05 julho 2008

E aí, beleza?

Ensaio da banda Chiqueiro Elétrico, em fotograma do filme "Wood & Stock: sexo, orégano e rock'n'roll (2006). - Que som vocês fazem? - BARULHO, PSICODELIA E ROCK'N'ROLL!

Confesso que já assisti a "Wood & Stock: sexo, orégano e rock'n'roll" pelo menos uma meia dúzia de vezes. O longa-metragem da Otto Desenhos Animados, baseado nos quadrinhos do genial Angeli, recupera de modo inteligente o clima "anos oitenta" dos personagens do cartunista paulistano, misturando na tela eternidades como a própria dupla Wood e Stock, a deliciosa Rê Bordosa, os quase-anacrônicos Meia Oito e Nanico e outras excentricidades, como o porco Sunshine, a versão Mick Jagger da psicodelia angeliana, escrevamos assim. O desenho animado inspira saudades da década oitentista, na qual memórias das gerações anteriores ainda eram extremamente bem-vindas.
Aliás, numa época tão sem memória como a atual, é compreensível a pouca repercussão que o filme teve e tem tido entre os mais jovens. Algumas coisas atravessam essa constatação. Primeira. A linguagem, bastante calcada no universo de referências das gerações 60, 70, 80, no mais tardar, produz pouca ou nenhuma atração para a geração 00, nascida nos 90, no final dos 80, e que possui, na melhor das hipóteses, uns 15 anos de história vivida e acumulada (no mundo pós-Nirvana e Kurt Cobain, tudo é rotina eternamente pós-revolucionária: a sensação mais premente e evidente é a de que a História travou). Segunda. Ao exibir umas três ou quatro vezes o filme para meus alunos calouros do ensino superior, percebi que a graça é limitada às suas interpretações da cultura exposta no vídeo; os ídolos, a intertextualidade, os cenários urbanos (como o bar em que Wood, Stock, Sunshine e sua galera enchem a cara) lhes desaparecem quase por completo. Temo imaginar que os garotos e as garotas de hoje tenham alguma (toda!) dificuldade de situar no mapa da humanidade expressões como revolução e rock'n'roll e emblemas culturais como Rolling Stones, Janis Joplin, Led Zepellin, Raul Seixas...
Cartaz de divulgação oficial do filme: um tratado moderno contra a mediocridade pós-moderna
Outras perturbações me afligem, mas é hora de rever, em texto corrido, o que há de melhor no desenho animado, independentemente da aceitação pouco calorosa que a obra tem tido em termos mercadológicos. As performances de Sunshine nos ensaios da banda Chiqueiro Elétrico, bem como sua apresentação no concurso de bandas, são absolutamente antológicas (para não dizer ontológicas). O humor explosivo da sacada refere-se mesmo ao descompromisso musical da geração meia-oito, que produzia e consumia arte como manifestações de conhecer, problematizar, encantar razões e sensações. Estavam todos eles longe da idéia de celebrização que hoje nos acomete, não obstante a deliciosa paranóia de Wood em ganhar milhões de dólares, sair com zilhões de garotas, tocar para multidões e morrer de overdose num quarto qualquer de um hotel do velho mundo - ou, de preferência, asfixiado pelo próprio vômito... Tratava-se, portanto, na música daquelas gerações, de expressar o que todos podiam sentir, encantar o que todos pudessem transmitir. As obliterações vocais de Sunshine nada precisavam externar: na diversidade das gerações que nos antecederam havia sempre algo de universal que nos unia pela conferência do que há em nós de comum: senso de humanidade, desejo de integrar, transformar tudo e todos, a todo o momento.
O conflito de gerações (perdoem-me o lugar-comum) se revela no filme entre pai e filho. Lá, caretas são os mais jovens, incapazes de transbordar o copo de mediocridades da sociedade burguesa, que impele ao consumo e insta o marasmo, o "politicamente correto". Lembro-me, ao ver as discrepâncias entre Wood e seu garoto Over All, da canção de Zé Geraldo, "Promessas de um idiota às seis da manhã": prometo aderir ao sistema, olhar a vitrine, o cartaz do cinema, trocar minhas rugas de preocupação pelo céu de Ipanema... E por aí caminha a ácida crítica do compositor mineiro ao incompreensível conservadorismo das novas gerações, levadas a crer que o correto já está dito, que o bom já está feito, que basta olhar em volta, capturar o que esperam de nós e viver de acordo com os padrões, os procedimentos previamente codificados. A isso, se não me falha a boa Sociologia, devemos chamar massificação, produção ideológica da alienação individual e, por extensão, social. O filme, dirigido por Otto Guerra e roteirizado, sob invejável e múltipla assistência, por Rodrigo John, cai matando nessa pregação, invertendo os papéis socialmente estabelecidos e revelando o profundo mal-estar dos de ontem em se adequarem ao martírio virtual e aniquilador aceito sem resistência pelos de hoje.
Trabalhar, pagar contas, possuir belos eletroeletrônicos e ostentar um diploma superior... Constituir família nuclear, valorizar o aparato ideológico televisivo, contemplar o capitalismo como natural e consumir roupas e afins, nada afins, sei lá. Contra todas essas mesmices (ou daquilo que chamo de mais-do-mesmo) insurge-se o bom filme de Otto Guerra, revivendo tempo que não deveríamos ter esquecido. No intuito de nos convencer da importância da memória histórica e de tudo aquilo que puderam fazer pela liberdade antes de nós, a produção da Otto Desenhos, "Wood & Stock: sexo orégano e rock'nroll" ressuscita até Rê Bordosa, cujo próprio criador matou, amedrontado de não poder vê-la dizer nada aos tempos pós-modernos que monstruosamente nos cercam, prometendo paixões eletrônicas, prazeres desmedidos, o inumano, enfim.
Vale ainda ressaltar o delírio mágico de ouvir Tom Zé emprestando voz a Raulzito e Rê Bordosa ser incorporada, digamos assim, por Rita Lee, que deve ter sido mesmo seu alter ego num passado não muito distante. A trilha sonora do filme é outro tesouro: "Um lugar do caralho", canção do gaúcho Flávio Bassi, o Júpiter Maçã, encerra o filme e abre o CD oficial, ofertando-nos a certeza de que o tempo pode ser cíclico e honroso, como nesse desenho que é a mais bela homenagem à geração meia-oito, aquela que quase mudou o mundo. Comprem o DVD e o CD da trilha. Além de diversão certa, uma aula aos meninos e às meninas de agora sobre aqueles que conquistaram o mundo em que eles vivem, com seus direitos e toda a sua liberdade. É isso.