18 agosto 2008

Vida Despedaçada

Fotografia de Tiago Xavier

Texto entregue hoje para publicação no número 06 da Revista Estação, edição primavera

Diante do espelho, todos os dias, ela buscava os sinais da contradição. Passeava por longas horas em esteiras, levantava pesos, dançava tecno, fazia bicicleta e aqueles aparelhos para enrijecimento muscular e definição de formas. Custava-lhe aceitar que, não obstante tamanha rotina de exercícios e malhação, sua saúde não andava lá aquelas coisas.

Era uma legítima representante da geração saúde, com todos os seus adornos e paradoxos. Caminhava absortamente, vivia mais tempo em academia de corpos do que de almas, amava comer acelgas e beterrabas, beber café descafeinado, ingerir um sem-número de produtos light, diet, sei lá. Ao mesmo tempo, rodeada de pressa e exigências sociomercantis, era obrigada a alimentar-se, dia após dia, de barrinhas de cereais e sanduíches fast food, mascarados por belas doses de suco de uva industrializado e saladas de molho caesar. Os adorados legumes, as rodeladas fatias de peito de peru, a carne branca grelhada, seus verdadeiros sonhos de consumo e saúde, limitavam-se às refeições de final de semana, feriados, raras férias. A corrida do tempo numa era de tanta indeterminação fazia-lhe, literalmente, engolir os excessos de sua própria ditadura. Ou malhava horas a fio nas academias do bairro, ou cuidava do corpo numa outra perspectiva, mais longeva e pertinente, digamos assim.

Ano depois de ano, percebia sérias dificuldades de concentração, idéias fracas, um desestímulo completo de vida. O espelho, malgrado sua bela lâmina de emolduramento, não lhe dizia nunca o que era a abstração “qualidade de vida”. Havia perseguido essa expressão imprecisa por toda a existência. Queria porque queria adotar um estilo de vida cheio de coisas certas, cuidar da estética, valorizar conteúdos com noções bem modernas de paz, alimentação macrobiótica, exercícios físicos regulares, um curso universitário in e uma doutrina para si que expurgasse (out, não?) vícios como café, cigarro, bebidas, alimentos gordurosos, leituras mundanas, ociosidade, papos-cabeça demais. Queria leveza, sentir-se a voar pelo mundo, asséptica, inodora, incolor, inumana, talvez. Chegou a reproduzir na sala de casa um pequeno templo oriental para intermináveis meditações madrugada afora – fenômeno que lhe comprometeu o sono e subseqüentes manhãs vivas e produtivas.

Antes dos 30 - quando deveria ter se tornado uma balzaquiana de inúmeras técnicas de sedução e delírio, inteligente, admirada, portadora da vida no olhar e no andar -, esmagou-se em solidão e tristeza. De tanto desejar a purificação do corpo e a transcendência da alma, perdeu a mão, errou o tom, enfileirou-se em terapias infinitas. Descobriu que não sabia quem era, que não trabalhava num lugar bacana, que não tinha amigos, que seu apartamento era horrível, que seus discos eram insuportáveis, que sua comida era ridícula, que seus livros sempre tinham sido volume em cima de uma mesa vazia, sem história nem projetos. Sua vida, enfim, não havia sido. Existiu em nome de um porvir, de uma modinha cheia de preconceitos e juízos sobre o comportamento alheio. Ela descobriu, então, a realidade por trás do imaginado: alcançara, de uma vez por todas, sozinha, como todos os bons representantes de sua geração, o que era a tão enigmática “qualidade de vida”.