças quanto à nossa animalidade aniquiladora; há, definitivamente, uma força autoprotetora impetrada pela própria natureza. Isso mantém o homem vivo.

A consciência, com seu caráter inconcluso e delicado, com sua eterna dependência do que existe antes do tempo presente e se faz longe de toda a percepção humana diante do real, é também, no marxismo, peça-chave para o entendimento de sua episteme. Não há precedência da consciência, não há autonomia do pensamento, não há comportamento que se possa atribuir exclusivamente ao agente da ação, ao enunciador da fala. Tudo que se pensa e se faz é determinado longínquamente, imemorialmente, em muitos casos. É como se fosse possível afirmar - e é! – que toda decisão tomada hoje já foi discutida três mil anos atrás. Alguma coisa se espraia sob os pés do homem em sociedade. Algo conduz a existência humana na civilização. E isso não é obra autônoma de sujeitos livres e conscientes.

Renato Janine Ribeiro (2008) afirma que ... vivemos dramas, sofremos, acusamos, defendemos; mas, abaixo disso, sem que tenhamos consciência, pulsa o inconsciente. Assim como em Freud há uma insistente condenação, por parte dos preceitos da civilização, de nossos desejos sexuais, em Marx, também como força repressora e dissimuladora, existe uma clara determinação do econômico, do poder conferido pela posse do capital, sobre todas as outras instâncias da vida social. Cultura, política, idéias, tudo estaria, de um modo ou de outro, condenado a pedir licença ao poder econômico, sob pena de não poder existir ou, pior, existir sem ser visto, desqualificadoramente. Economia e sexualidade, um em cada ponta, aproximam e, de modo sempre dialético, separam marxismo e psicanálise. A consciência, nesses temos, é precedida, na psicanálise, pelo inconsciente; no marxismo, pelas várias formas de dominação e distorção ideológicas.

Está em Antonio Gramsci (1891 – 1937), um dos mais importantes pensadores marxistas do século XX, uma conclusiva nota do papel do “velho” (o inconsciente ou a ideologia) sobre o “novo” (a tentativa permanente de a consciência se emancipar). Nas palavras de Erasmo Miessa Ruiz (1998), interpretando reflexões gramscianas, pode-se verificar...

Ao nascermos somos expostos a uma série de circunstâncias. Adquirimos uma linguagem que é fruto de milênios de evolução, aprendemos comportamentos decorrentes do processo de construção histórico. O gesto de empunhar um lápis, amarrar um sapato ou ir a um culto religioso esconde uma grande complexidade. Para que cada gesto humano pudesse ser consolidado como prática social, foi necessário o sacrifício de gerações inteiras, a contribuição diuturna de milhões de homens “invisíveis” num processo educacional vasto e inconsciente para a maioria dos indivíduos. Por não serem de forma alguma naturais, no sentido biológico, os comportamentos necessários à sobrevivência do homem em sociedade têm de ser reproduzidos-aperfeiçoados-criados cotidianamente pela vida social com base num legado que vai dos homens das cavernas, passa pelas batalhas de Júlio César e atinge a mídia digitalizada. Um legado vivo em cada instrumento de trabalho, em cada signo, em cada obra de arte ou mesmo num “singelo” aperto de mão. Nascemos velhos: os gestos das gerações que nos precederam estão colocados tanto no modo como um bebê é cuidado pelos pais quanto em todos os suportes sociais que dão sustentação ao ato de cuidar. É nesse sentido que o homem não escolhe as relações sociais das quais participa, embora as construa/reconstrua cotidianamente. É nesse processo de construção/reconstrução que os homens estabelecem as possibilidades do exercício de maior ou menor liberdade na medida em que tomam consciência dos reais determinantes das necessidades históricas que lhes são impostas (p. 09).

Antonio Gramsci, autor dos decisivos “Cadernos do Cárcere” e de centenas de escritos jornalísticos militantes na Itália do anos 1910, 1920 e 1930, nessa bela passagem de Ruiz, aparece, tal qual Freud, como um sujeito que se fez num ambiente de guerras e veemente ascensão do nazifascismo. Diferentemente do autor de “Totem e tabu”, entretanto, tomou partido pelas massas e combateu contradições às vezes pequeno-burguesas que limitavam o pensamento social naquele período da história européia. Freud, que relatou tudo que viu com genialidade e espírito combativo contra o horror totalitário, esqueceu-se, no entanto, da história, do devido crédito das contradições que se constituem na própria vida coletiva, e ofertou destaque à dimensão intrapsíquica do homem, condecorando o tempo com o congelamento e a história com a inércia. A ojeriza que o psicanalista tcheco nutria pelas massas era inversamente proporcional à esperança que ele depositava nas “mentes brilhantes”, nos homens de insight de seu tempo, sofisticados e inteligentes, portadores de um futuro em que a irracionalidade inevitável venceria enfim a agressividade instintiva das massas, deseducadas e nada afeitas a lançar mão de seus desejos em nome do bem-estar coletivo. Freud afirmava, portanto, segundo Mezan (1990), que a sobrevivência da humanidade estaria no sacrifício generoso dessas pessoas especiais, dispostas a conduzir a turba pelos caminhos do desapego e do despojo em relação à sua animalidade vulcânica. Resumo da ópera: a besta-fera que reside em todos só poderia ser vencida pela besta-fera daqueles que se distanciam das massas para ensinar-lhes o caminho do jejum em relação às suas pulsões.

O divórcio entre objetividade e subjetividade, história e ação humana, passado e presente, torna a psicanálise, sob a ótica do pensamento marxista de Gramsci (que, frise-se, admirava profundamente as esteiras da psicanálise), um instrumento de absolutização de um inconsciente atemporal, supra-real. Ao contrário, para Gramsci, o inconsciente é também – e sobretudo! - histórico, fabricado no tempo, com nítidas colorações econômicas, políticas, de classe, enfim. A absolutização da psique, da vida subjetiva, nubla o olhar da psicanálise para as contradições sociais engendradas na luta política, no movimento das coletividades na busca por recriar o mundo, mudar a história.

Condenados ao trabalho e à disciplina em nome da ordem, os indivíduos pertencentes às massas são vistos por utopias diferentes no marxismo e na psicanálise. Enquanto na utopia freudiana a entrega às paixões era o maior obstáculo das coletividades no enfrentamento do mal-estar civilizacional, as coletividades na tradição marxista deveriam dar vazão às suas paixões... revolucionárias. A única forma de conter a artificialidade da civilização era promover a paixão inquieta, elevar ao grau máximo o desejo ético por dar ao homem o controle de seu próprio destino, retirando-o da ontogênese fatalista da subjetividade inapta e conduzindo-o a uma filogênese de esperanças, alternativas. Numa palavra, a coletividade em Freud destrói a utopia dos iluminados; a utopia marxista destrói a civilização burguesa e, com ela, a idéia de que existam sujeitos iluminados. Entram em cena, enfim, personagens capazes de humanizar a si mesmos e as relações que empreendem na dialética do real, entre a objetividade que se impõe e a subjetividade que não se rende, posto que necessita recriar o universo social das relações humanas, descoisificando o sujeito e abrindo horizontes para a história, esta sempre viva.

Paradoxalmente, levando-se em conta a incômoda atemporalidade do inconsciente e certa naturalização da vida burguesa presentes na cosmogonia da piscanálise, Freud via no capitalismo razões pelas quais tanta frustração e tanta revolta pudessem de fato perfazer a vida dos trabalhadores. Escreve, em “O futuro de uma ilusão”...

Se nos voltarmos para as restrições que só se aplicam a certas classes da sociedade, encontramos um estado de coisas que é flagrante e que sempre foi conhecido. É de esperar que essas classes subprivilegiadas invejem os privilégios dos favorecidos e façam tudo que podem para se liberarem de seu próprio excesso de privação. Onde isso não for possível, uma permanente parcela de descontentamento persistirá dentro da cultura interessada, o que pode conduzir a perigosas revoltas. Se, porém, uma cultura não foi além do ponto em que a satisfação de uma parte de seus participantes depende da opressão da outra parte, parte esta talvez maior – e este é o caso em todas as culturas atuais -, é compreensível que as pessoas assim oprimidas desenvolvam uma intensa hostilidade para com uma cultura cuja existência elas tornam possível pelo seu trabalho, mas de cuja riqueza não possuem mais do que uma cota mínima [...] Não é preciso dizer que uma civilização que deixa insatisfeito um número tão grande de seus participantes e os impulsiona à revolta não tem nem merece a perspectiva de uma existência duradoura (p.23).

A privação do prazer, nesse caso, justifica todas as medidas, até mesmo as liberadas por uma paixão de inquietude revolucionária. Contra a bárbárie iminente e uma vida que impede o prazer e a realização plena do ser, a dignidade em si, o autor de “A interpretação dos sonhos” torna-se atraente ao pensamento marxista, convidativo.

Nesse sentido, o marxismo e a psicanálise convergem na crença de que idealismos puros, sem pautas no mundo dos homens, devam ser superados por detida análise das condições materiais da vida social; irmanam-se na constatação do conflito (ainda que na psicanálise, como já frisado, exista certa crença de beatificação desse fenômeno, que é político, na visão marxista). Em Freud, portanto, a dialética dos jogos pulsionais move o mundo; em Marx, a luta de classes colore a história e permite, inclusive, o desabrochar dos embates entre pulsões humanas, aprisionadas por inconcientes e ideologias de toda a sorte. Reconhecido o inconsciente (fator que libera parte da consciência) e travada a luta pela superação do capital (elemento dissolvente das ideologias de naturalização das desigualdades sociais), os pontos de convergência entre o pensamento de Freud e da tradição das idéias socialistas se tornam mais nítidos, saltitantes: 1) há opressões de toda a ordem que impedem a liberdade, seja na repressão à sexualidade, seja na distribuição predatória da riqueza socialmente produzida; 2) a moral social é um artifício de exploração, um estopim de levantes, uma crueldade contra as maiorias numéricas e as minorias sociológicas; 3) a civilização represa potencialidades criativas, sufoca individualidades e potencializa a violência e o terror contra as classes subalternizadas; 4) na psicanálise e no marxismo (sobretudo no marxismo de Antonio Gramsci), a civilização são normas e sanções que dificultam a vida humana, o pleno desabrochar daquilo que deveria ser o melhor para as vidas humanas...

Em termos muito concretos, é possível constatar que, nas aproximações entre a psicanálise e a história das idéias marxistas, a CULTURA, entendida como artifício instrumental da civilização, opõe-se à animalidade. Em Freud, contudo, isso é necessário para conter ânimos destrutivos. Em Marx, de outro modo, a CULTURA pode servir aos interesses da coletividade, desde que essa coletividade seja capaz de provocar em sua constituição um sentido mais universal, além das divisões de classe e de atividades típicas do individulismo burguês, das chamadas sociedades de livre mercado. Nesses termos, no marxismo, a CULTURA e a história são parceiras na determinação do homem e de suas andanças, para o bem ou para o mal, a depender do nível e da qualidade de sua organização coletiva, seu nível de consciência acerca dos inconscientes e das ideologias que o bloqueiam. Já na psicanálise a agressividade e a animalidade compõem a natureza humana e determinam toda a ação no processo civilizatório, que pode culminar em sua fortaleza ou em sua virtual destruição. Que nesse caso, no caso da civilização capitalista (que o saudoso, lúcido e embriagado Hélio Pellegrino denominou “mundo sem amor”), as paixões sejam destrutivas, inquietas, pulsantes. É isso.

Referências Bibliográficas:

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
FREUD, Sugmund. Mal-estar na civilização/O futuro de uma ilusão. Rio de Janiero: Imago, 2007.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. V.01. 1999 (Organização de Carlos Nelson Coutinho e Luis Sérgio Henriques).
KONDER, Leandro. O futuro da filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2006.
MEZAN, Renato. Freud, pensador da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1990.
RIBEIRO, Renato Janine. Desafios para a ética. Disponível em:
http://www.renatojanine.pro.br/ Acessado em: 02.10.2008.
RUIZ, Erasmo Miessa. Freud no “divã” do cárcere: Gramsci analisa a psicanálise. Campinas, SP: Autores Associados, 1998.
SAFATLE, Vladimir. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.

Impertinências de Hera

Passagens secretas
corações desconfortáveis

Histórias vazias
sonhos incômodos

Pessoas estranhas
vidas insólitas

Textos frágeis
idéias trêmulas

Amores sórdidos
poesias falsas

Promessas sujas
trabalhos infinitos

Crenças estúpidas
almas desencantadas

Júbilos artificiais
projetos incompletos

Insistência voraz
mentiras quase sinceras

Dias velhos
olhares cansados
pontes quebradas
chegadas improváveis

Calafrios pós-modernos
fragmentos do ser, do não-ser
do que ainda deseja tornar-se

Hora do banho frio
aquietar ânimos

Dormir
longa noite
eternos pesadelos

10 outubro 2008

A celebração da diversidade

Publiquei no último domingo, 05.10, dia das eleições municipais em todo o Brasil, o artigo abaixo, na Folha de Londrina. A idéia era celebrar a festa da democracia, promovendo a crença na insistência da luta e da organização política na conquista de dias melhores, anos melhores. (De quebra fiz minha tão sonhada - e sempre adiada! - homenagem a mestre Didi, herói de 1958, arquétipo da serenidade, da liderança.) Imagino que o único meio para vitórias duradouras seja a batalha das idéias, a persuasão, o convencimento por projetos. Parece-me, na esteira da tradição clássica que me alimenta, que essas são as portas mais convidativas e semi-abertas para o socialismo. Que assim seja!

No final da Copa do Mundo de 1958, disputada em terras estrangeiras, a seleção brasileira conquistava o primeiro de seus cinco títulos na maior de suas artes esportivas, o futebol.

Logo depois de o time canarinho levar o primeiro gol dos suecos, sob efusivos aplausos da rainha e da nobreza escandinava, Didi, o mestre, capturou a bola no fundo do gol e, à medida que caminhava para o centro do campo, tranqüilamente, reuniu seus pares e lhes disse que ganhariam se permanecessem unidos, perderiam se abrissem mão de seus sonhos, de seus objetivos naquele país frio e distante. Bom, o resultado disso todo o mundo conhece: o Brasil fez vários gols e venceu a partida por 5 a 2, libertando-se dos fantasmas do futebol que o assombravam desde 1950, quando perdeu a final para o Uruguai, num Maracanã com mais de duzentos mil torcedores.

A democracia e o processo eleitoral têm muito do exemplo dedicado de mestre Didi, das palavras que dirigiu aos companheiros de time. Para existir de fato, a festa da democracia requer união, parcerias, lágrimas e suor. A participação política deve aproximar eleitores e candidatos, expor idéias, desnudar projetos e visões de mundo. Mais que votar, o cidadão precisa surgir no mundo público, emitindo seus juízos, pronunciando seus desejos, pautando seus representantes e instituições, afirmando compromissos sobre os destinos de sua comunidade.

Hoje, domingo de eleições municipais em todo o país, cada cidadão é um mundo, e a reunião desses mundos deve compor o universo democrático da cidadania, do exercício dos direitos sociais, políticos, culturais e econômicos de todos os nossos dias, de toda a nossa história. A eleição deve reiterar, reformar, revolucionar o pacto coletivo em que se expressam a realização de nossos deveres e a necessidade de novas conquistas. Afinal, no melhor da tradição clássica, somos todos políticos, uma vez que são políticas todas as palavras que lançamos no espaço público, na cidade, berço do mundo comum. Numa palavra: tudo é política porque ao agirmos criamos um mundo à nossa imagem e semelhança, pelo qual seremos lembrados e permanentemente cobrados, hoje e sempre.

Para a festa da democracia, que se amplia na consolidação das lutas dos trabalhadores desde o início da modernidade, no curso dos últimos três séculos, todos devem se sentir convidados: votar, discutir, expressar valores, exigir postura ética e respeito pela cidade, pela vida humana. Cobrar decência, transparência, compromisso público, de nós mesmos e de todos aqueles que partilham a mesma realidade.

Na democracia, essa celebração tão jovem e vital para a liberdade e a igualdade entre indivíduos e grupos sociais, graças à qual percebemos nossos sonhos e projetamos nossas vidas por meio de atividades cotidianas em casa e na rua, o exemplo deve ser o de insistir sempre, ainda que fracassos e decepções indiquem o caminho da apatia e da resignação. É do amadurecimento no convívio, entre identidades tão diversas e, por isso mesmo, tão complementares e mutuamente enriquecedoras, que nasce, floresce e se consolida o espírito democrático. Exigente, a democracia tem, sim, seus caprichos, suas sinuosidades. Mas só por meio dela podemos alcançar um mundo que não nos seja alheio, imposto, bruto e sempre tão desigual. Hoje, portanto, é dia de brindarmos o futuro, a esperança, a tomada da história, em mais um belo capítulo da vida brasileira, em nossas próprias mãos. É isso.

26 setembro 2008

Palavra em trilhos


"A Porta", fotografia de Simão Pereira de Magalhães
Voltar a escrever, crônicas, contos, artigos sociológicos, imagens cinematográficas em meu varal literário. Com a palavra escrita, filmo clássicos como se fossem inéditos, originais. Fotografo a própria corrida do tempo. Conduzo-me na estrada de tudo que vi, fiz, pensei, amei. Meu transporte, minha letra vida; meu itinerário, o caminho que leva a grandes obras, fantásticos autores, atores do mundo, sujeitos de tudo. Reinvento a linguagem da sétima arte e consagro a Sociologia como a maior de todas as ciências, a prática do profissional sociólogo. Rendendo homenagens eternas a Florestan, o menino Vicente que virou patrono, rei.

Driblar dificuldades, enfrentar muros de aço: escrever, para mim, tem sido a batalha de todas as guerras; tem sido, para qualquer lado que se possa vislumbrar, o desejo intenso, o martírio pleno. Amar a palavra, cultuar as idéias, saboreá-las, uma a uma, encontrar nisso tudo um pouco de mim mesmo, da minha alma que clama o texto, a dedicação disciplinada, o ardor de ver um mundo de cores e baús, novo, mais meu do que tudo. Uma questão mágica. A palavra seduz todas as minhas táticas de sedução. Escrever, arquétipo da felicidade, síntese da realização pessoal, profissional, humana. Bom, por ser da paz, amante da revolução, não sou guerreiro, não. Sou, sim, na imensidão dessa expressão, guerrilheiro, tal qual Ernesto, cheio de vontade de mudar o mundo. Minha ficção, enfim.
Não esquecer nunca jamais o sentido que a palavra escrita proporcionou a minha vida. Não obstante o tamanho vazio de sua ausência nos últimos tempos, a palavra desenhada em papel, telas virtuais, mais do que sentido, reúne conexões de sentido em mim, em minha cabeça. É como se ela pudesse tecer, alinhavando, a história do que fui, a certeza do que sou, o sonho do que serei. E, seja o que for, serei um militante da palavra, da paz e da senda literária, transcendente. Voltei. É isso.

18 agosto 2008

Vida Despedaçada

Fotografia de Tiago Xavier

Texto entregue hoje para publicação no número 06 da Revista Estação, edição primavera

Diante do espelho, todos os dias, ela buscava os sinais da contradição. Passeava por longas horas em esteiras, levantava pesos, dançava tecno, fazia bicicleta e aqueles aparelhos para enrijecimento muscular e definição de formas. Custava-lhe aceitar que, não obstante tamanha rotina de exercícios e malhação, sua saúde não andava lá aquelas coisas.

Era uma legítima representante da geração saúde, com todos os seus adornos e paradoxos. Caminhava absortamente, vivia mais tempo em academia de corpos do que de almas, amava comer acelgas e beterrabas, beber café descafeinado, ingerir um sem-número de produtos light, diet, sei lá. Ao mesmo tempo, rodeada de pressa e exigências sociomercantis, era obrigada a alimentar-se, dia após dia, de barrinhas de cereais e sanduíches fast food, mascarados por belas doses de suco de uva industrializado e saladas de molho caesar. Os adorados legumes, as rodeladas fatias de peito de peru, a carne branca grelhada, seus verdadeiros sonhos de consumo e saúde, limitavam-se às refeições de final de semana, feriados, raras férias. A corrida do tempo numa era de tanta indeterminação fazia-lhe, literalmente, engolir os excessos de sua própria ditadura. Ou malhava horas a fio nas academias do bairro, ou cuidava do corpo numa outra perspectiva, mais longeva e pertinente, digamos assim.

Ano depois de ano, percebia sérias dificuldades de concentração, idéias fracas, um desestímulo completo de vida. O espelho, malgrado sua bela lâmina de emolduramento, não lhe dizia nunca o que era a abstração “qualidade de vida”. Havia perseguido essa expressão imprecisa por toda a existência. Queria porque queria adotar um estilo de vida cheio de coisas certas, cuidar da estética, valorizar conteúdos com noções bem modernas de paz, alimentação macrobiótica, exercícios físicos regulares, um curso universitário in e uma doutrina para si que expurgasse (out, não?) vícios como café, cigarro, bebidas, alimentos gordurosos, leituras mundanas, ociosidade, papos-cabeça demais. Queria leveza, sentir-se a voar pelo mundo, asséptica, inodora, incolor, inumana, talvez. Chegou a reproduzir na sala de casa um pequeno templo oriental para intermináveis meditações madrugada afora – fenômeno que lhe comprometeu o sono e subseqüentes manhãs vivas e produtivas.

Antes dos 30 - quando deveria ter se tornado uma balzaquiana de inúmeras técnicas de sedução e delírio, inteligente, admirada, portadora da vida no olhar e no andar -, esmagou-se em solidão e tristeza. De tanto desejar a purificação do corpo e a transcendência da alma, perdeu a mão, errou o tom, enfileirou-se em terapias infinitas. Descobriu que não sabia quem era, que não trabalhava num lugar bacana, que não tinha amigos, que seu apartamento era horrível, que seus discos eram insuportáveis, que sua comida era ridícula, que seus livros sempre tinham sido volume em cima de uma mesa vazia, sem história nem projetos. Sua vida, enfim, não havia sido. Existiu em nome de um porvir, de uma modinha cheia de preconceitos e juízos sobre o comportamento alheio. Ela descobriu, então, a realidade por trás do imaginado: alcançara, de uma vez por todas, sozinha, como todos os bons representantes de sua geração, o que era a tão enigmática “qualidade de vida”.

09 agosto 2008

Breve idéia num quase-domingo...

Nenhum personagem histórico me representa mais a reflexão e o vislumbrar o amanhã do que Lenine, lider revolucionário russo, autor do imprescindível "Que fazer?". Em todas as minhas divagações, regressões, paralisações diante do mundo e suas tão chatas circunferências, Lenine é auto-retrato, minha eterna tentativa de forjar um modelo, algo de mim de que possa efetivamente me orgulhar. Lenine é parceiro espiritual de todas as minhas madrugadas, quando, em sonho ou diante da tela do computador, sempre me pergunto: "Que fazer?"

A felicidade, se antes me parecia estado imaginário, agora saboreia minhas certezas no campo do simbólico, com duas travessas, duas imensas pontes ligando algum lugar à caverna do desconhecido. Escrevo, escrevo, escrevo, traço painéis, redesenho minha própria existência. Sinceramente não sei aonde tantas letras poderão me levar. Volto e reencontro, em retorno e novas idas, uma nova introdução à filosofia de Marx. Relaxo por instantes nas tirinhas do velho Wood, leio duas revistas, em movimento, parado. Vejo a vida pela janela e levo muito a sério o gueto de Wacquant. Muito a sério mesmo. Estou escrevendo sobre o Barão de Itararé, sobre a favela Leste-Oeste, sobre a cor do mundo (da lua, quer dizer...), flicts. São três novos posts para este "Espaço". Tomara que ao longo da semana ao menos um venha à luz. Sinto cansaço, penso em ir para a cama, mas tenho medo de meus pesadelos. Imagens insistentes vêm atormentar minhas voluntárias longas - talvez eternas! - férias do prazer. Quero regozijar-me só diante da palavra, e da imagem, e da produção de um novo tanto de mim. Enfim, em mim, para mim. Emancipação.

Feliz dia dos pais, Marco. Em João Gabriel, encontrei de fato todo o meu tesouro!

24 julho 2008

Passos


"A bailarina", fotografia de Antônio Manuel Pinto da Silva

Lentos, seguros
Destinados ao porto-seguro das idéias
Idéias sobre amor e paz
Ações de interação, comunhão
Caminhadas de uma vida

Sonhos insistentes
Certa dor do equívoco assumido
Involuntariamente
Crente em povoar a velha estrada
O reconforto contou mais
Paz e amor
Loucuras transbordantes
Não há notícias do paradeiro

Rápidos, trêmulos
Destino: enorme ponto de interrogação
Idéias confusas, pós-modernas
Ações inócuas
Destemperos da fragilidade humana

Realidade reiterada
Anestedia do peso do concreto
Voluntarismo kosikiano
Escapam-me às trilhas para a estrada
Um lar de incertezas
Paradoxos e idéias turvas
Rotina paralisante
Paradeiro óbvio, lamentável

Roteiros do mundo

"A longa viagem começa com um passo...", fotografia de Pedro Casquilho

Palavras dependem de sentidos
Sentidos proclamam projetos
Projetos aliam-se aos sonhos
Sonhos são estradas
Trechos
Quintais do mundo
Cresci sob luzes de noites intensas
Caminhei à luz do sol em milhares de direções
Vi todos os mundos comporem meu universo
Senti de todas as formas a certeza de que tudo estava por perto
O alheio era a ida que pressupunha a volta
O estrangeiro era bem-vindo
Cada reta, cada curva
À vontade, em casa
Como não há fórmulas para a vida
Reviravoltas, imponderados
Única essência
Palavras se fizeram novas
Sentidos forneceram planos impensados
Projetos foram postergados
Esquecidos
Exilados
Novos mundos se impuseram em meu universo
Cresci já crescido - reaprendi a viver
Caminhei num planeta em miniatura
Todos os mundos de outrora se dissiparam
Não havia ninguém mais por perto
Longe
Outro
Poucas estradas, pura lembrança
Incomodado, incitado a mudar
Encontrei novos edifícios
Novas leituras se aproximaram
Muitas paixões por novas linguagens
Uma visão de mundo enfim se perfazia
Maturidade
Pré-estréia da vida adulta
Li reli tresli
Resumi interpretei adaptei
Partilhei com emoção
Emocionei em muitas partilhas
Horizontes se abriram
Fiz da sociologia a maior de todas as coisas
Das minhas e das de muita gente
Cruzamento de histórias
Amores
Sedução
Encontros, perdas, imaginação sociológica
Hora de preparar o bom retorno
Roteirizar imagens fixas e em descarrilamento
Dar mais abrangência àquilo que é maior que tudo
Escrever contos, crônicas, biografar o mundo
Hora de planejar a partida
Ver o mundo todo outra e de uma vez

15 julho 2008

Contágio Sonoro

Quando ouvimos "Contagious" pela primeira vez, um mundo novo se torna possível diante de nossos múltiplos e secretos sentidos. Ver ganha cor, ouvir ganha tom, perceber a vida ganha doses substantivas de sensibilidade. Na magia despertada por uma obra musical genial, todos crescemos, viramos gente grande. A imperfeição da vida, tão aclamada, se torna objeto de contestação, na completude das dez canções que compõem o álbum eterno do Y & T. Ao ouvirmos "Contagious" pelas vezes seguintes (milhares!), concretiza-se uma indelével certeza: acaba de ser apreciado o provável melhor disco de rock de todos os tempos

Ao longo dos últimos cinqüenta e poucos anos, vários ritmos, centenas de tendências culturais e musicais já reivindicaram para si o rótulo "rock'n'roll". Modinhas de baile, furiazinha de adolescentes de classe média, batuques juvenis, barulhos ensurdecedores e até pancadões de todos os gêneros já se disseram rock, já usaram drogas e consumiram álcool, já se declararam preferência absoluta das garotas mais quentes, belas e entusiasmadas. Há pouco nisso tudo que se possa efetivamente levar a sério.

O verdadeiro rock'n'roll tem predicados que necessitam de arguta observação: as guitarras têm de rasgar compassos, ditando o ritmo, o peso e a marcação certeira da dupla de sustentação do som, baixo e bateria; o frontman - aquele sujeito que fica à frente de todo o mundo conclamando à histeria coletiva a triste e sem graça realidade pequeno-burguesa - deve possuir o indispensável sex appeal, deve convencer, cantar e encantar; o conjunto, enfim, deve ter estilo, energia e repertório único. Paradoxalmente, o bom rock precisa de substantivas pitadas de Stones, Led, Purple...

Hoje em dia, no momento em que a reincidentemente proclamada morte da criatividade roqueira parece condenada a se cumprir (perdoe-me possíveis e temerosos trocadilhos infelizes), reinam absolutos os "revivals" e as coletâneas de toda a sorte, tais quais "the very best of", "the ultimate collection", "the definitive collection" etc. Parece esquecido o tempo dos grandes álbuns, das turnês imensas, das listas de discos considerados clássicos sempre atualizadas, dinamizadas, polemizadas. Nada mais se candidata a superar ninguém. Ninguém mais se candidata a superar nada. Será que a triste inquietação de minha geração - "o rock errou?" - enfim possui sentido, arquibancada no repertório da não-música hegemônica da contemporaneidade? Creio haver exemplos que possam resistir a esse assustador apocalipse sonoro.

Na segunda metade da década de '70, Dave Meniketti juntou alguns amigos e formou o Yesterday and Today, anos depois simplificado para Y & T. Com mudanças pequenas lá e acolá em seu cast (expressãozinha influenciada pelo cinema hollywoodiano...), a banda atravessou as décadas seguintes lançando bons álbuns, conquistando muitos fãs (vitória que não se aplica de modo algum ao público brasileiro), ganhando dinheiro farto na esteira rentabilíssima do hard rock californiano dos anos '80. Não tenho intenção, contudo, de biografar o Y & T agora, não obstante a pertinência de uma história tão rica em tempos de trajetórias coletivas descosturadas, desapercebidas de conteúdo, sinais de talento. Quero, isso sim, falar de um de seus álbuns, o melhor dentre todos (onze ou doze de canções inéditas, aproximadamente), o "Contagious", de 1987.

A discografia do Y & T contém bons petardos musicais. "Black Tiger" (1982) e "Down for the Count" (1985) - este último signatário da estremecedora "Summertime Girls", um ritmo dançante de guitarras e teclados no melhor estilo do hard pop estadunidense no umbral da década de '80 - são estilosos, dissecam um hardão cheio de pulsação e força. Dois discos dos anos '90 - "Musically Incorrect" (1995) e "Endangered Species" (1998) -, época em que o Y & T se esforçou para voltar às paradas de sucesso, às tietagens dos velhos fãs e às graças da indústria fonográfica totalmente em vão, são também poderosos e repletos da marca da banda, energia, peso e muito, muito ritmo hard, com guitarras frenéticas, solos mágicos, marcação e batidas belas e desconcertantes. Todos esses álbuns juntos, numa seleção do que há de melhor em cada um deles, entretanto, não ombreiam com "Contagious", que de tão bom é sinônimo do mais radical e visceral hard rock dos oitenta, seu tempo de apogeu e glória. Digo mais: é provável o fato de "Contagious" ser o álbum de hard rock mais impactante da história, por um simples motivo: suas dez canções são uma melhor que a outra, e todas bastante diferentes entre si. Um verdadeiro mosaico de composições à beira da perfeição.

A faixa de abertura do álbum, que lhe empresta o título de capa, é uma invocação ao festival de todos os sons. Está tudo lá: bela voz, refrão contagiante (entenderam agora o porquê do nome da canção e do disco?!), hey, hey, hey e oooôs, backings sintonizados, guitarras cativantes, bumbos surdos de arena etc.

"L. A. Rocks", a segunda canção de "Contagious", traduz por inteiro o estadunidense ambiente hard dos oitenta, com suntuosos automóveis esportivos e conversíveis, auto-estradas em direção ao paraíso em que residiam as sinuosas curvas das mais desejadas mulheres da já em pleno funcionamento aldeia global - destino no qual também estariam as melhores festas e as inesquecíveis baladas de sexo, bebidas e rock'n'roll. Naquele tempo era saudável demais imaginar o rock como a grande utopia jovem do século XXI.

Em "Temptation", terceira faixa, encontramos uma baladona hard bem típica da época. As guitarras de Dave Meniketti e Joey Alves (que fazia as bases para os geniais solos do frontman guitarrista) produzem uma pequena orquestração para a canção que move de seus lugares os corações incautos. A beleza e a poesia da composição romântica são completadas pelo vocal de Meniketti, que, além de exímio instrumentista, destila no disco um vozeirão de alma e incrível poder de sedução.

"The Kids Goes Crazy", quarta música do álbum, é um folk puxadíssimo, meio presleyiana, meio Van Halen dos primeiros discos. O toque da canção é infinito, numa sucessão de sons e palavras digna daquilo que o rock pode produzir de mais original e, ao mesmo tempo, versátil. As tiradas acústicas já sugeriam a febre dos unpluggeds de uma década mais tarde. A faixa é a mais destoante no conjunto de "Contagious", mas ainda assim é sensacional.

O lado A (do meu velho disco de vinil de 1987, é claro!) termina com "Fight For Your Life", cujo refrão-conclame se assemelha ao poder de hinos das grandes coletividades. Trata-se de uma ode à vida, ao tomar o destino pelas próprias mãos. Guitarras e vocais de Meniketti a pleno vapor, quase à beira de um precipício de sonoridades miraculosas.

O outro lado, o B (sempre tido como espaço das alternativas às alternativas do rock'n'roll), abre com "Armed and Dangerous", quer dizer, mulheres armadas até os dentes para tornar difíceis e perigosas as empreitadas masculinas no mundo do prazer e da felicidade amorosa. Com letra falando de seduções no mundo do rock'n'roll, a canção oferece todo o poder do planeta às mulheres, razão de ser de toda inspiração roqueira. Nos refrães (estranho porém correto, tá?), a voz de Meniketti transborda os limites do conhecido, misturando blues e rock, variando cadências e dando o tom, nas cordas insurretas de sua guitarra, a um ritmo realmente alucinante. A constatação disso tudo logo se evidencia: ainda restam quatro canções pela frente e já se faz tranqüilo afirmar que se está a ouvir o melhor álbum de rock do mundo!

Nas duas músicas seguintes a coisa segue fervendo. A ótima cozinha de "Rythm or Not" (de retaguarda agraciada pelo recém-chegado baterista Jimmy Degrasso, par perfeito do baixista Phil Kenmore, síndico de toda a segurança instrumental da banda) antecipa com extrema categoria os versos pegajosos de "Bodily Harm", de longe a minha dileta em todo o álbum. A canção, cheia de deliciosos oooôs, passeia por nossas cabeças por dias a fio, mesmo quando não estamos ouvindo nada, em momentos de tensão ou presumível concentração do dia-a-dia. Em nenhuma canção de "Contagious" o hard dos '80 se faz tão vigoroso, tão robusto, tão intenso, como em "Bodily Harm", cujo refrão à la grudou-tudo-em-minha-orelha-pra-sempre é dos melhores desse estilo musical (desse estilo de vida!) de tantas histórias, epopéicas e trágicas.

O espetáculo começa dar ares de fim com "Eyes of Stranger", na qual se pode verificar, nos riffs de guitarra da abertura, quase tudo que se produziu em termos de rock pesado nos anos que se seguiram a "Contagious". Em se tratando de heavy metal, por exemplo, tente ouvir qualquer uma das barulheiras contemporâneas e não ouvir em todas elas, melancolicamente, a tentativa inglória de reprodução da atmosfera mágica perpetrada palas guitarras de "Eyes of Stranger". Não fosse trágico, seria engraçadíssimo o negócio...

O decálogo de Y & T em "Contagious" se encerra com a instrumental "I'll cry for you", na qual a verve bluseira de Dave Meniketti e Cia. se perfaz. As subidas e descidas na escalada dos solos de guitarra produzem viagens fascinantes - sem necessidade alguma de mediações externas, frise-se. Basta abrir o coração e os ouvidos que temos a chance de sentir todas as emoções que brindaram o processo de composição de "I'll cry for you", essa belíssima canção.

Já se passaram vinte e um anos desde o lançamento dessa obra-prima musical. Como afirmei, a banda chegou a lançar bons álbuns antes e depois de 1987, mas nada que se possa comparar a "Contagious". Trata-se de uma dessas maravilhas do gênio humano que não se repetem, ainda que não faltem empenho e dedicação para reproduzi-las. "Contagious" parece ter sido gravado por gente tão especial, mas tão especial, que, em meio às galhofas da não-musicalidade atual, até nos faz imaginar que não seja deste mundo, e, sim, de um outro, o qual tanto sonhamos ser possível.

Se você tem o vinil de "Contagious" (como eu), corra e compre o CD (como eu). Se você não tem nem um, nem outro, corra, compre o álbum urgentemente e humanize a trilha sonora da sua vida. A medida é essencial para que saibamos tudo que esta doce realidade tem para nos fazer conhecer. E ouvir. Entusiasmadamente. É isso.

14 julho 2008

Estrangeirismo imaginário

Vista noturna, em primeiro plano em perspectiva, do Edifício Copan, símbolo do arrojo e do capricho da capital paulista em produzir seus sonhos, seus desejos de virtude, seu porvir humano. Na imensidão de seus números e de suas estruturas escondem-se exemplares vivos e dinâmicos de toda a cultura brasileira e mundial, formando o mais belo caleidoscópio urbano do mundo

Nasci, cresci e me constituí sujeito na capital paulista. Quase nunca saí (força de expressão, ok?), em quase 19 anos, da Vila Madalena. Conheci pouco o centro de São Paulo, e também os espaços que preenchem os pontos vários de sua rosa-dos-ventos. O Edifício Copan, hoje, comigo há mais de quinze anos longe de minha cidade natal, representa, pois, todo o protagonismo de meu imaginário em relação à cidade da garoa, capital da América do Sul. Na verdade, sinto-me um estrangeiro a contemplar a oportunidade de estar lá, em seus imensos corredores, em meio a toda a diversidade de gente, de cores, de ritmos que pulsam na vastidão de sua estrutura. Um estrangeirismo imaginário, creio.

A forma sinuosa do Copan, que seu idealizador Niemeyer creditava à sensualidade de seus traços arquitetônicos, ápice do modernismo brasileiro, rivaliza com a concretude fria do centro paulistano, cheio de retas, obviedades, acizentamentos de corpos e almas. No meio de São Paulo, o Copan é uma exceção poética, em estética e ética. A diversidade de seus mais de 2000 moradores, esparramados em 32 andares, por 1160 apartamentos e 6 grandes blocos irmanados, reproduz a idéia de uma São Paulo plural, onde tudo e todos estão em toda a parte, a toda a hora, do modo como interessa a qualquer um encontrar.

Distante do chão da Av. Ipiranga, no centro nevrálgico e pulsante da cidade, uns 115 metros em direção ao céu e alargado em 120 mil metros quadrados de construção, o Copan é símbolo do período de sua concepção, coincidente com o ano do quarto centenário da capital paulista. Inicialmente projetado para fazer parte da Companhia Pan-americana de Hotéis (daí a contração Copan), tornou-se possível, após seqüenciais desistências e falências do dinheiro das amedrontadas e céticas elites paulistanas e estrangeiras que vivem a abocanhar fatias imobiliárias em São Paulo, no momento em que o Bradesco - sempre os bancos! - incorporou ao seu patrimônio o direito de construir o edifício (não mais hotél) e viabilizá-lo para sua inauguração, em 25 de maio de 1966, no meio do país-resistência que se instituía em pleno vapor da ditadura militar, receoso porém urgente, urgentíssimo de seu próprio futuro, de seu amanhã sempre no porvir.
Símbolo da São Paulo que não pára nunca, mas também destinatário das loucuras que massificam e nivelam cada vez mais por baixo as consciências de nosso tempo, o Copan já teve cinema, o legendário Cine Copan, cuja sala hoje é templo de igreja evangélica. No mais, além da cultura atada aos maldizeres da alienação nada gratuita das transcendências ocas da vastidão pós-moderna, no Copan existem mais de 70 estabelecimentos comerciais em seu térreo, que cobrem bancas de jornais e revistas, pizzarias, lanchonetes, lojas e mais lojas de quase tudo, num imenso caleidoscópio de variadas formas de ser, viver, retrato em movimento da cultura brasileira, pop, popular, de massa e cult, arrasadoramente cult, bem paulistana.

Vira e mexe leio nos jornais algo a respeito do velho Copan. Notícias dando conta de depreciação moral, decadência dos valores clássicos da sociedade paulistana etc. Lembro ter lido de um advogado advindo do interior paulista que a vivência no Copan até que não era das piores, mas só poderia ser, para ele, provisória. Ele almejava mais. Sim, num tempo de tantas incertezas, o provisório é nosso único vaticínio duradouro. Não deve fazer a mínima diferença para o jovem garoto do Direito saber que existem filas quilométricas de inquilinos desejosos de morar no Copan, à espera da passagem de muitos meses, às vezes anos, para que consigam uma "vaga" no prédio mais elegante de São Paulo. E olhem que chamo de elegante exatamente por sua imperfeição, suas inconstâncias, sua pluralidade complexa e difícil, tensa.

Tempos atrás andei refletindo sobre a possibilidade de retornar a São Paulo, dar continuidade por lá a minha vida de sociólogo, professor, produtor cultural em cinema e documentário (uma vida de mil projetos, zilhões de sonhos em busca de parcerias). Afinal, trata-se de minha cidade natal, na qual muitas coisas me inspiram saudades. Além disso, é também uma galáxia de oportunidades, o mundo inteiro num só lugar, espaço no qual mais parceiros, loucos e viajantes das artes e das idéias, poderiam cruzar seus caminhos com os meus. Confesso que a reflexão permanece...

De qualquer modo, pensar a vida a partir da imagem estrangeira que em minha consciência representa o velho edifício Copan é um exercício de muito prazer, um suave devaneio contestador. Viver no Copan, ainda que imaginariamente, é sinônimo de liberdade, de estar no centro do mundo, a um passo do paraíso, aquele lugar onírico onde poderemos encontrar todas as pessoas com as quais nos identificamos - e que estarão prontas e dispostas a atravessar com a gente as fronteiras dos próximos desejos. Habitar o Copan, assim como o próprio prédio e sua história, é um portentoso porvir, um vir-a-ser extremamente alucinante. E bom. Deleitante. É isso.

05 julho 2008

E aí, beleza?

Ensaio da banda Chiqueiro Elétrico, em fotograma do filme "Wood & Stock: sexo, orégano e rock'n'roll (2006). - Que som vocês fazem? - BARULHO, PSICODELIA E ROCK'N'ROLL!

Confesso que já assisti a "Wood & Stock: sexo, orégano e rock'n'roll" pelo menos uma meia dúzia de vezes. O longa-metragem da Otto Desenhos Animados, baseado nos quadrinhos do genial Angeli, recupera de modo inteligente o clima "anos oitenta" dos personagens do cartunista paulistano, misturando na tela eternidades como a própria dupla Wood e Stock, a deliciosa Rê Bordosa, os quase-anacrônicos Meia Oito e Nanico e outras excentricidades, como o porco Sunshine, a versão Mick Jagger da psicodelia angeliana, escrevamos assim. O desenho animado inspira saudades da década oitentista, na qual memórias das gerações anteriores ainda eram extremamente bem-vindas.
Aliás, numa época tão sem memória como a atual, é compreensível a pouca repercussão que o filme teve e tem tido entre os mais jovens. Algumas coisas atravessam essa constatação. Primeira. A linguagem, bastante calcada no universo de referências das gerações 60, 70, 80, no mais tardar, produz pouca ou nenhuma atração para a geração 00, nascida nos 90, no final dos 80, e que possui, na melhor das hipóteses, uns 15 anos de história vivida e acumulada (no mundo pós-Nirvana e Kurt Cobain, tudo é rotina eternamente pós-revolucionária: a sensação mais premente e evidente é a de que a História travou). Segunda. Ao exibir umas três ou quatro vezes o filme para meus alunos calouros do ensino superior, percebi que a graça é limitada às suas interpretações da cultura exposta no vídeo; os ídolos, a intertextualidade, os cenários urbanos (como o bar em que Wood, Stock, Sunshine e sua galera enchem a cara) lhes desaparecem quase por completo. Temo imaginar que os garotos e as garotas de hoje tenham alguma (toda!) dificuldade de situar no mapa da humanidade expressões como revolução e rock'n'roll e emblemas culturais como Rolling Stones, Janis Joplin, Led Zepellin, Raul Seixas...
Cartaz de divulgação oficial do filme: um tratado moderno contra a mediocridade pós-moderna
Outras perturbações me afligem, mas é hora de rever, em texto corrido, o que há de melhor no desenho animado, independentemente da aceitação pouco calorosa que a obra tem tido em termos mercadológicos. As performances de Sunshine nos ensaios da banda Chiqueiro Elétrico, bem como sua apresentação no concurso de bandas, são absolutamente antológicas (para não dizer ontológicas). O humor explosivo da sacada refere-se mesmo ao descompromisso musical da geração meia-oito, que produzia e consumia arte como manifestações de conhecer, problematizar, encantar razões e sensações. Estavam todos eles longe da idéia de celebrização que hoje nos acomete, não obstante a deliciosa paranóia de Wood em ganhar milhões de dólares, sair com zilhões de garotas, tocar para multidões e morrer de overdose num quarto qualquer de um hotel do velho mundo - ou, de preferência, asfixiado pelo próprio vômito... Tratava-se, portanto, na música daquelas gerações, de expressar o que todos podiam sentir, encantar o que todos pudessem transmitir. As obliterações vocais de Sunshine nada precisavam externar: na diversidade das gerações que nos antecederam havia sempre algo de universal que nos unia pela conferência do que há em nós de comum: senso de humanidade, desejo de integrar, transformar tudo e todos, a todo o momento.
O conflito de gerações (perdoem-me o lugar-comum) se revela no filme entre pai e filho. Lá, caretas são os mais jovens, incapazes de transbordar o copo de mediocridades da sociedade burguesa, que impele ao consumo e insta o marasmo, o "politicamente correto". Lembro-me, ao ver as discrepâncias entre Wood e seu garoto Over All, da canção de Zé Geraldo, "Promessas de um idiota às seis da manhã": prometo aderir ao sistema, olhar a vitrine, o cartaz do cinema, trocar minhas rugas de preocupação pelo céu de Ipanema... E por aí caminha a ácida crítica do compositor mineiro ao incompreensível conservadorismo das novas gerações, levadas a crer que o correto já está dito, que o bom já está feito, que basta olhar em volta, capturar o que esperam de nós e viver de acordo com os padrões, os procedimentos previamente codificados. A isso, se não me falha a boa Sociologia, devemos chamar massificação, produção ideológica da alienação individual e, por extensão, social. O filme, dirigido por Otto Guerra e roteirizado, sob invejável e múltipla assistência, por Rodrigo John, cai matando nessa pregação, invertendo os papéis socialmente estabelecidos e revelando o profundo mal-estar dos de ontem em se adequarem ao martírio virtual e aniquilador aceito sem resistência pelos de hoje.
Trabalhar, pagar contas, possuir belos eletroeletrônicos e ostentar um diploma superior... Constituir família nuclear, valorizar o aparato ideológico televisivo, contemplar o capitalismo como natural e consumir roupas e afins, nada afins, sei lá. Contra todas essas mesmices (ou daquilo que chamo de mais-do-mesmo) insurge-se o bom filme de Otto Guerra, revivendo tempo que não deveríamos ter esquecido. No intuito de nos convencer da importância da memória histórica e de tudo aquilo que puderam fazer pela liberdade antes de nós, a produção da Otto Desenhos, "Wood & Stock: sexo orégano e rock'nroll" ressuscita até Rê Bordosa, cujo próprio criador matou, amedrontado de não poder vê-la dizer nada aos tempos pós-modernos que monstruosamente nos cercam, prometendo paixões eletrônicas, prazeres desmedidos, o inumano, enfim.
Vale ainda ressaltar o delírio mágico de ouvir Tom Zé emprestando voz a Raulzito e Rê Bordosa ser incorporada, digamos assim, por Rita Lee, que deve ter sido mesmo seu alter ego num passado não muito distante. A trilha sonora do filme é outro tesouro: "Um lugar do caralho", canção do gaúcho Flávio Bassi, o Júpiter Maçã, encerra o filme e abre o CD oficial, ofertando-nos a certeza de que o tempo pode ser cíclico e honroso, como nesse desenho que é a mais bela homenagem à geração meia-oito, aquela que quase mudou o mundo. Comprem o DVD e o CD da trilha. Além de diversão certa, uma aula aos meninos e às meninas de agora sobre aqueles que conquistaram o mundo em que eles vivem, com seus direitos e toda a sua liberdade. É isso.

02 julho 2008

Coluna em Cornélio Procópio

Imagem panorâmica da Cidade de Cornélio Procópio, norte do Paraná. Minha paixão por paisagens urbanas e minha crença de que a vida se faz num curto-circuito pleno, estonteante, que exige de nós a totalização dialética de compreensão de suas andanças e desavenças na e com a História, inspiraram-me no momento de batizar a coluna semanal que mantive por um ano no Jornal A Cidade, lá da bela cidade do povo procopense. A coluna, pois, chamava-se PANORAMA, uma visão "de cima", privilegiada, mas que só se completa com engajamento, com a descida até a vida e a história dos "de baixo", no chão, na lida e na peleja por um mundo justo e fraterno. Foi sobre essa luta que escrevi no jornal norte-paranaense. Creio que foi o laboratório dos meus escritos de hoje, a verdadeira força-motriz deste nosso "Espaço".

Tive meus tempos de jornalista. De fevereiro a outubro de 2004 assinei no Jornal A Cidade, da atraente e aconchegante Cornélio Procópio, a 60 e poucos quilômetros de Londrina (e mais uns 10, aproximadamente, em relação a minha Cambé), a coluna Panorama. Semanal, normalmente aos sábados ou domingos, a depender dos fatos que envolviam a necessidade de "rodar"o jornal, a coluna era livre, destemperada até. Eu escrevia, com total autonomia editorial, sobre tudo, tudo mesmo. De homenagens a procopenses no aniversário de sua cidade e às mulheres no 8 de março, passando por críticas na condução de campanhas publicitárias de cerveja, até chegar ao texto literário, à resenha cinematográfica, esta última, de longe, minha favorita. Escrever sobre cinema, para mim, é reinventar filmes, redesenhar roteiros, reinterpretar papéis. É meu, digamos, hobby dileto no burilar das palavras e das idéias.

Minha relação com Cornélio Procópio se fez por conta de meu trabalho como docente em uma IES lá da cidade. Por um ano, o de 2003, tive a oportunidade de lecionar Sociologia (minha ciência, minha confidente) na cidade e conhecer muita gente bacana. Dessa gente toda despontou Bruci Jordão, meu aluno e proprietário do A Cidade. Foi ele que me ofereceu a graça de ser jornalista na prática, manter uma coluna periódica e fiel - e sobretudo livre, 100% livre. Nunca jamais tive uma palavra censurada, uma linha adulterada. Meus textos, às vezes polêmicos e afrontadores, eram publicados em sua inteireza. Sempre.

Infelizmente, por acréscimo um tanto quanto exagerado em minhas atividades docentes em Londrina e, à época, em Apucarana, tive de deixar Cornélio e, depois, a coluna, da qual sinto muitas saudades.

E para comemorar meu saudoso espírito jornalístico resolvi publicar aqui no "Espaço" alguns dos trinta textos (sim, trinta!) que rechearam a coluna Panorama em 2003, lá na gelada (um vento de danar!) Cornélio Procópio. É evidente que o relançamento, escrevamos assim, desses artigos irá depender da conjuntura e da pertinência: quando calharem com o climão do "Espaço" estarão por aqui. Por ora, lanço abaixo a relação com as datas e os títulos dos textos da extinta coluna Panorama, do muito vivo Jornal A Cidade, que já é, aliás, um charmoso sessentão.

Essa é minha maneira de homenagear Cornélio Procópio e fixá-la, honesta e humildemente, com respeito e muito carinho, em minha memória, na trajetória sempre histórica que é a sucessão dos dias de todos nós. Um viva à vida e ao povo procopense! É isso.

08.02.2004 - Uma raiz forte,uma nova casa
15.02.2004 - Mitos e heróis
18.02.2004 -O carnaval na História
26.02.2004 - O contágio das palavras
07.03.2004 - As mulheres e as minorias
21.03.2004 - Cerveja e ideologia
28.03.2004 - A coragem (homenagem a Carlos Mariguella)
04.04.2004 - Tempo de memória
07.04.2004 - A construção da esperança
25.04.2004 - Direito de escolher e dever de participar
01.05.2004 - Bom descanço
08.05.2004 - Ser esperto ou ser inteligente
16.05.2004 - Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós
26.05.2004 - Seriedade e bom humor
29.05.2004 - Crimes e criminosos
06.06.2004 - Vida cotidiana e pensamento crítico
21.06.2004 - A questão das cotas
27.06.2004 - O tempo não pára
02.07.2004 - A festa da democracia 1
18.07.2004 - A festa da democracia 2
21.07.2004 - A festa da democracia 3
30.07.2004 - Fidelidade e coerência
07.08.2004 - Tempos difíceis ou interessantes?
15.08.2004 - Essa tal felicidade...
22.08.2004 - O sonho olímpico
29.08.2004 - Olga Benário, embaixadora da esperança
15.09.2004 - Contra o triunfalismo, o "já ganhei"
19.09.2004 - Atentados contra a democracia
26.09.2004 - Pânico da TV
10.10.2004 - Um mestre das palavras: saudades de Marcos Rey

27 junho 2008

Totalizando fragmentos - Lira curitibana vol. II

Museu Oscar Niemeyer, homenagem da capital paranaense ao mais longevo comunista brasileiro, portal de coerência e de lições de esperança
Na expressão onírica
a certeza de que se deve prosseguir
de onde se está
Compor e recompor
tudo se necessário for

Ampliar horizontes
nunca jamais reduzi-los
O jantar diante das luzes da cidade
faróis em movimento
verde, vermelho, amarelo
cores de meu destino

Independentemente da estrada
valorizar o retorno é o mais importante
Fixo-me no interior
ainda que móvel e errante pelo mundo
Destaque mesmo é fazer dos pedregulhos sociológicos
o eixo forte de meu existir

A brandura de meu filho
colossal João
angelical Gabriel
insiste em meu peito
pratos à mesa
reverberam pelo globo todos os meus pensamentos

Meu amor dos tempos de faculdade
primeiras aventuras antropológicas
meus mistérios romanescos
madureza, provar comum
vitalidade
não obstante algumas boas chuvas
galácticos estrondos n'alma

E o que difícil prova o impossível?
E o que supostamente fácil encerra verdade, felicidade, veredas estelares?
Melhor o amor forte, que dura
Cumplicidade provada, tensa
União de força viva, liga rara
Momentos
belos, incultos
coragem, insistência no mar do mundo

O céu cinzento de um outono invernal
concentração em quarto de hotel, projetando amanhãs
O corpo gelado, só, saudade sem tamanho da vida inteira

Deslindando sonhos
ouvidos abertos, fé
provocação das próprias idéias
na capital do Paraná

Recolho e reúno meus pedaços
diante da lua
totalizando meus fragmentos, soltos, moídos
Sim, enfim, "I'm ready and willing"
Curitiba, 04.05.2008, o9:59

17 junho 2008

Eu, o livro (homenagem a Frei Betto)

De Frei Betto tenho lido das coisas mais belas de minhas aventuras palavrescas. Confesso que minha vida tomou novo e bom rumo após a leitura emocionada de "Entre todos os homens", romance em que conta de modo profundo e encantador a vida de Jesus, que "de tão humano, só podia mesmo ter sido Deus", como poeticamente expressa Leonardo Boff em epígrafe à obra.
Mas de Frei Betto tenho recebido outras boas novas. Acompanhar seus artigos mensais, quinzenais, semanais, pela imprensa alternativa - como na revista Caros Amigos, no site ADITAL, no semanário Brasil de Fato - enche meus olhos, alimenta meus sentimentos, revigora minhas esperanças num outro mundo possível, fraterno. Dessa lavra dos encantos mais recentes, destaco o pequeno porém belo e provocador (no melhor dos sentidos) "A arte de semear estrelas", livro no qual miúdos contos e breves crônicas recuperam exemplos morais e de vida, saga, persistência, rejuvenescendo e cativando almas - como a minha, por exemplo, diuturnamente... Frei Betto é dos maiores responsáveis pelo meu reencontro com a fé cristã, pela minha habilidade (testada e desafiada a toda a hora) em cruzar a fé que transcende o mundo e a utopia que mundaniza nossas vãs experiências.
O texto que abaixo reproduzo, além de comovente e extremamente criativo (até porque defende o melhor amigo do ser humano, o livro), ressalta um pouco da essência da crítica de Frei Betto, que busca o convencimento pela doçura, e não pelo rancor, pela ácida e fácil (des)crítica. Ler Frei Betto é como encontrar um livro amigo naqueles momentos da vida em que a solidão acredita ter-nos vencido. Sorte nossa é que ela sempre se engana e, ingenuamente, para perder mais e mais, continua tentando, tentando...

Sou muito especial. Minha tecnologia é insuperável. Funciono sem fios, bateria, pilhas ou circuitos eletrônicos. Sou útil até mesmo onde não há energia elétrica. E posso ser usado mesmo por uma criança: basta abrir-me.

Nunca falho, não necessito de manual de instruções, nem de técnicos que me consertem. Dispenso oficinas e ferramentas. Sou isento a vírus, embora figure no cardápio das traças. Se algo em mim o leitor não entende, há um similar que explica todos os meus vocábulos.

Através de mim as pessoas viajam sem sair do lugar. Não é fantástico? Basta abrir-me e posso levá-las a Roma dos Césares ou à Índia dos brâmanes, aos estúdios de Hollywood ou ao Egito dos faraós, ao modo como as baleias cuidam de seus filhos e aos paradoxos dos buracos negros.

Sou feito de papiro, pergaminho, papel, plástico e, hoje, existo até como matéria virtual. Domino todos os ramos do conhecimento humano. E, ao contrário dos seres humanos, jamais esqueço. Se me consultam, elucido dúvidas, respondo indagações, estimulo a reflexão, desperto emoções e idéias.

Posso ensinar qualquer idioma: tupi, grego, chinês ou russo. Até línguas mortas, como o latim. Introduzo as pessoas na meditação zen-budista e nos segredos da culinária mineira, nas partículas subatômicas e na história do automóvel, nas maravilhas dos jardins suspensos da Babilônia e nos hábitos dos escorpiões.

Para utilizar-me, a pessoa escolhe o lugar mais confortável: cama, sofá da sala, tamborete da cozinha, degrau da escada ou banco do ônibus. Trago a ela os poemas de Fernando Pessoa e os salmos da Bíblia; as noções de como operar um monitor de TV e a biografia de John Lennon; as viagens de Marco Pólo e os cálculos da propulsão das naves espaciais.

Trabalho em silêncio, e nunca incomodo ninguém, pois jamais insisto. É o meu leitor que se cansa e, neste caso, pode fechar-me e continuar a leitura horas ou dias depois. Não fujo, não saio do lugar, não abandono quem cuida de mim. Fico ali à espera, em cima de uma mesa ou enfiado numa prateleira, sem alterar o meu humor. Exceto quando sou alvo da cobiça de pessoas sem escrúpulos, que me roubam de meus legítimos donos.

Revelo a quem me procura o que for de seu interesse: como cuidar do jardim ou detalhes da Guerra do Paraguai; a incrível paixão entre Romeu e Julieta ou a atribulada vida amorosa de Elvis Presley; os segredos de fabricação de um bom vinho ou as mil e uma interpretações de As Mil e Uma Noites.

Pode-se estar comigo e, ao mesmo tempo, ouvir música ou viajar de trem, navio ou avião, sem necessidade de pagar a minha passagem. Sou transportável, manipulável e até descartável. Mas costumo enganar a quem confia nas aparências: nem sempre o meu rosto revela o conteúdo.

Sem mim, a humanidade teria perdido a memória. E, possivelmente, não ficaria sabendo que Deus se revelou a ela. Sou portador de epifanias e sonhos, tragédias e esperanças, dores e utopias. E sou também uma obra de arte, dependendo de como os meus autores tecem e bordam as letras que preenchem as minhas páginas.

Livre e lido, sou livro.