16 junho 2008

Desconexão


Texto entregue para publicação na Revista Estação n. 05, a sair no início do inverno

Eu sempre a ouvia dizer que tudo aquilo seria para sempre. Os olhares perfurantes, as loucuras diárias da garagem à cama sempre pronta, um locus de trocas amorosas quentes e excitantes. Mesmo quando os dias não eram dos melhores (muito trabalho, aborrecimentos profissionais, chateações domésticas), amávamo-nos como crianças a descobrir novas ilhas, novos paraísos. Era fato: entre nós o toque era pura explosão.

Na tarde do domingo vinte e três do mês seis do ano cinco do século em curso tudo começou a mudar. O frio, embalado a cobertor, TV, revistas frugais e DVDs de cinema comercial, congelou parte de nossa paixão. O problema é que se tratava daquela parte que sublimava tudo: o sexo infinito, a libido-bomba.

A aceitação da acomodação, da rotina, do mais do mesmo, passou a revelar dia-a-dia nossas incompatibilidades, menos materiais, exponencialmente mais comportamentais, culturais. Para além do sexo redentor, livros e discos não batiam; obras, autores, tendências de arte, visões ideológicas de mundo, todo o universo que existia fora da conexão direta de nossos corpos se despedaçou. Irritávamo-nos mutuamente. Eu ironizava seus modismos e escolhas estéticas. Ela mergulhava no exílio meus ideários políticos, meus sonhos de virtude ética.

Dois meses ou menos, tempo mais que suficiente para percebermos os desencontros entre nossas vidas. Bom, havia duas vidas, cada uma de um jeito, jeitos tão próprios e particulares que qualquer entrosamento entre eles não passava jamais de tola intenção, desejo.

Nossos olhos, enfim, se dispersaram. Os meus, se lembro bem, refugiaram-se nos escritos que voltei a cultivar. O amor incondicional à palavra, ao texto redigido com carinho e explícita dedicação, voltava a preencher meus momentos. Quase todos. Dentro e fora de casa, no trabalho de sobreviver e na escrita de viver, tornei-me alvo de críticas ácidas e descabidas, quando não de total invisibilidade – o que, de fato, é pior que todo xingamento que possa haver no mundo. Confesso que a presença dela também se tornou insignificante para mim. Suas roupas, seus looks, seus ímpetos de consumo, sua superficialidade causavam-me horror, certo dano moral. Era como se toda a minha história pessoal fosse então vista como arrependimento, uma total perda de tempo. Uma vida inteira de bandeiras não erguidas, arruinadas.

Se meus Dylans e Zeppelins me pronunciavam um mundo que ficara lá atrás em minha trajetória, suas baladas românticas de duplas sertanejas e octetos pagodeiros (essa gente compõe baladas?) me enxertavam desconforto e descontrole. Eu queria mesmo era que o mundo dela deixase de vir em minha direção, fosse para o último dos dantescos círculos infernais.

A ausência do sexo atemporal que nos reunia em ilusão havia enfim decretado seu veredicto: não éramos idéias em comunhão, não perfilávamos sadiamente no baile de nossos delírios carnais. Avesso disso. Éramos incontidas fusões de carne sem alma nem idéias. A síntese que havíamos ingenuamente elaborado transbordava toques e descobertas estéticas, mas desfalecia, já em sua gênese, por compor um pacto de formas sem conteúdo. Fomos sempre um imenso e triste vazio ético. Sexo sem pudor. Amor sem encanto. Na linguagem viva da não-palavra pós-moderna, éramos e seremos sempre um registro virtual, um porvir que jamais teria sido. E cheio de efeitos especiais.