24 julho 2008

Passos


"A bailarina", fotografia de Antônio Manuel Pinto da Silva

Lentos, seguros
Destinados ao porto-seguro das idéias
Idéias sobre amor e paz
Ações de interação, comunhão
Caminhadas de uma vida

Sonhos insistentes
Certa dor do equívoco assumido
Involuntariamente
Crente em povoar a velha estrada
O reconforto contou mais
Paz e amor
Loucuras transbordantes
Não há notícias do paradeiro

Rápidos, trêmulos
Destino: enorme ponto de interrogação
Idéias confusas, pós-modernas
Ações inócuas
Destemperos da fragilidade humana

Realidade reiterada
Anestedia do peso do concreto
Voluntarismo kosikiano
Escapam-me às trilhas para a estrada
Um lar de incertezas
Paradoxos e idéias turvas
Rotina paralisante
Paradeiro óbvio, lamentável

Roteiros do mundo

"A longa viagem começa com um passo...", fotografia de Pedro Casquilho

Palavras dependem de sentidos
Sentidos proclamam projetos
Projetos aliam-se aos sonhos
Sonhos são estradas
Trechos
Quintais do mundo
Cresci sob luzes de noites intensas
Caminhei à luz do sol em milhares de direções
Vi todos os mundos comporem meu universo
Senti de todas as formas a certeza de que tudo estava por perto
O alheio era a ida que pressupunha a volta
O estrangeiro era bem-vindo
Cada reta, cada curva
À vontade, em casa
Como não há fórmulas para a vida
Reviravoltas, imponderados
Única essência
Palavras se fizeram novas
Sentidos forneceram planos impensados
Projetos foram postergados
Esquecidos
Exilados
Novos mundos se impuseram em meu universo
Cresci já crescido - reaprendi a viver
Caminhei num planeta em miniatura
Todos os mundos de outrora se dissiparam
Não havia ninguém mais por perto
Longe
Outro
Poucas estradas, pura lembrança
Incomodado, incitado a mudar
Encontrei novos edifícios
Novas leituras se aproximaram
Muitas paixões por novas linguagens
Uma visão de mundo enfim se perfazia
Maturidade
Pré-estréia da vida adulta
Li reli tresli
Resumi interpretei adaptei
Partilhei com emoção
Emocionei em muitas partilhas
Horizontes se abriram
Fiz da sociologia a maior de todas as coisas
Das minhas e das de muita gente
Cruzamento de histórias
Amores
Sedução
Encontros, perdas, imaginação sociológica
Hora de preparar o bom retorno
Roteirizar imagens fixas e em descarrilamento
Dar mais abrangência àquilo que é maior que tudo
Escrever contos, crônicas, biografar o mundo
Hora de planejar a partida
Ver o mundo todo outra e de uma vez

15 julho 2008

Contágio Sonoro

Quando ouvimos "Contagious" pela primeira vez, um mundo novo se torna possível diante de nossos múltiplos e secretos sentidos. Ver ganha cor, ouvir ganha tom, perceber a vida ganha doses substantivas de sensibilidade. Na magia despertada por uma obra musical genial, todos crescemos, viramos gente grande. A imperfeição da vida, tão aclamada, se torna objeto de contestação, na completude das dez canções que compõem o álbum eterno do Y & T. Ao ouvirmos "Contagious" pelas vezes seguintes (milhares!), concretiza-se uma indelével certeza: acaba de ser apreciado o provável melhor disco de rock de todos os tempos

Ao longo dos últimos cinqüenta e poucos anos, vários ritmos, centenas de tendências culturais e musicais já reivindicaram para si o rótulo "rock'n'roll". Modinhas de baile, furiazinha de adolescentes de classe média, batuques juvenis, barulhos ensurdecedores e até pancadões de todos os gêneros já se disseram rock, já usaram drogas e consumiram álcool, já se declararam preferência absoluta das garotas mais quentes, belas e entusiasmadas. Há pouco nisso tudo que se possa efetivamente levar a sério.

O verdadeiro rock'n'roll tem predicados que necessitam de arguta observação: as guitarras têm de rasgar compassos, ditando o ritmo, o peso e a marcação certeira da dupla de sustentação do som, baixo e bateria; o frontman - aquele sujeito que fica à frente de todo o mundo conclamando à histeria coletiva a triste e sem graça realidade pequeno-burguesa - deve possuir o indispensável sex appeal, deve convencer, cantar e encantar; o conjunto, enfim, deve ter estilo, energia e repertório único. Paradoxalmente, o bom rock precisa de substantivas pitadas de Stones, Led, Purple...

Hoje em dia, no momento em que a reincidentemente proclamada morte da criatividade roqueira parece condenada a se cumprir (perdoe-me possíveis e temerosos trocadilhos infelizes), reinam absolutos os "revivals" e as coletâneas de toda a sorte, tais quais "the very best of", "the ultimate collection", "the definitive collection" etc. Parece esquecido o tempo dos grandes álbuns, das turnês imensas, das listas de discos considerados clássicos sempre atualizadas, dinamizadas, polemizadas. Nada mais se candidata a superar ninguém. Ninguém mais se candidata a superar nada. Será que a triste inquietação de minha geração - "o rock errou?" - enfim possui sentido, arquibancada no repertório da não-música hegemônica da contemporaneidade? Creio haver exemplos que possam resistir a esse assustador apocalipse sonoro.

Na segunda metade da década de '70, Dave Meniketti juntou alguns amigos e formou o Yesterday and Today, anos depois simplificado para Y & T. Com mudanças pequenas lá e acolá em seu cast (expressãozinha influenciada pelo cinema hollywoodiano...), a banda atravessou as décadas seguintes lançando bons álbuns, conquistando muitos fãs (vitória que não se aplica de modo algum ao público brasileiro), ganhando dinheiro farto na esteira rentabilíssima do hard rock californiano dos anos '80. Não tenho intenção, contudo, de biografar o Y & T agora, não obstante a pertinência de uma história tão rica em tempos de trajetórias coletivas descosturadas, desapercebidas de conteúdo, sinais de talento. Quero, isso sim, falar de um de seus álbuns, o melhor dentre todos (onze ou doze de canções inéditas, aproximadamente), o "Contagious", de 1987.

A discografia do Y & T contém bons petardos musicais. "Black Tiger" (1982) e "Down for the Count" (1985) - este último signatário da estremecedora "Summertime Girls", um ritmo dançante de guitarras e teclados no melhor estilo do hard pop estadunidense no umbral da década de '80 - são estilosos, dissecam um hardão cheio de pulsação e força. Dois discos dos anos '90 - "Musically Incorrect" (1995) e "Endangered Species" (1998) -, época em que o Y & T se esforçou para voltar às paradas de sucesso, às tietagens dos velhos fãs e às graças da indústria fonográfica totalmente em vão, são também poderosos e repletos da marca da banda, energia, peso e muito, muito ritmo hard, com guitarras frenéticas, solos mágicos, marcação e batidas belas e desconcertantes. Todos esses álbuns juntos, numa seleção do que há de melhor em cada um deles, entretanto, não ombreiam com "Contagious", que de tão bom é sinônimo do mais radical e visceral hard rock dos oitenta, seu tempo de apogeu e glória. Digo mais: é provável o fato de "Contagious" ser o álbum de hard rock mais impactante da história, por um simples motivo: suas dez canções são uma melhor que a outra, e todas bastante diferentes entre si. Um verdadeiro mosaico de composições à beira da perfeição.

A faixa de abertura do álbum, que lhe empresta o título de capa, é uma invocação ao festival de todos os sons. Está tudo lá: bela voz, refrão contagiante (entenderam agora o porquê do nome da canção e do disco?!), hey, hey, hey e oooôs, backings sintonizados, guitarras cativantes, bumbos surdos de arena etc.

"L. A. Rocks", a segunda canção de "Contagious", traduz por inteiro o estadunidense ambiente hard dos oitenta, com suntuosos automóveis esportivos e conversíveis, auto-estradas em direção ao paraíso em que residiam as sinuosas curvas das mais desejadas mulheres da já em pleno funcionamento aldeia global - destino no qual também estariam as melhores festas e as inesquecíveis baladas de sexo, bebidas e rock'n'roll. Naquele tempo era saudável demais imaginar o rock como a grande utopia jovem do século XXI.

Em "Temptation", terceira faixa, encontramos uma baladona hard bem típica da época. As guitarras de Dave Meniketti e Joey Alves (que fazia as bases para os geniais solos do frontman guitarrista) produzem uma pequena orquestração para a canção que move de seus lugares os corações incautos. A beleza e a poesia da composição romântica são completadas pelo vocal de Meniketti, que, além de exímio instrumentista, destila no disco um vozeirão de alma e incrível poder de sedução.

"The Kids Goes Crazy", quarta música do álbum, é um folk puxadíssimo, meio presleyiana, meio Van Halen dos primeiros discos. O toque da canção é infinito, numa sucessão de sons e palavras digna daquilo que o rock pode produzir de mais original e, ao mesmo tempo, versátil. As tiradas acústicas já sugeriam a febre dos unpluggeds de uma década mais tarde. A faixa é a mais destoante no conjunto de "Contagious", mas ainda assim é sensacional.

O lado A (do meu velho disco de vinil de 1987, é claro!) termina com "Fight For Your Life", cujo refrão-conclame se assemelha ao poder de hinos das grandes coletividades. Trata-se de uma ode à vida, ao tomar o destino pelas próprias mãos. Guitarras e vocais de Meniketti a pleno vapor, quase à beira de um precipício de sonoridades miraculosas.

O outro lado, o B (sempre tido como espaço das alternativas às alternativas do rock'n'roll), abre com "Armed and Dangerous", quer dizer, mulheres armadas até os dentes para tornar difíceis e perigosas as empreitadas masculinas no mundo do prazer e da felicidade amorosa. Com letra falando de seduções no mundo do rock'n'roll, a canção oferece todo o poder do planeta às mulheres, razão de ser de toda inspiração roqueira. Nos refrães (estranho porém correto, tá?), a voz de Meniketti transborda os limites do conhecido, misturando blues e rock, variando cadências e dando o tom, nas cordas insurretas de sua guitarra, a um ritmo realmente alucinante. A constatação disso tudo logo se evidencia: ainda restam quatro canções pela frente e já se faz tranqüilo afirmar que se está a ouvir o melhor álbum de rock do mundo!

Nas duas músicas seguintes a coisa segue fervendo. A ótima cozinha de "Rythm or Not" (de retaguarda agraciada pelo recém-chegado baterista Jimmy Degrasso, par perfeito do baixista Phil Kenmore, síndico de toda a segurança instrumental da banda) antecipa com extrema categoria os versos pegajosos de "Bodily Harm", de longe a minha dileta em todo o álbum. A canção, cheia de deliciosos oooôs, passeia por nossas cabeças por dias a fio, mesmo quando não estamos ouvindo nada, em momentos de tensão ou presumível concentração do dia-a-dia. Em nenhuma canção de "Contagious" o hard dos '80 se faz tão vigoroso, tão robusto, tão intenso, como em "Bodily Harm", cujo refrão à la grudou-tudo-em-minha-orelha-pra-sempre é dos melhores desse estilo musical (desse estilo de vida!) de tantas histórias, epopéicas e trágicas.

O espetáculo começa dar ares de fim com "Eyes of Stranger", na qual se pode verificar, nos riffs de guitarra da abertura, quase tudo que se produziu em termos de rock pesado nos anos que se seguiram a "Contagious". Em se tratando de heavy metal, por exemplo, tente ouvir qualquer uma das barulheiras contemporâneas e não ouvir em todas elas, melancolicamente, a tentativa inglória de reprodução da atmosfera mágica perpetrada palas guitarras de "Eyes of Stranger". Não fosse trágico, seria engraçadíssimo o negócio...

O decálogo de Y & T em "Contagious" se encerra com a instrumental "I'll cry for you", na qual a verve bluseira de Dave Meniketti e Cia. se perfaz. As subidas e descidas na escalada dos solos de guitarra produzem viagens fascinantes - sem necessidade alguma de mediações externas, frise-se. Basta abrir o coração e os ouvidos que temos a chance de sentir todas as emoções que brindaram o processo de composição de "I'll cry for you", essa belíssima canção.

Já se passaram vinte e um anos desde o lançamento dessa obra-prima musical. Como afirmei, a banda chegou a lançar bons álbuns antes e depois de 1987, mas nada que se possa comparar a "Contagious". Trata-se de uma dessas maravilhas do gênio humano que não se repetem, ainda que não faltem empenho e dedicação para reproduzi-las. "Contagious" parece ter sido gravado por gente tão especial, mas tão especial, que, em meio às galhofas da não-musicalidade atual, até nos faz imaginar que não seja deste mundo, e, sim, de um outro, o qual tanto sonhamos ser possível.

Se você tem o vinil de "Contagious" (como eu), corra e compre o CD (como eu). Se você não tem nem um, nem outro, corra, compre o álbum urgentemente e humanize a trilha sonora da sua vida. A medida é essencial para que saibamos tudo que esta doce realidade tem para nos fazer conhecer. E ouvir. Entusiasmadamente. É isso.

14 julho 2008

Estrangeirismo imaginário

Vista noturna, em primeiro plano em perspectiva, do Edifício Copan, símbolo do arrojo e do capricho da capital paulista em produzir seus sonhos, seus desejos de virtude, seu porvir humano. Na imensidão de seus números e de suas estruturas escondem-se exemplares vivos e dinâmicos de toda a cultura brasileira e mundial, formando o mais belo caleidoscópio urbano do mundo

Nasci, cresci e me constituí sujeito na capital paulista. Quase nunca saí (força de expressão, ok?), em quase 19 anos, da Vila Madalena. Conheci pouco o centro de São Paulo, e também os espaços que preenchem os pontos vários de sua rosa-dos-ventos. O Edifício Copan, hoje, comigo há mais de quinze anos longe de minha cidade natal, representa, pois, todo o protagonismo de meu imaginário em relação à cidade da garoa, capital da América do Sul. Na verdade, sinto-me um estrangeiro a contemplar a oportunidade de estar lá, em seus imensos corredores, em meio a toda a diversidade de gente, de cores, de ritmos que pulsam na vastidão de sua estrutura. Um estrangeirismo imaginário, creio.

A forma sinuosa do Copan, que seu idealizador Niemeyer creditava à sensualidade de seus traços arquitetônicos, ápice do modernismo brasileiro, rivaliza com a concretude fria do centro paulistano, cheio de retas, obviedades, acizentamentos de corpos e almas. No meio de São Paulo, o Copan é uma exceção poética, em estética e ética. A diversidade de seus mais de 2000 moradores, esparramados em 32 andares, por 1160 apartamentos e 6 grandes blocos irmanados, reproduz a idéia de uma São Paulo plural, onde tudo e todos estão em toda a parte, a toda a hora, do modo como interessa a qualquer um encontrar.

Distante do chão da Av. Ipiranga, no centro nevrálgico e pulsante da cidade, uns 115 metros em direção ao céu e alargado em 120 mil metros quadrados de construção, o Copan é símbolo do período de sua concepção, coincidente com o ano do quarto centenário da capital paulista. Inicialmente projetado para fazer parte da Companhia Pan-americana de Hotéis (daí a contração Copan), tornou-se possível, após seqüenciais desistências e falências do dinheiro das amedrontadas e céticas elites paulistanas e estrangeiras que vivem a abocanhar fatias imobiliárias em São Paulo, no momento em que o Bradesco - sempre os bancos! - incorporou ao seu patrimônio o direito de construir o edifício (não mais hotél) e viabilizá-lo para sua inauguração, em 25 de maio de 1966, no meio do país-resistência que se instituía em pleno vapor da ditadura militar, receoso porém urgente, urgentíssimo de seu próprio futuro, de seu amanhã sempre no porvir.
Símbolo da São Paulo que não pára nunca, mas também destinatário das loucuras que massificam e nivelam cada vez mais por baixo as consciências de nosso tempo, o Copan já teve cinema, o legendário Cine Copan, cuja sala hoje é templo de igreja evangélica. No mais, além da cultura atada aos maldizeres da alienação nada gratuita das transcendências ocas da vastidão pós-moderna, no Copan existem mais de 70 estabelecimentos comerciais em seu térreo, que cobrem bancas de jornais e revistas, pizzarias, lanchonetes, lojas e mais lojas de quase tudo, num imenso caleidoscópio de variadas formas de ser, viver, retrato em movimento da cultura brasileira, pop, popular, de massa e cult, arrasadoramente cult, bem paulistana.

Vira e mexe leio nos jornais algo a respeito do velho Copan. Notícias dando conta de depreciação moral, decadência dos valores clássicos da sociedade paulistana etc. Lembro ter lido de um advogado advindo do interior paulista que a vivência no Copan até que não era das piores, mas só poderia ser, para ele, provisória. Ele almejava mais. Sim, num tempo de tantas incertezas, o provisório é nosso único vaticínio duradouro. Não deve fazer a mínima diferença para o jovem garoto do Direito saber que existem filas quilométricas de inquilinos desejosos de morar no Copan, à espera da passagem de muitos meses, às vezes anos, para que consigam uma "vaga" no prédio mais elegante de São Paulo. E olhem que chamo de elegante exatamente por sua imperfeição, suas inconstâncias, sua pluralidade complexa e difícil, tensa.

Tempos atrás andei refletindo sobre a possibilidade de retornar a São Paulo, dar continuidade por lá a minha vida de sociólogo, professor, produtor cultural em cinema e documentário (uma vida de mil projetos, zilhões de sonhos em busca de parcerias). Afinal, trata-se de minha cidade natal, na qual muitas coisas me inspiram saudades. Além disso, é também uma galáxia de oportunidades, o mundo inteiro num só lugar, espaço no qual mais parceiros, loucos e viajantes das artes e das idéias, poderiam cruzar seus caminhos com os meus. Confesso que a reflexão permanece...

De qualquer modo, pensar a vida a partir da imagem estrangeira que em minha consciência representa o velho edifício Copan é um exercício de muito prazer, um suave devaneio contestador. Viver no Copan, ainda que imaginariamente, é sinônimo de liberdade, de estar no centro do mundo, a um passo do paraíso, aquele lugar onírico onde poderemos encontrar todas as pessoas com as quais nos identificamos - e que estarão prontas e dispostas a atravessar com a gente as fronteiras dos próximos desejos. Habitar o Copan, assim como o próprio prédio e sua história, é um portentoso porvir, um vir-a-ser extremamente alucinante. E bom. Deleitante. É isso.

05 julho 2008

E aí, beleza?

Ensaio da banda Chiqueiro Elétrico, em fotograma do filme "Wood & Stock: sexo, orégano e rock'n'roll (2006). - Que som vocês fazem? - BARULHO, PSICODELIA E ROCK'N'ROLL!

Confesso que já assisti a "Wood & Stock: sexo, orégano e rock'n'roll" pelo menos uma meia dúzia de vezes. O longa-metragem da Otto Desenhos Animados, baseado nos quadrinhos do genial Angeli, recupera de modo inteligente o clima "anos oitenta" dos personagens do cartunista paulistano, misturando na tela eternidades como a própria dupla Wood e Stock, a deliciosa Rê Bordosa, os quase-anacrônicos Meia Oito e Nanico e outras excentricidades, como o porco Sunshine, a versão Mick Jagger da psicodelia angeliana, escrevamos assim. O desenho animado inspira saudades da década oitentista, na qual memórias das gerações anteriores ainda eram extremamente bem-vindas.
Aliás, numa época tão sem memória como a atual, é compreensível a pouca repercussão que o filme teve e tem tido entre os mais jovens. Algumas coisas atravessam essa constatação. Primeira. A linguagem, bastante calcada no universo de referências das gerações 60, 70, 80, no mais tardar, produz pouca ou nenhuma atração para a geração 00, nascida nos 90, no final dos 80, e que possui, na melhor das hipóteses, uns 15 anos de história vivida e acumulada (no mundo pós-Nirvana e Kurt Cobain, tudo é rotina eternamente pós-revolucionária: a sensação mais premente e evidente é a de que a História travou). Segunda. Ao exibir umas três ou quatro vezes o filme para meus alunos calouros do ensino superior, percebi que a graça é limitada às suas interpretações da cultura exposta no vídeo; os ídolos, a intertextualidade, os cenários urbanos (como o bar em que Wood, Stock, Sunshine e sua galera enchem a cara) lhes desaparecem quase por completo. Temo imaginar que os garotos e as garotas de hoje tenham alguma (toda!) dificuldade de situar no mapa da humanidade expressões como revolução e rock'n'roll e emblemas culturais como Rolling Stones, Janis Joplin, Led Zepellin, Raul Seixas...
Cartaz de divulgação oficial do filme: um tratado moderno contra a mediocridade pós-moderna
Outras perturbações me afligem, mas é hora de rever, em texto corrido, o que há de melhor no desenho animado, independentemente da aceitação pouco calorosa que a obra tem tido em termos mercadológicos. As performances de Sunshine nos ensaios da banda Chiqueiro Elétrico, bem como sua apresentação no concurso de bandas, são absolutamente antológicas (para não dizer ontológicas). O humor explosivo da sacada refere-se mesmo ao descompromisso musical da geração meia-oito, que produzia e consumia arte como manifestações de conhecer, problematizar, encantar razões e sensações. Estavam todos eles longe da idéia de celebrização que hoje nos acomete, não obstante a deliciosa paranóia de Wood em ganhar milhões de dólares, sair com zilhões de garotas, tocar para multidões e morrer de overdose num quarto qualquer de um hotel do velho mundo - ou, de preferência, asfixiado pelo próprio vômito... Tratava-se, portanto, na música daquelas gerações, de expressar o que todos podiam sentir, encantar o que todos pudessem transmitir. As obliterações vocais de Sunshine nada precisavam externar: na diversidade das gerações que nos antecederam havia sempre algo de universal que nos unia pela conferência do que há em nós de comum: senso de humanidade, desejo de integrar, transformar tudo e todos, a todo o momento.
O conflito de gerações (perdoem-me o lugar-comum) se revela no filme entre pai e filho. Lá, caretas são os mais jovens, incapazes de transbordar o copo de mediocridades da sociedade burguesa, que impele ao consumo e insta o marasmo, o "politicamente correto". Lembro-me, ao ver as discrepâncias entre Wood e seu garoto Over All, da canção de Zé Geraldo, "Promessas de um idiota às seis da manhã": prometo aderir ao sistema, olhar a vitrine, o cartaz do cinema, trocar minhas rugas de preocupação pelo céu de Ipanema... E por aí caminha a ácida crítica do compositor mineiro ao incompreensível conservadorismo das novas gerações, levadas a crer que o correto já está dito, que o bom já está feito, que basta olhar em volta, capturar o que esperam de nós e viver de acordo com os padrões, os procedimentos previamente codificados. A isso, se não me falha a boa Sociologia, devemos chamar massificação, produção ideológica da alienação individual e, por extensão, social. O filme, dirigido por Otto Guerra e roteirizado, sob invejável e múltipla assistência, por Rodrigo John, cai matando nessa pregação, invertendo os papéis socialmente estabelecidos e revelando o profundo mal-estar dos de ontem em se adequarem ao martírio virtual e aniquilador aceito sem resistência pelos de hoje.
Trabalhar, pagar contas, possuir belos eletroeletrônicos e ostentar um diploma superior... Constituir família nuclear, valorizar o aparato ideológico televisivo, contemplar o capitalismo como natural e consumir roupas e afins, nada afins, sei lá. Contra todas essas mesmices (ou daquilo que chamo de mais-do-mesmo) insurge-se o bom filme de Otto Guerra, revivendo tempo que não deveríamos ter esquecido. No intuito de nos convencer da importância da memória histórica e de tudo aquilo que puderam fazer pela liberdade antes de nós, a produção da Otto Desenhos, "Wood & Stock: sexo orégano e rock'nroll" ressuscita até Rê Bordosa, cujo próprio criador matou, amedrontado de não poder vê-la dizer nada aos tempos pós-modernos que monstruosamente nos cercam, prometendo paixões eletrônicas, prazeres desmedidos, o inumano, enfim.
Vale ainda ressaltar o delírio mágico de ouvir Tom Zé emprestando voz a Raulzito e Rê Bordosa ser incorporada, digamos assim, por Rita Lee, que deve ter sido mesmo seu alter ego num passado não muito distante. A trilha sonora do filme é outro tesouro: "Um lugar do caralho", canção do gaúcho Flávio Bassi, o Júpiter Maçã, encerra o filme e abre o CD oficial, ofertando-nos a certeza de que o tempo pode ser cíclico e honroso, como nesse desenho que é a mais bela homenagem à geração meia-oito, aquela que quase mudou o mundo. Comprem o DVD e o CD da trilha. Além de diversão certa, uma aula aos meninos e às meninas de agora sobre aqueles que conquistaram o mundo em que eles vivem, com seus direitos e toda a sua liberdade. É isso.

02 julho 2008

Coluna em Cornélio Procópio

Imagem panorâmica da Cidade de Cornélio Procópio, norte do Paraná. Minha paixão por paisagens urbanas e minha crença de que a vida se faz num curto-circuito pleno, estonteante, que exige de nós a totalização dialética de compreensão de suas andanças e desavenças na e com a História, inspiraram-me no momento de batizar a coluna semanal que mantive por um ano no Jornal A Cidade, lá da bela cidade do povo procopense. A coluna, pois, chamava-se PANORAMA, uma visão "de cima", privilegiada, mas que só se completa com engajamento, com a descida até a vida e a história dos "de baixo", no chão, na lida e na peleja por um mundo justo e fraterno. Foi sobre essa luta que escrevi no jornal norte-paranaense. Creio que foi o laboratório dos meus escritos de hoje, a verdadeira força-motriz deste nosso "Espaço".

Tive meus tempos de jornalista. De fevereiro a outubro de 2004 assinei no Jornal A Cidade, da atraente e aconchegante Cornélio Procópio, a 60 e poucos quilômetros de Londrina (e mais uns 10, aproximadamente, em relação a minha Cambé), a coluna Panorama. Semanal, normalmente aos sábados ou domingos, a depender dos fatos que envolviam a necessidade de "rodar"o jornal, a coluna era livre, destemperada até. Eu escrevia, com total autonomia editorial, sobre tudo, tudo mesmo. De homenagens a procopenses no aniversário de sua cidade e às mulheres no 8 de março, passando por críticas na condução de campanhas publicitárias de cerveja, até chegar ao texto literário, à resenha cinematográfica, esta última, de longe, minha favorita. Escrever sobre cinema, para mim, é reinventar filmes, redesenhar roteiros, reinterpretar papéis. É meu, digamos, hobby dileto no burilar das palavras e das idéias.

Minha relação com Cornélio Procópio se fez por conta de meu trabalho como docente em uma IES lá da cidade. Por um ano, o de 2003, tive a oportunidade de lecionar Sociologia (minha ciência, minha confidente) na cidade e conhecer muita gente bacana. Dessa gente toda despontou Bruci Jordão, meu aluno e proprietário do A Cidade. Foi ele que me ofereceu a graça de ser jornalista na prática, manter uma coluna periódica e fiel - e sobretudo livre, 100% livre. Nunca jamais tive uma palavra censurada, uma linha adulterada. Meus textos, às vezes polêmicos e afrontadores, eram publicados em sua inteireza. Sempre.

Infelizmente, por acréscimo um tanto quanto exagerado em minhas atividades docentes em Londrina e, à época, em Apucarana, tive de deixar Cornélio e, depois, a coluna, da qual sinto muitas saudades.

E para comemorar meu saudoso espírito jornalístico resolvi publicar aqui no "Espaço" alguns dos trinta textos (sim, trinta!) que rechearam a coluna Panorama em 2003, lá na gelada (um vento de danar!) Cornélio Procópio. É evidente que o relançamento, escrevamos assim, desses artigos irá depender da conjuntura e da pertinência: quando calharem com o climão do "Espaço" estarão por aqui. Por ora, lanço abaixo a relação com as datas e os títulos dos textos da extinta coluna Panorama, do muito vivo Jornal A Cidade, que já é, aliás, um charmoso sessentão.

Essa é minha maneira de homenagear Cornélio Procópio e fixá-la, honesta e humildemente, com respeito e muito carinho, em minha memória, na trajetória sempre histórica que é a sucessão dos dias de todos nós. Um viva à vida e ao povo procopense! É isso.

08.02.2004 - Uma raiz forte,uma nova casa
15.02.2004 - Mitos e heróis
18.02.2004 -O carnaval na História
26.02.2004 - O contágio das palavras
07.03.2004 - As mulheres e as minorias
21.03.2004 - Cerveja e ideologia
28.03.2004 - A coragem (homenagem a Carlos Mariguella)
04.04.2004 - Tempo de memória
07.04.2004 - A construção da esperança
25.04.2004 - Direito de escolher e dever de participar
01.05.2004 - Bom descanço
08.05.2004 - Ser esperto ou ser inteligente
16.05.2004 - Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós
26.05.2004 - Seriedade e bom humor
29.05.2004 - Crimes e criminosos
06.06.2004 - Vida cotidiana e pensamento crítico
21.06.2004 - A questão das cotas
27.06.2004 - O tempo não pára
02.07.2004 - A festa da democracia 1
18.07.2004 - A festa da democracia 2
21.07.2004 - A festa da democracia 3
30.07.2004 - Fidelidade e coerência
07.08.2004 - Tempos difíceis ou interessantes?
15.08.2004 - Essa tal felicidade...
22.08.2004 - O sonho olímpico
29.08.2004 - Olga Benário, embaixadora da esperança
15.09.2004 - Contra o triunfalismo, o "já ganhei"
19.09.2004 - Atentados contra a democracia
26.09.2004 - Pânico da TV
10.10.2004 - Um mestre das palavras: saudades de Marcos Rey