17 junho 2008

Eu, o livro (homenagem a Frei Betto)

De Frei Betto tenho lido das coisas mais belas de minhas aventuras palavrescas. Confesso que minha vida tomou novo e bom rumo após a leitura emocionada de "Entre todos os homens", romance em que conta de modo profundo e encantador a vida de Jesus, que "de tão humano, só podia mesmo ter sido Deus", como poeticamente expressa Leonardo Boff em epígrafe à obra.
Mas de Frei Betto tenho recebido outras boas novas. Acompanhar seus artigos mensais, quinzenais, semanais, pela imprensa alternativa - como na revista Caros Amigos, no site ADITAL, no semanário Brasil de Fato - enche meus olhos, alimenta meus sentimentos, revigora minhas esperanças num outro mundo possível, fraterno. Dessa lavra dos encantos mais recentes, destaco o pequeno porém belo e provocador (no melhor dos sentidos) "A arte de semear estrelas", livro no qual miúdos contos e breves crônicas recuperam exemplos morais e de vida, saga, persistência, rejuvenescendo e cativando almas - como a minha, por exemplo, diuturnamente... Frei Betto é dos maiores responsáveis pelo meu reencontro com a fé cristã, pela minha habilidade (testada e desafiada a toda a hora) em cruzar a fé que transcende o mundo e a utopia que mundaniza nossas vãs experiências.
O texto que abaixo reproduzo, além de comovente e extremamente criativo (até porque defende o melhor amigo do ser humano, o livro), ressalta um pouco da essência da crítica de Frei Betto, que busca o convencimento pela doçura, e não pelo rancor, pela ácida e fácil (des)crítica. Ler Frei Betto é como encontrar um livro amigo naqueles momentos da vida em que a solidão acredita ter-nos vencido. Sorte nossa é que ela sempre se engana e, ingenuamente, para perder mais e mais, continua tentando, tentando...

Sou muito especial. Minha tecnologia é insuperável. Funciono sem fios, bateria, pilhas ou circuitos eletrônicos. Sou útil até mesmo onde não há energia elétrica. E posso ser usado mesmo por uma criança: basta abrir-me.

Nunca falho, não necessito de manual de instruções, nem de técnicos que me consertem. Dispenso oficinas e ferramentas. Sou isento a vírus, embora figure no cardápio das traças. Se algo em mim o leitor não entende, há um similar que explica todos os meus vocábulos.

Através de mim as pessoas viajam sem sair do lugar. Não é fantástico? Basta abrir-me e posso levá-las a Roma dos Césares ou à Índia dos brâmanes, aos estúdios de Hollywood ou ao Egito dos faraós, ao modo como as baleias cuidam de seus filhos e aos paradoxos dos buracos negros.

Sou feito de papiro, pergaminho, papel, plástico e, hoje, existo até como matéria virtual. Domino todos os ramos do conhecimento humano. E, ao contrário dos seres humanos, jamais esqueço. Se me consultam, elucido dúvidas, respondo indagações, estimulo a reflexão, desperto emoções e idéias.

Posso ensinar qualquer idioma: tupi, grego, chinês ou russo. Até línguas mortas, como o latim. Introduzo as pessoas na meditação zen-budista e nos segredos da culinária mineira, nas partículas subatômicas e na história do automóvel, nas maravilhas dos jardins suspensos da Babilônia e nos hábitos dos escorpiões.

Para utilizar-me, a pessoa escolhe o lugar mais confortável: cama, sofá da sala, tamborete da cozinha, degrau da escada ou banco do ônibus. Trago a ela os poemas de Fernando Pessoa e os salmos da Bíblia; as noções de como operar um monitor de TV e a biografia de John Lennon; as viagens de Marco Pólo e os cálculos da propulsão das naves espaciais.

Trabalho em silêncio, e nunca incomodo ninguém, pois jamais insisto. É o meu leitor que se cansa e, neste caso, pode fechar-me e continuar a leitura horas ou dias depois. Não fujo, não saio do lugar, não abandono quem cuida de mim. Fico ali à espera, em cima de uma mesa ou enfiado numa prateleira, sem alterar o meu humor. Exceto quando sou alvo da cobiça de pessoas sem escrúpulos, que me roubam de meus legítimos donos.

Revelo a quem me procura o que for de seu interesse: como cuidar do jardim ou detalhes da Guerra do Paraguai; a incrível paixão entre Romeu e Julieta ou a atribulada vida amorosa de Elvis Presley; os segredos de fabricação de um bom vinho ou as mil e uma interpretações de As Mil e Uma Noites.

Pode-se estar comigo e, ao mesmo tempo, ouvir música ou viajar de trem, navio ou avião, sem necessidade de pagar a minha passagem. Sou transportável, manipulável e até descartável. Mas costumo enganar a quem confia nas aparências: nem sempre o meu rosto revela o conteúdo.

Sem mim, a humanidade teria perdido a memória. E, possivelmente, não ficaria sabendo que Deus se revelou a ela. Sou portador de epifanias e sonhos, tragédias e esperanças, dores e utopias. E sou também uma obra de arte, dependendo de como os meus autores tecem e bordam as letras que preenchem as minhas páginas.

Livre e lido, sou livro.