15 outubro 2008

Flanando entre estrelas

"Sala de TV", fotografia de Sidney Ganho

Texto entregue hoje para publicação na Revista Estação, edição n. 07, verão 2008/09

Recortar fotografias de revistas sobre celebridades da TV; copiar moldes dos modelos utilizados pelas atrizes a despontar no horário nobre da grande mídia eletrônica; escrever para a produção das telenovelas da emissora líder em audiência; garantir lugar na comissão de frente de todas as passarelas, entradas de hotel, recepção de festas, todos os agitos em que estejam seus ídolos, seus arquétipos de beleza e inteligência. A vida dela era pura excitação, um movimento quase sem fim, alucinante. Não conseguia se imaginar a perder uma informação, uma boa-nova sobre a vida de seus artistas favoritos. Bradava ao mundo: sei de tudo, de todos, não deixo escapar uma sequer.

Amava os garotos e as garotas, os neófitos e os mais experientes. Indiferente era diante das séries do momento ou dos clássicos que costumam ressuscitar estrelas apagadas. Não buscava só os belos corpos, o tal sex appeal das novas gerações a desfilar na tela da TV, nos tititis da imprensa-fofoca. Não era uma questão de sexualidade, desejo. Não. Era paixão pelo luxo, pelo sempre inusitado, inédito. Acompanhar a vida das pessoas famosas lhe representava entender um pouco do vazio que existia nela mesma, abissal, o qual nem livros, nem amigos de carne e osso, nem trabalho, nada conseguia preencher, ofertar sentido, apontar caminho, alguma lucidez.
Durante uma cerimônia para escolher a miss de sua cidade, na prévia para o concurso estadual, evento para o qual se dirigiu exclusivamente para admirar seu mais recente ídolo teen, conheceu um rapaz, cujo encontro resultou em namoro, flerte, um bom e pós-modernoso “ficar com”. Beijava-lhe a face, tímida, imaginando inebriar-se nos lábios de seus heróis da moda e da TV. Olhava-o de soslaio, desconfiada, mas a torcer pelo milagre de vê-lo transformar-se no galã dos filmes de ação mais agitados de Hollywood, que em breve estariam na tela do televisor, numa noite qualquer de segunda-feira. Sentindo-se sistematicamente rejeitado e traído pelo virtual, concorrente invencível, o rapaz deu fim ao namoro-relâmpago. Ela, enfim, consagrava sua liberdade: nunca se sentira tão aprisionada quanto naqueles dias de relacionamento instigantemente real, com alguém ao vivo e em cores a lhe tocar o proibido, aquilo que estava desde sempre reservado para o acaso, a estréia no mundo da moda, das capas de revista, dos talk shows, das saias-justas dos programas de auditório. Afinal, de que lhe teria servido a vida, senão de insistente paciência e fantasia para alcançar a fama? Não seria isso ser in? Morria um pouco todo dia só de pensar em viver uma horinha que fosse out, fora do ar. Detestava gente fora da realidade, desantenada. Tinha dó de tanta alienação, da estranha compulsão das pessoas por viverem anônimas, desejantes de paz, fraternidade, justiça. Decididamente, queria mais da vida, muito mais.

Bom descanso

Mural de azulejos "Trabalhadores", localizado na Av. 23 de março, cidade de São Paulo, fotografado por Rafael Petit Imthum
Começo a cumprir, enfim, a longa promessa de publicar aqui no "Espaço" os artigos de minha antiga coluna Panorama, do Jornal A CIDADE, de Cornélio Procópio. Editada entre fevereiro e agosto de 2004, a coluna não possuía uniformidade temática, transitava de música e cinema a política e economia ao sabor de idéias sempre livres, nunca censuradas. Para inaugurar essas novas edições de velhos textos selecionei "Bom descanso", uma homenagem que faço ao trabalhador paranaense e à sua sensibilidade ao entardecer, no desejo de ver florirem as pétalas matutinas do amanhã. De quando em vez, outros dos 30 textos que publiquei no periódico procopense voltarão à luz aqui no blog.

Sempre considerei um grande barato ouvir as pessoas aqui do Paraná despedirem-se, após um dia de trabalho ou um encontro casual no final da tarde, no regresso a casa, com um sonoro e bastante sincero “bom descanso”.

O espanto alegre vem do fato de, em São Paulo, onde passei boa parte de minha vida, nunca se ouvir uma coisa dessas; no máximo um “boa noite”, “até mais”, “a gente de vê por aí”... O que eu notava, contudo, é que todas essas expressões eram ditas de maneira indiferente, sem sentimento, sem nada mais que uma certa boa educação, uma questão de mera e simples formalidade.

Aqui, no nosso saboroso “Paraná caipira”, de tantos povos, de tantas culturas, a história é bem diferente: existe, sim, uma importância bem grande ofertada ao tal “bom descanso”, e, ainda que a maioria das pessoas que expressem a doce despedida em questão não se dê conta de seu afortunado significado, ele existe. E é muito, muito interessante. Vamos lá ver.

A história do Paraná é uma epopéia de grandes aventuras. Por aqui o processo de colonização (formação de terras, fazendas e, mais tarde, comarcas e centros urbanos) foi árduo, exigiu grande trabalho e uma central e decisiva atenção à questão rural, dos campos de plantação, criação e vida, muita vida. Por “n” motivos, dentre os quais se destacam a questão de trabalho intenso, baixa remuneração e parcos investimentos em educação e respeito à dignidade dos trabalhadores... a população paranaense é pobre, nossas cidades são deficitárias em geração de emprego e renda e os salários, historicamente, permanecem baixos. Assim, cientes de quão caros e difíceis são os dias nossos de cada semana, mês e ano, geração após geração, os trabalhadores são sinceros ao desejar aos seus parceiros de luta dura pela vida o “bom descanso”. É, sem dúvida alguma, uma fala que exprime alento, solidariedade, uma esperança de o dia seguinte ser melhor, menos desgastante, mais proveitoso. O “bom descanso” diz: amanhã tem mais, amigo; aproveite para renovar suas energias; não esmaeça, não desista; um dia, quem sabe, amigo, tudo será diferente... e melhor!

Nessas pequenas e aparentemente insignificantes falas, o trabalhador expressa companheirismo, cumplicidade; através do “bom descanso” a esperança se alimenta, a vida flui, o amanhã acena para nós com mais vigor, mais iluminação. Em vez de “até amanhã”, “bom final de semana”, que são expressões genéricas que não dizem nada, talvez apenas se refiram à compostura, à “boa educação”, o otimista “bom descanso” diz também: relaxe, amigo, a luta continua e nós todos, trabalhadores, precisaremos de você amanhã; aproveite a noite, amigo, durma bem e não se esqueça de que amanhã vamos construir mais um pouco de nossa estrada rumo a um futuro melhor, mais justo e... humano!

Por isso, leitor(a), desejo-lhe uma boa leitura, um bom tempo de plantios e, é claro, um “bom descanso”. É isso.

14 outubro 2008

Desconcertos

(para C. B. G.)

Palavras dispersas
promessas entreatos
teatro, puro drama, tramas envolventes
discórdia
desejo
crise, mais crise

Sinto o pulsar de minha materialidade
alguma coisa dizendo não! chega! coragem rapaz!
É como se tudo fosse ainda mais, em tudo, em você
no nada tão vasto de minha inonsciência

Tolerância, suporto-me demais
aceitando ilimites
convivendo com irrazões
abismos
coração trincado, mergulhado na dor
seu corpo me aponta saídas: flores, explosões

Corro sobre o mar, o campo, o céu
imaginação, explosão de delírios
mãos, pêlos, leves tocares, pétalas, fotogramas de suas curvas
estradas sem fim
quase uma flutuar
acompanhdo de sorriso torturante
paralisante, intrigante, irreal na tessitura de sua realidade

Medo, medo, medo
da chuva, do sol, do amor
de imaginar dar certo, de vislumbrar qualquer erro
mais um, coleção.

Na poltrona de meus sonhos
recrio meus pesadelos rock'n'roll
heavy metal quando madrugadas choro
desenhando salivas, odores, loucuras

Potencializo a imaginação e acendo um cigarro
prazer perdido
tenso alívio nunca-mais-imediato
distante
inebriante, desnudo

Acendo a luz, encho um copo
água, lágrima, suor
amanhecendo no peito
na raça
no novo dia depois de ontem
tal qual o depois de amanhã
sem você
com você
comigo mesmo
nós dois virtuais
reais no cheiro que ouso sentir, profundidade do proibido
insólita calmaria trepidante

Ouço pranto
meu coração
ensandecido
clama por meus delírios
fecho os olhos
volto ao mundo encantado
de suas mãos
de suas pernas
de seus olhos
overdose que salva
mácula que transparece o mundo
vida que se faz vida

Vemo-nos então mais tarde
cada qual em sua prisão
na liberdade de nossos labirintos
dois mundos
talvez até mais

11 outubro 2008

Marxismo e Psicanálise: leituras socialistas da civilização freudiana

"Don't Cry", fotografia de José Ferreira

Apresentei, no último dia 03.10, na programação do "I Encontro Científico de Psicologia da Faculdade Pitágoras", na unidade de Londrina, Paraná, uma conferência sobre os descompassos e os rios de convergência entre o marxismo e a psicanálise. Apoiado principalmente nos escritos carcerários de Antonio Gramsci e nos chamados "textos sociológicos" do Dr. Freud, procurei estabelecer alguns diálogos possíveis entre essas distintas maneiras de interpretar o homem, a história e a ciência. Não obstante as léguas que separam as tradições legadas por Marx e Freud, penso que a noção de conflito possa torná-los "parceiros" na formação cultural e intelectual dos jovens e dos militantes da vida, dos desejosos por transformar o mundo. Reunidos por mim num esforço de provocar proximidades entre as categorias de inconsciente (produto freudiano) e ideologia (herança marxista), os textos de Marx e da tradição das idéias socialistas no século XX podem, mergulhados na concepção freudiana de civilização, reinterpretar a história e examinar nova e detidamente o sujeito do mundo, conferindo-lhe papel ainda mais determinante no combate à fragmentária dimensão do tempo e do espaço na carnívora realidade cultural pós-moderna. Nesse sentido, imagino que haja no texto de minha apresentação - integralmente publicado logo mais abaixo - algum estímulo a idéias que possam se reconhecer como diferentes e, por isso mesmo, prósperas em mútua colaboração. É o que realmente desejo ter partilhado com a platéia generosa e atenta que esteve a me ver e ouvir naquela bela manhã.
O indivíduo é a cultura escrita em letras minúsculas.
A cultura é o indivíduo escrito em letras maiúsculas.
Platão
Superar e sublimar as paixões destrutivas do ser humano: parece ser esse o grande encontro entre o marxismo e a psicanálise. Uma aproximação que se faz possível por meio de caracterizações comuns nessas duas concepções do homem, nessas duas leituras da história, nessas duas perspectivas do olhar crítico, da metodologia interpretativa das relações humanas em sociedade.

Como agente da história e ator do mundo, o homem é, tanto no marxismo quanto na psicanálise, o epicentro de toda discussão. No caso do pensamento marxista (em relação ao qual me sinto um pouco mais à vontade, um pouco por formação, um pouco mais por convicção), os princípios estruturantes de um humanismo radical, de um historicismo absoluto e de uma razão dialética intransigente permitem à psicanálise inflexões sobre sua forma de ver o mundo, ora reiterando perspectivas e ampliando aspectos, ora exigindo separar o joio da jóia, aquilo que está no campo das ciências sociais daquilo que dinamiza e compõe a cosmovisão científica a partir de análises superlativamente subjetivas (marca maior das intervenções psicanalíticas sobre a condição humana).

Para Sigmund Freud (1856 – 1939), todo indivíduo é necessariamente um ser arredio, antissocial. Para a psicanálise, portanto, viver em grupo, compor o universo das cidades, tecer as redes da civilização, tudo isso produz aborrecimentos, impõe limites, torna desinteressante a própria existência. Há, pois, na visão ontogênica do homem pela psicanálise, um mal-estar no conviver, uma animalidade natural do próprio ser, uma permanente indisposição à partilha, ao reconhecimento da igualdade do outro.

A aceitação humana da civilização (numa clara analogia ao naturalismo hobbesiano, em que a garantia da segurança exige a entrega da liberdade individual ao Estado) se dá pelo fato de que a base daquilo que compõe o ser na psicanálise, o devorar do princípio do prazer, precisa efetivamente ser contida, controlada, sob pena de extinção da espécie humana, de uma nova lei de evolução e sobrevivência das espécies. Para o autor de “O futuro de uma ilusão”, portanto, viver em sociedade e aceitar os limites impostos pela civilização representam, para o homem, uma verdadeira necessidade desalentadora, um suspiro frágil, mas um suspiro que lhe permite a vida, a possibilidade de encontrar prazer e satisfação em alguma medida, ainda que sempre deficitária, atenuada pelas exigências sociais da partilha. Contra a pulsão - essa força que move em direção a prazeres quase sempre inenarráveis e impublicáveis - o meio contém ímpetos, o coletivo anula o individual, as sanções prescrevem as liberações tão desejadas, acalantadas de cada um dos seres humanos. Numa palavra, a civilização, ao conter os ânimos sempre acalorados das pulsões, busca evitar o conflito, a anulação do indivíduo mais fraco e desprotegido pelo movimento, segundo leitura freudiana, sempre bizonho e desprovido de razão das massas.

Ao buscar a satisfação de suas necessidades e desejos, o homem se depara permanentemente com os desafios da natureza, como as aberrações climáticas e atmosféricas, os abalos sísmicos, a escassez de alimentos e os recursos hídricos. Em face dessa pequenez diante do “mundo”, o homem, ao se reunir com seus semelhantes, diminui a força bruta de tanta imponderabilidade. Nesse sentido, há um claro paradoxo em Freud no que diz respeito à vida em sociedade: ao mesmo tempo que limita e atrofia as vontades naturais, a vida em sociedade permite atravessar, com maiores chances de evitar tragédias, a própria experiência de viver em grupo, no “mundo”. Seria insuperável essa contradição da noção de homem na psicanálise?!

É provável que a contradição freudiana se explique na indistinção que o autor de “Mal-estar na civilização” promove entre indivíduo e sociedade. Renato Mezan (1990) já havia observado que não há em Freud nenhuma alusão às especificidades da vida social. Para o psicanalista da Morávia, a diferença entre indivíduo e sociedade é, na maior das contas, metodológica, pura e simplesmente. A sociedade, nesses termos, é uma realidade empírica, um mero espaço no qual os indivíduos definem e consagram suas projeções psíquicas, suas subjetivações sobre o real. Como o que está em questão para a psicanálise é a sobrevivência do indivíduo mergulhado na multidão, essas projeções psíquicas nada mais seriam do que tentativas sucessivas de encontrar prazer no limite, passagens nas fronteiras da castradora ordem civilizatória. Problema é que, do modo como a coisa se apresenta na obra do pai da psicanálise, a civilização seria um dado a-histórico, uma construção sem origem, sem traços de realização humana. É como se ela sempre estivesse aí, como um fenômeno natural.

Se as satisfações nunca podem ser plenas num ser castrado pelo emblema civilizatório, qual seria o verdadeiro elemento constituidor desse reiterado mal-estar? Se a base instintiva do homem está aprisionada, para onde dirigir tanta potência, tanta energia natural represada? Talvez na tentativa de dar resposta (estímulos atenuantes ao menos) a essas indagações surjam indicativos das reais aproximações entre as concepções marxista e psicanalítica do ser, da história, do movimento da vida.

Parece sedutora a idéia segundo a qual a força de criação/inovação do homem pode sofrer desvios e desníveis favoráveis à continuidade da vida humana no planeta. As grandes artes, os belos projetos arquitetônicos, a surpreendente revolução tecnológica, a pujança de tantos valores culturais demonstram, numa ótica subjetiva, que o homem reinventa a si mesmo permanentemente, mesmo em circunstâncias adversas, repressoras. Tudo isso, contudo, não é razão, consciência. Ao contrário: trata-se de pura irracionalidade, agressividade deslocada, impedimento daquilo que dá sabor e tom à civilização, ou seja, a frustração que regra, condiciona, molda, assujeita. Em síntese, para Freud, no limite do humano, a irracionalidade é o ponto morto da história, o equilíbrio que impede a destruição, mútua e progressiva. Não há consciência. Há, mais tardar, intervalos frágeis de sensações, algumas desconfianças quanto à nossa animalidade aniquiladora; há, definitivamente, uma força autoprotetora impetrada pela própria natureza. Isso mantém o homem vivo.

A consciência, com seu caráter inconcluso e delicado, com sua eterna dependência do que existe antes do tempo presente e se faz longe de toda a percepção humana diante do real, é também, no marxismo, peça-chave para o entendimento de sua episteme. Não há precedência da consciência, não há autonomia do pensamento, não há comportamento que se possa atribuir exclusivamente ao agente da ação, ao enunciador da fala. Tudo que se pensa e se faz é determinado longínquamente, imemorialmente, em muitos casos. É como se fosse possível afirmar - e é! – que toda decisão tomada hoje já foi discutida três mil anos atrás. Alguma coisa se espraia sob os pés do homem em sociedade. Algo conduz a existência humana na civilização. E isso não é obra autônoma de sujeitos livres e conscientes.

Renato Janine Ribeiro (2008) afirma que ... vivemos dramas, sofremos, acusamos, defendemos; mas, abaixo disso, sem que tenhamos consciência, pulsa o inconsciente. Assim como em Freud há uma insistente condenação, por parte dos preceitos da civilização, de nossos desejos sexuais, em Marx, também como força repressora e dissimuladora, existe uma clara determinação do econômico, do poder conferido pela posse do capital, sobre todas as outras instâncias da vida social. Cultura, política, idéias, tudo estaria, de um modo ou de outro, condenado a pedir licença ao poder econômico, sob pena de não poder existir ou, pior, existir sem ser visto, desqualificadoramente. Economia e sexualidade, um em cada ponta, aproximam e, de modo sempre dialético, separam marxismo e psicanálise. A consciência, nesses temos, é precedida, na psicanálise, pelo inconsciente; no marxismo, pelas várias formas de dominação e distorção ideológicas.

Está em Antonio Gramsci (1891 – 1937), um dos mais importantes pensadores marxistas do século XX, uma conclusiva nota do papel do “velho” (o inconsciente ou a ideologia) sobre o “novo” (a tentativa permanente de a consciência se emancipar). Nas palavras de Erasmo Miessa Ruiz (1998), interpretando reflexões gramscianas, pode-se verificar...

Ao nascermos somos expostos a uma série de circunstâncias. Adquirimos uma linguagem que é fruto de milênios de evolução, aprendemos comportamentos decorrentes do processo de construção histórico. O gesto de empunhar um lápis, amarrar um sapato ou ir a um culto religioso esconde uma grande complexidade. Para que cada gesto humano pudesse ser consolidado como prática social, foi necessário o sacrifício de gerações inteiras, a contribuição diuturna de milhões de homens “invisíveis” num processo educacional vasto e inconsciente para a maioria dos indivíduos. Por não serem de forma alguma naturais, no sentido biológico, os comportamentos necessários à sobrevivência do homem em sociedade têm de ser reproduzidos-aperfeiçoados-criados cotidianamente pela vida social com base num legado que vai dos homens das cavernas, passa pelas batalhas de Júlio César e atinge a mídia digitalizada. Um legado vivo em cada instrumento de trabalho, em cada signo, em cada obra de arte ou mesmo num “singelo” aperto de mão. Nascemos velhos: os gestos das gerações que nos precederam estão colocados tanto no modo como um bebê é cuidado pelos pais quanto em todos os suportes sociais que dão sustentação ao ato de cuidar. É nesse sentido que o homem não escolhe as relações sociais das quais participa, embora as construa/reconstrua cotidianamente. É nesse processo de construção/reconstrução que os homens estabelecem as possibilidades do exercício de maior ou menor liberdade na medida em que tomam consciência dos reais determinantes das necessidades históricas que lhes são impostas (p. 09).

Antonio Gramsci, autor dos decisivos “Cadernos do Cárcere” e de centenas de escritos jornalísticos militantes na Itália do anos 1910, 1920 e 1930, nessa bela passagem de Ruiz, aparece, tal qual Freud, como um sujeito que se fez num ambiente de guerras e veemente ascensão do nazifascismo. Diferentemente do autor de “Totem e tabu”, entretanto, tomou partido pelas massas e combateu contradições às vezes pequeno-burguesas que limitavam o pensamento social naquele período da história européia. Freud, que relatou tudo que viu com genialidade e espírito combativo contra o horror totalitário, esqueceu-se, no entanto, da história, do devido crédito das contradições que se constituem na própria vida coletiva, e ofertou destaque à dimensão intrapsíquica do homem, condecorando o tempo com o congelamento e a história com a inércia. A ojeriza que o psicanalista tcheco nutria pelas massas era inversamente proporcional à esperança que ele depositava nas “mentes brilhantes”, nos homens de insight de seu tempo, sofisticados e inteligentes, portadores de um futuro em que a irracionalidade inevitável venceria enfim a agressividade instintiva das massas, deseducadas e nada afeitas a lançar mão de seus desejos em nome do bem-estar coletivo. Freud afirmava, portanto, segundo Mezan (1990), que a sobrevivência da humanidade estaria no sacrifício generoso dessas pessoas especiais, dispostas a conduzir a turba pelos caminhos do desapego e do despojo em relação à sua animalidade vulcânica. Resumo da ópera: a besta-fera que reside em todos só poderia ser vencida pela besta-fera daqueles que se distanciam das massas para ensinar-lhes o caminho do jejum em relação às suas pulsões.

O divórcio entre objetividade e subjetividade, história e ação humana, passado e presente, torna a psicanálise, sob a ótica do pensamento marxista de Gramsci (que, frise-se, admirava profundamente as esteiras da psicanálise), um instrumento de absolutização de um inconsciente atemporal, supra-real. Ao contrário, para Gramsci, o inconsciente é também – e sobretudo! - histórico, fabricado no tempo, com nítidas colorações econômicas, políticas, de classe, enfim. A absolutização da psique, da vida subjetiva, nubla o olhar da psicanálise para as contradições sociais engendradas na luta política, no movimento das coletividades na busca por recriar o mundo, mudar a história.

Condenados ao trabalho e à disciplina em nome da ordem, os indivíduos pertencentes às massas são vistos por utopias diferentes no marxismo e na psicanálise. Enquanto na utopia freudiana a entrega às paixões era o maior obstáculo das coletividades no enfrentamento do mal-estar civilizacional, as coletividades na tradição marxista deveriam dar vazão às suas paixões... revolucionárias. A única forma de conter a artificialidade da civilização era promover a paixão inquieta, elevar ao grau máximo o desejo ético por dar ao homem o controle de seu próprio destino, retirando-o da ontogênese fatalista da subjetividade inapta e conduzindo-o a uma filogênese de esperanças, alternativas. Numa palavra, a coletividade em Freud destrói a utopia dos iluminados; a utopia marxista destrói a civilização burguesa e, com ela, a idéia de que existam sujeitos iluminados. Entram em cena, enfim, personagens capazes de humanizar a si mesmos e as relações que empreendem na dialética do real, entre a objetividade que se impõe e a subjetividade que não se rende, posto que necessita recriar o universo social das relações humanas, descoisificando o sujeito e abrindo horizontes para a história, esta sempre viva.

Paradoxalmente, levando-se em conta a incômoda atemporalidade do inconsciente e certa naturalização da vida burguesa presentes na cosmogonia da piscanálise, Freud via no capitalismo razões pelas quais tanta frustração e tanta revolta pudessem de fato perfazer a vida dos trabalhadores. Escreve, em “O futuro de uma ilusão”...

Se nos voltarmos para as restrições que só se aplicam a certas classes da sociedade, encontramos um estado de coisas que é flagrante e que sempre foi conhecido. É de esperar que essas classes subprivilegiadas invejem os privilégios dos favorecidos e façam tudo que podem para se liberarem de seu próprio excesso de privação. Onde isso não for possível, uma permanente parcela de descontentamento persistirá dentro da cultura interessada, o que pode conduzir a perigosas revoltas. Se, porém, uma cultura não foi além do ponto em que a satisfação de uma parte de seus participantes depende da opressão da outra parte, parte esta talvez maior – e este é o caso em todas as culturas atuais -, é compreensível que as pessoas assim oprimidas desenvolvam uma intensa hostilidade para com uma cultura cuja existência elas tornam possível pelo seu trabalho, mas de cuja riqueza não possuem mais do que uma cota mínima [...] Não é preciso dizer que uma civilização que deixa insatisfeito um número tão grande de seus participantes e os impulsiona à revolta não tem nem merece a perspectiva de uma existência duradoura (p.23).

A privação do prazer, nesse caso, justifica todas as medidas, até mesmo as liberadas por uma paixão de inquietude revolucionária. Contra a bárbárie iminente e uma vida que impede o prazer e a realização plena do ser, a dignidade em si, o autor de “A interpretação dos sonhos” torna-se atraente ao pensamento marxista, convidativo.

Nesse sentido, o marxismo e a psicanálise convergem na crença de que idealismos puros, sem pautas no mundo dos homens, devam ser superados por detida análise das condições materiais da vida social; irmanam-se na constatação do conflito (ainda que na psicanálise, como já frisado, exista certa crença de beatificação desse fenômeno, que é político, na visão marxista). Em Freud, portanto, a dialética dos jogos pulsionais move o mundo; em Marx, a luta de classes colore a história e permite, inclusive, o desabrochar dos embates entre pulsões humanas, aprisionadas por inconcientes e ideologias de toda a sorte. Reconhecido o inconsciente (fator que libera parte da consciência) e travada a luta pela superação do capital (elemento dissolvente das ideologias de naturalização das desigualdades sociais), os pontos de convergência entre o pensamento de Freud e da tradição das idéias socialistas se tornam mais nítidos, saltitantes: 1) há opressões de toda a ordem que impedem a liberdade, seja na repressão à sexualidade, seja na distribuição predatória da riqueza socialmente produzida; 2) a moral social é um artifício de exploração, um estopim de levantes, uma crueldade contra as maiorias numéricas e as minorias sociológicas; 3) a civilização represa potencialidades criativas, sufoca individualidades e potencializa a violência e o terror contra as classes subalternizadas; 4) na psicanálise e no marxismo (sobretudo no marxismo de Antonio Gramsci), a civilização são normas e sanções que dificultam a vida humana, o pleno desabrochar daquilo que deveria ser o melhor para as vidas humanas...

Em termos muito concretos, é possível constatar que, nas aproximações entre a psicanálise e a história das idéias marxistas, a CULTURA, entendida como artifício instrumental da civilização, opõe-se à animalidade. Em Freud, contudo, isso é necessário para conter ânimos destrutivos. Em Marx, de outro modo, a CULTURA pode servir aos interesses da coletividade, desde que essa coletividade seja capaz de provocar em sua constituição um sentido mais universal, além das divisões de classe e de atividades típicas do individulismo burguês, das chamadas sociedades de livre mercado. Nesses termos, no marxismo, a CULTURA e a história são parceiras na determinação do homem e de suas andanças, para o bem ou para o mal, a depender do nível e da qualidade de sua organização coletiva, seu nível de consciência acerca dos inconscientes e das ideologias que o bloqueiam. Já na psicanálise a agressividade e a animalidade compõem a natureza humana e determinam toda a ação no processo civilizatório, que pode culminar em sua fortaleza ou em sua virtual destruição. Que nesse caso, no caso da civilização capitalista (que o saudoso, lúcido e embriagado Hélio Pellegrino denominou “mundo sem amor”), as paixões sejam destrutivas, inquietas, pulsantes. É isso.

Referências Bibliográficas:

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
FREUD, Sugmund. Mal-estar na civilização/O futuro de uma ilusão. Rio de Janiero: Imago, 2007.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. V.01. 1999 (Organização de Carlos Nelson Coutinho e Luis Sérgio Henriques).
KONDER, Leandro. O futuro da filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2006.
MEZAN, Renato. Freud, pensador da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1990.
RIBEIRO, Renato Janine. Desafios para a ética. Disponível em:
http://www.renatojanine.pro.br/ Acessado em: 02.10.2008.
RUIZ, Erasmo Miessa. Freud no “divã” do cárcere: Gramsci analisa a psicanálise. Campinas, SP: Autores Associados, 1998.
SAFATLE, Vladimir. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.

Impertinências de Hera

Passagens secretas
corações desconfortáveis

Histórias vazias
sonhos incômodos

Pessoas estranhas
vidas insólitas

Textos frágeis
idéias trêmulas

Amores sórdidos
poesias falsas

Promessas sujas
trabalhos infinitos

Crenças estúpidas
almas desencantadas

Júbilos artificiais
projetos incompletos

Insistência voraz
mentiras quase sinceras

Dias velhos
olhares cansados
pontes quebradas
chegadas improváveis

Calafrios pós-modernos
fragmentos do ser, do não-ser
do que ainda deseja tornar-se

Hora do banho frio
aquietar ânimos

Dormir
longa noite
eternos pesadelos

10 outubro 2008

A celebração da diversidade

Publiquei no último domingo, 05.10, dia das eleições municipais em todo o Brasil, o artigo abaixo, na Folha de Londrina. A idéia era celebrar a festa da democracia, promovendo a crença na insistência da luta e da organização política na conquista de dias melhores, anos melhores. (De quebra fiz minha tão sonhada - e sempre adiada! - homenagem a mestre Didi, herói de 1958, arquétipo da serenidade, da liderança.) Imagino que o único meio para vitórias duradouras seja a batalha das idéias, a persuasão, o convencimento por projetos. Parece-me, na esteira da tradição clássica que me alimenta, que essas são as portas mais convidativas e semi-abertas para o socialismo. Que assim seja!

No final da Copa do Mundo de 1958, disputada em terras estrangeiras, a seleção brasileira conquistava o primeiro de seus cinco títulos na maior de suas artes esportivas, o futebol.

Logo depois de o time canarinho levar o primeiro gol dos suecos, sob efusivos aplausos da rainha e da nobreza escandinava, Didi, o mestre, capturou a bola no fundo do gol e, à medida que caminhava para o centro do campo, tranqüilamente, reuniu seus pares e lhes disse que ganhariam se permanecessem unidos, perderiam se abrissem mão de seus sonhos, de seus objetivos naquele país frio e distante. Bom, o resultado disso todo o mundo conhece: o Brasil fez vários gols e venceu a partida por 5 a 2, libertando-se dos fantasmas do futebol que o assombravam desde 1950, quando perdeu a final para o Uruguai, num Maracanã com mais de duzentos mil torcedores.

A democracia e o processo eleitoral têm muito do exemplo dedicado de mestre Didi, das palavras que dirigiu aos companheiros de time. Para existir de fato, a festa da democracia requer união, parcerias, lágrimas e suor. A participação política deve aproximar eleitores e candidatos, expor idéias, desnudar projetos e visões de mundo. Mais que votar, o cidadão precisa surgir no mundo público, emitindo seus juízos, pronunciando seus desejos, pautando seus representantes e instituições, afirmando compromissos sobre os destinos de sua comunidade.

Hoje, domingo de eleições municipais em todo o país, cada cidadão é um mundo, e a reunião desses mundos deve compor o universo democrático da cidadania, do exercício dos direitos sociais, políticos, culturais e econômicos de todos os nossos dias, de toda a nossa história. A eleição deve reiterar, reformar, revolucionar o pacto coletivo em que se expressam a realização de nossos deveres e a necessidade de novas conquistas. Afinal, no melhor da tradição clássica, somos todos políticos, uma vez que são políticas todas as palavras que lançamos no espaço público, na cidade, berço do mundo comum. Numa palavra: tudo é política porque ao agirmos criamos um mundo à nossa imagem e semelhança, pelo qual seremos lembrados e permanentemente cobrados, hoje e sempre.

Para a festa da democracia, que se amplia na consolidação das lutas dos trabalhadores desde o início da modernidade, no curso dos últimos três séculos, todos devem se sentir convidados: votar, discutir, expressar valores, exigir postura ética e respeito pela cidade, pela vida humana. Cobrar decência, transparência, compromisso público, de nós mesmos e de todos aqueles que partilham a mesma realidade.

Na democracia, essa celebração tão jovem e vital para a liberdade e a igualdade entre indivíduos e grupos sociais, graças à qual percebemos nossos sonhos e projetamos nossas vidas por meio de atividades cotidianas em casa e na rua, o exemplo deve ser o de insistir sempre, ainda que fracassos e decepções indiquem o caminho da apatia e da resignação. É do amadurecimento no convívio, entre identidades tão diversas e, por isso mesmo, tão complementares e mutuamente enriquecedoras, que nasce, floresce e se consolida o espírito democrático. Exigente, a democracia tem, sim, seus caprichos, suas sinuosidades. Mas só por meio dela podemos alcançar um mundo que não nos seja alheio, imposto, bruto e sempre tão desigual. Hoje, portanto, é dia de brindarmos o futuro, a esperança, a tomada da história, em mais um belo capítulo da vida brasileira, em nossas próprias mãos. É isso.