21 março 2008

Suave é o corpo

Seguindo recomendação de um médico amigo (explicitamente persuasiva e eficaz), resolvi antecipar a retomada do blog, prometida só para o próximo mês de abril. Quando ouvi o bom doutor afirmar que a primeira grande lição de qualidade de vida deve ser a elevação a qualquer custo da auto-estima, decidi mesmo voltar a escrever, fazer aquilo de que mais gosto: burilar idéias, semear letras, contemplar o nascimento de minhas próprias palavras... Espero que a dica seja boa, até porque já estou me sentindo ótimo, pronto para todas as que ainda virão.

Fotografia de A. Brito, 14.02.2008 (www.olhares.com)

Compus para a edição de verão da Revista ESTAÇÃO, a de número três, uma crônica sobre o corpo, ensejando o conjunto possível de sensações que podem ser despertadas pela suavidade das formas femininas. Mais do que uma homenagem ao brilho vivo de todas as mulheres, "Suave é o corpo", a crônica, rende aplausos à paixão amorosa, esse sentimento plenipotenciário e sublime que torna cada um de nós, humanos, um ser possível. Abaixo a íntegra do texto publicado na bela ESTAÇÃO.
A suavidade, vaticinam poetas românticos de quase todas as tendências, é salvação, encanto, vontade de viver, espera tranqüila pelo amanhã. Doçura, toques sutis, falas mansas, textos que despertam prazer, músicas que alteram – elevando – sentidos, controle e explosão de ansiedades: o corpo em síntese.

O corpo é a expressão mais radical do suave, de tudo que se possa perceber deslizar, flanar, voar. É em si mesmo calor e frio, fogueira e gelo, pulsão de vida, medo da morte, verso de amor, crise de ódio: portal do incontido.

A manifestação das tendas e dos segredos da corporeidade humana é divina, anjo louco, mensageira do prazer. O corpo é pluridisciplinar. É matemática, soma, divide, equaliza, comporta formas sofisticadíssimas. É arte, estrondosa intensidade, peso musical, sonoridade de todos os sentidos, freio, aceleração, cor, curva, expressão do impressionante, tensão, sufocamento, faz querer-se mais, muito mais. O corpo é acima de tudo filosofia em estado bruto, inspiração, sedução, transpiração, o não-ser que se torna, realiza sua humanidade na transcendência de todos os delírios. O corpo deve ser sempre – e de alguma maneira – pura perdição.

Tocar, degustar, cheiras, ver, ouvir... o corpo, na reunião dialética de todas as sensações, é transtorno, fome, volúpia, batuque, sussurro, movimento; sua essência é alegórica, prática de ausências, dor da evidência de sua falta, de sua chegada às vezes tardia, no brilho já obtuso da juventude que nos escorre pelas mãos...

Nesses termos, de claridade e trevas, do paradoxo que se reproduz no peito, a suavidade que define o corpo é plena de irracionalidade, exige entrega sem questões e questões sem fundamento. O corpo só se faz em sua ontologia e determinação de si, em si, para si, na agressiva pluma de seus observadores, sedentos, apaixonados, enlouquecidos pela idéia de suavidade.

O corpo e todos os seus apelos de magia só se desgastam, só aniquilam sua terna fragilidade e todo o mistério de suas formas inexplicáveis de atração e desvario, quando são transformados em mercadoria, peças de vitrine, objetos de ganho, gasto, ostentação, misérias d’alma. Para que o corpo se efetive como o mito dos mitos e o segredo de todos os sentidos (humanos e inumanos), ele precisa ser incorpóreo, tenaz e contraditoriamente. O corpo, por não ser objeto de leilão, por não poder mensurar a loucura que é capaz de suscitar, é fantasia, vive n’alma: é estesia, puro êxtase.

Cicatrizar feridas, enterrar tristezas, aproximar corações, brindar e embelezar estações, todas essas prerrogativas do corpo, que permitem ser, ver, viver, sonhar na inquietude das almas desertas, do saber frágil, do cérebro que desdenha de si mesmo, miscigenam o perder-se, o refugiar-se, o exilar-se. O corpo é, pois, componente da autocrítica: quer o amor, mas não o quer só: deseja-o ao lado do profano, da libido, da presença pujante do humano limite da inefável paixão.

Arrepio e delicadeza; poesia e prosa; amor e paixão; palavra e imagem; ser e sonhar; inverno e verão... o corpo é mediação de todas as contradições, ponte, travessia. O corpo, plataforma de prazeres e delírios, são as férias de toda a vida. Nada de obrigações. Só deleite. Pedaço do céu, do mar, da terra.