22 maio 2008

Arena midiática

"Matilha", charge do cartunista paranaense Benett, justamente agraciada com menção honrosa no Salão Carioca do Humor, edição 2008
Texto enviado hoje para publicação na Revista Grafias, produto impresso do Curso de Comunicação Social da Faculdade Pitágoras, Campus Metropolitana (Londrina/PR)

Sabe-se, ao menos desde Marx, que a sociedade capitalista é uma fabulosa fábrica de mercadorias. Para onde quer que se olhe, lá estão elas, imponentes e sedutoras, ostentando promessas de prestígio, bem-estar e felicidade. Num primeiro momento, trabalho humano e “coisas” produzidas para o consumo em escala travaram lutas epopéicas, ressaltando a rebeldia e a insatisfação como emblemas do insurgir do trabalho explorado contra o capital que degrada, humilha e coisifica. Entre o homem e a “coisa”, todas as fichas eram apostadas no homem, é claro. Noutros tempos, contudo.

Tempos andantes, o humano foi convertido em trabalhador “livre”, em produtor de um sem-número de mercadorias de todos os tipos e tamanhos, até efetivamente transformar-se numa delas. No início, no trovão esperado da modernidade, a mais nobre e essencial. Hoje, na chuva ácida da aridez pós-moderna, aquele que se vê obrigado a vender-se como força produtiva efetiva-se como graxa, lubrificante de um sistema que despedaça e desperdiça, sufoca e aniquila. É certo que essa é a própria essência do tempo do capital, mas, de todos os modos, ele nunca se revelou tão impiedoso como em nossos dias.

Com a ampliação da socieadade de consumo – propiciada por conquistas salariais e liberação do tempo de trabalho para o de lazer -, a mídia, portadora das imagens que forçam desejos e sufocam saberes, insistiu que trasladassem à condição de mercadorias também os instantes de repouso e entretenimento das pessoas. Aliada à destituição crescente dos espaços públicos e dos históricos lugares coletivos da política, da arte, do debate em prol do comum, a grande imprensa empresarial passou a exibir a degradação humana como uma das tantas mercadorias de altíssimo potencial lucrativo. E tem, com isso, reiventado suas receitas.

A toda a hora, em todos os veículos possíveis, multiplicam-se os espetáculos da barbárie: bandidos e mocinhos, ídolos e tietes, pessoas do bem e do mal ocupam as galerias da diversão fácil, do grotesco, da pífia “cobertura midiática” da criminalidade e da violência, da corrupção, do desfacelamento público e institucional, moral e social.

Nas publicações e programações da mídia burguesa, da assim chamada imprensa empresarial, a violência – que deveria ser analisada como sintoma da crescente mercantilização da vida e do mundo – surge como desvio de caráter, sinal de covardia, safadeza, maldade, estigmatizando os mais pobres e tornando inviáveis e invisíveis os quereres dos sujeitos das classes subalternas. Não raro, para muito além da factível criminalização dos movimentos sociais e das urgências populares, a mídia burguesa banaliza o mal, misturando e tornando indistintos criminosos, corpos decapitados, policiais romanescos, picolés, promoções do vestuário feminino, vagas de vestibular e aparelhos de telefonia móvel... É o mercado pujante da lógica publicitária nefasta, que se ergue sobre a precarização das almas, da desfiliação absoluta da condição humana.

E lembrar, dia a dia, que costumo ouvir de futuros profissionais (?) dessa arena medieval que a mídia burguesa emancipa consciências e liberta a humanidade. Nosso tempo, enfim.