22 março 2008

DESPREZO

No finalzinho de 2007, escrevi o roteiro do curta-documentário "Desprezo", um trabalho experimental dos alunos do último ano de Jornalismo da Pitágoras, campus Metropolitana. Como docente responsável pela disciplina Cinema & Documentário, propus aos alunos uma tentativa de produção na linguagem documental, até para que pudessem fugir aos excessos da fala televisiva, da estética padronizada da TV comercial. Bom, o resultado acabou ficando muitíssimo a desejar, não obstante o fato de poucos dias atrás um dos membros da turma ter me entregado uma cópia com arte-final, melhor edição de interpostas e sonoras etc. De todo o modo, só o fato de o documentário (que possui um pouco mais de 20 minutos) conter depoimentos fantásticos de Paulão Rock'n'Roll e Dr. Ricardo Sahão, duas lendas do underground urbano londrinense, já vale o feito, apesar de todos os pesares. A experiência me revelou também que produção em cinema requer muita teorização e empenho, e não pode se fazer simplesmente por vontade, desejo de filmagem de temas e idéias. O cinema, como ensina Benjamin, é revolucionário e só pode ser efetivado por mentalidade e comportamento igualmente revolucionários. Abaixo reproduzo a redação que serviu de off, narrativa para o vídeo. A idéia central era destacar a solidão como o emblema por excelência do desprezo do homem pelo homem no mundo pós-moderno.

O desprezo é antes de mais nada indiferença, invisibilidade, preconceito, adoção de sentimento de superioridade, construção social de arquétipos que inferiorizam o outro, estereótipos que rebaixam o próximo, caricaturas que tornam indistintos e absolutamente indignos os seres humanos, em todas as suas dimensões.

Sugerem os bons dicionários que desprezo pode ser visto também como depreciação, desafeição, desamor, desapego, desapreço, descaso, desconsideração, desdém, desestima, desfavor, desinteresse, desrespeito, desvalorização... Numa palavra, contudo, o desprezo pode ser sintetizado: solidão.

A moderna etimologia da expressão desprezo se encontra muito próxima aos indivíduos de nosso tempo, sós, desamparados, a lidar exclusivamente com suas próprias inconsistências, insatisfações.

O desprezo, nesse sentido, é fonte de injustiças sociais, profissionais, econômicas, políticas, culturais. É algo que só pode existir e se disseminar por meio da cassação das vozes, do rompimento do olhar, do massacre contra os múltiplos sentidos do ser humano. Mais do que paladar, olfato, audição, tato e visão, cada ser humano é também abstração e discernimento. E o desprezo é exatamente o que nos impede de pensar, realizar, ser gente humana. Desprezo, portanto, é silêncio, ausência de coragem de encarar o outro como igual, irmão, parceiro. Desprezo é ódio ao mundo, ao amanhã.

Em meio a tantas práticas sem sentido de consumo e exploração de uma possível superioridade diante dos outros seres vivos e da própria natureza, o homem opta por desprezar por inconseqüência ou por medo. Inconseqüência por não saber quem de fato é: uma simples mônada, um boneco num imenso jogo de marionetes; medo por não se sustentar, ter horror a perder o que tem, ter de partilhar, estender a mão a quem quer que seja. O desprezo é também amor aos refugos e refúgios, às cavernas, ao convívio solipsista com o nada.

O desprezo, no auge de suas facetas de desumanização e produção da alienação social, é, acima de tudo, um meio sempre renovado de acirrar conflitos, alimentar a fome, enriquecer a miséria, proteger a violência, preservar a destruição da Terra e do Homem, seu incauto habitante, portador de ingenuidade, crença inglória no amanhã pelas mãos de seu semelhante.

Desprezo, para não esquecer do vazio do indivíduo pós-moderno, é consumo para pura ostentação, é aplauso à espetacularização, é viva à irrelevância da política... que gela almas, aquece ganâncias, oprime consciências, desnuda corpos, vidas e sonhos.

O desprezo, então – na imagem refletida do espelho de cada um de nós na face iluminada ou de trevas do mundo -, é padronização das formas e domesticação dos conteúdos; é a produção do mais-do-mesmo; é a vitória da distorção ideológica da realidade...

... fetiche...
... inversão...
... ocultação...
... desprezo, enfim!