27 junho 2008

Totalizando fragmentos - Lira curitibana vol. II

Museu Oscar Niemeyer, homenagem da capital paranaense ao mais longevo comunista brasileiro, portal de coerência e de lições de esperança
Na expressão onírica
a certeza de que se deve prosseguir
de onde se está
Compor e recompor
tudo se necessário for

Ampliar horizontes
nunca jamais reduzi-los
O jantar diante das luzes da cidade
faróis em movimento
verde, vermelho, amarelo
cores de meu destino

Independentemente da estrada
valorizar o retorno é o mais importante
Fixo-me no interior
ainda que móvel e errante pelo mundo
Destaque mesmo é fazer dos pedregulhos sociológicos
o eixo forte de meu existir

A brandura de meu filho
colossal João
angelical Gabriel
insiste em meu peito
pratos à mesa
reverberam pelo globo todos os meus pensamentos

Meu amor dos tempos de faculdade
primeiras aventuras antropológicas
meus mistérios romanescos
madureza, provar comum
vitalidade
não obstante algumas boas chuvas
galácticos estrondos n'alma

E o que difícil prova o impossível?
E o que supostamente fácil encerra verdade, felicidade, veredas estelares?
Melhor o amor forte, que dura
Cumplicidade provada, tensa
União de força viva, liga rara
Momentos
belos, incultos
coragem, insistência no mar do mundo

O céu cinzento de um outono invernal
concentração em quarto de hotel, projetando amanhãs
O corpo gelado, só, saudade sem tamanho da vida inteira

Deslindando sonhos
ouvidos abertos, fé
provocação das próprias idéias
na capital do Paraná

Recolho e reúno meus pedaços
diante da lua
totalizando meus fragmentos, soltos, moídos
Sim, enfim, "I'm ready and willing"
Curitiba, 04.05.2008, o9:59

17 junho 2008

Eu, o livro (homenagem a Frei Betto)

De Frei Betto tenho lido das coisas mais belas de minhas aventuras palavrescas. Confesso que minha vida tomou novo e bom rumo após a leitura emocionada de "Entre todos os homens", romance em que conta de modo profundo e encantador a vida de Jesus, que "de tão humano, só podia mesmo ter sido Deus", como poeticamente expressa Leonardo Boff em epígrafe à obra.
Mas de Frei Betto tenho recebido outras boas novas. Acompanhar seus artigos mensais, quinzenais, semanais, pela imprensa alternativa - como na revista Caros Amigos, no site ADITAL, no semanário Brasil de Fato - enche meus olhos, alimenta meus sentimentos, revigora minhas esperanças num outro mundo possível, fraterno. Dessa lavra dos encantos mais recentes, destaco o pequeno porém belo e provocador (no melhor dos sentidos) "A arte de semear estrelas", livro no qual miúdos contos e breves crônicas recuperam exemplos morais e de vida, saga, persistência, rejuvenescendo e cativando almas - como a minha, por exemplo, diuturnamente... Frei Betto é dos maiores responsáveis pelo meu reencontro com a fé cristã, pela minha habilidade (testada e desafiada a toda a hora) em cruzar a fé que transcende o mundo e a utopia que mundaniza nossas vãs experiências.
O texto que abaixo reproduzo, além de comovente e extremamente criativo (até porque defende o melhor amigo do ser humano, o livro), ressalta um pouco da essência da crítica de Frei Betto, que busca o convencimento pela doçura, e não pelo rancor, pela ácida e fácil (des)crítica. Ler Frei Betto é como encontrar um livro amigo naqueles momentos da vida em que a solidão acredita ter-nos vencido. Sorte nossa é que ela sempre se engana e, ingenuamente, para perder mais e mais, continua tentando, tentando...

Sou muito especial. Minha tecnologia é insuperável. Funciono sem fios, bateria, pilhas ou circuitos eletrônicos. Sou útil até mesmo onde não há energia elétrica. E posso ser usado mesmo por uma criança: basta abrir-me.

Nunca falho, não necessito de manual de instruções, nem de técnicos que me consertem. Dispenso oficinas e ferramentas. Sou isento a vírus, embora figure no cardápio das traças. Se algo em mim o leitor não entende, há um similar que explica todos os meus vocábulos.

Através de mim as pessoas viajam sem sair do lugar. Não é fantástico? Basta abrir-me e posso levá-las a Roma dos Césares ou à Índia dos brâmanes, aos estúdios de Hollywood ou ao Egito dos faraós, ao modo como as baleias cuidam de seus filhos e aos paradoxos dos buracos negros.

Sou feito de papiro, pergaminho, papel, plástico e, hoje, existo até como matéria virtual. Domino todos os ramos do conhecimento humano. E, ao contrário dos seres humanos, jamais esqueço. Se me consultam, elucido dúvidas, respondo indagações, estimulo a reflexão, desperto emoções e idéias.

Posso ensinar qualquer idioma: tupi, grego, chinês ou russo. Até línguas mortas, como o latim. Introduzo as pessoas na meditação zen-budista e nos segredos da culinária mineira, nas partículas subatômicas e na história do automóvel, nas maravilhas dos jardins suspensos da Babilônia e nos hábitos dos escorpiões.

Para utilizar-me, a pessoa escolhe o lugar mais confortável: cama, sofá da sala, tamborete da cozinha, degrau da escada ou banco do ônibus. Trago a ela os poemas de Fernando Pessoa e os salmos da Bíblia; as noções de como operar um monitor de TV e a biografia de John Lennon; as viagens de Marco Pólo e os cálculos da propulsão das naves espaciais.

Trabalho em silêncio, e nunca incomodo ninguém, pois jamais insisto. É o meu leitor que se cansa e, neste caso, pode fechar-me e continuar a leitura horas ou dias depois. Não fujo, não saio do lugar, não abandono quem cuida de mim. Fico ali à espera, em cima de uma mesa ou enfiado numa prateleira, sem alterar o meu humor. Exceto quando sou alvo da cobiça de pessoas sem escrúpulos, que me roubam de meus legítimos donos.

Revelo a quem me procura o que for de seu interesse: como cuidar do jardim ou detalhes da Guerra do Paraguai; a incrível paixão entre Romeu e Julieta ou a atribulada vida amorosa de Elvis Presley; os segredos de fabricação de um bom vinho ou as mil e uma interpretações de As Mil e Uma Noites.

Pode-se estar comigo e, ao mesmo tempo, ouvir música ou viajar de trem, navio ou avião, sem necessidade de pagar a minha passagem. Sou transportável, manipulável e até descartável. Mas costumo enganar a quem confia nas aparências: nem sempre o meu rosto revela o conteúdo.

Sem mim, a humanidade teria perdido a memória. E, possivelmente, não ficaria sabendo que Deus se revelou a ela. Sou portador de epifanias e sonhos, tragédias e esperanças, dores e utopias. E sou também uma obra de arte, dependendo de como os meus autores tecem e bordam as letras que preenchem as minhas páginas.

Livre e lido, sou livro.

16 junho 2008

Desconexão


Texto entregue para publicação na Revista Estação n. 05, a sair no início do inverno

Eu sempre a ouvia dizer que tudo aquilo seria para sempre. Os olhares perfurantes, as loucuras diárias da garagem à cama sempre pronta, um locus de trocas amorosas quentes e excitantes. Mesmo quando os dias não eram dos melhores (muito trabalho, aborrecimentos profissionais, chateações domésticas), amávamo-nos como crianças a descobrir novas ilhas, novos paraísos. Era fato: entre nós o toque era pura explosão.

Na tarde do domingo vinte e três do mês seis do ano cinco do século em curso tudo começou a mudar. O frio, embalado a cobertor, TV, revistas frugais e DVDs de cinema comercial, congelou parte de nossa paixão. O problema é que se tratava daquela parte que sublimava tudo: o sexo infinito, a libido-bomba.

A aceitação da acomodação, da rotina, do mais do mesmo, passou a revelar dia-a-dia nossas incompatibilidades, menos materiais, exponencialmente mais comportamentais, culturais. Para além do sexo redentor, livros e discos não batiam; obras, autores, tendências de arte, visões ideológicas de mundo, todo o universo que existia fora da conexão direta de nossos corpos se despedaçou. Irritávamo-nos mutuamente. Eu ironizava seus modismos e escolhas estéticas. Ela mergulhava no exílio meus ideários políticos, meus sonhos de virtude ética.

Dois meses ou menos, tempo mais que suficiente para percebermos os desencontros entre nossas vidas. Bom, havia duas vidas, cada uma de um jeito, jeitos tão próprios e particulares que qualquer entrosamento entre eles não passava jamais de tola intenção, desejo.

Nossos olhos, enfim, se dispersaram. Os meus, se lembro bem, refugiaram-se nos escritos que voltei a cultivar. O amor incondicional à palavra, ao texto redigido com carinho e explícita dedicação, voltava a preencher meus momentos. Quase todos. Dentro e fora de casa, no trabalho de sobreviver e na escrita de viver, tornei-me alvo de críticas ácidas e descabidas, quando não de total invisibilidade – o que, de fato, é pior que todo xingamento que possa haver no mundo. Confesso que a presença dela também se tornou insignificante para mim. Suas roupas, seus looks, seus ímpetos de consumo, sua superficialidade causavam-me horror, certo dano moral. Era como se toda a minha história pessoal fosse então vista como arrependimento, uma total perda de tempo. Uma vida inteira de bandeiras não erguidas, arruinadas.

Se meus Dylans e Zeppelins me pronunciavam um mundo que ficara lá atrás em minha trajetória, suas baladas românticas de duplas sertanejas e octetos pagodeiros (essa gente compõe baladas?) me enxertavam desconforto e descontrole. Eu queria mesmo era que o mundo dela deixase de vir em minha direção, fosse para o último dos dantescos círculos infernais.

A ausência do sexo atemporal que nos reunia em ilusão havia enfim decretado seu veredicto: não éramos idéias em comunhão, não perfilávamos sadiamente no baile de nossos delírios carnais. Avesso disso. Éramos incontidas fusões de carne sem alma nem idéias. A síntese que havíamos ingenuamente elaborado transbordava toques e descobertas estéticas, mas desfalecia, já em sua gênese, por compor um pacto de formas sem conteúdo. Fomos sempre um imenso e triste vazio ético. Sexo sem pudor. Amor sem encanto. Na linguagem viva da não-palavra pós-moderna, éramos e seremos sempre um registro virtual, um porvir que jamais teria sido. E cheio de efeitos especiais.