15 julho 2008

Contágio Sonoro

Quando ouvimos "Contagious" pela primeira vez, um mundo novo se torna possível diante de nossos múltiplos e secretos sentidos. Ver ganha cor, ouvir ganha tom, perceber a vida ganha doses substantivas de sensibilidade. Na magia despertada por uma obra musical genial, todos crescemos, viramos gente grande. A imperfeição da vida, tão aclamada, se torna objeto de contestação, na completude das dez canções que compõem o álbum eterno do Y & T. Ao ouvirmos "Contagious" pelas vezes seguintes (milhares!), concretiza-se uma indelével certeza: acaba de ser apreciado o provável melhor disco de rock de todos os tempos

Ao longo dos últimos cinqüenta e poucos anos, vários ritmos, centenas de tendências culturais e musicais já reivindicaram para si o rótulo "rock'n'roll". Modinhas de baile, furiazinha de adolescentes de classe média, batuques juvenis, barulhos ensurdecedores e até pancadões de todos os gêneros já se disseram rock, já usaram drogas e consumiram álcool, já se declararam preferência absoluta das garotas mais quentes, belas e entusiasmadas. Há pouco nisso tudo que se possa efetivamente levar a sério.

O verdadeiro rock'n'roll tem predicados que necessitam de arguta observação: as guitarras têm de rasgar compassos, ditando o ritmo, o peso e a marcação certeira da dupla de sustentação do som, baixo e bateria; o frontman - aquele sujeito que fica à frente de todo o mundo conclamando à histeria coletiva a triste e sem graça realidade pequeno-burguesa - deve possuir o indispensável sex appeal, deve convencer, cantar e encantar; o conjunto, enfim, deve ter estilo, energia e repertório único. Paradoxalmente, o bom rock precisa de substantivas pitadas de Stones, Led, Purple...

Hoje em dia, no momento em que a reincidentemente proclamada morte da criatividade roqueira parece condenada a se cumprir (perdoe-me possíveis e temerosos trocadilhos infelizes), reinam absolutos os "revivals" e as coletâneas de toda a sorte, tais quais "the very best of", "the ultimate collection", "the definitive collection" etc. Parece esquecido o tempo dos grandes álbuns, das turnês imensas, das listas de discos considerados clássicos sempre atualizadas, dinamizadas, polemizadas. Nada mais se candidata a superar ninguém. Ninguém mais se candidata a superar nada. Será que a triste inquietação de minha geração - "o rock errou?" - enfim possui sentido, arquibancada no repertório da não-música hegemônica da contemporaneidade? Creio haver exemplos que possam resistir a esse assustador apocalipse sonoro.

Na segunda metade da década de '70, Dave Meniketti juntou alguns amigos e formou o Yesterday and Today, anos depois simplificado para Y & T. Com mudanças pequenas lá e acolá em seu cast (expressãozinha influenciada pelo cinema hollywoodiano...), a banda atravessou as décadas seguintes lançando bons álbuns, conquistando muitos fãs (vitória que não se aplica de modo algum ao público brasileiro), ganhando dinheiro farto na esteira rentabilíssima do hard rock californiano dos anos '80. Não tenho intenção, contudo, de biografar o Y & T agora, não obstante a pertinência de uma história tão rica em tempos de trajetórias coletivas descosturadas, desapercebidas de conteúdo, sinais de talento. Quero, isso sim, falar de um de seus álbuns, o melhor dentre todos (onze ou doze de canções inéditas, aproximadamente), o "Contagious", de 1987.

A discografia do Y & T contém bons petardos musicais. "Black Tiger" (1982) e "Down for the Count" (1985) - este último signatário da estremecedora "Summertime Girls", um ritmo dançante de guitarras e teclados no melhor estilo do hard pop estadunidense no umbral da década de '80 - são estilosos, dissecam um hardão cheio de pulsação e força. Dois discos dos anos '90 - "Musically Incorrect" (1995) e "Endangered Species" (1998) -, época em que o Y & T se esforçou para voltar às paradas de sucesso, às tietagens dos velhos fãs e às graças da indústria fonográfica totalmente em vão, são também poderosos e repletos da marca da banda, energia, peso e muito, muito ritmo hard, com guitarras frenéticas, solos mágicos, marcação e batidas belas e desconcertantes. Todos esses álbuns juntos, numa seleção do que há de melhor em cada um deles, entretanto, não ombreiam com "Contagious", que de tão bom é sinônimo do mais radical e visceral hard rock dos oitenta, seu tempo de apogeu e glória. Digo mais: é provável o fato de "Contagious" ser o álbum de hard rock mais impactante da história, por um simples motivo: suas dez canções são uma melhor que a outra, e todas bastante diferentes entre si. Um verdadeiro mosaico de composições à beira da perfeição.

A faixa de abertura do álbum, que lhe empresta o título de capa, é uma invocação ao festival de todos os sons. Está tudo lá: bela voz, refrão contagiante (entenderam agora o porquê do nome da canção e do disco?!), hey, hey, hey e oooôs, backings sintonizados, guitarras cativantes, bumbos surdos de arena etc.

"L. A. Rocks", a segunda canção de "Contagious", traduz por inteiro o estadunidense ambiente hard dos oitenta, com suntuosos automóveis esportivos e conversíveis, auto-estradas em direção ao paraíso em que residiam as sinuosas curvas das mais desejadas mulheres da já em pleno funcionamento aldeia global - destino no qual também estariam as melhores festas e as inesquecíveis baladas de sexo, bebidas e rock'n'roll. Naquele tempo era saudável demais imaginar o rock como a grande utopia jovem do século XXI.

Em "Temptation", terceira faixa, encontramos uma baladona hard bem típica da época. As guitarras de Dave Meniketti e Joey Alves (que fazia as bases para os geniais solos do frontman guitarrista) produzem uma pequena orquestração para a canção que move de seus lugares os corações incautos. A beleza e a poesia da composição romântica são completadas pelo vocal de Meniketti, que, além de exímio instrumentista, destila no disco um vozeirão de alma e incrível poder de sedução.

"The Kids Goes Crazy", quarta música do álbum, é um folk puxadíssimo, meio presleyiana, meio Van Halen dos primeiros discos. O toque da canção é infinito, numa sucessão de sons e palavras digna daquilo que o rock pode produzir de mais original e, ao mesmo tempo, versátil. As tiradas acústicas já sugeriam a febre dos unpluggeds de uma década mais tarde. A faixa é a mais destoante no conjunto de "Contagious", mas ainda assim é sensacional.

O lado A (do meu velho disco de vinil de 1987, é claro!) termina com "Fight For Your Life", cujo refrão-conclame se assemelha ao poder de hinos das grandes coletividades. Trata-se de uma ode à vida, ao tomar o destino pelas próprias mãos. Guitarras e vocais de Meniketti a pleno vapor, quase à beira de um precipício de sonoridades miraculosas.

O outro lado, o B (sempre tido como espaço das alternativas às alternativas do rock'n'roll), abre com "Armed and Dangerous", quer dizer, mulheres armadas até os dentes para tornar difíceis e perigosas as empreitadas masculinas no mundo do prazer e da felicidade amorosa. Com letra falando de seduções no mundo do rock'n'roll, a canção oferece todo o poder do planeta às mulheres, razão de ser de toda inspiração roqueira. Nos refrães (estranho porém correto, tá?), a voz de Meniketti transborda os limites do conhecido, misturando blues e rock, variando cadências e dando o tom, nas cordas insurretas de sua guitarra, a um ritmo realmente alucinante. A constatação disso tudo logo se evidencia: ainda restam quatro canções pela frente e já se faz tranqüilo afirmar que se está a ouvir o melhor álbum de rock do mundo!

Nas duas músicas seguintes a coisa segue fervendo. A ótima cozinha de "Rythm or Not" (de retaguarda agraciada pelo recém-chegado baterista Jimmy Degrasso, par perfeito do baixista Phil Kenmore, síndico de toda a segurança instrumental da banda) antecipa com extrema categoria os versos pegajosos de "Bodily Harm", de longe a minha dileta em todo o álbum. A canção, cheia de deliciosos oooôs, passeia por nossas cabeças por dias a fio, mesmo quando não estamos ouvindo nada, em momentos de tensão ou presumível concentração do dia-a-dia. Em nenhuma canção de "Contagious" o hard dos '80 se faz tão vigoroso, tão robusto, tão intenso, como em "Bodily Harm", cujo refrão à la grudou-tudo-em-minha-orelha-pra-sempre é dos melhores desse estilo musical (desse estilo de vida!) de tantas histórias, epopéicas e trágicas.

O espetáculo começa dar ares de fim com "Eyes of Stranger", na qual se pode verificar, nos riffs de guitarra da abertura, quase tudo que se produziu em termos de rock pesado nos anos que se seguiram a "Contagious". Em se tratando de heavy metal, por exemplo, tente ouvir qualquer uma das barulheiras contemporâneas e não ouvir em todas elas, melancolicamente, a tentativa inglória de reprodução da atmosfera mágica perpetrada palas guitarras de "Eyes of Stranger". Não fosse trágico, seria engraçadíssimo o negócio...

O decálogo de Y & T em "Contagious" se encerra com a instrumental "I'll cry for you", na qual a verve bluseira de Dave Meniketti e Cia. se perfaz. As subidas e descidas na escalada dos solos de guitarra produzem viagens fascinantes - sem necessidade alguma de mediações externas, frise-se. Basta abrir o coração e os ouvidos que temos a chance de sentir todas as emoções que brindaram o processo de composição de "I'll cry for you", essa belíssima canção.

Já se passaram vinte e um anos desde o lançamento dessa obra-prima musical. Como afirmei, a banda chegou a lançar bons álbuns antes e depois de 1987, mas nada que se possa comparar a "Contagious". Trata-se de uma dessas maravilhas do gênio humano que não se repetem, ainda que não faltem empenho e dedicação para reproduzi-las. "Contagious" parece ter sido gravado por gente tão especial, mas tão especial, que, em meio às galhofas da não-musicalidade atual, até nos faz imaginar que não seja deste mundo, e, sim, de um outro, o qual tanto sonhamos ser possível.

Se você tem o vinil de "Contagious" (como eu), corra e compre o CD (como eu). Se você não tem nem um, nem outro, corra, compre o álbum urgentemente e humanize a trilha sonora da sua vida. A medida é essencial para que saibamos tudo que esta doce realidade tem para nos fazer conhecer. E ouvir. Entusiasmadamente. É isso.