14 julho 2008

Estrangeirismo imaginário

Vista noturna, em primeiro plano em perspectiva, do Edifício Copan, símbolo do arrojo e do capricho da capital paulista em produzir seus sonhos, seus desejos de virtude, seu porvir humano. Na imensidão de seus números e de suas estruturas escondem-se exemplares vivos e dinâmicos de toda a cultura brasileira e mundial, formando o mais belo caleidoscópio urbano do mundo

Nasci, cresci e me constituí sujeito na capital paulista. Quase nunca saí (força de expressão, ok?), em quase 19 anos, da Vila Madalena. Conheci pouco o centro de São Paulo, e também os espaços que preenchem os pontos vários de sua rosa-dos-ventos. O Edifício Copan, hoje, comigo há mais de quinze anos longe de minha cidade natal, representa, pois, todo o protagonismo de meu imaginário em relação à cidade da garoa, capital da América do Sul. Na verdade, sinto-me um estrangeiro a contemplar a oportunidade de estar lá, em seus imensos corredores, em meio a toda a diversidade de gente, de cores, de ritmos que pulsam na vastidão de sua estrutura. Um estrangeirismo imaginário, creio.

A forma sinuosa do Copan, que seu idealizador Niemeyer creditava à sensualidade de seus traços arquitetônicos, ápice do modernismo brasileiro, rivaliza com a concretude fria do centro paulistano, cheio de retas, obviedades, acizentamentos de corpos e almas. No meio de São Paulo, o Copan é uma exceção poética, em estética e ética. A diversidade de seus mais de 2000 moradores, esparramados em 32 andares, por 1160 apartamentos e 6 grandes blocos irmanados, reproduz a idéia de uma São Paulo plural, onde tudo e todos estão em toda a parte, a toda a hora, do modo como interessa a qualquer um encontrar.

Distante do chão da Av. Ipiranga, no centro nevrálgico e pulsante da cidade, uns 115 metros em direção ao céu e alargado em 120 mil metros quadrados de construção, o Copan é símbolo do período de sua concepção, coincidente com o ano do quarto centenário da capital paulista. Inicialmente projetado para fazer parte da Companhia Pan-americana de Hotéis (daí a contração Copan), tornou-se possível, após seqüenciais desistências e falências do dinheiro das amedrontadas e céticas elites paulistanas e estrangeiras que vivem a abocanhar fatias imobiliárias em São Paulo, no momento em que o Bradesco - sempre os bancos! - incorporou ao seu patrimônio o direito de construir o edifício (não mais hotél) e viabilizá-lo para sua inauguração, em 25 de maio de 1966, no meio do país-resistência que se instituía em pleno vapor da ditadura militar, receoso porém urgente, urgentíssimo de seu próprio futuro, de seu amanhã sempre no porvir.
Símbolo da São Paulo que não pára nunca, mas também destinatário das loucuras que massificam e nivelam cada vez mais por baixo as consciências de nosso tempo, o Copan já teve cinema, o legendário Cine Copan, cuja sala hoje é templo de igreja evangélica. No mais, além da cultura atada aos maldizeres da alienação nada gratuita das transcendências ocas da vastidão pós-moderna, no Copan existem mais de 70 estabelecimentos comerciais em seu térreo, que cobrem bancas de jornais e revistas, pizzarias, lanchonetes, lojas e mais lojas de quase tudo, num imenso caleidoscópio de variadas formas de ser, viver, retrato em movimento da cultura brasileira, pop, popular, de massa e cult, arrasadoramente cult, bem paulistana.

Vira e mexe leio nos jornais algo a respeito do velho Copan. Notícias dando conta de depreciação moral, decadência dos valores clássicos da sociedade paulistana etc. Lembro ter lido de um advogado advindo do interior paulista que a vivência no Copan até que não era das piores, mas só poderia ser, para ele, provisória. Ele almejava mais. Sim, num tempo de tantas incertezas, o provisório é nosso único vaticínio duradouro. Não deve fazer a mínima diferença para o jovem garoto do Direito saber que existem filas quilométricas de inquilinos desejosos de morar no Copan, à espera da passagem de muitos meses, às vezes anos, para que consigam uma "vaga" no prédio mais elegante de São Paulo. E olhem que chamo de elegante exatamente por sua imperfeição, suas inconstâncias, sua pluralidade complexa e difícil, tensa.

Tempos atrás andei refletindo sobre a possibilidade de retornar a São Paulo, dar continuidade por lá a minha vida de sociólogo, professor, produtor cultural em cinema e documentário (uma vida de mil projetos, zilhões de sonhos em busca de parcerias). Afinal, trata-se de minha cidade natal, na qual muitas coisas me inspiram saudades. Além disso, é também uma galáxia de oportunidades, o mundo inteiro num só lugar, espaço no qual mais parceiros, loucos e viajantes das artes e das idéias, poderiam cruzar seus caminhos com os meus. Confesso que a reflexão permanece...

De qualquer modo, pensar a vida a partir da imagem estrangeira que em minha consciência representa o velho edifício Copan é um exercício de muito prazer, um suave devaneio contestador. Viver no Copan, ainda que imaginariamente, é sinônimo de liberdade, de estar no centro do mundo, a um passo do paraíso, aquele lugar onírico onde poderemos encontrar todas as pessoas com as quais nos identificamos - e que estarão prontas e dispostas a atravessar com a gente as fronteiras dos próximos desejos. Habitar o Copan, assim como o próprio prédio e sua história, é um portentoso porvir, um vir-a-ser extremamente alucinante. E bom. Deleitante. É isso.