21 abril 2008

DÉJÀ-VU

"Deja Vu", óleo sobre tela, de Guan Zeju (2005)

por Marco A. Rossi

Memória
fonte do imprevisível
do inaudito
de tudo que possa
surpreender, ocupar a idéia
suscitar o porvir

Notícias de ontem
histórias de sempre
vidas cruzadas
para sempre distantes, agora
para sempre saudosas, viva!

Imagens
lembranças, tons, sons
sentidos, emoções, pulsões de amor

Tudo realmente passou
se foi
se fez
criou tanto
agora é luz
pura reflexividade, instantes para recordar
encantar
entreabrir lábios, fazer sorrir
humanizar

Vida em movimento

11 abril 2008

MIL SÓIS

Publicada na revista ESTAÇÃO número 4, a narrativa abaixo é na verdade uma homenagem à beleza da mulher japonesa, em todos os múltiplos sentidos da idéia do belo. Dos encantos e seduções, da magia das formas e das falas, do jeito de ser, provocar, seduzir. O Japão, que há cem anos está entre nós, erigindo dia a dia um Brasil Oriental, é objeto de minha plena reverência na edição de outono dessa linda revista londrinense. O Japão que nos fez ser mais felizes e dançantes ao nos legar as curvas de sua descendência de toda a luz feminina, puro raio, intensa luz, na sombra e nos sonhos, em todas as nossas fantasias...

Em latim, ori, elemento de composição de múltiplas expressões, designa o surgimento, o nascimento, a origem. Logo, ori contempla a formação da luz, ensaia o início. A mágica palavrinha latina também designa elemento entrecortante da expressão teoria, ou seja, conceito, conhecimento, sabedoria. Ori depõe, pois, em favor de belas sínteses, imprescindíveis palavras para dias de tanto dissabor, tanto desespero e aborrecimento.

Só para cultivar outro mundo de nossa vasta cultura nacional, vale destacar que no candomblé, outra síntese divina de uma de nossas mais belas porções humanas, a africana, ori denota cabeça, simbolizando a inteligência e a individualidade de cada um de nós. Ori, em todas as culturas, reúne a idéia e a prática de tudo que somos, fomos, podemos ser. Origem, conceito, luz, saber.

Nesse sentido, o repto de teorizar as origens e lançar luz sobre o conhecimento que nossos imigrantes japoneses - na obrigatória tarefa de comemorar o centenário de sua presença entre nós - fizeram se somar à complexa trama das culturas brasileiras (no plural, sim, sempre!) desperta, no mínimo, a riqueza implícita em todas as dimensões da palavra ori. Podemos falar de um Brasil oriental – olhe a riqueza de ori demonstrando o espaço do mundo onde antes surge a luz... – na indústria, no comércio e em toda a rede de prestação de serviços: um Brasil de negócios. Há o oriente nacional na cultura gastronômica, na arquitetura urbana, na pesquisa científica e no ensino acadêmico, na religiosidade milenar, na beleza das faces, na delicadeza dos olhares, na exuberância da fragilidade feminina. De todos os impactos que o mundo do sol nascente fez explodir sobre minha vida, a forma única da beleza feminina merece todo o destaque, um exercício agora de memória, boas lembranças, maturidade e fantasia.

A convicção de que a morada dos mistérios femininos era o universo terno das meninas descendentes da cultura japonesa, na rua, na escola, na vida, consolidou-se em mim muito cedo, quando eu despertava para o mundo, para a sua tensa unidade na diversidade. O silêncio inteligente, o caminhar leve, preciso, prudente, a observação lancinante, a provocação sutil, a sedução transcendente... As características das mulheres japonesas, de minhas colegas de escola, faculdade, trabalho, universo, exprimiam todas essas composições, um misto louco e insinuante de fantasias que nunca cessaram e desejos que viviam pululando, tornando minha vida mais feliz, com mais histórias para alimentar, as quais eu pudesse, é claro, narrar, compor, elevar.

Se pela beleza feminina a presença do oriente luz-saber em minha travessia foi determinante e incrível, fabulosa, quase inenarrável, em várias outras histórias do mundo do sol, da terra das teorias sobre todos os elementos da natureza, o relevo não foi menos radical. Minha memória e todas as minhas formas de ser e viver foram sempre atravessadas pela disciplina oriental no estudo, na capacidade incrível de concentração e na vontade de sublimar difíceis leituras; na absolutamente destemida coragem de não se prostrar diante da primeira, da segunda, da terceira dificuldade; na gloriosa coerência entre o desejar e o efetivar (sem falar nos esforços desmedidos para que as coisas sempre pudessem funcionar da melhor maneira possível). Bom, tudo isso sem falar nos meus heróis maiores da infância, Ultraman, Ultraseven, Spectreman... Meus exemplos de ética e postura heróica, despojada, solidária. Todos esses heróis, toda essa coragem, toda essa beleza sedutora e apriorística, aliás, devem, juntos, dizer muita coisa a respeito da forma como o Japão, covardemente atacado pelas bombas nucleares estadunidenses em agosto de 1945, venceu todos os desafios que lhe permitiram chegar, hoje, ao posto de economia pujante, nação de tecnologia vibrante e cativante, cultura de mil sóis, mil sons, mil jeitos de brilhar, encantar – e me permitir relembrar, para melhor me compreender, as fases de minha vida que me compuseram, me ensinaram a sonhar.
Se o gigante vocábulo parcial (porque necessita de antepostos, entrepostos, pospostos) ori representa tão bem o modo como vejo e interpreto a cultura oriental entre nós, brasileiros, a imagem das mulheres dos sóis poéticos, de minha adolescência rica em imagens de sedução e beleza, sintetiza minha idéia de oriente, de luz, de desejo e de conhecimento. É isso.